<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-25961370</id><updated>2011-12-15T00:46:23.316-02:00</updated><category term='http://asgardh.blogspot.com/'/><category term='By Athena in Asgarh'/><category term='by Asgardh'/><category term='http://asgardh.blogspot.com'/><title type='text'>BIBLIOTECA ON LINE</title><subtitle type='html'></subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://cronicasdeasgardh.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/25961370/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://cronicasdeasgardh.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>Motoko Aramaki</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='33' height='12' src='http://photos1.blogger.com/blogger/5784/479/400/imagemlogo2.jpg'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>73</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-25961370.post-5741394189834755400</id><published>2010-12-03T19:11:00.000-02:00</published><updated>2010-12-03T19:11:38.666-02:00</updated><title type='text'>Objetivo da filosofia de Nietzsche in Hell</title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_uFOPZxZ5oTg/TPlcWDVWooI/AAAAAAAABEU/EaF9sObjr6M/s1600/Munch_Nietzsche_1906.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="400" src="http://3.bp.blogspot.com/_uFOPZxZ5oTg/TPlcWDVWooI/AAAAAAAABEU/EaF9sObjr6M/s400/Munch_Nietzsche_1906.jpg" width="327" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&amp;nbsp;Munch_Nietzsche_1906.jpg&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Introdução&lt;br /&gt;Objetivo da filosofia de Nietzsche: realizar um diagnóstico fiel da situação do homem moderno. &lt;br /&gt;Homem moderno: confiante no deus Logos (= razão) e nos seus produtos: ciência e técnica; relativiza valores como justiça, bem, mal, virtude. &lt;br /&gt;A partir deste perfil do homem moderno Nietzsche propõe: &lt;br /&gt;compreender como este otimismo na razão, no progresso do conhecimento, à relativização dos valores. &lt;br /&gt;Criticar o otimismo da razão demonstrando os seus limites e denunciar as formas que o homem usa para fugir da visão dos perigos de sua condição. &lt;br /&gt;A partir da constatação da relativização dos valores propor outros valores &lt;br /&gt;Nietzsche propõe o fim da metafísica: a metafísica divide o mundo em dois: Platão (mundo sensível/mundo inteligível), Kant (o que é em si = noumenon; o que é para a razão humana = fenômeno); cristianismo (mundo terreno / mundo celeste)... Nesse dualismo o mundo sensível, o fenômeno, o mundo terreno são mais degradados, menos importantes, são os mundos da aparência. Nietzsche rejeita este dualismo. É impossível um conhecimento que deixe de lado nossos afetos, o sensível. Todo conhecimento é resultado da projeção de nossos impulsos e anseios e por isso é determinado por uma perspectiva individual e sociocultural. Então questiona o valor absoluto da verdade tanto no campo da ciência como no campo da moral. No campo da moral vai colocar em questão o valor dos valores, vai julgar o valor dos valores como o bem, o mal, o justo, o injusto, o lícito e o proibido, etc.. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A filosofia de Nietzsche tem três fases: 1870 a 1876 / 1876 a 1882 e 1882 a 1889 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1ª Fase da filosofia de Nietzsche: 1870 e 1876&lt;br /&gt;- Obras deste período: "Nascimento da Tragédia a partir do espírito da música’ (1872), "Schopenhauer como Educador’ (1874), "Sobre o futuro de nossas instituições de Ensino" (1872)&lt;br /&gt;Questão central desta fase: destino da arte e da cultura no mundo moderno. Nesta fase é muito influenciado pelo filósofo Schopenhauer &lt;br /&gt;Voltando o seu olhar para a Grécia antiga, antes do filósofo Sócrates, propõe uma outra experiência contrária ao cientificismo otimista dos tempos modernos. &lt;br /&gt;A arte, especialmente a música, seria a forma de restaurar a experiência trágica da vida vivida pelos gregos antigos que não dividia o mundo em dois e por isso não desvalorizava a vida. A vida era vivida no seu todo: com as afeições, instintos, o sensível, a morte, o sofrimento, as alegrias e prazeres. &lt;br /&gt;Transformaram em beleza, em arte (teatro, música, arte política) os horrores da existência a partir de dois princípios: princípio apolíneo (ligado ao Deus Apolo) e princípio dionisíaco (ligado ao Deus Dionisio) &lt;br /&gt;Apolo&lt;br /&gt;é o Deus das artes figurativas. O impulso apolíneo expressa a ordem, o equilíbrio, a justa medida. &lt;br /&gt;Dionisio&lt;br /&gt;é o Deus da música. O impulso dionisíaco expressa a transgressão de todo limite, a destruição de toda figura. &lt;br /&gt;Porém esta vivência da tragédia começa a desaparecer com o surgimento da filosofia de Sócrates (bastante criticado por Nietzsche): inicia-se um processo de valorização da razão com os seus produtos como a ciência e a técnica pretendendo fugir do lado trágico da existência. Não se suporta o que é incompreensível pela razão: o absurdo da existência. &lt;br /&gt;No entanto esta visão não trágica da vida entra em crise principalmente com o filósofo Kant que demonstra que Deus, liberdade e imortalidade da alma não podem ser explicados pela razão científica ou teórica. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nietzsche acredita nesta fase que a união da música de Richard Wagner com a filosofia de Schopenhauer possibilitaria o renascimento da cultura trágica alemã. &lt;br /&gt;De forma geral para Nietzsche a cultura e a arte seriam a redenção da natureza e da vida. Ajudariam a diminuir a violência e agressividade humanas destrutivas. Significam a organização do caos, a sublimação das forças agressivas (destrutivas) do homem. (atenção: o termo sublinhado lembra Freud). Transforma monstros selvagens em animais domésticos. &lt;br /&gt;Nietzsche não acredita que uma organização social por mais perfeita que fosse fizesse desaparecer a violência na sociedade. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;2ª fase da filosofia de Nietzsche: 1876 a 1882&lt;br /&gt;Obras desta fase: "Humano demasiado humano" (1878), "Aurora: pensamentos sobre os preconceitos morais" (1881), "A Gaia Ciência" (1882) &lt;br /&gt;Nesta fase valoriza a ciência: &lt;br /&gt;"O homem científico é o desenvolvimento do homem artístico". (Humano, Demasiado Humano, I, aforismo 222; em KSA. Vol. 2; p. 185 s.)&lt;br /&gt;Nietzsche vê agora a ciência como elemento importante para se chegar ao essencial da vida. Abranda a oposição entre ciência e arte (cultura). O conhecimento científico torna o homem livre. &lt;br /&gt;"A felicidade do homem do conhecimento aumenta a beleza do mundo e torna mais ensolarado tudo o que é; o conhecimento espalha sua beleza não apenas em torno das coisas, como também, com o tempo, dentro das próprias coisas" (Aurora, V, aforismo 550; em: KSA. Vol. 3; p. 320 s.)&lt;br /&gt;Estuda muito nesta fase as ciências naturais e a biologia. Porém no livro "Gaia Ciência" (gaia = alegre) já aponta para uma ciência que deve ser "alegre", ou seja, não dogmática, sem rancores, que se esforça por multiplicar as perspectivas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Método genealógico: é o método científico que usa para descobrir a origem dos valores morais. Genealógico porque pretende reconstituir historicamente os momentos do vir a ser dos valores. &lt;br /&gt;A explicação genealógica revela que não existem contrários, desaparece as antíteses entre pólos opostos, a idéia de entidades estáveis: o bom se transforma em mal, o belo em feio e vice versa. O mundo está em constante transformação, é um vir-a-ser (ou devir) &lt;br /&gt;"Não existe um agir não egoísta, nem uma contemplação desinteressada; ambas são sublimações, nas quais o elemento fundamental, quase volatizado, demonstra-se como existente apenas para a mais refinada observação" (Humano, Demasiado Humano, I, 1; em KSA. Vol. 2; p. 21 s.)" (Observação: o termo sublimação lembra a psicanálise freudiana)&lt;br /&gt;"Quem contempla aqueles temíveis despenhadeiros escarpados onde geleiras se acumulam considera impossível que venha um tempo em que, no mesmo sítio, se instale um vale de relvado e floresta, com regatos. Assim também na história da humanidade: as forças mais selvagens abrem caminho, e, embora destrutivas, de início a atividade dela foi necessária para que mais tarde, um modo de vida mais suave aí ingresse sua morada. As energias terríveis – aquilo que se chama o Mal – são os ciclópicos arquitetos e construtores de caminho da humanidade" (Idem, 246; em: KSA. Vol. 2; p. 205)&lt;br /&gt;3ª fase da filosofia de Nietzsche: 1882 a 1889&lt;br /&gt;Obras desta fase: "Para além do Bem e Mal" (1886), "Para a genealogia da Moral" (1887) &lt;br /&gt;Outra obra muito conhecida desta fase é "Assim falou Zaratustra: um livro para todos e para ninguém" (1883 e 1885) que traz as preocupações fundamentais de Nietzsche como a desconstrução da metafísica, denúncia da hipocrisia moral, a importância da educação, a política e o destino da cultura, a crítica do Estado. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Neste livro Nietzsche implode o dualismo metafísico que separa corpo e alma, matéria e espírito: &lt;br /&gt;"O corpo é uma grande razão, uma pluralidade dotado de um sentido, uma guerra e uma paz, um rebanho e um pastor. Instrumento de teu corpo é também tua pequena razão, meu irmão, a que chamas ‘espírito’, um pequeno instrumento e um pequeno joguete de tua grande razão. Instrumentos e joguetes são o sentido e o espírito; por detrás deles está, porém, o si mesmo. Por detrás de teus pensamentos e sentimentos, meu irmão, encontra-se um soberano poderoso, um sábio desconhecido – ele se chama si mesmo. Em teu corpo habita ele, ele é o teu corpo" (Assim Falou Zaratustra, I. "Dos desprezadores do Corpo"; em KSA. Vol. 4; p. 39 s.)&lt;br /&gt;Neste livro refere-se ao homem moderno como o "último homem" que se define como o homem que crê na onipotência do seu saber e agir, pela sua mediocridade, pela sua busca de conforto e bem estar fugindo sempre da vivência trágica da vida. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;" ‘ Nós inventamos a felicidade’ – dizem os últimos homens, e piscam os olhos. Nenhum pastor e um só rebanho. Todos querem o mesmo, todos são iguais.; Quem sente de outra maneira vai voluntariamente para o hospício..." (Assim falou Zaratustra. Prólogo; em KSA. Vol. 4, p. 19 s.)&lt;br /&gt;O além-do-homem (Observação: não se deve traduzir por "super-homem") é um conceito antagônico à figura do "último homem", é um contraideal da tendência ao nivelamento e à uniformização que caracteriza a sociedade moderna. O homem não é um fim mas um meio para se chegar ao além-do-homem. "A grandeza do homem está em ser ele uma ponte, e não um fim: o que se pode amar no homem é que ele é uma passagem e um crepúsculo." (Idem, p. 14 16) &lt;br /&gt;Para se chegar ao "além-do-homem" precisa-se de vontade de poder. (veja na apostila o seu significado) &lt;br /&gt;Eterno retorno:&lt;br /&gt;outro conceito presente no livro "Assim falou Zaratustra...". (veja na apostila o seu significado). &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Somente quando o sofrimento não for mais vivido como uma objeção contra a vida e um motivo para condená-la é que o homem poderá superar seu desejo de uma além metafísico e seu rancor contra a passagem do tempo" (Oswaldo Giacoia Junior, Nietzsche, Ed. Publifolha, pág. 60) "O homem deve agir como se a mais íntima de suas ações devesse se repetir eternamente, de maneira a dar à sua própria existência a bela forma da obra de arte.’ (op. Cit., ibidem)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na obra "Genealogia da Moral...": conceito de niilismo. Por meio dele o homem moderno vivencia a perda de sentido dos valores superiores de nossa cultura. Sintomas deste fato: a arte instrumentalizada apenas para entretenimento; na política e educação como homem adaptado aos meios de produção. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="center"&gt;Afrodite Bach para Forumexistenci.&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;in&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;http://br.groups.yahoo.com/group/Forumexistencialista/&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/25961370-5741394189834755400?l=cronicasdeasgardh.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://cronicasdeasgardh.blogspot.com/feeds/5741394189834755400/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=25961370&amp;postID=5741394189834755400&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/25961370/posts/default/5741394189834755400'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/25961370/posts/default/5741394189834755400'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://cronicasdeasgardh.blogspot.com/2010/12/objetivo-da-filosofia-de-nietzsche-in.html' title='Objetivo da filosofia de Nietzsche in Hell'/><author><name>Motoko Aramaki</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='33' height='12' src='http://photos1.blogger.com/blogger/5784/479/400/imagemlogo2.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_uFOPZxZ5oTg/TPlcWDVWooI/AAAAAAAABEU/EaF9sObjr6M/s72-c/Munch_Nietzsche_1906.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-25961370.post-1870530698677067918</id><published>2009-12-25T12:54:00.003-02:00</published><updated>2009-12-25T12:59:35.749-02:00</updated><title type='text'>JOHN LOCKE E O LIBERALISMO</title><content type='html'>&lt;a href="http://asgardh.blogspot.com/"&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://3.bp.blogspot.com/_uFOPZxZ5oTg/SzTS81ERiBI/AAAAAAAAAnc/FrdXuLfYznA/s1600-h/John_Locke.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 299px; height: 400px;" src="http://3.bp.blogspot.com/_uFOPZxZ5oTg/SzTS81ERiBI/AAAAAAAAAnc/FrdXuLfYznA/s400/John_Locke.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5419188194112538642" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1. Introdução&lt;br /&gt;John Locke (1632-1704) é considerado o pai do liberalismo político e cria as bases filosóficas para o liberalismo econômico fundado por Adam Smith. Segundo este o governo não deve interferir na esfera privada da sociedade inclusive na esfera do mercado. Locke influenciou com a sua filosofia na Revolução Gloriosa Inglesa e na revolução norte-americana que proclamou a Independência dos Estados Unidos. A constituição dos USA tem influência de suas idéias. Influenciou também filósofos iluministas franceses principalmente Voltaire e Montesquieu. Mas influenciou também Rousseau apesar das grandes diferenças entre eles.&lt;br /&gt;2. Idéias principais&lt;br /&gt;As idéias principais de sua filosofia podem ser encontradas nos livros: "Cartas sobre a tolerância", "Ensaio sobre o entendimento humano" e os "Dois tratados sobre o Governo Civil".&lt;br /&gt;2.1 O Homem no Estado de Natureza&lt;br /&gt;- Estado de Natureza: situação em que vivia o homem antes de qualquer organização social.&lt;br /&gt;- opõe-se ao filósofo Aristóteles (381-322 a. c.) que afirma que a sociedade vem antes do indivíduo. Para Locke a existência do indivíduo é anterior à sociedade e ao Estado.&lt;br /&gt;- no Estado de Natureza os homens eram livres, iguais e independentes. Já eram dotados de razão e desfrutavam da propriedade que designava simultaneamente a vida, a liberdade e os bens como direitos naturais do ser humano.&lt;br /&gt;- A razão já existe neste estado natural orientando o homem: ela diz por exemplo: cada um é livre para dispor do seu corpo mas ninguém deve abusar dessa liberdade para prejudicar os demais ou seja, O MEU DIREITO TERMINA ONDE COMEÇA O DIREITO DO OUTRO. A razão também diz que não tem sentido atentar contra a liberdade dos outros pois no estado de natureza a terra e os seus frutos são abundantes e suficientes para todos.&lt;br /&gt;- Os homens poderiam viver harmoniosamente neste estado se não houvessem os criminosos, os transgressores, aqueles que não seguem o que determina a razão e são a causa do estado de guerra entre os homens.&lt;br /&gt;- Neste estado de guerra todos os que seguem a razão tem o direito de castigar o criminoso inclusive com a pena de morte. Nesta situação a paz não pode ser alcançada por um acordo mas somente pela rendição do criminoso e pela reparação dos danos causados. A guerra só termina quando o último dos criminosos for castigado.&lt;br /&gt;- Mas na prática isto perpetua o estado de guerra pois não há garantia de que o criminoso não ressurja, o castigo não impede a reincidência do criminoso. Além disso, em um estado em que todos são juízes e executores da lei em causa própria, como evitar o julgamento parcial, as sentenças e os castigos excessivos?&lt;br /&gt;- Há o perigo também da miséria e da fome, sempre presentes. É a falta de alimentos em certo estágio do estado de natureza que leva o homem a mudar seu procedimento mais solidário levando-o a ser individualista e preocupado com a acumulação. Isto propicia as trocas, a propriedade privada e o aparecimento do dinheiro. Mas também leva às disputas e às lutas gerando estado de guerra entre os homens.&lt;br /&gt;- Devido a todos esses inconvenientes os homens se unem e estabelecem livremente entre si o contrato social que realiza a passagem do estado de natureza para a sociedade política ou civil, único estado onde o homem pode ser efetivamente livre podendo preservar a si mesmo e à sua propriedade.&lt;br /&gt;2.2 O Contrato Social&lt;br /&gt;- É um pacto de consentimento em que os homens concordam livremente em fundar a sociedade civil para preservarem e consolidarem ainda mais os direitos que possuem no estado de natureza. Através deste pacto os indivíduos aceitam limitar sua liberdade, seu poder de fazer justiça com as próprias mãos, em troca da preservação da sua propriedade.&lt;br /&gt;- Estabelecido o estado civil o passo seguinte é a escolha pela comunidade de uma determinada forma de governo.&lt;br /&gt;- Qual? Para Locke pode ser de um só indivíduo ou de vários, mas o que importa é a sua finalidade: a de concentrar para si todo o direito de julgar e de castigar os criminosos de modo a assegurar para toda a comunidade e para cada um de seus membros a segurança, o conforto e paz. Tem a finalidade de conservar a propriedade, a vida, bens, liberdade.&lt;br /&gt;- O poder político é uma espécie de depósito confiado por proprietários a outros proprietários. Por isso ele nunca é ilimitado.&lt;br /&gt;- No pacto social deve prevalecer a vontade da maioria. (Para Locke a vontade da maioria é algo essencial para a democracia e para a garantia do interesse público)&lt;br /&gt;- Para evitar o absolutismo no poder propõe a sua divisão em três partes: Poder legislativo, poder executivo e poder federativo (= encarregado das relações exteriores como guerra, paz, alianças e tratados)&lt;br /&gt;- Cabe à maioria escolher o poder legislativo que é superior tanto ao poder executivo como ao federativo. O poder do governante (que exerce o poder executivo) é limitado. (observação: com isto Locke se coloca na sua época contra o poder absoluto dos reis)&lt;br /&gt;- Se o poder político origina-se de um consentimento, este ao contrário da renúncia não confere poderes ilimitados a ninguém. Exige-se sempre uma concordância entre o que foi estabelecido e o que, efetivamente, é feito. A liberdade que existia no estado de Natureza continua com uma diferença: no estado de natureza as limitações individuais eram trazidas pela razão ("o meu direito termina onde começa o do outro"), no estado civil são instituídas pela lei. - Se o governo deixa de cumprir o fim ao qual foi destinado tornando-se ilegal e tirano há o DIREITO DE REBELIÃO E RESISTÊNCIA. Nesta situação instaurando-se um estado de guerra entra-se no estado natural e de acordo com as características desse estado, onde não existe um árbitro comum, os homens tem o direito de resistir e de lutar contra o poder tirano usando a força. (Observação: esta rebelião está prevista na Constituição dos Estados Unidos). O direito do povo à resistência é legítimo tanto para defender-se da opressão de um governo tirânico como para libertar-se do domínio de uma nação estrangeira.&lt;br /&gt;- Mas diferentemente de Rousseau, Locke não propõe a participação política constante mesmo quando advoga o direito de voto. Para ele, essa participação só tem sentido em momentos de crise quando os direitos naturais estão ameaçados. Além disto se são os cidadãos aqueles que promovem o pacto social nem todos são considerados cidadãos como as mulheres e os escravos.&lt;br /&gt;- É o Parlamento (poder legislativo) que resolve e legisla sobre as questões de caráter público. Ele é a expressão da DEMOCRACIA REPRESENTATIVA. Aos cidadãos compete cuidar de suas próprias vidas.&lt;br /&gt;- Locke enfatiza a necessidade de leis que impeçam privilégios pessoais e garantam a propriedade como um direito natural. "O discurso de Locke sobre a autoridade paterna serve para dizer o que o Estado não pode ser: patriarcal." Esse tipo de governo, próprio das monarquias, "impede que os governados cresçam: como filhos, considera-os sempre imaturos, incapazes de exercer sua própria liberdade e autonomia. Pior ainda, os governados não só aceitam esse estado de coisas, como se habituam e ficam sempre esperando ordens pela vida afora. No Estado político, a autoridade daquele que governa só é legítima se obtiver o consentimento dos governados, diferindo assim da autoridade do pai e do déspota, cujos poderes não resultam de um pacto." (Do Livro: "Cidadania, uma questão para a educação, Nilda Teves Ferreira, Ed. Nova Fronteira, 1993)&lt;br /&gt;Segundo Locke: "Que pacto pode fazer um homem que não é senhor de sua vida?" (Observação: Mas nós diríamos, criticando-o, que para ser senhor de sua vida, o indivíduo precisa de condições objetivas para viver e não apenas de condições formais, como por exemplo, a igualdade perante a lei. Esta formalidade, este idealismo, é próprio do liberalismo ortodoxo desde John Locke. "Desaparecem as contradições reais, e os conflitos são considerados passíveis de ser eliminados pelo progresso ou pela luta jurídica", não há a consideração da luta de classes. "A crítica de Marx à concepção liberal de Estado se prende ao fato de que as lutas que se travam ano interior deste - seja em relação às formas de governo, seja em torno dos direitos políticos - ocultam interesses antagônicos das diferentes classes sociais" (op. cit. pág. 94, 95)&lt;br /&gt;- Locke retira a religião do âmbito do Estado. O Estado não pode interferir em questões religiosas nem a religião em questões próprias do Estado. A concepção política é extremamente secularizada. Diz ele: "Toda a jurisdição do magistrado diz respeito somente a esses bens civis (Observação do prof. Laerte: esses bens são a vida, a liberdade, a saúde física, dinheiro, etc...) ... e que não deve e não pode ser de modo algum estendido à salvação das almas...." (Carta acerca da Tolerância, Coleção "Os Pensadores", Editora Abril, pág. 5, ano 1978). Ao mesmo tempo prega a tolerância religiosa em uma época marcada pela intolerância. Segundo ele: "A tolerância para os defensores de opiniões opostas acerca de temas religiosos está tão de acordo com o Evangelho e com a razão que parece monstruosos que os homens sejam cegos diante de uma luz tão clara". (op. cit. pág. 4) "... "Apelo à consciência dos que perseguem, atormentam, destroem e matam outros homens em nome da religião, se o fazem por amizade e bondade. E, então, certamente, e unicamente então, acreditarei que o fazem, quando vir tais fanáticos castigarem de modo semelhante seus amigos e familiares, que claramente pecaram contra preceitos do Evangelho..." (op. cit. pág. 3)&lt;br /&gt;- em relação às guerras Locke admite a chamada guerra justa mas afirma que o governo de um país que conquista outro em uma guerra justa tem direito sobre a vida dos que lutaram contra ele mas não sobre as propriedades deles e muito menos daqueles que não lutaram contra ele. Além disso segundo Locke: "... o conquistador não tem direito a domínio sobre os que a ele se juntaram na guerra e sobre os que a ele não se opuseram no país dominado, bem como sobe a posteridade dos que assim o fizeram, mesmo em uma guerra justa; todos estão livres de qualquer sujeição a ele, e, se o governo primitivo for dissolvido, ficam em liberdade para dar início a um novo, instituindo-o de per si." ("Segundo Tratado sobre o Governo", pág. 108, Coleção "Os Pensadores", Ed. Abril, ano 1978)&lt;br /&gt;2.3 Locke e a questão da propriedade&lt;br /&gt;- A idéia de Locke quanto ao que determina o valor da mercadoria que é o TRABALHO pode ser considerada como precursora da teoria do valor-trabalho, desenvolvida por Adam Smith e Ricardo, economistas ingleses do século XVIII. Esta teoria foi aproveitada e transformada por Karl Marx no século XIX.&lt;br /&gt;- Para Locke a propriedade já existe no estado de natureza através da propriedade do corpo e do trabalho de cada indivíduo. Sendo uma instituição que precede a sociedade é um DIREITO NATURAL do indivíduo que não pode ser violado pelo Estado.&lt;br /&gt;- Por isso, para Locke, a propriedade propriamente dita, em sentido estrito como a posse de bens móveis ou imóveis (como a propriedade da terra) vai ser justificada tendo como base a propriedade do corpo e do trabalho. Ou seja, a propriedade será a extensão da posse de si mesmo, da propriedade do corpo.&lt;br /&gt;- Como justificar por exemplo a propriedade privada sobre um pedaço de terra se Deus deu a terra em comum a todos os homens? Locke a justifica através do TRABALHO. Ao incorporar seu trabalho (= energia que vem do corpo e do qual cada indivíduo é proprietário) à matéria bruta que se encontrava em estado natural o homem torna-a sua propriedade privada excluindo dela todos os outros homens. "Sem nenhuma dúvida, todo mundo é proprietário de sua própria pessoa e, em consequência disso, do trabalho de suas mãos. O trabalho é comparável a uma substância separável do corpo do indivíduo, que pode ser misturada com o objeto natural trabalhado. Através dessa mistura da substância trabalho, que é propriedade do trabalhador, torna-se também o produto do trabalho propriedade do proprietário do trabalho." (Manfredo Araújo de Oliveira, in Ética e Sociabilidade, edições Loyola, 1993, pág. 121). O TRABALHO se torna pois o fundamento da propriedade privada.&lt;br /&gt;- No estado de natureza a propriedade era limitada. O limite era fixado pela capacidade de trabalho do ser humano e pelo atendimento de suas necessidades possibilitando para os outros também a posse de bens. Porém o aparecimento do dinheiro possibilitou as trocas e por consequência o comércio e a partir daí foi possível a acumulação de dinheiro e terra e a propriedade passa a ser ilimitada. Isto gerou conflitos, disputas e lutas pois inventando o dinheiro os homens aceitam a posse da existência desigual dos bens. Estabelece-se pois o estado de guerra. Não tendo segurança os homens resolvem se unir em um pacto social e estabelecer, como já foi dito anteriormente, o contrato social pelo qual preservariam a suas propriedades através da segurança dada pelo Estado. Mas é esta propriedade fundamentalmente desigual da fase final do estado e natureza que deve ser mantida? Locke é ambíguo, nada fala sobre a divisão eqüitativa dos bens ou sobre a regulação da propriedade dos bens materiais.&lt;br /&gt;&lt;!--&lt;br /&gt;TEXTOS DE LOCKE&lt;br /&gt; &lt;br /&gt; &lt;br /&gt;(Do livro: "Os Clássicos da Política", org. Francisco C. Weffort, Ed. Ática, 1989, pág. 91-110)&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Introdução&lt;br /&gt;Todas essas premissas tendo sido, ao que me parece, claramente estabelecidas, é impossível que os atuais governantes sobre a Terra obtenham qualquer proveito ou derivem a menor sombra de autoridade daquilo que é tido como a fonte de todo poder, "o domínio privado e a jurisdição paterna de Adão"; de tal modo que aquele que nem se permite imaginar que todo governo no mundo é apenas o produto da força e da violência e que os homens somente vivem juntos pelas mesmas regras dos animais, onde vence o mais forte e, desta forma, lança as bases para a perpétua desordem e discórdia, tumulto, sedição e rebelião (coisas que os adeptos dessa hipótese combatem tão clamorosamente), deve necessariamente descobrir outra origern para o governo, outra fonte do poder político e uma outra maneira de escolher e conhecer as pessoas que o exercem diferente daquela que nos ensinou Sir Robert Filmer.&lt;br /&gt;Visando este objetivo, não me parece despropositado formular o que entendo por poder político. Pois o poder de um magistrado sobre um súdito deve ser distinguido daquele de um pai sobre seus filhos, de um senhor sobre seu servo, de um marido sobre sua esposa e de um nobre sobre seu escravo. Como todos estes poderes às vezes se encontram reunidos numa mesma pessoa, se a considerarmos sob tais diferentes relações, pode ser-nos útil distinguir esses poderes uns dos outros e mostrar a diferença entre um governante de comunidade, um pai de família e um comandante de galera.&lt;br /&gt;Considero, portanto, o poder político como o direito de fazer leis com pena de morte, e consequentemente todas as penalidades menores para regular e preservar a propriedade, e o de empregar a força da comunidade na execução de tais leis e na defesa da comunidade contra a agressão estrangeira, e tudo isso apenas em prol do bem público.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Do estado de natureza&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Para compreender corretamente o poder Político e depreendê-lo de sua origem, devemos considerar em que estado todos os homens se acham naturalmente, sendo este um estado de perfeita liberdade para ordenar-lhes as ações e regular-lhes as posses e as pessoas tal como acharem conveniente, nos limites da lei da natureza, sem pedir permissão ou depender da vontade de qualquer outro homem.&lt;br /&gt;Um Estado também de igualdade, onde é reciproco qualquer poder e jurisdição, nenhum tendo mais do que o outro; nada havendo de mais evidente do que criaturas da mesma espécie e ordem, nascidas promiscuamente para as mesmas vantagens da natureza e para o uso das mesmas faculdades, que terão sempre de ser iguais umas às outras sem subordinação ou sujeição, a menos que o senhor e mestre de todas elas, por qualquer declaração manifesta de sua vontade, colocasse urna acima da outra e lhe conferisse, por uma indicação evidente e clara, direito indubitável ao domínio e à soberania.&lt;br /&gt;[ ... ]&lt;br /&gt;Contudo, embora seja este um estado de liberdade, não o é de licenciosidade; ainda que naquele estado o homem tenha urna liberdade incontrolável para dispor de sua pessoa ou posses, não possui, no entanto, liberdade para destruir a si mesmo ou a qualquer criatura que esteja em sua posse, senão quando isto seja exigido por algum uso mais nobre do que a simples conservação. O estado de natureza tem uma lei de natureza a governá-lo e que a todos submete; e a razão, que é essa lei, ensina a todos os homens que apenas a consultam que, sendo todos iguais e independentes, nenhum deve prejudicar a outrem na vida, na saúde, na liberdade ou nas posses. [ ... ]&lt;br /&gt;E para evitar que todos os homens invadam os direitos dos outros e que mutuamente se molestem, e para que a lei da natureza seja observada, a qual implica na paz e na preservação de toda a humanidade, coloca-se, naquele estado, a execução da lei da natureza nas mãos de todos os homens, por meio da qual qualquer um tem o direito de castigar os transgressores dessa lei numa medida tal que possa impedir a sua violação. Isso porque a lei da natureza, como quaisquer outras leis que digam respeito aos homens neste mundo, seria vã se não houvesse ninguém nesse estado de natureza que tivesse o poder para pôr essa lei em execução e deste modo preservar o inocente e restringir os infratores. [ ... ]&lt;br /&gt;Concedo de bom grado que o governo civil é o remédio acertado para os inconvenientes do estado de natureza, os quais certamente devem ser grandes onde os homens podem ser juizes em causa própria, já que é fácil imaginar que quem foi tão injusto a ponto de causar dano a um irmão, raramente será tão justo a ponto de condenar a si mesmo por isso. Mas desejaria que aqueles que assim objetam se lembrassem de que os monarcas absolutos são apenas homens, e se o governo deve ser o remédio para aqueles males que se seguem necessariamente do fato de serem os homens juizes em causa própria, não sendo, por isso, suportável o estado de natureza, desejo saber que espécie de governo é este, e em que medida é melhor que o estado de natureza, onde um homem, governando uma multidão, tem a liberdade de ser juiz em causa própria, podendo fazer aos seus súditos tudo quanto lhe aprouver, sem o menor questionamento ou controle por parte daqueles que lhe executam as vontades, devendo todos a ele se submeter, seja lá o que for que ele faça, levado pela razão, pelo erro ou pela paixão?&lt;br /&gt;[ ... ]&lt;br /&gt;Mas, além dessas considerações, sustento que todos os homens estão naturalmente naquele estado e nele permanecem até que, por sua própria anuência, tornam-se membros de alguma sociedade política; e não duvido que possa tornar isto mais claro na continuação deste ensaio.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Do estado de guerra&lt;br /&gt;O estado de guerra é um estado de inimizade e destruição; e, por isso, ao declarar, por meio de palavra ou ação - não de um modo apaixonado e precipitado, mas de maneira calma e firme -, um desígnio com relação à vida de outrem, coloca-o ao seu lado num estado de guerra contra aquele a quem declarou uma tal intenção e desta forma expõe sua vida ao poder de outrem, para ser arrebatada por aquele ou por qualquer outro que a ele se junte em sua defesa, esposando-lhe a causa. [ ... ]&lt;br /&gt;Daí resulta que aquele que tenta colocar a outrem sob seu poder absoluto, põe-se por causa disto num estado de guerra com ele, devendo-se interpretar isto como uma declaração de um desígnio em relação à sua vida. Assim, tenho motivos para concluir que aquele que se apoderar de mim, sem meu consentimento, fará uso de mim, tal como lhe aprouver quando eu estiver em seu poder e destruir-me-á também quando lhe der na veneta; pois ninguém pode me desejar ter sob seu poder absoluto senão para compelir-me pela força ao que é contrário ao direito de minha liberdade - isto é, tornar-me escravo. Livrar-me de semelhante força é a única garantia à minha preservação e a razão me ordena considerar como inimigo de minha preservação aquele que arrebatar aquela liberdade que a protege, de sorte que quem tenta me escravizar, põe-se em estado de guerra comigo. [ ... ]&lt;br /&gt;E nisto temos a clara diferença entre o estado de natureza e o estado de guerra que, muito embora alguns tenham confundido, estão tão distantes um do outro quanto um estado de paz, boa vontade, assistência mútua e preservação está de um estado de inimizade, malícia, violência e destruição mútua. Quando os homens vivem juntos conforme a razão, sem um superior comum na Terra que possua autoridade para julgar entre eles, verifica-se propriamente o estado de natureza. Todavia, a força, ou o desígnio declarado de força contra a pessoa de outrem, quando não existe qualquer superior comum sobre a Terra a quem apelar, constitui o estado de guerra; e é a necessidade de semelhante apelo que dá ao homem o direito de guerra mesmo contra um agressor, ainda que este esteja em sociedade e seja igualmente um súdito.&lt;br /&gt;[ ...] A falta de um juiz comum com autoridade coloca todos os homens em um estado de natureza; a força sem o direito sobre a pessoa de um homem provoca um estado de guerra não só quando há como quando não há um juiz comum. [ ... ]&lt;br /&gt;Evitar esse estado de guerra - no qual não há apelo senão para o céu, e no qual qualquer divergência, por menor que seja, é capaz de ir dar, se não houver autoridade que decida entre os contendores - é razão decisiva para que homens se reúnam em sociedade deixando o estado de natureza; onde há autoridade, poder na Terra do qual é possível conseguir amparo mediante apelo, exclui-se a continuidade do estado de guerra, decidindo-se a controvérsia por aquele poder. [ ... ]&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Da propriedade&lt;br /&gt;[ ... ]&lt;br /&gt;Embora a terra e todas as criaturas inferiores sejam comuns a todos os homens, cada homem tem uma "propriedade" em sua própria "pessoa"; a esta ninguém tem qualquer direito senão ele mesmo. Podemos dizer que o "trabalho" do seu corpo e a "obradas suas mãos são propriamente seus. Seja o que for que ele retire do estado que a natureza lhe forneceu e no qual o deixou, fica-lhe misturado ao próprio trabalho, juntando-se-lhe algo que lhe pertence e, por isso mesmo, tornando-o propriedade dele. Retirando-o do estado comum em que a natureza o colocou, anexou-lhe por esse trabalho algo que o exclui do direito comum de outros homens. Desde que esse "trabalho" é propriedade indiscutível do trabalhador, nenhum outro homem pode ter direito ao que foi por ele incorporado, pelo menos quando houver bastante e igualmente de boa qualidade em comum para terceiros. [ ... ]&lt;br /&gt;A mesma lei da natureza que nos dá por esse meio a propriedade, também igualmente a limita. "Deus nos deu de tudo abundantemente" [I Tim 6, 17) é a voz da razão confirmada pela inspiração? Mas até que ponto Ele nos deu isso "para usufruir"? Tanto quanto qualquer um pode usar com qualquer vantagem para a vida antes que se estrague, em tanto pode fixar uma propriedade pelo próprio trabalho; o excedente ultrapassa a parte que lhe cabe e pertence a terceiros. [ ... ]&lt;br /&gt;É o trabalho, portanto, que atribui a maior parte do valor à terra, sem o qual dificilmente ela valeria alguma coisa; é a ele que devemos a maior parte de todos os produtos úteis da terra; por tudo isso a palha, farelo e pão desse acre de trigo valem mais do que o produto de um acre de terra igualmente boa mas abandonada, sendo o valor daquele o efeito do trabalho.&lt;br /&gt;De tudo isso, é evidente que, embora a natureza tudo nos ofereça em comum, o homem, sendo senhor de si próprio e proprietário de sua pessoa e das ações ou do trabalho que executa, teria ainda em si mesmo a base da propriedade; e aquilo que compôs a maior parte do que ele aplicou ao sustento ou conforto do próprio ser, quando as invenções e as artes aperfeiçoaram os confortos materiais da vida, era perfeitamente seu, não pertencendo em comum a outros.&lt;br /&gt;A maior parte das coisas realmente úteis à vida do homem são, em geral, de curta duração e, tal como a necessidade de subsistência obrigou os primeiros membros das comunidades a procurar por elas, conforme ora acontece com os americanos, da mesma forma, se não forem consumidas pelo uso, estragar-se-ão e perecerão por si mesmas; o ouro, a prata e os diamantes são artigos a que a imaginação ou o acordo atribuiu valor, mais do que pelo uso real e sustento necessário da vida. [ ... ]&lt;br /&gt;E assim originou-se o uso do dinheiro - algo de duradouro que os homens pudessem guardar sem se estragar e que, por consentimento mútuo, recebessem em troca de sustentáculos da vida, verdadeiramente úteis mas perecíveis. [ ... ]&lt;br /&gt;Mas como o ouro e a prata são de pouca utilidade para a vida humana em comparação com o alimento, vestuário e transporte, tendo valor somente pelo consenso dos homens, enquanto o trabalho dá em grande parte a medida, é evidente que os homens concordaram com a posse desigual e desproporcionada da terra, tendo descoberto, mediante consentimento tácito e voluntário, a maneira de um homem possuir licitamente mais terra do que aquela cujo produto pode utilizar, recebendo em troca, pelo excesso, ouro e prata que podem guardar sem causar dano a terceiros, uma vez que estes metais não se deterioram nem se estragam nas mãos de quem os possui. Os homens tornaram praticável semelhante partilha em desigualdade de posses particulares fora dos limites da sociedade e sem precisar de pacto, atribuindo valor ao ouro e à prata, e concordando tacitamente com respeito ao uso do dinheiro; porque, nos governos, as leis regulam o direito de propriedade e constituições positivas determinam a posse da terra.&lt;br /&gt;[ ... ]&lt;br /&gt;Da sociedade política ou civil&lt;br /&gt;O homem, nascendo, conforme provamos, com direito a perfeita liberdade e gozo incontrolado de todos os direitos e privilégios da lei da natureza, por igual a qualquer outro homem ou grupo de homens do mundo, tem, por natureza, o poder não só de preservar a sua propriedade - isto é, a vida, a liberdade e os bens - contra os danos e ataques de outros homens, mas também de Julgar e castigar as infrações dessa lei por outros conforme estiver persuadido da gravidade da ofensa e até mesmo com a morte nos crimes em que o horror do fato o exija, conforme a sua opinião. Contudo, como qualquer sociedade política não pode existir nem subsistir sem ter em si o poder de preservar a propriedade e, para isso, castigar as ofensas de todos os membros dessa sociedade, haverá sociedade política somente quando cada um dos membros renunciar ao próprio poder natural, passando-o às mãos da comunidade em todos os casos que não lhe impeçam de recorrer à proteção da lei por ela estabelecida. [ ... ] Os que estão unidos em um corpo, tendo lei comum estabelecida e judicatura para a qual apelar, com autoridade para decidir controvérsias e punir os ofensores, estão em sociedade civil uns com os outros; mas os que não têm essa apelação em comum, quero dizer, sobre a Terra, ainda se encontram no estado de natureza, sendo cada um, onde não há outro, juiz para si e executor, o que constitui, conforme mostrei anteriormente, o estado perfeito de natureza. [ ... ]&lt;br /&gt;E por essa maneira a comunidade consegue, por meio de um poder julgador, estabelecer que castigo cabe às várias transgressões quando cometidas entre os membros dessa sociedade - que é o poder de fazer leis -, bem como possui o poder de castigar qualquer dano praticado contra qualquer dos membros por alguém que não pertence a ela - que é o poder de guerra e de paz -, e tudo isso para preservação da propriedade de todos os membros dessa sociedade, tanto quanto possível. [ ... ] E aqui deparamos com a origem dos poderes legislativo e executivo da sociedade, que deve julgar por meio de leis estabelecidas até que ponto se devem castigar as ofensas quando cometidas dentro dos limites da comunidade, bem como determinar, mediante julgamentos ocasionais baseados nas circunstâncias atuais do fato, até onde as agressões externas devem ser retaliadas; e em um e outro caso utilizar toda a força de todos os membros, quando houver necessidade. [ ... ]&lt;br /&gt;Do que ficou dito é evidente que a monarquia absoluta, que alguns consideram o único governo no mundo, é, de fato, incompatível com a sociedade civil, não podendo por isso ser uma forma qualquer de governo civil, porque o objetivo da sociedade civil consiste em evitar e remediar os inconvenientes do estado de natureza que resultam necessariamente de poder cada homem ser juiz em causa própria, estabelecendo-se uma autoridade conhecida para a qual todos os membros dessa sociedade podem apelar por qualquer dano que lhe causem ou controvérsia que possa surgir, e à qual todos os membros dessa sociedade terão de obedecer. Onde quer que existam pessoas que não tenham semelhante autoridade a que recorrerem para decisão de qualquer diferença entre elas, estarão tais pessoas no estado de natureza; e assim se encontra qualquer príncipe absoluto em relação aos que estão sob seu domínio. [ ... ]&lt;br /&gt;Do começo das sociedades políticas&lt;br /&gt;Sendo os homens, conforme acima dissemos, por natureza, todos livres, iguais e independentes, ninguém pode ser expulso de sua propriedade e submetido ao poder político de outrem sem dar consentimento. A maneira única em virtude da qual uma pessoa qualquer renuncia à liberdade natural e se reveste dos laços da sociedade civil consiste em concordar com outras pessoas em juntar-se e unir-se em comunidade para viverem com segurança, conforto e paz umas com as outras, gozando garantidamente das propriedades que tiverem e desfrutando de maior proteção contra quem quer que não faça parte dela. Qualquer número de homens pode fazê-lo, porque não prejudica a liberdade dos demais; ficam como estavam na liberdade do estado de natureza. Quando qualquer número de homens consentiu desse modo em constituir uma comunidade ou governo, ficam, de fato, a ela incorporados e formam um corpo político no qual a maioria tem o direito de agir e resolver por todos.&lt;br /&gt;[ ... ]&lt;br /&gt;E assim todo homem, concordando com outros em formar um corpo político sob um governo, assume a obrigação para com todos os membros dessa sociedade de se submeter à resolução da maioria conforme esta a assentar; se assim não fosse, esse pacto inicial - pelo qual ele juntamente com outros se incorpora a uma sociedade - nada significaria, e deixaria de ser pacto, se aquele indivíduo ficasse livre e sob nenhum outro vínculo senão aquele em que se achava no estado de natureza. [ ... ]&lt;br /&gt;Se o assentimento da maioria não fosse aceito como razoável enquanto ato de todos submetendo cada indivíduo, nada, senão o consentimento de cada um, poderia fazer com que qualquer coisa fosse o ato de todos; mas tal consentimento é quase impossível de se conseguir se considerarmos as enfermidades e as ocupações secundárias com os negócios que em um grupo qualquer, embora muito menos que em uma comunidade, afastarão necessariamente muitos membros da assembléia pública...&lt;br /&gt;Quem quer, portanto, que, saindo de um estado de natureza, entre para uma comunidade deve ser considerado como declinando de todo o poder necessário aos fins para os quais se uniram em sociedade, em favor da maioria da comunidade, a menos que estejam expressamente de acordo quanto a um número maior do que a maioria. E isto se consegue concordando simplesmente em unir-se em uma sociedade política, no que consiste todo pacto que existe ou deve existir entre os indivíduos que entram em uma comunidade ou a constituem. Assim sendo, o que dá início e constitui realmente qualquer sociedade política nada mais é senão o assentimento de qualquer número de homens livres e capazes de maioria em se unirem e incorporarem a tal sociedade. E isto e somente isto deu ou poderia dar origem a qualquer governo legitimo no mundo.&lt;br /&gt;[ ... ] Assim, essas sociedades políticas começaram todas de uma união voluntária e do acordo mútuo de homens que agiam livremente na escolha dos governantes e das formas de governo.&lt;br /&gt;[ ... ]&lt;br /&gt;Nessas condições, quem uma vez deu, por acordo real e qualquer declaração expressa, o seu consentimento em fazer parte de uma comunidade, está obrigado, perpétua e indispensavelmente, a ser e ficar inalteravelmente súdito dela, não podendo voltar novamente à liberdade do estado de natureza, a menos que, em virtude de alguma calamidade, venha a dissolver-se o governo sob o qual vive, ou então, mediante algum ato público, fique dispensado de ser membro dela dai por diante.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Dos fins da sociedade política e do governo&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Se o homem no estado de natureza é tão livre, conforme dissemos, se é senhor absoluto da sua própria pessoa e posses, igual ao maior e a ninguém sujeito, por que abrirá ele mão dessa liberdade, por que abandonará o seu império e sujeitar-se-á ao domínio e controle de qualquer outro poder? Ao que é óbvio responder que, embora no estado de natureza tenha tal direito, a fruição do mesmo é muito incerta e está constantemente exposta à invasão de terceiros porque, sendo todos reis tanto quanto ele, todos iguais a ele, e na maioria pouco observadores da eqüidade e da justiça, a fruição da propriedade que possui nesse estado é muito insegura, muito arriscada. Estas circunstâncias obrigam-no a abandonar esta condição que, embora livre, está cheia de temores e perigos constantes; e não é sem razão que procura de boa vontade juntar-se em sociedade com outros que estão já unidos, ou pretendem unir-se, para a mútua conservação da vida, da liberdade e dos bens a que chamo de ---propriedade".&lt;br /&gt;O objetivo grande e principal, portanto, da união dos homens em comunidades, colocando-se eles sob governo, é a preservação da propriedade. Para este objetivo, muitas condições faltam no estado de natureza. Primeiro, falta uma lei estabelecida, firmada, conhecida, recebida e aceita mediante consentimento comum, como padrão do justo e injusto e medida comum para resolver quaisquer controvérsias entre os homens. [ ... ]&lt;br /&gt;Em segundo lugar, no estado de natureza falta um juiz conhecido e indiferente com autoridade para resolver quaisquer dissensões, de acordo com a lei estabelecida. [ ... ]&lt;br /&gt;Em terceiro lugar, no estado de natureza freqüentemente falta poder que apóie e sustente a sentença quando justa, dando-lhe a devida execução.&lt;br /&gt;[ ... ]&lt;br /&gt;Assim, os homens, apesar de todos os privilégios do estado de natureza, ao se verem apenas em más condições enquanto nele permanecem, são rapidamente levados à sociedade. Daí resulta que raramente encontramos qualquer grupo de homens vivendo dessa maneira. Os inconvenientes a que estão expostos pelo exercício irregular e incerto do poder que todo homem tem de castigar as transgressões dos outros levam-nos a se abrigarem sob as leis estabelecidas de governo e nele procurarem a preservação da propriedade. É isso que os leva a abandonarem de boa vontade o poder isolado que têm de castigar, para que passe a exercê-lo um só indivíduo, escolhido para isso entre eles e mediante as regras que a comunidade - ou os que com tal propósito forem por ela autorizados - concorde em estabelecer. E nisso se contém o direito original dos poderes legislativo e executivo, bem como dos governos e das sociedades. [ ... ]&lt;br /&gt;[ ... ] E assim sendo, quem tiver o poder legislativo ou o poder supremo de qualquer comunidade obriga-se a governá-la mediante leis estabelecidas, promulgadas e conhecidas pelo povo - e não por meio de decretos extemporâneos - e mediante juízes imparciais corretos, que terão de resolver as controvérsias conforme essas leis. Obriga-se também a empregar a força da comunidade no seu território somente na execução de tais leis, ou fora dele para prevenir ou remediar malefícios estrangeiros e garantir a sociedade contra incursões ou invasões. E tudo isso tendo em vista nenhum outro objetivo senão a paz, a segurança e o bem-estar do povo.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;TÓPICOS DO PENSAMENTO DE MARX&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;1. Karl Marx (1818-1883), filósofo, sociólogo e economista alemão&lt;br /&gt;2. Trabalho: enquanto meio de transformação da natureza e do homem.&lt;br /&gt;-          Expressão da liberdade humana enquanto possibilidade de tornar o homem cada vez mais independente da natureza e por isso com maior autonomia.&lt;br /&gt;-          O trabalho cria a possibilidade do desenvolvimento de uma tecnologia cada vez mais sofisticada que possibilitaria aos homens se libertarem da necessidade de trabalhar pela subsistência. Haveria mais tempo livre para se dedicar àquilo que humaniza o homem.&lt;br /&gt;-          O trabalho sempre tem um caráter social pois em todos os tempos a humanidade só transforma o mundo, criando diversos tipos de organização social, através de um esforço coletivo e não individual. (John Locke vê o trabalho em uma perspectiva individual)&lt;br /&gt;-          Não é a razão que diferencia o homem do animal mas a capacidade de transformar o mundo e a si mesmo pelo trabalho coletivo. A própria razão e também a linguagem surgem neste processo de transformação.&lt;br /&gt;-          O trabalho determina as condições de vida humana, o modo como os homens produzem sua vida material e isto é decisivo para a análise marxista.&lt;br /&gt;-          Se o trabalho transforma a natureza e o próprio homem "o que os indivíduos são.... depende das condições materiais de sua produção" (Marx). Ou seja o que os indivíduos são confunde-se com o que produzem e com o modo como produzem. "Não é a consciência dos homens que determina o seu ser, é o seu ser social que determina a consciência" (Marx)&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;2. Classes sociais: A partir de um excedente econômico surgem as classes sociais na sociedade. A partir daí se origina a possibilidade de apropriação privada do que é produzido pelo trabalho que é sempre social. Surgem as classes sociais: uma classe proprietária dos meios de produção (terras em um primeiro momento, depois indústrias, bancos, etc...) e uma classe não proprietária. Por conta da conseqüência do surgimento da propriedade privada que é a pobreza e miséria da maioria, os conflitos entre as classes se agudizam. Por isto a história passa a ser, segundo Marx, a história da LUTA DE CLASSES. (Observação: Marx não foi o primeiro a falar em classes sociais. Apesar de não usar este termo Maquiavel nos seus escritos revela a divisão de classes na sociedade)&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;3. Sociedade Civil: O que é a Sociedade Civil? E responde: Não é a manifestação de uma ordem natural racional nem o aglomerado conflitante de indivíduos, famílias, grupos e corporações, cujos interesses antagônicos serão conciliados pelo contrato social, que instituiria a ação reguladora e ordenadora do Estado, expressão do interesse e da vontade gerais.&lt;br /&gt;A sociedade civil é o sistema de relações sociais que organiza a produção econômica (agricultura, indústria e o comércio), realizando-se através de instituições sociais encarregadas de reproduzi-lo (família, igrejas, escolas, polícia, partidos políticos, meios de comunicação, etc.) É o espaço onde as relações sociais e suas formas econômicas e institucionais são pensadas, interpretadas e representadas por um conjunto de idéias morais, religiosas, jurídicas, pedagógicas, artísticas, científico-filosóficas e políticas.&lt;br /&gt;A Sociedade Civil é o processo de constituição e reposição das condições materiais da produção econômica pelas quais são engendradas as classes sociais: os proprietários privados dos meios de produção e os trabalhadores ou não-proprietários, que vendem sua força de trabalho como mercadoria submetida à lei da oferta e da procura no mercado de mão-de-obra. Essas classes sociais são antagônicas e seus conflitos revelam uma contradição profunda entre os interesses irreconciliáveis de cada uma delas, isto é, a sociedade civil se realiza como luta de classes.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;4. Estado - Longe de diferenciar-se da sociedade civil e de separar-se dela, longe de ser a expressão da vontade geral e do interesse geral, o Estado é a expressão legal – jurídica e policial – dos interesses de uma classe social particular, a classe dos proprietários privados dos meios de produção ou classe dominante. E o Estado não é uma imposição divina aos homens, nem é o resultado de um pacto ou contrato social, mas é a maneira pela qual a classe dominante de uma época e de uma sociedade determinadas garante seus interesses e sua dominação sobre o todo social.&lt;br /&gt;O Estado é a expressão política da luta econômico-social das classes, amortecida pelo aparato da ordem (jurídica) e da força pública (policial e militar). Não é, mas aparece como um poder público distante e separado da sociedade civil. Não por acaso, o liberalismo define o Estado como garantidor do direito de propriedade privada e, não por acaso, reduz a cidadania aos direitos dos proprietários privados (a ampliação da cidadania foi fruto de lutas populares contra as idéias e práticas liberais).&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;5. Mais Valia - O sistema capitalista consiste na produção de mercadorias. Mercadoria é tudo o que é produzido não tendo em vista o valor de uso (por exemplo, uma malha que fazemos para nosso próprio uso), mas tem por objetivo o valor de troca, isto é, a venda do produto. Sendo a mercadoria um produto do trabalho, o seu valor é determinado pelo total de trabalho socialmente necessário para produzi-la. Como a mercadoria é produzida?&lt;br /&gt;Para sobreviver, o trabalhador vende ao capitalista a única mercadoria que possui, que é a capacidade de trabalhar. Qual deve ser o valor da força de trabalho? Sendo um ser vivo, o trabalhador precisa receber o necessário para a subsistência e reprodução de sua capacidade de trabalho, ou seja, alimento, roupa, moradia, possibilidade de criar os filhos, etc. O salário deve portanto corresponder ao custo de sua manutenção e de sua família.&lt;br /&gt;O operário se distingue dos escravos e dos servos por receber um salário a partir do contrato livremente aceito entre as partes. No entanto, na obra O capital, Marx explica que a relação de contrato é livre só na aparência e que, na verdade, o desenvolvimento do capitalismo supõe a exploração do trabalho do operário. Isso porque o capitalista contrata o operário para trabalhar durante um certo período de horas a fim de alcançar determinada produção. Mas o trabalhador, estando disponível todo o tempo, na verdade produz mais do que foi calculado, ou seja, a força de trabalho pode criar um valor superior ao estipulado inicialmente. No entanto, a parte do trabalho excedente não e paga ao operário, e serve para aumentar cada vez mais o capital.&lt;br /&gt;Marx diz que, ao comprar a força de trabalho, o capitalista "adquire o direito de servir-se dela ou de fazê-la funcionar durante todo o dia ou toda a semana (...) Como vendeu sua força de trabalho ao capitalista, todo o valor, ou todo o produto por ele [pelo operário] criado pertence ao capitalista, que é dono de sua força de trabalho, pro tempore. Por conseguinte, desembolsando 3 xelins, o capitalista realizará o valor de 6, pois com o desembolso de um valor no qual se cristalizam seis horas de trabalho receberá em troca um valor no qual estão cristalizadas doze horas. Se repete, diariamente, essa operação, o capitalista desembolsará 3 xelins por dia e embolsará 6, cuja metade tornará a inverter no pagamento de novos salários, enquanto a outra metade formará a mais-valia, pela qual o capitalista não paga equivalente algum. Esse tipo de intercâmbio entre o capital e o trabalho é o que serve de base à produção capitalista, ou ao sistema do salariado, e tem de conduzir, sem cessar, à constante reprodução do operário como operário e do capitalista como capitalista"&lt;br /&gt;Chama-se mais-valia, portanto, ao valor que o operário cria além do valor de sua força de trabalho, e que é apropriado pelo capitalista.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;6. Composição orgânica do Capital - De que depende a taxa de lucro que o capitalista pode obter de sua empresa?&lt;br /&gt;Depende da relação entre o capital constante (máquinas, matérias-primas, equipamentos e conhecimento) e o capital variável (salários). Esta relação é chamada por Marx de COMPOSIÇÃO ORGÂNICA DO CAPITAL.&lt;br /&gt;Quanto mais o capitalista gastar na construção de edifícios, aquisição de máquinas e de matéria-prima em relação ao gasto da força de trabalho mais alta será composição orgânica do capital e menor será portanto a taxa de lucro.&lt;br /&gt;A composição orgânica do capital cresce com o desenvolvimento da técnica e a taxa de lucro tem que baixar ao mesmo tempo.&lt;br /&gt;A partir da década de 80, a substituição do trabalho vivo por trabalho morto (incluído nas máquinas) tem atingido proporções inéditas na história do modo de produção capitalista. A generalização da automação na quase totalidade da produção e dos serviços e a introdução de novos métodos organizativos têm gerado uma considerável redução da força de trabalho empregada. O medo do desemprego - resultante desse processo, que se convencionou chamar reestruturação produtiva - permite aos capitalistas precarizar as relações formais de trabalho, retirar direitos dos trabalhadores e reduzir a massa salarial.&lt;br /&gt;O modo capitalista de produção se desenvolve pela acumulação de capital. Esta acumulação implica na mobilização de uma quantidade cada vez maior de meios de produção, que absorvem funções que anteriormente faziam parte da atividade humana por meio de ferramentas. Esta substituição do homem por máquinas - trabalho vivo humano por trabalho morto objetivado - aumenta a proporção das máquinas no total do capital empregado, fenômeno que Marx chamou de aumento da composição orgânica do capital.&lt;br /&gt;Para permanecer na concorrência, um número cada vez menor de capitalistas é capaz de fazer frente à necessidade de grandes investimentos. Na configuração atual do capitalismo, a acumulação se torna atributo de um pequeno número de empresas, mais produtivas, com um número menor de trabalhadores.&lt;br /&gt;O desemprego e a precarização das relações de trabalho atingem em cheio a composição da classe operária. Aumenta a distância entre a aristocracia operária e o conjunto da classe. A terceirização opõe trabalhadores com contrato de trabalho regular aos terceirizados. Diferenças regionais, raciais, de idade e de gênero muitas vezes acentuam esta diferenciação.&lt;br /&gt;No discurso dominante, os trabalhadores estariam a salvo do desemprego pela qualificação, que deve ser obtida por eles próprios e através de seus sindicatos. Porém, a exigência da qualificação é apenas formal. A norma é a perpetuação de tarefas repetitivas e monótonas, mesmo com a introdução de equipamentos mais sofisticados tecnologicamente. A exigência de qualificação (escolaridade, treinamento e polivalência, ou seja, domínio de múltiplas especialidades) tem um caráter de cooptação de parcelas da classe operária.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;O chamado toyotismo, que substituiu as formas fordistas de produção, foi implantado - primeiro no Japão e depois no resto do mundo capitalista - justamente para radicalizar o processo de cooptação dos trabalhadores. Medidas como controles coletivos de qualidade no processo industrial e a abolição de chefias são destinadas a introjetar nos próprios trabalhadores o seu compromisso com os destinos da empresa, a maximização dos lucros capitalistas e a própria exploração, fato acentuado recentemente pela implantação da Participação nos Lucros ou Resultados.&lt;br /&gt;A conseqüência mais visível do processo de reestruturação produtiva é uma diferenciação interna da classe operária, opondo trabalhadores regularmente contratados a desempregados, informais, terceirizados, precários e àqueles contratados temporariamente ou a tempo parcial. Esta diferenciação é superficial, já que os fundamentos da exploração da mais valia permanecem incólumes. Os que ainda trabalham de forma regular - dentro do arcabouço da legislação trabalhista - têm "privilégios" voláteis, pois não têm garantias de emprego e seus direitos sociais estão sendo extintos.&lt;br /&gt;Estas são algumas características atuais da classe operária:&lt;br /&gt;·         perda de direitos e conquistas sociais e trabalhistas;&lt;br /&gt;·         diferenciação pela precarização, terceirização, informalidade e desemprego;&lt;br /&gt;·         técnicas de cooptação, entremeadas por coerção aberta, mais sofisticadas e introjetadas pelos próprios trabalhadores;&lt;br /&gt;exigências de qualificação formal cada vez mais excludentes&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;7. Materialismo Histórico: "Materialismo porque somos o que as condições materiais de existência nos determinam a ser e a pensar. Histórico porque a sociedade e a política não surgem de decretos divinos nem nascem da ordem natural, mas dependem da ação concreta dos seres humanos no tempo." (Marilena Chauí)&lt;br /&gt;- condições materiais de existência:&lt;br /&gt;a.       Forças produtivas: trabalho do homem e meios de produção (equipamentos, ferramentas, máquinas)&lt;br /&gt;b.       Relações de produção: a forma como os homens se relacionam ao produzirem materialmente sua vida. Tal relacionamento se dá vinculado à luta de classes, é fruto da luta de classes.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;- Relação entre as forças produtivas e relações de produção: Se Marx em algumas de suas obras estabelece o princípio do primado das forças produtivas sobre as relações de produção na medida em que seriam elas que comandariam o desenvolvimento histórico, na sua obra "O Capital" estabelece o primado das "Relações de Produção". Estas é que comandam as transformações das Forças Produtivas. As forças produtivas não tem um caráter neutro. Há a determinação de classe. As forças produtivas nunca tem seu desenvolvimento de forma independente das relações de produção que sempre, como vimos, estão vinculadas à luta de classes. Exemplo: Se hoje foi introduzida a informática no processo de trabalho isto surgiu como conseqüência das relações de produção marcadas pelo conflito de classes e não por uma desenvolvimento autônomo das forças produtivas. No processo de luta entre as classes o capitalista, para não perder o poder introduziu a informática como forma de garantir o seu domínio. Com ela o capitalista pode tirar o saber do trabalhador sobre o processo do trabalho e controlá-lo. Inclusive tal fato gera o desemprego que dificulta a organização dos trabalhadores.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Esta relação nos possibilita entender tendências no Marxismo:&lt;br /&gt; a) Uma posição reformista e etapista afirma que sendo o desenvolvimento das forças produtivas condição para a implantação do Socialismo então não haveria problema se elas se desenvolvessem no interior do sistema capitalista. Não haveria pois problema em apoiar um setor da burguesia que propusesse este desenvolvimento em escala cada vez maior. Com isto se estabeleceriam as bases objetivas para a implantação do Socialismo.&lt;br /&gt;b)       Outra tendência, revolucionária, entende que é necessário forças produtivas adequadas ao socialismo sem a característica de domínio sobre os trabalhadores. Portanto, urge derrubar o capitalismo através da revolução.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;8. Estrutura e Superestrutura -  As Forças Produtivas e as Relações de Produção podem ser consideradas como as bases econômicas (ESTRUTURA) da sociedade enquanto a SUPERESTRUTURA diz respeito a fatores não econômicos como as idéias, a organização política (Estado), leis, religião, moral, ciência.&lt;br /&gt;- a SUPERESTRUTURA é determinada pela ESTRUTURA. Por isso para entender uma época é fundamental saber como os homens vivem (condições materiais) e não como pensam. A transformação de uma sociedade não depende das mudanças nas idéias mas da transformação da relações de produção, da estrutura material da sociedade.&lt;br /&gt;- Mas os elementos não econômicos que fazem parte da Superestrutura podem ter em determinado tempo e sociedade um papel determinante. Porém em ÚLTIMA INSTÂNCIA a determinação é dada pelo econômico (= Forças produtivas + Relações de produção). Não há uma determinação direta e imediata da superestrutura pela base (estrutura). Exemplo: "No modo de produção feudal a relação de produção envolve dois agentes: o senhor feudal, proprietário das condições materiais da produção, e o servo, que mantém a posse dessas mesmas condições. Essa relação implica que o servo trabalhe para o senhor, entregando-lhe parte da produção por ele realizada. Ora, o que leva à reprodução dessa relação? Observemos, de imediato, que não existe nenhuma necessidade de ordem econômica para o servo assim agir, já que ele está na posse das condições materiais da produção e mantém o controle sobre o processo de trabalho. Portanto, o servo só reproduz essa relação, isto é, entrega ao senhor o resultado do seu trabalho, em virtude da interferência de fatores não-econômicos. Assim, é necessário o emprego da coerção física através da força militar dos senhores para que essa relação social se reproduza. Além disso, a ideologia religiosa cristã secreta uma representação imaginária de mundo na qual se justifica, como expressão da vontade divina, a relação de exploração do servo pelo senhor." (Do livro: Marx - ciência e revolução, Ed. Moderna, Márcio Bilharinho Naves, pág. 82, ano 2000). Implica pois a instância política (relação de força) e instância religiosa (catolicismo). Mas em ÚLTIMA INSTÂNCIA é o fator econômico que explica o papel determinante da religião e da política.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;- Já no capitalismo não há necessidade da coerção física e da religião. Há uma separação entre o trabalhador e os meios de produção. Os meios de produção pertencem ao capitalista. A maioria dos trabalhadores no capitalismo entende que o capitalista, proprietário dos Meios de Produção, paga um salário pelo seu trabalho e portanto acha justo entregar o resultado de seu trabalho para ele não percebendo a mais-valia, ou seja, que o seu trabalho é explorado pelo capitalista. Não percebe que o valor da mercadoria é determinado por seu trabalho incorporado nela. Não percebe o caráter social do trabalho, o que implicaria em uma destinação social e apropriação social. Por isso vive na ALIENAÇÃO. Conclui-se portanto, que a determinação do fator econômico é mais direta e imediata e portanto não há a influência determinante de fatores não econômicos como a religião e a política.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;9. Alienação -  "é o fenômeno pelo qual os homens criam ou produzem alguma coisa, dão independência a essa criatura como se ela existisse por si mesma e em si mesma, deixam-se governar por ela como se ela tivesse podem em si e por si mesma, não se reconhecem na obra que criaram, fazendo-a um ser-outro, separado dos homens, superior a eles e com poder sobre eles. Exemplo: a globalização hoje é visto como algo natural ao qual os países têm que se sujeitar. Não é vista como criação dos homens em um processo de luta de classes." (M. Chauí)&lt;br /&gt;10. Ideologia - A Superestrutura de uma sociedade é determinada pela classe que domina economicamente. As idéias, os valores dominantes são as idéias e valores da classe dominante. Porém estes aparecem não como próprios da classe dominante mas como universais (para todos) e naturais (não históricos) (=IDEOLOGIA).&lt;br /&gt;-          A função mais importante da ideologia é ocultar e dissimular as divisões sociais e políticas. Ex. somos levados a acreditar que somos todos iguais porque participamos da idéia de pátria.&lt;br /&gt;-          Realiza a inversão: coloca os efeitos no lugar das causas e transforma estas últimas em efeitos. Opera como o inconsciente freudiano: este fabrica imagens e sintomas; aquela fabrica idéias e falsas causalidades. Ex: o "ser feminino" é colocado como causa da "função social feminina".&lt;br /&gt;-          Produção do imaginário social: Exemplo: poderemos subir na vida através do esforço próprio.&lt;br /&gt;-          A ideologia opera pelo silêncio, pelo ocultamento. Exemplo: A ideologia afirma que o homossexualismo é uma perversão e uma doença. Silencia-se sobre os motivos pelos quais, em nossa sociedade, o vínculo entre sexo e procriação é tão importante: nossa sociedade exige a procriação legítima e legal porque garante para a classe dominante a transmissão do capital aos herdeiros. No caso das ocupações de terra feitas pelo MST e movimentos urbanos, a mídia fala em invasões. O uso deste termo auxilia no ocultamento do fato da concentração da terra rural no Brasil, da ocupação de terras públicas pelos fazendeiros (Pontal de Paranapanema), esconde-se os efeitos da especulação imobiliária nas cidades. No caso da cidade de São Paulo fala-se em "revitalização do centro" porque esta "deteriorado" (leia-se: habitado pela população pobre). Mas o centro está "vitalizado", os pobres estão dando vida a esta região da cidade. Na verdade o que se pretende, muitas vezes, é a expulsão dos pobres do centro.&lt;br /&gt;11.Contradições no Capitalismo - No capitalismo há contradições que geram crises que apontam para o seu fim com a implantação do Socialismo. Causas da crise no capitalismo:&lt;br /&gt;A produção é social mas a apropriação é privada. Portanto a destinação da produção não é para satisfazer as necessidades da maioria mas para atender as necessidades do lucro dos capitalistas.&lt;br /&gt;Por isso acontece a anarquia na produção: desperdício, desemprego&lt;br /&gt;12. O operariado e a revolução: o capitalismo cria o seu coveiro, a classe que o irá destruir: o operariado. Através de uma revolução se criaria um Estado socialista com a socialização dos meios de produção. Não haveria mais a apropriação privada do que é produzido coletivamente. Este é um período de transição caracterizado pelo que Marx chama Ditadura do Proletariado, necessário para impedir a contra-revolução da burguesia e para acabar de vez com a existência de classes na sociedade. Ditadura para a minoria e democracia para a maioria, isto é, o povo. Após este período de transição chegaríamos finalmente ao COMUNISMO, uma sociedade sem classes, sem a opressão do homem pelo homem, sem Estado. O social do trabalho seria finalmente resgatado e teríamos a sociedade com igualdade e justiça. O homem não seria mais lobo do outro homem.&lt;br /&gt;13. Exemplo de uma estudo da realidade embasado na perspectiva marxista: Ocupação do espaço urbano na cidade de São Paulo. (termos marxistas: luta de classes na disputa pelo espaço urbano, a cidade produzida através do trabalho de todos, alienação, ideologia, expropriação do trabalho social)&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;TEXTOS DE MARX&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Luta de Classes&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;“A história de todas as sociedades existentes até hoje é a história das luas de classes. Homem livre e escravo, patrício e plebeu, barão e servo, mestre de corporação e companheiro, numa palavra, opressores e oprimidos, têm permanecido em constante oposição uns aos outros, envolvidos numa guerra ininterrupta, ora disfarçada, ora aberta, que terminou sempre, ou por uma transformação revolucionária de toda a sociedade, ou pela destruição das duas classes em luta.” (Karl Marx e Friedrich Engels. Manifesto do Partido Comunista. In: Cartas filosóficas e outros escritos, p. 84)&lt;br /&gt; &lt;br /&gt; “No que me concerne, não me cabe o mérito de haver descoberto nem a existência das classe, nem a luta entre elas. Muito antes de mim, historiadores burgueses já haviam descoberto o desenvolvimento histórico dessa luta entre as classes e economistas burgueses haviam indicado sua anatomia econômica. O que eu trouxe de novo foi: 1) demonstrar que a existência das classes está ligada somente a determinadas fases de desenvolvimento da produção; 2) que a luta de classes conduz, necessariamente, à ditadura do proletariado; 3) que essa própria ditadura nada mais é que a transição à abolição de todas as classes e a uma sociedade sem classes (...) (Marx, Carta a Weydemeyer, 5/3/1852)&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;“Os indivíduos só formam uma classe na medida em que se vêem obrigados a sustentar uma luta comum contra outra classe, já que no mais eles se enfrentam uns aos outros, hostilmente, no plano da competência (Marx e Engels, Ideologia alemã, I parte, “Feuerbach”)&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;“Os proprietários da simples força de trabalho, os proprietários do capital e os donos da propriedade fundiárias, cujas respectivas fontes de renda são o salário, o lucro e a renda fundiária, ou seja, os trabalhadores assalariados, os capitalistas e os proprietários fundiários, constituem as três grandes classes da sociedade moderna, fundada sobre o modo de produção capitalista.” (Marx, O Capital, III, 3, Cap. 52)&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Estado,  ideologia, alienação em escritos de Marx&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;“No Estado corporifica-se diante de nós o primeiro poder ideológico sobre os homens, A sociedade cria um órgão para a defesa de seus interesses comuns, em face dos ataques de dentro e de fora. Esse órgão é o poder do Estado. Mas, apenas criado, esse órgão se torna independente da sociedade, tanto mais quanto mais se vai convertendo em órgão de uma determinada classe e mais diretamente impõe o domínio dessa classe. A luta de classe oprimida contra a classe dominante assume forçosamente o caráter de uma luta política, de uma luta dirigida, em primeiro lugar, contra o domínio político dessa classe; a consciência da relação que essa luta política tem para com sua base econômica obscurece e pode chegar a desaparecer inteiramente.” (Engels, Ludwig Feuerbach e o fim da filosofia clássica alemã, cap. IV)&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;“A classe que dispõe dos meios de produção material dispõe ao mesmo tempo dos meios de produção intelectual... As idéias dominantes não são outra coisa senão a expressão ideal das relações materiais dominantes, são as relações materiais dominantes na forma de idéias; são, portanto, expressão das relações que justamente fazem de uma classe a classe dominante.... (Marx e Engels, Ideologia alemã, I parte, “Feuerbach”)&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;“A alienação do trabalhador em seu produto significa não apenas que seu trabalho se converte em um objeto, em uma existência exterior, mas que existe fora dele, independente, estranho, que se converte em um poder independente diante dele; que a vida que dedicou ao objeto enfrenta com ele como coisa estranha e hostil” (Karl Marx. Manuscritos Econômico-filosóficos)&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;“Como os produtores somente entram em contato social mediante a troca de seus produtos de trabalho, as características especificamente sociais de seus trabalhos privados só aparecem dentro dessa troca. Em outras palavras, os trabalhos privados só atuam, de fato, como membros do trabalho social total por meio das relações que a troca estabelece entre os produtos do trabalho e, por meio dos mesmos, entre os produtores. Por isso, aos últimos aparecem as relações sociais entre seus trabalhos privados como o que são, isto é, não como relações diretamente sociais entre pessoas em seus próprios trabalhos, senão como relações reificadas entre as pessoas e relações sociais entre as coisas.” (Karl Marx, O Capital)&lt;br /&gt; &lt;br /&gt; Olavo de Carvalho&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/25961370-1870530698677067918?l=cronicasdeasgardh.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='related' href='http://asgardh.blogspot.com/' title='JOHN LOCKE E O LIBERALISMO'/><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://cronicasdeasgardh.blogspot.com/feeds/1870530698677067918/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=25961370&amp;postID=1870530698677067918&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/25961370/posts/default/1870530698677067918'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/25961370/posts/default/1870530698677067918'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://cronicasdeasgardh.blogspot.com/2009/12/john-locke-e-o-liberalismo.html' title='JOHN LOCKE E O LIBERALISMO'/><author><name>Motoko Aramaki</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='33' height='12' src='http://photos1.blogger.com/blogger/5784/479/400/imagemlogo2.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_uFOPZxZ5oTg/SzTS81ERiBI/AAAAAAAAAnc/FrdXuLfYznA/s72-c/John_Locke.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-25961370.post-6200961140473806589</id><published>2009-03-07T14:18:00.001-03:00</published><updated>2009-03-07T14:18:48.150-03:00</updated><title type='text'>O CAMINHO DO ARCO - Paulo Coelho</title><content type='html'>Para Leonardo Oiticica, em uma manhã de sol em Saint&lt;br /&gt;Martin, que depois de me ver praticar kyudo (O caminho&lt;br /&gt;do arco), me deu a idéia deste texto&lt;br /&gt;O autor&lt;br /&gt;Uma oração sem objetivo é como uma flecha sem arco&lt;br /&gt;Um objetivo sem oração é como um arco sem flecha&lt;br /&gt;Ella Wheeler Wilcox&lt;br /&gt;- Tetsuya.&lt;br /&gt;O rapaz olhou espantado o estrangeiro.&lt;br /&gt;- Ninguém nesta cidade viu Tetsuya segurando um arco – respondeu. – Todos&lt;br /&gt;sabemos que ele trabalha em carpintaria.&lt;br /&gt;- Pode ser que tenha desistido, que tenha se acovardado, isso não me interessa&lt;br /&gt;– insistiu o estrangeiro. – Mas não pode ser considerado o melhor arqueiro do país, se já&lt;br /&gt;abandonou sua arte. E por isso viajei tantos dias: para desafia-lo e colocar um ponto final&lt;br /&gt;em uma fama que já não merece.&lt;br /&gt;O rapaz viu que não adiantava ficar discutindo: era melhor leva- lo até o&lt;br /&gt;carpinteiro, para ver com seus próprios olhos que ele estava enganado.&lt;br /&gt;Tetsuya estava trabalhando na oficina situada nos fundos de sua casa. Virouse&lt;br /&gt;para ver quem chegava, e seu sorriso foi interrompido no meio. Os olhos se fixaram na&lt;br /&gt;longa sacola que o estrangeiro carregava consigo.&lt;br /&gt;- É exatamente o que você está pensando – disse o recém-chegado. – Não vim&lt;br /&gt;aqui para humilhar nem provocar o homem que virou uma lenda. Apenas gostaria de&lt;br /&gt;provar que, com todos os meus anos de prática, consegui chegar à perfeição.&lt;br /&gt;Tetusya fez menção de retornar ao seu trabalho: estava terminando de colocar&lt;br /&gt;os pés de uma mesa.&lt;br /&gt;- Um homem que serviu de exemplo para toda uma geração, não pode&lt;br /&gt;desaparecer como o senhor desapareceu – continuou o estrangeiro. – Segui seus&lt;br /&gt;ensinamentos, procurei respeitar o caminho do arco, e mereço que me veja atirar. Se fizer&lt;br /&gt;isso, irei embora e não direi a ninguém onde se encontra o maior de todos os mestres.&lt;br /&gt;O estrangeiro tirou de sua bagagem um arco longo, feito de bambu&lt;br /&gt;envernizado, com o punho situado um pouco abaixo do centro. Fez uma reverencia para&lt;br /&gt;Tetsuya, caminhou até o jardim, e fez outra reverencia para um lugar determinado. Em&lt;br /&gt;seguida, tirou uma flecha ornada com plumas de águia, abriu as pernas de modo a ter uma&lt;br /&gt;base sólida para atirar, com uma das mãos trouxe o arco até diante de seu rosto, com a&lt;br /&gt;outra colocou a flecha.&lt;br /&gt;O rapaz olhava com um mixto de alegria e espanto. E Tetsuya tinha&lt;br /&gt;interrompido seu trabalho, olhando o estrangeiro com curiosidade.&lt;br /&gt;O homem trouxe o arco – já com a flecha presa à corda – até o centro do seu&lt;br /&gt;peito. Levantou-o acima da cabeça, e a medida que abaixava as mãos, começou a abri- lo.&lt;br /&gt;Quando chegou com a flecha a altura do seu rosto, o arco já estava&lt;br /&gt;completamente estendido. Por um momento que pareceu durar uma eternidade, arqueiro&lt;br /&gt;e arco permaneceram imóveis. O rapaz olhava para o local onde a flecha estava&lt;br /&gt;apontando, mas não via nada.&lt;br /&gt;De repente, a mão da corda se abriu, o braço foi empurrado para trás, o arco&lt;br /&gt;descreveu um giro gracioso na outra mão, e a flecha desapareceu de vista, para tornar a&lt;br /&gt;aparecer ao longe.&lt;br /&gt;- Vá pega-la – disse Tetsuya.&lt;br /&gt;O rapaz voltou com a flecha: ela havia atravessado uma cereja que se&lt;br /&gt;encontrava no chão, a quarenta metros de distância.&lt;br /&gt;Tetsuya fez uma reverência para o arqueiro, foi até um canto de sua&lt;br /&gt;carpintaria, e pegou uma espécie de madeira fina, com curvas delicadas, envolta em uma&lt;br /&gt;longa tira de couro. Desenrolou a tira sem a menor pressa, e apareceu um arco&lt;br /&gt;semelhante ao do estrangeiro – com a diferença que parecia ter sido bastante mais usado.&lt;br /&gt;- Não tenho flechas, e precisarei de uma das suas. Farei o que me pede, mas&lt;br /&gt;terá que manter a promessa que fez: jamais irá revelar o nome da aldeia onde vivo.&lt;br /&gt;“Se alguém perguntar por mim, diga que foi até o final do mundo tentando&lt;br /&gt;encontrar- me, até descobrir que eu tinha sido picado por uma cobra, e morrido dois dias&lt;br /&gt;depois. “&lt;br /&gt;O estrangeiro assentiu com a cabeça, e estendeu uma de suas flechas.&lt;br /&gt;Apoiando uma das extremidades do longo arco de bambu na parede, e fazendo&lt;br /&gt;um considerável muito esforço, Tetsuya colocou a corda. Em seguida, sem dizer nada,&lt;br /&gt;saiu em direção as montanhas.&lt;br /&gt;O estrangeiro e o rapaz o acompanharam. Caminharam por uma hora, até&lt;br /&gt;chegar a uma fenda entre duas rochas, onde corria um rio caudaloso: o lugar só podia ser&lt;br /&gt;cruzado através de uma ponte de corda apodrecida, quase despencando.&lt;br /&gt;Com toda calma, Tetsuya foi até o meio da ponte – que balançava&lt;br /&gt;perigosamente - fez uma reverência para algo do outro lado, armou o arco da mesma&lt;br /&gt;maneira que o estrangeiro havia feito, levantou-o, trouxe-o de volta ao peito, e disparou.&lt;br /&gt;O rapaz e o estrangeiro viram que um pêssego maduro, que se encontrava à&lt;br /&gt;vinte metros do local, havia sido transpassado pela flecha.&lt;br /&gt;- Você atingiu uma cereja, eu atingi um pêssego – disse Tetsuya, voltando&lt;br /&gt;para a segurança da margem. - A cereja é menor.&lt;br /&gt;“Você atingiu seu alvo a quarenta metros, e o meu estava à metade desta&lt;br /&gt;distância. Portanto, você tem condições de repetir o que fiz. Venha até aqui o meio desta&lt;br /&gt;ponte, e faça a mesma coisa.”&lt;br /&gt;Aterrorizado, o estrangeiro caminhou até o meio da ponte semi-apodrecida,&lt;br /&gt;mantendo os olhos fixos no despenhadeiro debaixo dos seus pés. Fez os mesmos gestos&lt;br /&gt;rituais, disparou em direção à arvore de pêssegos, mas a flecha passou muito longe.&lt;br /&gt;Ao voltar para a margem, seu rosto estava pálido.&lt;br /&gt;- Você tem habilidade, tem dignidade, e tem postura – disse Tetsuya. –&lt;br /&gt;Conhece bem a técnica e domina o instrumento, mas não domina sua mente. Sabe atirar&lt;br /&gt;quando todas as circunstâncias são favoráveis, mas se estiver em um terreno perigoso,&lt;br /&gt;não consegue atingir o alvo. Ent retanto, nem sempre o arqueiro pode escolher seu campo&lt;br /&gt;de batalha, de modo que recomece seu treinamento, e esteja preparado para situações&lt;br /&gt;desfavoráveis.&lt;br /&gt;“Continue no caminho do arco, pois ele é o percurso de uma vida. Mas&lt;br /&gt;aprenda que um tiro correto e certeiro é muito diferente de um tiro com a paz na alma. “&lt;br /&gt;O estrangeiro mais uma vez fez uma longa reverência, colocou seu arco e&lt;br /&gt;suas flechas na longa sacola que carregava ao ombro, e partiu.&lt;br /&gt;No caminho de volta, o rapaz estava exultante.&lt;br /&gt;- Você o humilhou, Tetsuya! Você deve ser mesmo o melhor de todos!&lt;br /&gt;- Não deveríamos julgar pessoas sem antes aprender a ouvi- las e respeita- las.&lt;br /&gt;O estrangeiro era um homem bom: não me humilhou, nem tentou provar que era melhor,&lt;br /&gt;embora desse a impressão de fazer isso. Queria mostrar sua arte, e vê-la reconhecida,&lt;br /&gt;mesmo que desse a impressão de estar me desafiando.&lt;br /&gt;“Além do mais, faz parte do caminho do arco enfrentar de vez em quando&lt;br /&gt;algumas provas inesperadas, e foi justamente o que o estrangeiro me permitiu fazer hoje”.&lt;br /&gt;- Ele disse que você era o melhor de todos, e eu nem sabia que você era um&lt;br /&gt;mestre no tiro com arco. Se é assim, por que trabalha em uma carpintaria?&lt;br /&gt;- Porque o caminho do arco serve para tudo, e meu sonho era trabalhar com&lt;br /&gt;madeira. Alem do mais, um arqueiro que segue este caminho não precisa de arco, nem de&lt;br /&gt;flecha, nem de alvo.&lt;br /&gt;- Nada de interessante acontece nesta aldeia, e de repente eu me dei conta que&lt;br /&gt;estou diante de um mestre em uma arte que ninguém se interessa mais – disse o rapaz,&lt;br /&gt;com os olhos brilhando. – O que é o caminho do arco? Você pode me ensinar?&lt;br /&gt;- Ensinar não é difícil. Posso fazer isso em menos de uma hora, enquanto&lt;br /&gt;caminhamos de volta ao vilarejo. O difícil é praticar todos os dias, até conseguir a&lt;br /&gt;precisão necessária.&lt;br /&gt;Os olhos do rapaz pareciam implorar uma resposta positiva. Tetsuya andou&lt;br /&gt;em silencio por quase quinze minutos, e quando tornou a falar, sua voz parecia mais&lt;br /&gt;jovem:&lt;br /&gt;- Hoje estou contente: honrei o homem que, há muitos anos atrás, salvou&lt;br /&gt;minha vida. Por causa disso, lhe darei todas as regras necessárias, mas não posso fazer&lt;br /&gt;nada além disso: se você entender o que estou dizendo, poderá usar estes ensinamentos&lt;br /&gt;para o que desejar.&lt;br /&gt;“Há poucos minutos, você me chamou de mestre. O que é um mestre? Pois eu&lt;br /&gt;lhe respondo: não é aquele que ensina algo, mas aquele que inspira o aluno a dar o&lt;br /&gt;melhor de si para descobrir um conhecimento que ele já tem em sua alma. “&lt;br /&gt;E enquanto desciam a montanha, Tetsuya explicou o caminho do arco.&lt;br /&gt;OS ALIADOS&lt;br /&gt;O arqueiro que não compartilha com outros a alegria do arco e da flecha,&lt;br /&gt;jamais irá conhecer suas próprias qualidades e defeitos.&lt;br /&gt;Portanto, antes de começar qualquer coisa, busque aliados – gente que se&lt;br /&gt;interessa pelo você está fazendo.&lt;br /&gt;Não digo: “busque outros arqueiros.” Digo: encontre pessoas com diferentes&lt;br /&gt;habilidades, porque o caminho do arco não é diferente de qualquer caminho seguido com&lt;br /&gt;entusiasmo.&lt;br /&gt;Seus aliados não serão necessariamente aquelas pessoas que todos olham, se&lt;br /&gt;deslumbram, e afirmam: “ não existe ninguém melhor.” Muito pelo contrário: é gente&lt;br /&gt;que não tem medo de errar, e portanto erra. Por causa disso, nem sempre seu trabalho é&lt;br /&gt;reconhecido. Mas é este tipo de pessoa que transforma o mundo, e depois de muitos erros&lt;br /&gt;consegue acertar algo que que fará a diferença completa na sua comunidade.&lt;br /&gt;São pessoas que não podem ficar esperando que as coisas aconteçam, para&lt;br /&gt;depois poderem decidir qual a melhor atitude a tomar: elas decidem a medida que agem,&lt;br /&gt;mesmo sabendo que isso pode ser muito arriscado.&lt;br /&gt;Conviver com estas pessoas é importante para um arqueiro, porque ele precisa&lt;br /&gt;entender que, antes de colocar-se diante do alvo, deve ser livre o bastante para mudar de&lt;br /&gt;direção a medida que traz a flecha para diante do seu peito. Quando ele abre sua mão e&lt;br /&gt;solta a corda, , deve dizer para si mesmo: “ enquanto abria o arco, percorri um longo&lt;br /&gt;caminh. Agora solto esta flecha com a consciência de que arrisquei o bastante, e dei o&lt;br /&gt;melhor de mim. “&lt;br /&gt;Os melhores aliados são aqueles que não pensam como os outros. Por isso,&lt;br /&gt;ao buscar companheiros para dividir com você o entusiasmo do tiro, acredite na sua&lt;br /&gt;intuição, e não ligue para os comentários alheios. As pessoas sempre julgam os outros&lt;br /&gt;tendo como modelo suas própria limitações – e as vezes a opinião da comunidade é cheia&lt;br /&gt;de preconceitos e medos.&lt;br /&gt;Junte-se a todos que experimentam, arriscam, caem, se machucam, e tornam a&lt;br /&gt;arriscar. Afaste-se daqueles que afirmam verdades, criticam os que não pensam como&lt;br /&gt;eles, jamais deram um passo sem ter certeza de que seriam respeitados por isso, e&lt;br /&gt;preferem ter certezas do que ter dúvidas..&lt;br /&gt;Junte-se aos que se expõem e não temem ser vulneráveis: esses entendem que&lt;br /&gt;as pessoas só podem melhorar quando olham o que seu próximo está fazendo, não para&lt;br /&gt;julga- lo, mas para admira-lo por sua dedicação e coragem.&lt;br /&gt;Talvez você pense que atirar com o arco não pode interessar a um padeiro ou&lt;br /&gt;a um agricultor, mas eu lhe digo: eles colocarão o que viram naquilo que estão fazendo.&lt;br /&gt;Você também fará o mesmo: aprenderá com o bom padeiro como usar usar as mãos, e&lt;br /&gt;como saber a exata mistura dos ingredientes. Aprenderá com o agricultor a ter paciência,&lt;br /&gt;trabalhar duro, respeitar as estações, e não blasfemar contra as tempestades – porque isso&lt;br /&gt;seria uma perda de tempo.&lt;br /&gt;Junte-se aos que são flexíveis como a madeira do seu arco, e entendem os&lt;br /&gt;sinais do caminho. São pessoas que não hesitam em mudar de curso quando descobrem&lt;br /&gt;uma barreira intransponível, ou quando vislumbram uma oportunidade melhor. Essas é a&lt;br /&gt;qualidade da água: contornar rochas, adaptar-se ao curso do rio, as vezes transformar-se&lt;br /&gt;em lago até que a depressão esteja cheia e possa continuar seu caminho, porque a água&lt;br /&gt;não esquece que seu destino é o mar, e mais cedo ou mais tarde deverá chegar até ele.&lt;br /&gt;Junte-se aos que jamais disseram: “acabou, preciso parar por aqui.” Porque&lt;br /&gt;assim como o inverno é seguido pela primavera, nada pode acabar: depois de atingir seu&lt;br /&gt;objetivo é necessário recomeçar de novo, sempre usando tudo que aprendeu no caminho.&lt;br /&gt;Junte-se aos que cantam, contam histórias, desfrutam a vida, e tem alegria nos&lt;br /&gt;olhos. Porque a alegria é contagiosa, e sempre consegue impedir que as pessoas se&lt;br /&gt;deixem paralisar pela depressão, pela solidão, e pelas dificuldades. .&lt;br /&gt;Junte-se à todos que fazem seu trabalho com entusiasmo. Mas para que você&lt;br /&gt;possa ser útil a eles como eles são úteis a você, é preciso saber quais são as suas&lt;br /&gt;ferramentas, e como poderá aperfeiçoar suas habilidades.&lt;br /&gt;Portanto, é chegada a hora de conhecer seu arco, sua flecha, seu alvo, e seu&lt;br /&gt;caminho.&lt;br /&gt;O ARCO&lt;br /&gt;O arco é a vida: dele vem toda a energia.&lt;br /&gt;A flecha irá partir um dia.&lt;br /&gt;O alvo está longe.&lt;br /&gt;Mas o arco permanecerá sempre com você, e é preciso saber cuida-lo.&lt;br /&gt;Precisa de períodos de inação – um arco que sempre está armado, em estado&lt;br /&gt;de tensão, perde sua potência. Portanto, deixe-o repousar, recuperar sua firmeza: assim,&lt;br /&gt;quando você esticar a corda, ele estará contente e com sua força intacta.&lt;br /&gt;O arco não tem consciência: ele é um prolongamento da mão e do desejo do&lt;br /&gt;arqueiro. Serve para matar ou para meditar. Portanto, seja sempre claro em suas&lt;br /&gt;intenções.&lt;br /&gt;Um arco tem flexibilidade, mas também tem um limite. Um esforço além da&lt;br /&gt;sua capacidade irá quebra- lo, ou deixar exausta a mão que o segura. Portanto, procure&lt;br /&gt;estar em harmonia com o seu instrumento,e não exigir mais do que ele pode lhe dar.&lt;br /&gt;Um arco está repousando ou estendido na mão do arqueiro: mas a mão é&lt;br /&gt;apenas o lugar onde todos os músculos do corpo, todas as intenções daquele que atira,&lt;br /&gt;todo o esforço para o tiro está concentrado. Portanto, para manter com elegância o arco&lt;br /&gt;aberto, faça com que cada parte dê apenas o necessário, e não disperse suas energias.&lt;br /&gt;Assim, você poderá disparar muitas flechas sem se cansar.&lt;br /&gt;Para entender seu arco, ele precisa passar a fazer parte do seu braço, e ser uma&lt;br /&gt;extensão do seu pensamento.&lt;br /&gt;A FLECHA&lt;br /&gt;A flecha é o intento.&lt;br /&gt;É o que une a força do arco com o centro do alvo.&lt;br /&gt;O intento tem que ser cristalino, reto, bem equilibrado.&lt;br /&gt;Uma vez que ela parte, não voltará, então é melhor interromper um tiro –&lt;br /&gt;porque os movimentos que o levaram até ele não estavam precisos e corretos – do que&lt;br /&gt;agir de qualquer maneira, só porque o arco já estava retesado e o alvo estava esperando.&lt;br /&gt;Mas jamais deixe de soltar a flecha se a única coisa que o paralisa é o medo de&lt;br /&gt;errar. Se fizer os movimentos corretos, abra sua mão e solte a corda. Mesmo que ela não&lt;br /&gt;atinja o alvo, você saberá corrigir sua pontaria da próxima vez.&lt;br /&gt;Se não arriscar, jamais saberá quais as mudanças que eram necessárias. .&lt;br /&gt;Cada flecha deixa em seu coração uma lembrança – e é a soma destas&lt;br /&gt;lembranças que o fará disparar cada vez melhor.&lt;br /&gt;O ALVO&lt;br /&gt;O alvo é o objetivo a ser alcançado.&lt;br /&gt;Foi escolhido pelo arqueiro, mas está distante, e não podemos jamais culpa-lo&lt;br /&gt;quando não é atingido. Nisso reside a beleza do caminho do arco: você não pode jamais&lt;br /&gt;desculpar-se, dizendo que o adversário era mais forte.&lt;br /&gt;Foi você que escolheu seu alvo, e é responsável por ele.&lt;br /&gt;O alvo pode ser maior, menor, estar a direita ou a esquerda, mas você tem que&lt;br /&gt;sempre colocar-se diante dele, respeita-lo, e fazer com que ele se aproxime mentalmente.&lt;br /&gt;Só quando ele estiver na ponta de sua flecha, é que você deve soltar a corda.&lt;br /&gt;Se você olhar o alvo como inimigo, poderá até mesmo acertar o seu tiro, mas&lt;br /&gt;não conseguirá melhorar nada em você mesmo. Passará sua vida tentando colocar apenas&lt;br /&gt;uma flecha no centro de uma coisa de papel ou madeira, o que é absolutamente inútil. E&lt;br /&gt;quando estiver com outras pessoas, viverá reclamando que não faz nada de interessante.&lt;br /&gt;Por isso, você precisa escolher seu alvo, dar o melhor de si para atingi- lo, e&lt;br /&gt;sempre olha- lo com respeito e dignidade: precisa saber o que o que ele significa, e&lt;br /&gt;quanto custou do seu esforço, do seu treinamento, da sua intuição.&lt;br /&gt;Ao olhar o alvo, não se concentre apenas nele, mas em tudo que acontece ao&lt;br /&gt;seu redor: porque a flecha, ao ser disparada, irá encontrar-se com fatores que você não&lt;br /&gt;conta, como o vento, o peso, a distancia.&lt;br /&gt;Você tem que entender o alvo. Precisa perguntar constantemente: “se eu sou&lt;br /&gt;o alvo, onde estou? Como gostaria de ser atingido, de modo a dar ao arqueiro a honra que&lt;br /&gt;ele merece?”&lt;br /&gt;Porque um alvo só existe na medida em que o arqueiro existe. O que justifica&lt;br /&gt;a sua existência é o desejo do arqueiro de atingi-lo - ou ele seria uma coisa morta, um&lt;br /&gt;pedaço de papel ou madeira, em que ninguém prestaria atenção.&lt;br /&gt;Assim, da mesma maneira que a flecha busca o alvo, o alvo também busca a&lt;br /&gt;flecha, porque é ela que dá sentido a sua existência: já não é mais o papel, mas o centro&lt;br /&gt;do mundo de um arqueiro.&lt;br /&gt;A POSTURA&lt;br /&gt;Uma vez entendendo o arco, a flecha, e o alvo, é preciso ter serenidade e&lt;br /&gt;elegância para aprender a prática do tiro.&lt;br /&gt;A serenidade vem do coração. Embora muitas vezes torturado por&lt;br /&gt;pensamentos de insegurança, ele sabe que - através da postura correta – irá conseguir o&lt;br /&gt;melhor de si.&lt;br /&gt;A elegância não é uma coisa superficial, mas a maneira que o homem&lt;br /&gt;encontrou para honrar a vida e o seu trabalho. Por isso, quando as vezes você sentir que a&lt;br /&gt;postura o está incomodando, não pense que ela é falsa ou artificial: ela é verdadeira&lt;br /&gt;porque é difícil. Ela faz com que o alvo se sinta honrado pela dignidade do arqueiro.&lt;br /&gt;A elegância não é a postura mais confortável, mas a postura mais adequada&lt;br /&gt;para que o tiro seja perfeito.&lt;br /&gt;A elegância é atingida quando todo o supérfluo é descartado, e o arqueiro&lt;br /&gt;descobre a simplicidade e a concentração: quanto mais simples e mais sóbria a postura,&lt;br /&gt;mais bela ela será.&lt;br /&gt;A neve é bonita porque tem apenas uma cor, o mar é bonito porque parece&lt;br /&gt;uma superfície plana – mas tanto o mar como a neve são profundos e conhecem suas&lt;br /&gt;qualidades.&lt;br /&gt;COMO SEGURAR A FLECHA&lt;br /&gt;Segurar a flecha é estar em contacto com a sua intenção.&lt;br /&gt;É preciso olhar todo seu comprimento, ver se as plumas que guiam seu vôo&lt;br /&gt;estão bem colocadas, verificar a ponta, ter certeza de que ela está afiada. Certificar-se que&lt;br /&gt;está reta, não foi curvada ou danificada por um tiro anterior.&lt;br /&gt;A flecha, como sua simplicidade e leveza, pode parecer frágil – mas a força do&lt;br /&gt;arqueiro faz com que ela consiga carregar para longe a energia de seu corpo e de sua&lt;br /&gt;mente. Conta a lenda que uma simples flecha já foi capaz de afundar um navio, porque o&lt;br /&gt;homem que a atirou sabia onde estava a parte mais fraca da madeira, e assim abriu um&lt;br /&gt;buraco que fez com que a água penetrasse sem ruído no porão, destruindo a ameaça dos&lt;br /&gt;invasores de sua aldeia.&lt;br /&gt;A flecha é a intenção que deixa a mão do arqueiro, e parte em direção ao alvo&lt;br /&gt;– portanto, ela é livre em seu vôo, e irá seguir o caminho que lhe foi destinado no&lt;br /&gt;momento do tiro.&lt;br /&gt;Será tocada pelo vento e pela gravidade, mas isso é parte do seu percurso:&lt;br /&gt;uma folha não deixa de ser folha só porque uma tempestade a arrancou da árvore.&lt;br /&gt;Assim é a intenção do homem: perfeita, reta, afiada, firme, precisa. Ninguém&lt;br /&gt;consegue dete- la enquanto cruza o espaço que a separa do seu destino.&lt;br /&gt;COMO SEGURAR O ARCO&lt;br /&gt;Tenha calma e respire profundamente.&lt;br /&gt;Todos os movimentos estão sendo notados pelos aliados, que o ajudarão no&lt;br /&gt;que for necessário.&lt;br /&gt;Mas não esqueça que o adversário também está observando, e conhece a&lt;br /&gt;diferença entre a mão firme e a mão tremula: portanto, se estiver tenso, respire fundo,&lt;br /&gt;porque isso o ajudará a concentrar-se em todas as etapas do tiro.&lt;br /&gt;No momento em que você segura seu arco e o coloca – com elegância –&lt;br /&gt;diante do corpo, procure rever mentalmente cada etapa que o levou a preparar o disparo.&lt;br /&gt;Mas faça isso sem tensão, porque é impossível ter todas as regras na cabeça: e com o&lt;br /&gt;espírito tranqüilo, a medida em que revê cada etapa, irá dar-se conta dos momentos mais&lt;br /&gt;difíceis, e de como os superou.&lt;br /&gt;Isso lhe dará confiança, e sua mão não tremerá mais.&lt;br /&gt;COMO ESTENDER A CORDA&lt;br /&gt;O arco é um instrumento de musica, e é na corda que o seu som se manifesta.&lt;br /&gt;A corda é grande, mas a flecha a toca apenas em um pequeno ponto, e é neste&lt;br /&gt;ponto que toda a sabedoria e experiência do arqueiro deve estar concentrada.&lt;br /&gt;Se ele inclinar-se um pouco para a direita, ou um pouco para a esquerda, se&lt;br /&gt;este ponto estiver acima ou abaixo da linha de tiro, o objetivo jamais será alcançado.&lt;br /&gt;Portanto, ao estender a corda, seja como o músico que toca seu instrumento.&lt;br /&gt;Na música, o tempo é mais importante que o espaço: um bando de notas colocadas em&lt;br /&gt;linha não quer dizer nada, mas aquele que lê o que ali está escrito consegue transformar&lt;br /&gt;esta linha em sons e compassos.&lt;br /&gt;Assim como o arqueiro justifica a existência do alvo, a flecha justifica a&lt;br /&gt;existência do arco: você pode lançar uma flecha com a mão, mas um arco sem flecha não&lt;br /&gt;tem qualquer utilidade.&lt;br /&gt;Portanto, quando abrir os braços, não pense que você está esticando o arco.&lt;br /&gt;Pense que a flecha é o centro, imóvel, e você esta fazendo com que o arco e a corda se&lt;br /&gt;aproximem de suas extremidades, tocando-a com cuidado, pedindo para que coopere com&lt;br /&gt;você.&lt;br /&gt;COMO OLHAR O ALVO&lt;br /&gt;Muitos arqueiros se queixam que, apesar de praticarem por anos a arte do tiro,&lt;br /&gt;ainda sentem o coração disparar de ansiedade, a mão tremer, a pontaria falhar. Eles&lt;br /&gt;precisam entender que um arco ou uma flecha não podem mudar nada – mas a arte do&lt;br /&gt;tiro faz com que nossos erros sejam mais evidentes.&lt;br /&gt;No dia que você estiver sem amor pela vida, seu tiro será confuso,&lt;br /&gt;complicado. Verá que está sem força suficiente para esticar ao máximo a corda, que não&lt;br /&gt;consegue fazer o arco curvar-se como deve.&lt;br /&gt;E ao ver que seu tiro é confuso naquela manhã, vai tentar descobrir o que&lt;br /&gt;provocou tamanha imprecisão: isso fará com que se enfrente com um problema que o&lt;br /&gt;incomoda, mas que até então encontrava-se oculto.&lt;br /&gt;O contrario também acontece: seu tiro é seguro, a corda soa como o&lt;br /&gt;instrumento musical, os pássaros cantam ao redor. Então você percebe que está dando o&lt;br /&gt;melhor de si mesmo.&lt;br /&gt;Entretanto, não se deixe levar pelos tiros da manhã, sejam eles precisos ou&lt;br /&gt;inseguros. Ainda existem muitos outros dias pela frente, e cada flecha é uma vida em si.&lt;br /&gt;Aproveite os maus momentos para descobrir o que o faz tremer. Aproveite os&lt;br /&gt;bons momentos para encontrar seu caminho até a paz interior.&lt;br /&gt;Mas não pare por temor nem por alegria: o caminho do arco é um caminho&lt;br /&gt;sem fim.&lt;br /&gt;O MOMENTO DE DISPARAR&lt;br /&gt;Existem dois tipos de tiro.&lt;br /&gt;O primeiro é aquele que é dado com precisão, mas sem alma. Neste caso,&lt;br /&gt;embora o arqueiro tenha um grande domínio da técnica, ele concentrou-se&lt;br /&gt;exclusivamente no alvo – e por causa disso não evoluiu, tornou-se repetitivo, não&lt;br /&gt;conseguiu crescer, e um dia irá deixar o caminho do arco, porque acha que tudo&lt;br /&gt;transformou-se em rotina.&lt;br /&gt;O segundo tiro é o que é dado com a alma. Quando a intenção do arqueiro se&lt;br /&gt;transforma no vôo da flecha, sua mão abre no momento certo, o som da corda faz os&lt;br /&gt;pássaros cantarem, e o gesto de atirar alguma coisa à distancia provoca – paradoxalmente&lt;br /&gt;– um retorno e um encontro consigo mesmo.&lt;br /&gt;Você sabe o esforço que custou para abrir o arco, respirar direito, concentrarse&lt;br /&gt;em seu objetivo, ter clara sua intenção, manter a elegância da postura, respeitar o alvo.&lt;br /&gt;Mas precisa também compreender que nada neste mundo fica conosco por&lt;br /&gt;muito tempo: em um dado momento sua mão terá que se abrir, e deixar que sua intenção&lt;br /&gt;siga seu destino.&lt;br /&gt;Portanto, a flecha tem que partir, por mais que você ame todos os passos que o&lt;br /&gt;levaram até à postura elegante e à intenção correta, e por mais que você admire suas&lt;br /&gt;plumas, sua ponta, sua forma.&lt;br /&gt;Mas ela não pode sair antes do arqueiro estar pronto para o disparo, porque&lt;br /&gt;seu vôo seria pequeno. Ela não pode sair depois de se ter atingido a postura e a&lt;br /&gt;concentração exatas, porque o corpo não resistiria ao esforço e a mão começaria a tremer.&lt;br /&gt;Ela tem que partir no momento em que o arco, o arqueiro, e o alvo se&lt;br /&gt;encontram no mesmo ponto do universo: isso é chamado de inspiração.&lt;br /&gt;A REPETIÇAO&lt;br /&gt;O gesto é a encarnação do verbo: ou seja, uma ação é um pensamento que se&lt;br /&gt;manifesta.&lt;br /&gt;Um pequeno gesto nos denuncia, de modo que temos que aperfeiçoar tudo,&lt;br /&gt;pensar nos detalhes, aprender a técnica de tal maneira que ela se torne intuitiva. Intuição&lt;br /&gt;nada tem a ver com rotina, mas com um estado de espírito que está além da técnica.&lt;br /&gt;Assim, depois de muito praticar, já não pensamos em todos os movimentos&lt;br /&gt;necessários: eles passam a fazer parte de nossa própria existência. Mas para isso, é&lt;br /&gt;preciso treinar, repetir.&lt;br /&gt;E como se não bastasse, é preciso repetir e treinar.&lt;br /&gt;Observe um bom ferreiro trabalhando o aço. Para o olhar destreinado, ele está&lt;br /&gt;repetindo as mesmas marteladas.&lt;br /&gt;Mas quem conhece o caminho do arco, sabe que cada vez que ele levanta o&lt;br /&gt;martelo e o faz descer, a intensidade do golpe é diferente. A mão repete o mesmo gesto,&lt;br /&gt;mas a medida que se aproxima do ferro, ela compreende se deve toca- lo com mais&lt;br /&gt;dureza ou mais suavidade.&lt;br /&gt;Assim é com a repetição: embora pareça a mesma coisa, ela é sempre distinta .&lt;br /&gt;Observe o moinho. Para quem olha suas pás apenas uma vez, ele parece girar&lt;br /&gt;com a mesma velocidade, repetindo sempre o mesmo movimento.&lt;br /&gt;Mas aquele que conhece os moinhos sabe que eles estão condicionados ao&lt;br /&gt;vento, e mudam de direção sempre que isso é necessário.&lt;br /&gt;A mão do ferreiro foi educada depois que ele repetiu milhares de vezes o&lt;br /&gt;gesto de martelar. As pás do moinho são capazes de se moverem com velocidade depois&lt;br /&gt;que o vento soprou muito, e fez com que suas engrenagens ficassem polidas.&lt;br /&gt;O arqueiro permite que muitas flechas passem longe do seu objetivo, porque&lt;br /&gt;sabe que só irá aprender a importância do arco, da postura, da corda, e do alvo, depois&lt;br /&gt;que repetir seus gestos milhares de vezes, sem medo de errar.&lt;br /&gt;E os verdadeiros aliados jamais o criticarão, porque sabem que o treinamento&lt;br /&gt;é necessário, é a única maneira de aperfeiçoar seu instinto e seu golpe.&lt;br /&gt;Até que chega o momento em que não é mais preciso pensar no que se está&lt;br /&gt;fazendo. A partir daí, o arqueiro passa a ser seu arco, sua flecha, e seu alvo.&lt;br /&gt;COMO OBSERVAR O VÔO DA FLECHA&lt;br /&gt;Uma vez que a flecha foi disparada, já não há mais nada que o arqueiro possa&lt;br /&gt;fazer, a não ser acompanhar o seu percurso em direção ao alvo. A partir deste momento, a&lt;br /&gt;tensão necessária para o tiro já não tem mais razão para existir.&lt;br /&gt;Portanto, o arqueiro mantem os olhos fixos no vôo da flecha, mas seu coração&lt;br /&gt;repousa, e ele sorri.&lt;br /&gt;A mão que soltou a corda é empurrada para trás, a mão do arco faz um&lt;br /&gt;movimento de expansão, o arqueiro é forçado a abrir os braços e enfrentar, de peito&lt;br /&gt;aberto, o olhar de seus aliados e de seus adversários.&lt;br /&gt;Neste momento, se treinou o bastante, se conseguiu desenvolver seu instinto,&lt;br /&gt;se manteve a elegância e a concentração durante todo o processo do disparo, ele sentirá a&lt;br /&gt;presença do universo, e verá que sua ação foi justa e merecida.&lt;br /&gt;A técnica faz com que as duas mãos estejam prontas, que a respiração seja&lt;br /&gt;precisa, que os olhos possam fixar o alvo. O instinto faz com o momento do disparo seja&lt;br /&gt;perfeito.&lt;br /&gt;Quem passar por perto e ver o arqueiro de braços abertos, com os olhos&lt;br /&gt;acompanhando a flecha, irá achar que está parado. Mas os aliados sabem que a mente de&lt;br /&gt;quem fez o disparo mudou de dimensão, está agora em contacto com todo o universo: ela&lt;br /&gt;continua trabalhando, aprendendo tudo o que aquele disparo trouxe de positivo,&lt;br /&gt;corrigindo os eventuais erros, aceitando suas qualidades, esperando para ver como o alvo&lt;br /&gt;reage ao ser atingido.&lt;br /&gt;Quando o arqueiro estica a corda, pode ver o mundo inteiro dentro do seu&lt;br /&gt;arco. Quando acompanha o vôo da flecha, este mundo se aproxima dele, o acaricia, e faz&lt;br /&gt;com que tenha a sensação perfeita do dever cumprido.&lt;br /&gt;Cada flecha voa de maneira diferente. Atire mil flechas, cada uma irá lhe&lt;br /&gt;mostrar um percurso distinto: esse é o caminho do arco.&lt;br /&gt;O ARQUEIRO SEM ARCO, SEM FLECHA, SEM ALVO&lt;br /&gt;O arqueiro aprende quando esquece as regras do caminho do arco, e passa a&lt;br /&gt;agir baseado apenas no seu instinto. Entretanto, para esquecer as regras, é preciso saber&lt;br /&gt;respeita- las e conhece-las.&lt;br /&gt;Quando ele atinge este estado, já não precisa dos instrumentos que o fizeram&lt;br /&gt;aprender. Já não precisa do arco, nem das flechas, nem do alvo – porque o caminho é&lt;br /&gt;mais importante que aquilo que o levou a caminhar.&lt;br /&gt;Da mesma maneira, o aluno que está aprendendo a ler chega ao momento em&lt;br /&gt;que se liberta das letras isoladas. e passa a criar palavras com elas.&lt;br /&gt;Entretanto, se as palavras estivessem todas unidas, elas não fariam sentido, ou&lt;br /&gt;complicariam muito o seu entendimento: é necessário que existam espaços entre as&lt;br /&gt;palavras.&lt;br /&gt;É necessário que, entre uma ação e a próxima, o arqueiro relembre tudo que&lt;br /&gt;fez, converse com seus aliados, descanse e fique contente com o fato de estar vivo.&lt;br /&gt;O caminho do arco é o caminho da alegria e do entusiasmo, da perfeição e do&lt;br /&gt;erro, da técnica e do instinto.&lt;br /&gt;Mas você só irá aprende-lo a medida que for atirando suas flechas.&lt;br /&gt;Quando Tetsuya parou de falar, já estavam na porta da carpintaria.&lt;br /&gt;- Obrigado pela companhia – disse ao rapaz.&lt;br /&gt;Mas este não se moveu.&lt;br /&gt;- Como posso saber se estou agindo certo? Como terei certeza de que tenho o&lt;br /&gt;olhar concentrado, a postura elegante, o arco seguro de maneira correta?&lt;br /&gt;- Mentalize a idéia de um mestre perfeito sempre ao seu lado, e faça tudo para&lt;br /&gt;reverencia-lo e honrar seus ensinamentos. Este mestre, que muitos chamam de Deus,&lt;br /&gt;outros chamam de “a coisa”, outros chamam de talento, está sempre ali nos olhando. Ele&lt;br /&gt;merece que o melhor.&lt;br /&gt;“Lembre-se também dos seus aliados: você tem que apóia-los, porque eles lhe&lt;br /&gt;ajudarão nos momentos em que estará precisando. Procure desenvolver o dom da&lt;br /&gt;bondade: este dom lhe permite estar sempre em paz com seu coração. Mas sobretudo não&lt;br /&gt;esqueça: o que lhe falei são talvez palavras inspiradas, mas só terão sentido se você as&lt;br /&gt;experimentar.&lt;br /&gt;Tetsuya estendeu a mão para despedir-se, mas o rapaz pediu:&lt;br /&gt;- Só mais uma coisa: como foi que aprendeu a atirar?&lt;br /&gt;Tetsuya refletiu um pouco: valia a pena contar? Mas como aquele tinha sido&lt;br /&gt;um dia especial, terminou abrindo a porta de sua oficina.&lt;br /&gt;- Vou preparar um chá. E vou contar a história – mas você terá que prometer a&lt;br /&gt;mesma coisa que eu pedi que o estrangeiro me prometesse: jamais comentar com&lt;br /&gt;ninguém sobre minha habilidade.&lt;br /&gt;Entrou, acendeu a luz, tornou a envolver seu arco com a longa tira de couro, e&lt;br /&gt;colocou-o em um lugar discreto: se alguém o achasse por acaso, iria pensar que era&lt;br /&gt;apenas um pedaço de bambu retorcido. Foi até a cozinha, preparou o chá, sentou-se com&lt;br /&gt;o rapaz, e começou sua história.&lt;br /&gt;- Eu trabalhava para um grande senhor das redondezas: era encarregado de&lt;br /&gt;cuidar dos seus estábulos. Mas como o senhor viajava sempre, e meu tempo livre era&lt;br /&gt;enorme, resolvi me dedicar ao que considerava a verdadeira razão de viver: bebida e&lt;br /&gt;mulheres.&lt;br /&gt;“Um belo dia, depois de várias noites em claro, senti uma vertigem e cai no&lt;br /&gt;meio do campo. Achei que ia morrer, e entreguei-me. Mas um homem que jamais tinha&lt;br /&gt;visto passou pela estrada, amparou-me, levou- me até sua casa – em um lugar muito&lt;br /&gt;distante daqui – e cuidou de minha saúde durante meses seguidos. Enquanto repousava,&lt;br /&gt;eu o via todas as manhãs ir para o campo com seu arco e suas flechas.&lt;br /&gt;“Quando me senti recuperado, pedi que me ensinasse a arte do arco – era&lt;br /&gt;muito mais interessante que cuidar de cavalos. Ele me disse, entretanto, que minha morte&lt;br /&gt;tinha se aproximado muito, e agora não podia faze- la recuar: ela estava a dois passos de&lt;br /&gt;mim, eu já havia causado muito dano a meu corpo físico.&lt;br /&gt;“ Se eu quisesse aprender, era apenas para que minha morte não me&lt;br /&gt;tocasse. Um homem de um país distante, do outro lado do oceano, havia lhe ensinado que&lt;br /&gt;era possível desviar por algum tempo o caminho até o precipício da morte. Mas no meu&lt;br /&gt;caso , pelo resto de meus dias, eu precisava ter consciência de que estava caminhando à&lt;br /&gt;beira deste abismo, e podia cair nele a qualquer momento.&lt;br /&gt;“Ensinou-me então o caminho do arco. Apresentou-me aos seus aliados,&lt;br /&gt;obrigou- me a participar de competições, e logo minha fama se espalhou por todo o país.&lt;br /&gt;Quando viu que eu já aprendera o suficiente, retirou minhas flechas, meu alvo, deixando&lt;br /&gt;apenas o arco como lembrança. Disse que eu usasse todo aqueles ensinamentos para fazer&lt;br /&gt;algo que realmente me enchesse de entusiasmo.&lt;br /&gt;“Eu comentei que a coisa que mais gostava era a carpintaria. Ele me&lt;br /&gt;abençoou, pediu que eu partisse e me dedicasse ao que gostava de fazer, antes que minha&lt;br /&gt;fama como arqueiro terminasse por me destruir, ou me levasse de volta à antiga vida.&lt;br /&gt;“ Desde então, travo todos os segundos uma luta contra meus vícios e&lt;br /&gt;minha auto-piedade. Preciso estar concentrado, manter a calma, fazer com amor o&lt;br /&gt;trabalho que escolhi, e jamais ter apego ao momento presente. Porque a morte continua&lt;br /&gt;ainda muito próxima, o abismo está do lado, e eu caminho pela sua borda.”&lt;br /&gt;Tetsuya não disse que a morte está sempre perto todos os seres vivos: o&lt;br /&gt;rapaz era ainda muito jovem, e não precisava ficar pensando nisso. Tetsuya tampouco&lt;br /&gt;disse que cada etapa do caminho do arco estava presente em qualquer atividade humana.&lt;br /&gt;Apenas abençoou o rapaz, da mesma maneira que tinha sido abençoado há&lt;br /&gt;muitos anos, e pediu que fosse embora, porque tinha sido um longo dia, e precisava&lt;br /&gt;dormir.&lt;br /&gt;AGRADECIMENTOS&lt;br /&gt;Herve Louit e Didier Faure, por me terem aberto o caminho do arco.&lt;br /&gt;Harrigel , pelo livro “Zen e a arte cavalheiresca do tiro com arco” (Ed.&lt;br /&gt;Pensamento)&lt;br /&gt;Pamela Hartigan, diretora geral da Schwab Foudation for Social&lt;br /&gt;Entrepreneurship: por descrever as qualidades dos aliados.&lt;br /&gt;Dan e Jackie DeProspero pelo livro sobre Onuma-san, “Kyudo”( Budo&lt;br /&gt;Editions, France).&lt;br /&gt;Carlos Castaneda, pela descrição do encontro da morte com o nagual Elias.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/25961370-6200961140473806589?l=cronicasdeasgardh.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://cronicasdeasgardh.blogspot.com/feeds/6200961140473806589/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=25961370&amp;postID=6200961140473806589&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/25961370/posts/default/6200961140473806589'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/25961370/posts/default/6200961140473806589'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://cronicasdeasgardh.blogspot.com/2009/03/o-caminho-do-arco-paulo-coelho.html' title='O CAMINHO DO ARCO - Paulo Coelho'/><author><name>Motoko Aramaki</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='33' height='12' src='http://photos1.blogger.com/blogger/5784/479/400/imagemlogo2.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-25961370.post-6849185875814247005</id><published>2009-03-07T14:17:00.001-03:00</published><updated>2009-03-07T14:17:59.610-03:00</updated><title type='text'>Alguns exemplos de gente como a gente - paulo coelho</title><content type='html'>Eu sou parte da terra&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As guerras entre os conquistadores do Oeste americano e os índios tornavam-se cada vez mais violentas. Pouco antes de morrer, o pai do Cacique Joseph (1840-1904) chamou-o:&lt;br /&gt;“Meu filho, meu corpo em breve voltará a Mãe Terra”, disse. “Quando eu partir, esta terra é a tua herança. Não  estou deixando dinheiro, riquezas, e o poder que agora voce recebe não é motivo de orgulho, mas de responsabilidade. Deixo em tuas mãos o solo em que pisas, e o nosso povo; espero que sejas digno disso.  Em breve o homem branco nos cercará por completo, e vai tentar comprar nossa Mãe. Lembre-se que meu corpo está ali, que sou parte Dela”.&lt;br /&gt;Joseph pegou a mão de seu pai, apertou-a contra seu peito, e prometeu jamais vender a terra. &lt;br /&gt;O branco tentou comprar, e o cacique não vendeu. Vieram combates cada vez mais sangrentos, e Joseph liderou seu exército contra os soldados americanos. Quando foi capturado, perguntaram porque defendia uma causa perdida.&lt;br /&gt;“Um homem não vende os ossos de seu pai”, disse o cacique.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A morte anunciada&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em meados de 1970, quando estava prestes a completar seu doutorado em física, o cientista Stephen Hawking - já então portador de uma doença que ia paralisando seus movimentos - escutou um médico dizer que tinha apenas dois  anos de vida.&lt;br /&gt;“Então posso tentar entender o Universo, porque não vou mais precisar pensar em coisas como aposentadoria e contas a pagar”, resolveu. &lt;br /&gt;Como a doença progredia rapidamente, foi obrigado a criar fórmulas simples para explicar - no menor espaço de tempo possível - tudo aquilo que pensava.&lt;br /&gt;Dois anos e meio se passaram, vinte anos se passaram, e Hawking continua vivo. É capaz de comunicar suas idéias abstratas através de um pequeno computador acoplado a sua cadeira de rodas, e que possui apenas 500 palavras diferentes.  Escreveu o clássico “Uma breve história do tempo”(Ed. Rocco), e foi responsável por uma nova visão da Física moderna. &lt;br /&gt;A doença, ao invés de conduzi-lo a invalidez total, forçou-o a descobrir uma nova maneira de raciocínio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não esqueça os maus&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A  seguinte oração foi encontrada entre os pertences  pesssoais de um judeu, morto num campo de concentração:&lt;br /&gt;"Senhor: quando vieres na Tua glória, não te lembres apenas dos homens de boa vontade; lembra-Te também dos homens de má vontade. &lt;br /&gt;"E, no dia do Julgamento, não Te lembres apenas das  crueldades,  sevícias, e violências que eles praticaram: lembra-Te também dos  frutos  que produzimos  por  causa  do  que eles  nos  fizeram.  Lembra-Te  da paciência,  da  coragem, da confraternização,  da  humildade,  da grandeza de alma e da fidelidade, que nossos carrascos terminaram por despertar em nossas almas. &lt;br /&gt;"Permite então, Senhor, que os frutos por nós produzidos possam servir para salvar as almas os homens de má vontade."&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/25961370-6849185875814247005?l=cronicasdeasgardh.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://cronicasdeasgardh.blogspot.com/feeds/6849185875814247005/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=25961370&amp;postID=6849185875814247005&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/25961370/posts/default/6849185875814247005'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/25961370/posts/default/6849185875814247005'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://cronicasdeasgardh.blogspot.com/2009/03/alguns-exemplos-de-gente-como-gente.html' title='Alguns exemplos de gente como a gente - paulo coelho'/><author><name>Motoko Aramaki</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='33' height='12' src='http://photos1.blogger.com/blogger/5784/479/400/imagemlogo2.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-25961370.post-5267236984344221364</id><published>2009-03-07T14:16:00.001-03:00</published><updated>2009-03-07T14:16:55.326-03:00</updated><title type='text'>Quatro histórias passadas no Japão - paulo coelho</title><content type='html'>Concorrendo com os americanos&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao visitar o Japão, para promover  “O Diário de Um Mago”, peguntei ao editor Masao Masuda , por que os japoneses conseguiram conquistar mercados  que antes eram dominados pelos americanos. &lt;br /&gt; - Muito simples - respondeu Masuda. - Os americanos tem uma idéia,  trancam-se  numa sala com pesquisas,  tomam decisões,  e gastam uma energia imensa para provar que estavam certos.  Nós não queremos provar nada a ninguém: deixamos que cada ser humano  manifeste suas necessidades, e procuramos soluciona-las. O resultado prático é que cada um termina comprando aquilo que já desejava antes.&lt;br /&gt;“Quem  só deseja demonstrar que está certo, termina por agir errado”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O verdadeiro respeito&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Durante a evangelização no Japão, um missionário foi preso por samurais. &lt;br /&gt;- Se quiser continuar vivo,  amanhã terá que pisar a imagem de Cristo, diante de todos - disseram os guerreiros. &lt;br /&gt;O missionário foi dormir, sem nenhuma dúvida no coracão: jamais cometeria tal sacrilégio, e estava preparado para o mártirio. &lt;br /&gt;Acordou no meio da noite, e ao levantar-se da cama,  tropeçou num homem que dormia no chão.  Quase  caiu para trás:  era  Jesus Cristo em pessoa!&lt;br /&gt;- Agora que já pisou em mim, vá lá fora e pise na minha imagem - disse Jesus.  -Porque lutar por uma idéia é muito mais importante que a vaidade de um sacrifício.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Destruindo e reconstruindo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sou convidado a ir a  Guncan-Gima,  onde existe um templo zen-budista.  Quando chego lá,  fico surpreso:  a belíssima estrutura está situada no meio de uma imensa floresta,  mas  com  um gigantesco terreno baldio ao lado. &lt;br /&gt; Pergunto a razão daquele terreno, e o encarregado explica:&lt;br /&gt;-É o local da próxima construção.  A cada vinte anos,  destruímos  este templo que voce está vendo, e o reconstruímos ao lado. &lt;br /&gt;“Desta maneira, os  monges carpinteiros,  pedreiros e arquitetos, tem possibilidade de estar sempre exercendo suas habilidades, e ensina-las - na prática - aos seus aprendizes.  Mostramos também que nada na vida é eterno - e  até mesmo os templos estão num processo de constante  aperfeiçoamento.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A medida do amor&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Sempre desejei saber se era capaz de amar minha mulher como o senhor ama a sua - disse o jornalista Keichiro a meu editor Satoshi Gungi, enquanto jantávamos.&lt;br /&gt;- Não existe nada alem do amor – foi a resposta. - É ele que mantém o mundo girando e as estrelas suspensas no céu.&lt;br /&gt;- Sei disso. Mas como vou saber se meu amor é grande o suficiente?&lt;br /&gt;- Procure saber se você se entrega, ou se você foge de suas emoções. Mas não faça perguntas como esta porque o amor não é grande nem pequeno; é apenas o amor. &lt;br /&gt;“Não se pode medir um sentimento como se mede uma estrada. Se você fizer isso, vai começar a comparar com o que lhe contam, ou com o que está esperando encontrar. Desta maneira, sempre vai escutando uma história, ao invés de percorrer seu próprio caminho.”&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/25961370-5267236984344221364?l=cronicasdeasgardh.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://cronicasdeasgardh.blogspot.com/feeds/5267236984344221364/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=25961370&amp;postID=5267236984344221364&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/25961370/posts/default/5267236984344221364'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/25961370/posts/default/5267236984344221364'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://cronicasdeasgardh.blogspot.com/2009/03/quatro-historias-passadas-no-japao.html' title='Quatro histórias passadas no Japão - paulo coelho'/><author><name>Motoko Aramaki</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='33' height='12' src='http://photos1.blogger.com/blogger/5784/479/400/imagemlogo2.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-25961370.post-1987292572576788576</id><published>2009-03-07T14:14:00.000-03:00</published><updated>2009-03-07T14:15:58.649-03:00</updated><title type='text'>PAULO COELHO: DISCURSO DE POSSE NA ACADEMNIA BRASILEIRA DE LETRAS</title><content type='html'>28 de Outubro 2002&lt;br /&gt;SIC TRANSIT GLORIA MUNDI. Dessa maneira, São Paulo define a condição humana em uma de suas epístolas: a glória do mundo é transitória. E, mesmo sabendo disso, o homem sempre parte em busca do reconhecimento pelo seu trabalho.&lt;br /&gt;Por quê? Um dos maiores poetas brasileiros, Vinícius de Moraes, diz em uma de suas letras de música:&lt;br /&gt;“E no entanto é preciso cantar&lt;br /&gt;mais que nunca é preciso cantar.”&lt;br /&gt;Vinícius de Moraes é brilhante nestas frases. Lembrando Gertrud Stein, no seu poema “Uma rosa é uma rosa, é uma rosa”, apenas diz que é preciso cantar. Não dá explicações, não justifica, não usa metáforas. Quando me candidatei a esta Cadeira, ao cumprir o ritual de entrar em contato com os membros da Casa de Machado de Assis, ouvi do acadêmico Josué Montello algo semelhante. Disse-me ele: “Todo homem tem o dever de seguir a estrada que passa pela sua aldeia.”&lt;br /&gt;Por quê?&lt;br /&gt;O que existe nessa estrada?&lt;br /&gt;Que força é essa que nos empurra para longe do conforto daquilo que é familiar, e nos faz enfrentar desafios, mesmo sabendo que a glória do mundo é transitória?&lt;br /&gt;Creio que esse impulso se chama: a busca do sentido da vida. Por muitos anos procurei nos livros, na arte, na ciência, nos perigosos ou confortáveis caminhos que percorri uma resposta definitiva para essa pergunta. Encontrei muitas, algumas que me convenceram por anos, outras que não resistiram a um só dia de análise; entretanto, nenhuma delas foi suficientemente forte para que agora eu pudesse dizer:&lt;br /&gt;o sentido da vida é este.&lt;br /&gt;Hoje estou convencido que tal resposta jamais nos será confiada nesta existência, embora, no final, no momento em que estivermos de novo diante do Criador, compreenderemos cada oportunidade que nos foi oferecida – e então aceita ou rejeitada.&lt;br /&gt;Em um sermão de 1890, o pastor Henry Drummond fala desse encontro com o Criador. Diz ele:&lt;br /&gt;“Neste momento, a grande pergunta do ser humano não será: “Como eu vivi?”&lt;br /&gt;Será, isto sim: “Como amei?”&lt;br /&gt;O teste final de toda busca é a dimensão de nosso Amor. Não será levado em conta o que fizemos, em que acreditamos, o que conseguimos.&lt;br /&gt;Nada disso nos será cobrado, mas sim nossa maneira de amar o próximo. Os erros que cometemos nem sequer serão lembrados. Não seremos julgados pelo mal que fizemos, mas pelo bem que deixamos de fazer. Pois manter o Amor trancado dentro de si é ir contra o espírito de Deus, é a prova de que nunca O conhecemos, de que Ele nos amou em vão.”&lt;br /&gt;Lendo a vida e obra daqueles que, antes de mim, ocuparam a Cadeira 21, independentemente de acreditarem ou não naquele encontro com o Criador, este é o primeiro elemento mais presente: amor. Todos buscaram um sentido para suas vidas, mas, enquanto o procuravam, souberam transformar seus passos em manifestações de amor ao próximo. E aí o amor é entendido como algo mais amplo do que o simples ato de gostar.&lt;br /&gt;Martin Luther King lembrava que os gregos possuem três palavras para designar esse sentimento: a primeira é Eros, o amor saudável e necessário entre dois seres humanos, que se buscam, se encontram, ou se desencontram. A segunda palavra é&lt;br /&gt;Philos, a paixão que nos empurra ao encontro da sabedoria, dos amigos, da filosofia, dos legados que nos deixaram as gerações anteriores. Finalmente existe a palavra Ágape, o amor maior, aquele a que – como bem lembra Martin Luther King – Jesus se referia quando disse: “Amai vossos inimigos.” Um amor que está além do ato de gostar, porque não podemos gostar de quem nos agride, nos ofende, é injusto em seus comentários, leviano em suas acusações, preconceituoso em seu julgamento. Não podemos gostar, mas podemos amar e, através do amor, entender que por detrás de cada atitude mesquinha e destruidora está um imenso desejo de ser compreendido, aceito, apreciado.&lt;br /&gt;Então, a essência de Ágape está não apenas nos que aqui me precederam nesta Cadeira 21, mas em todos, em todas as cadeiras desta Casa, deste auditório, em todas as cadeiras do mundo. Basta apenas reunir coragem suficiente para lutar por seus sonhos, e – de novo me apoio em uma expressão cunhada pelo apóstolo São Paulo – “combater o bom combate, e manter a fé.”&lt;br /&gt;Em 1986, quando fazia o Caminho de Santiago em busca de uma espada, a mesma espada que daqui a pouco me será de novo entregue, simbolicamente, pelo acadêmico Josué Montello, eu compreendi pela primeira vez o sentido dessa expressão.&lt;br /&gt;O Bom Combate é aquele travado porque o nosso coração pede. Nas épocas heróicas, no tempo dos cavaleiros andantes, isso era fácil, havia muita terra para conquistar e muita coisa para fazer. Hoje, porém, o mundo mudou, e o Bom Combate veio dos campos de batalha para dentro de nós mesmos.&lt;br /&gt;O Bom Combate é aquele que é travado em nome de nossos sonhos. Quando eles explodem dentro de nós com todo o seu vigor – na juventude – temos muita coragem, mas ainda não aprendemos a lutar. Depois de&lt;br /&gt;muito esforço, terminamos aprendendo, e então já não temos a mesma coragem. Por isso, nos voltamos contra nós, e nos transformamos em nosso pior inimigo. Dizemos que nossos sonhos eram infantis, difíceis de realizar, ou frutos de nosso desconhecimento das realidades da vida. Matamos nossos sonhos porque temos medo de combater o Bom Combate.&lt;br /&gt;O primeiro sintoma de que estamos matando nossos sonhos é a falta de tempo. As pessoas mais ocupadas que conheci na minha vida sempre têm tempo para tudo e para todos. As que nada fazem estão sempre cansadas, não dão conta do pouco trabalho que precisam realizar, e se queixam constantemente que o dia é curto demais. Na verdade, elas têm medo de saber onde vai dar a misteriosa estrada que passa pela sua aldeia.&lt;br /&gt;O segundo sintoma da morte de nossos sonhos são nossas certezas. Porque não queremos aceitar a vida como uma grande aventura a ser vivida, passamos a nos julgar sábios, justos e corretos. Olhamos para além das muralhas do nosso mundo organizado, onde a ciência e a filosofia já têm todas as respostas, onde todas as dúvidas já foram resolvidas pelas ideologias, conceitos e preconceitos. Olhamos e vemos as grandes quedas e os olhares sedentos de conquista dos guerreiros, ouvimos o ruído de lanças que se quebram, sentimos o cheiro de suor e pólvora. Então dizemos, do alto de nossas torres de marfim: “Eles não sabem o que eu sei.” Com essa atitude arrogante, jamais percebemos a alegria, a imensa Alegria que está no coração de quem está lutando, porque para esses não importa nem a vitória nem a derrota, mas apenas olhar o mundo como se fosse uma pergunta – não uma resposta – e através dessa pergunta tentam dignificar suas vidas.&lt;br /&gt;Raul Seixas descreve bem a alegria no coração dos guerreiros, ao escrever:&lt;br /&gt;Prefiro ser&lt;br /&gt;Uma metamorfose ambulante&lt;br /&gt;Do que ter aquela velha opinião&lt;br /&gt;Formada sobre tudo.&lt;br /&gt;Finalmente, o terceiro sintoma da morte de nossos sonhos é a Paz. A vida passa a ser uma tarde de Domingo, sem nos pedir grandes coisas, e sem exigir mais do que queremos dar. Achamos então que estamos maduros, deixamos de lado as fantasias da infância, e conseguimos nossa realização pessoal e profissional. Ficamos surpresos quando alguém de nossa idade diz querer ainda isso ou aquilo da vida. Mas, na verdade, no íntimo de nosso coração, sabemos que o preço dessa paz foi nossa renúncia à luta por tudo que considerávamos interessante, e por tudo que nos entusiasmava fazer.&lt;br /&gt;Quando encontramos a paz, temos um curto período de tranqüilidade. Mas os sonhos mortos começam a apodrecer dentro de nós, e a infestar o ambiente em que vivemos. Começamos a nos tornar cruéis com aqueles que nos cercam, e finalmente passamos a dirigir essa crueldade contra nós mesmos. Surgem as doenças e as psicoses. O que queríamos evitar no combate – a decepção e a derrota – passa a ser o único legado de nossa covardia. E, num belo dia os sonhos mortos e apodrecidos tornam o ar difícil de respirar e passamos a desejar a morte, a morte que nos livre de nossas certezas, de nossas ocupações, e da paz das tardes de domingo.&lt;br /&gt;Nenhum dos ocupantes desta Cadeira 21 experimentou – graças a Deus – essa terrível paz. O teatrólogo Dias Gomes, em seu discurso de posse, chamou-a de “A cadeira da Liberdade”. O economista Roberto Campos a chamou de “Cadeira do Ecletismo”. Eu preferiria chamá-la, entretanto, de “Cadeira da Utopia”. Utopia em seu sentido clássico, referindo-me ao momento ideal da história da civilização na qual todas as conquistas do homem seriam&lt;br /&gt;consolidadas entre seus semelhantes; o país imaginário do escritor inglês Thomas Morus, no qual um governo, organizado da melhor maneira, proporciona ótimas condições de vida a um povo equilibrado e feliz.&lt;br /&gt;O fundador da Cadeira 21, José do Patrocínio, herói da Abolição da Escravatura, diz em um dos seus discursos. Cito:&lt;br /&gt;“Dentro em três dias vai começar a história moderna do Brasil e fechar-se a triste história dos tempos bárbaros da nossa terra. Não é demasiado otimismo profetizar que a nossa evolução nacional será feita com a mesma rapidez da dos Estados Unidos.&lt;br /&gt;As estrelas do sul dentro em um quarto de século não invejarão o fulgor da constelação do norte.”&lt;br /&gt;Um quarto de século se passou, e outro, e muitos outros. Apesar da abolição da escravatura, todos nós sabemos que até hoje o sonho de José do Patrocínio ainda não se tornou realidade. Entretanto, ele nos legou sua utopia, e nós continuamos a lutar por ela.&lt;br /&gt;Sucedeu-o o poeta Mário de Alencar, descrito por todos como um homem tímido e recluso, cujo modelo de vida era o corajoso Sócrates. Suas obras só nos chegaram por causa da dedicação de seus filhos. Tinha como ideal a beleza pura, e comentava em um dos seus versos:&lt;br /&gt;“Goza mulher teus dias&lt;br /&gt;que as puras alegrias&lt;br /&gt;vêm da ilusão.”&lt;br /&gt;De novo a idéia utópica de um mundo no qual é possível, apesar da ilusão, permitir-se o prazer das grandes alegrias. O mesmo acontecia com o poeta Olegário Mariano, que o sucedeu: embora mais&lt;br /&gt;extrovertido em seu comportamento – afinal, são dele várias letras de músicas, uma das quais ainda cantamos: “Cai, cai, balão” – leva a sua utopia do terreno literário para o campo político, como antes fizera José do Patrocínio. Luta por um Brasil moldado no ideário de Getúlio Vargas.&lt;br /&gt;Quero fazer uma pequena observação aqui: não me cabe, neste discurso de posse, julgar as afinidades partidárias dos ocupantes desta Cadeira, mas o empenho sincero que tiveram em procurar uma opção melhor para o Brasil, levando em conta suas convicções pessoais.&lt;br /&gt;Como os seus predecessores, também Olegário Mariano quer seguir um sonho impossível. Ele mantém em seu horizonte os ideais utópicos da existência. Como nos versos a seguir. Cito:&lt;br /&gt;“Vida! Quero viver todas as tuas horas,&lt;br /&gt;As que prendi na mão e as que nunca alcancei.”&lt;br /&gt;Álvaro Moreyra, o cronista do Rio, é o próximo ocupante, um dos precursores do novo teatro brasileiro, que se declara adepto da utopia comunista. Deixa importante legado literário, que inclui um estudo sobre o teatro espanhol na Renascença, escrito em 1946, e a peça “Adão e Eva e outros membros da família (1929)”, que até hoje faz parte do repertório de muitas companhias teatrais. Em seu trabalho poético, de novo o mesmo louvor utópico à vida, que o acompanhou até nos dizeres de seu epitáfio:&lt;br /&gt;O epitáfio de Álvaro Moreyra é o seguinte:&lt;br /&gt;“Acreditei na Vida, e a Vida em mim.&lt;br /&gt;Depois, desandamos a rir de nós mesmos - os dois.”&lt;br /&gt;O crítico Adonias Filho, que sucede Álvaro Moreyra, parte para uma utopia exatamente oposta: ex-integralista, defende o golpe militar de 1964. Mas é tão íntegro em suas convicções que merece o respeito de Jorge Amado, militante de campo exatamente oposto, que faz questão de recebê-lo nesta Casa. Provocador, irônico, Adonias Filho declara em um dos seus textos:&lt;br /&gt;“Ainda se discute a utilidade dos críticos. Os escritores louvados são a favor. Os outros são contra. O público, felizmente, não se interessa pela discussão. Parece-me que os críticos não deixam de ser úteis. A alguns, eu devo a ampliação dos meus conhecimentos literários. Se eles não houvessem constatado a profunda influência exercida sobre mim por certos autores, com certeza eu nunca os leria depois...”&lt;br /&gt;De novo o pêndulo da Cadeira 21 oscila para uma utopia oposta: é a vez de Dias Gomes entrar para a Academia Brasileira de Letras, trazendo em seu teatro e na sua vasta bagagem literária o sonho de um Brasil redimido pela vitória do oprimido sobre o opressor. Seu nome torna-se mundialmente conhecido quando uma de suas peças, “O Pagador de Promessas”, é transformada em filme e ganha a Palma de Ouro no Festival de Cannes, na França. Dono de uma linguagem moderna, é levado pelas circunstâncias a escrever para a televisão, e o faz de maneira inovadora, criando obras que até hoje permanecem no imaginário do povo, como “O Bem Amado” e “Roque Santeiro”. Em uma de suas peças, “O Santo Inquérito”, a personagem Branca comenta sobre o abismo que separa o sonho da realidade:&lt;br /&gt;“Deus deve estar onde há mais claridade, penso eu. E deve gostar de&lt;br /&gt;ver as criaturas livres como Ele as fez, usando e gozando essa liberdade, porque foi assim que nasceram e assim devem viver. Tudo isso que estou lhes dizendo, é na esperança de que vocês entendam ... Porque eles, eles não entendem... Vão dizer que sou uma herege e que estou possuída pelo demônio.”&lt;br /&gt;Com sua morte trágica, prematura, que privou o Brasil contemporâneo de uma de suas inteligências mais brilhantes, o pêndulo torna a oscilar e, em uma eleição onde a discussão sobre utopias foi a tônica, Roberto Campos consegue a maioria necessária para ocupar a Cadeira 21.&lt;br /&gt;Lembro-me de, ainda jovem, ir para as ruas protestar contra sua política econômica – embora na época não tivesse sequer idéia do que isso significava. Fernando Sabino, porém, cunhou uma expressão primorosa: “Todo homem é incendiário aos vinte anos, e bombeiro aos quarenta.” Aos quarenta anos, quando resolvi comprar o meu primeiro computador, vi um Brasil paralisado pela Lei da Informática, caminhando a passos largos em direção - não ao futuro, mas ao passado. Essa lei, que Roberto Campos tanto combatera, e que antes era uma abstração para mim, agora se transformava em algo concreto: estava me privando de um instrumento de trabalho.&lt;br /&gt;Ainda durante minha transição de incendiário a bombeiro, tive oportunidade de ler muitos artigos seus, e – mesmo a contragosto, já que sempre somos mais sectários do que ousamos admitir – terminei por lhe dar razão. O meu suposto inimigo de antes transformava-se em um homem capaz de defender com coerência e responsabilidade a sua utopia, buscando aí todas as tribunas possíveis.&lt;br /&gt;Minha admiração chegou a tal ponto que, sabendo de uma noite de autógrafos de seu livro “Lanterna de Popa”, fui até a Gávea para encontrá-lo. Uma chuva torrencial impediu muitas pessoas de comparecer, e eu tive a oportunidade de privar, por meia hora, da sua intimidade e inteligência fulgurante.&lt;br /&gt;Firme nas convicções, eloqüente nas argumentações, polêmico e provocador, Roberto de Oliveira Campos marcou a história do Brasil moderno. Correndo sempre o risco de não ser compreendido, era capaz de lutar até o fim por tudo aquilo que julgava melhor para nossa Pátria.&lt;br /&gt;Poucos foram os que se aplicaram em identificar profundamente o pensamento de Roberto Campos, e, entre estes encontra-se o jornalista Olavo Luz. Em sua biografia “Roberto Campos, o homem por detrás do mito”, Olavo nos deu uma dimensão humana desse Economista, Professor, Embaixador, Ministro de Estado, Senador, Deputado, e Acadêmico.&lt;br /&gt;Roberto Campos viveu entre o amor e o ódio. Despertava a fúria raivosa dos contendores e a paixão extremada, quase uma religião, dos admiradores. Um episódio na vida do meu antecessor merece especial atenção:&lt;br /&gt;Corriam os chamados “anos de chumbo”, cujo prolongamento Roberto Campos tanto condenou, defendendo o retorno do poder à sociedade civil, após o governo Castelo Branco, que chamava de “arrumação da casa”. Carlos Lacerda, também um brilhante político e, naquele momento, em campo oposto ao então Ministro Extraordinário do Planejamento, cunhou uma frase histórica:&lt;br /&gt;“O senhor Roberto Campos irrita a todos:&lt;br /&gt;mata os ricos de raiva e os pobres de fome”.&lt;br /&gt;Impassível, Roberto Campos respondeu com uma outra frase histórica, que seria também uma declaração honrada de armistício:&lt;br /&gt;“A violência da flecha dignifica o alvo”.&lt;br /&gt;“A violência da flecha dignifica o alvo”.Muitas vezes, em momentos em que me sentia julgado com severidade excessiva pela crítica, me recordava dessa frase. E me lembrava de outro sonho, do qual eu não estava disposto a desistir: entrar, um dia, para a Academia Brasileira de Letras.&lt;br /&gt;Há cinco anos, o acadêmico Eduardo Portella, durante o lançamento de “O Monte Cinco” na França, me se eu consideraria a possibilidade de uma candidatura. Perguntei se estava falando sério; ele disse que sim.&lt;br /&gt;Pouco tempo depois, Maria Eugenia Stein, amiga de longa data, resolveu promover um encontro com o então Presidente da Academia, Arnaldo Niskier. Retirei o sonho do meu coração, convidei-o para tomar um chá em minha casa, conversei abertamente sobre minhas pretensões, e tornei a guardar meu sonho em lugar onde pudesse contemplá-lo de vez em quando.&lt;br /&gt;No dia 9 de outubro de 2001, eu participava do Festival de Autores e Cineastas, em Montecarlo. Conversava despreocupadamente com o diretor americano Sidney Pollack, quando meu telefone celular tocou: Roberto Campos havia morrido.&lt;br /&gt;Pedi licença a Pollack, caminhei até a praia, fiquei contemplando o Mediterrâneo. Nos momentos em que precisamos tomar uma decisão muito importante, é melhor confiar no impulso, na paixão, porque a razão geralmente procura nos afastar do sonho – justificando que ainda não é chegada a hora. A razão tem medo da derrota. Mas a intuição gosta da vida, e dos desafios da vida. Eu também gosto, de modo que resolvi me candidatar, e confiei em meus amigos da Academia. Pessoas mais próximas me perguntavam: “Mas está mesmo na hora? Por que você não deixa isso para mais adiante?” Eu respondia:&lt;br /&gt;“Como é que você sabe que “mais adiante” é a hora certa? “&lt;br /&gt;E segui em frente.&lt;br /&gt;Vez por outra me lembrava de um episódio de minha adolescência: Com um grupo de amigos da Academia de Letras do Colégio Santo Inácio – onde cursava o ginasial – vimos até aqui para assistir a uma palestra. Foi preciso vestir terno e gravata, tomar o bonde, viajar muito tempo para chegar ao centro da cidade. Não me lembro da palestra, nem do palestrante - mas a primeira impressão desse lugar jamais saiu de minha cabeça.&lt;br /&gt;Hoje, quase 40 anos depois, estou nesta tribuna, fazendo meu discurso de posse. O que era uma utopia de adolescente virou – no início da década de 90 – uma verdadeira heresia. Mas, como acontece com algumas heresias, esta também se transformou em realidade. Lutei por esse sonho, confiei em meus amigos, combati o bom combate e mantive a fé. Aprendi com Jorge Amado, o maior escritor brasileiro do século XX, o insubstituível, o grande, o generoso, o digno Jorge Amado, que as utopias são possíveis.&lt;br /&gt;E hoje aqui com vocês, celebramos juntos.&lt;br /&gt;Antes de terminar, gostaria de citar outros dois escritores que nunca conheceram a glória, mas que realizaram seu trabalho com dignidade e dedicação. Um deles jamais sonhou que um dia seu nome seria pronunciado nesta tribuna, e talvez alguns considerem isso anátema, mas não posso deixar passar a oportunidade: trata-se de José Mauro Vasconcellos. Jamais li um livro seu, mas não posso perder este momento único para agradecê-lo por ter levado seu trabalho aos quatro cantos do mundo, ajudando a mostrar às mais diferentes culturas o que existe na alma intensa e comovente do povo brasileiro.&lt;br /&gt;O outro escritor, um professor de matemática, escondido atrás de um pseudônimo misterioso, povoou minha imaginação infantil com lendas do deserto, dos céus e da terra, das mil histórias sem fim que o povo árabe conta, e que, mais tarde, estariam na gestação de meu livro mais conhecido: “O Alquimista.” Trata-se de Júlio César de Mello e Souza, conhecido por todos os seus leitores como Malba Tahan. É de sua autoria a história que agora narro, com minhas palavras, e que tão bem reflete a frase de São Paulo sobre a glória do mundo:&lt;br /&gt;“Na antiga Roma, na época do imperador Tibério, vivia um homem muito bom, que tinha dois filhos: um era militar, e quando entrou para o exército, foi enviado para as mais distantes regiões do Império. O outro filho, versado em letras, virou um poeta famoso, que encantava Roma com seus versos.&lt;br /&gt;“Certa noite, o homem teve um sonho. Um anjo lhe aparecia para dizer que as palavras de um de seus filhos seriam conhecidas e repetidas no mundo inteiro, por todas as gerações vindouras. Acordou agradecido e chorando, porque a vida era generosa, e havia lhe revelado uma coisa que qualquer pai teria orgulho de saber.&lt;br /&gt;“Pouco tempo depois, morreu ao tentar salvar uma criança que ia ser esmagada pelas rodas de uma carruagem. Como tinha se comportado de maneira correta e justa em toda a sua vida, foi direto para o céu, e encontrou-se com o anjo que lhe aparecera em sonhos.&lt;br /&gt;“– Você foi um homem bom – disse-lhe o anjo. – Viveu sua existência com amor, e morreu com dignidade. Posso realizar agora seus desejos.&lt;br /&gt;“– A vida também foi boa para mim – respondeu o homem. – Quando você me apareceu em sonho, senti que todos os meus esforços estavam justificados. Porque os versos de meu filho serão passados de geração em geração. Nada tenho a pedir para mim; entretanto, todo pai se orgulharia de&lt;br /&gt;testemunhar a imortalidade de alguém que ele cuidou quando criança e educou quando jovem.&lt;br /&gt;“O anjo tocou em seu ombro, e os dois foram projetados para um futuro distante. Em volta deles apareceu um lugar imenso, com milhares de pessoas, que falavam uma língua estranha.&lt;br /&gt;“O homem chorou de alegria.&lt;br /&gt;“– Eu sabia que os versos do meu filho eram bons e imortais – disse para o anjo, entre lágrimas. – Toda Roma se encantava com eles, e sei algumas de suas poesias de cor:&lt;br /&gt;gostaria que me dissesse qual delas estas pessoas estão repetindo.&lt;br /&gt;“– Os versos de seu filho poeta foram muito populares em Roma – disse o anjo. – Todos gostavam, e se divertiam com eles. Mas, quando o reinado de Tibério acabou, seus versos também foram esquecidos. Estas palavras são de seu filho que entrou para o exército.&lt;br /&gt;“O homem olhou surpreso para o anjo, que continuou:&lt;br /&gt;“– Seu filho foi servir num lugar distante. Era também um homem justo e bom. Certa tarde, um dos seus servos ficou doente, e estava para morrer. Seu filho, então, ouviu falar de um Rabi que curava os doentes, e andou dias e dias em busca daquela pessoa. No caminho, descobriu que o homem que procurava era o Filho de Deus. Encontrou outras pessoas que haviam sido curadas por Ele, aprendeu seus ensinamentos, e, mesmo sendo um centurião romano, converteu-se ao seu credo. Até que certa manhã chegou perto do Rabi.&lt;br /&gt;“Contou-lhe que tinha um servo doente. E o Rabi se prontificou a ir até sua casa. Mas o centurião era um homem de fé, e olhando no fundo dos olhos do Rabi, disse não ser necessário.&lt;br /&gt;“O anjo tornou a mostrar as pessoas e, de repente, todas se levantaram:&lt;br /&gt;“– Estas são as palavras do seu filho soldado – disse o anjo ao homem. – São as palavras que ele disse ao Rabi naquele momento, e que nunca mais foram esquecidas:&lt;br /&gt;“Senhor, eu não sou digno que entreis em minha casa, mas dizei uma só palavra e meu servo será salvo”.&lt;br /&gt;SIC TRANSIT GLORIA MUNDI. A glória do mundo é transitória, e não é ela que nos dá a dimensão de nossa vida – mas a escolha que fazemos, de seguir nossa lenda pessoal, acreditar em nossas utopias, e lutar por elas. Somos todos protagonistas de nossas existências, e muitas vezes são os heróis anônimos – como o centurião romano – que deixam as marcas mais duradouras.&lt;br /&gt;Conta uma lenda japonesa que certo monge, entusiasmado pela beleza do livro chinês Tao Te King, resolveu levantar fundos para traduzir e publicar aqueles versos em sua língua pátria. Demorou dez anos até conseguir o suficiente.&lt;br /&gt;Entretanto, uma peste assolou seu país, e o monge resolveu usar o dinheiro para aliviar o sofrimento dos doentes. Mas assim que a situação se normalizou, de novo partiu para arrecadar a quantia necessária à publicação do Tao; mais dez anos se passaram, e quando já se preparava para imprimir o livro, um maremoto deixou centenas de pessoas desabrigadas.&lt;br /&gt;O monge de novo gastou o dinheiro na reconstrução de casas para os que tinham perdido tudo. Outros dez anos correram, ele tornou a arrecadar o dinheiro, e finalmente o povo japonês pôde ler o Tao Te King.&lt;br /&gt;Dizem os sábios que, na verdade, esse monge fez três edições do Tao: duas invisíveis, e uma impressa. Ele acreditou na sua utopia, combateu o bom combate, manteve a fé em seu objetivo, mas não deixou de prestar atenção ao seu semelhante. Que seja assim com todos nós: às vezes os livros invisíveis, nascidos da generosidade para com o próximo, são tão importantes quanto aqueles que levam escritores a ocupar uma vaga na Academia Brasileira de Letras.&lt;br /&gt;Muito obrigado.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/25961370-1987292572576788576?l=cronicasdeasgardh.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://cronicasdeasgardh.blogspot.com/feeds/1987292572576788576/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=25961370&amp;postID=1987292572576788576&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/25961370/posts/default/1987292572576788576'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/25961370/posts/default/1987292572576788576'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://cronicasdeasgardh.blogspot.com/2009/03/paulo-coelho-discurso-de-posse-na.html' title='PAULO COELHO: DISCURSO DE POSSE NA ACADEMNIA BRASILEIRA DE LETRAS'/><author><name>Motoko Aramaki</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='33' height='12' src='http://photos1.blogger.com/blogger/5784/479/400/imagemlogo2.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-25961370.post-5911519352322496385</id><published>2009-03-07T14:12:00.000-03:00</published><updated>2009-03-07T14:14:08.801-03:00</updated><title type='text'>newton: gênio difícil</title><content type='html'>&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_uFOPZxZ5oTg/SBdx-0txDII/AAAAAAAAAIk/hlnrRiFvtpQ/s1600-h/Isaac_Newton.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5194746019311586434" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/_uFOPZxZ5oTg/SBdx-0txDII/AAAAAAAAAIk/hlnrRiFvtpQ/s400/Isaac_Newton.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;Perfil biográfico de Isaac Newton, o pai da Teoria da Gravitação Universal.&lt;br /&gt;Solitário, inseguro, rancoroso, o inglês Isaac Newton foi um cientista de talento excepcional, capaz de juntar numa só fórmula a queda de uma maçã e o movimento dos planetas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por José Tadeu Arantes&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O ano de 1666 foi fatídico para os ingleses. Em Londres, recém-saída da peste que matou 75 mil de seus 460 mil habitantes, um incêndio, iniciado numa padaria, se propagou durante quatro dias, consumindo mais de treze mil casas. Mas, na história da ciência, 1666 ficou conhecido como Annus Mirabilis ano maravilhoso. E isso se deveu ao gênio de uma só pessoa: Isaac Newton. Com a Universidade de Cambridge fechada devido aos temores de contágio, Newton, então com apenas 24 anos, se refugiou no campo, na casa da mãe no lugarejo de Woolsthorpe, onde nascera.&lt;br /&gt;No ambiente pacato da aldeia, ao passar em revista os conhecimentos que havia adquirido na renomada universidade, realizou a maior proeza intelectual já alcançada por um cientista em qualquer época algo que só teria paralelo no século XX, com as teorias de Albert Einstein. Pois, em seu refúgio campestre, o jovem Newton não só inventou o cálculo infinitesimal, de aplicação quase ilimitada nos mais diferentes ramos da ciência, como também lançou os fundamentos da ótica moderna, com um estudo sobre a luz e as cores e, principalmente, esboçou sua maior contribuição ao conhecimento humano a Teoria da Gravitação Universal. Muito tempo depois, ele mesmo explicaria a descoberta da gravitação com uma anedota que ficou famosa.&lt;br /&gt;Estava sentado uma noite ao ar livre, quando viu uma maçã cair. No mesmo instante, a Lua se levantava no firmamento. Uma pergunta atravessou sua mente como um relâmpago: a força que faz a maçã cair não seria a mesma que mantém a Lua em órbita ao redor da Terra? A questão possuía um alcance incrível: durante séculos, sob o domínio das idéias de Aristóteles (384-322 a.C.), acreditava-se que a Física terrestre e a Física celeste nada tinham em comum.&lt;br /&gt;Mergulhou então em profundos raciocínios: se a força de atração da Terra atuava sobre a Lua, o que mantinha os planetas em órbita deveria ser uma força do mesmo tipo, exercida pelo Sol. E essa força seria tanto mais fraca quanto mais distante o planeta estivesse do Sol. Partindo das leis sobre o movimento planetário, estabelecidas décadas antes pelo astrônomo e matemático alemão Johanes Kepler , Newton calculou que a força de atração varia de acordo com o inverso do quadrado da distância.&lt;br /&gt;Estava apenas a um passo da Lei da Gravitação Universal. A maçã, que os ingleses tanto apreciam para fazer tortas, havia permitido a Newton mudar a concepção do Universo, mas, ao contrário da lenda, não tinha caído sobre sua cabeça.&lt;br /&gt;O que havia na cabeça de Newton além da formidável intuição, era uma senhora neurose, resultado de uma infância que parecia conspiração do destino. Para começar, nasceu (no dia de Natal de 1642) prematuro, minúsculo e fraco. Ninguém acreditava que pudesse sobreviver ao primeiro dia: viveu 84 anos. Além disso, órfão de pai: o sitiante Isaac Newton, de quem herdou o nome, morrera três meses antes. Quando não havia ainda completado 3 anos, a mãe, Hannah, se casou de novo, com o pastor protestante Barnabas Smith. Este a levou para morar numa cidadezinha próxima de Woolsthorpe e exigiu que Isaac fosse deixado com a avó.&lt;br /&gt;Newton odiaria esse padrasto a vida inteira. Certa vez, ameaçou queimá-lo. E certamente projetou o ódio em todos os rivais. Brutal complexo de inferioridade e aguda sensação de insegurança o acompanhariam até o fim. Foi aluno medíocre, até que uma violenta briga com um colega ativou nele algum secreto talento que o transformou no primeiro da classe. Tímido e isolado, possuía, porém, excepcional habilidade para inventar e construir brinquedos mecânicos, como relógios e moinhos de vento. Se dependesse da mãe, que enviuvara de novo, Isaac trocaria os livros pela administração da propriedade que ela herdara do marido pastor. Mas o diretor da escola insistiu com Hannah para que deixasse o moço estudar.&lt;br /&gt;Assim, em junho de 1661, com 19 anos, entrou no Trinity College, da Universidade de Cambridge. Como estudante, primeiro, e logo como professor, continuava a ser uma figura excêntrica. Cabelos emaranhados, meias caindo nos calcanhares, era o tipo do gênio amalucado distraído a ponto de se sentar à mesa do refeitório e esquecer de comer. Puritano, abstêmio, solitário, sua vida se passava entre as salas da universidade. A idade não o modificaria muito: é quase certo que tenha morrido virgem.&lt;br /&gt;Mas a timidez no relacionamento humano era compensada por uma incrível vontade de saber. Para sorte de Newton, a grande revolução científica do século XVII já estava bastante adiantada quando chegou a Cambridge. Ele afirmaria mais tarde: se havia enxergado longe, era porque pudera se apoiar nos ombros de gigantes. Esses gigantes da revolução científica eram Johannes Kepler (1571-1630), o físico italiano (1564-1642) e o filósofo e matemático francês René Descartes (1596-1650).&lt;br /&gt;De Kepler, Newton herdou uma decisiva revisão do sistema concebido pelo polonês Nicolau Copérnico (1473-1543), o primeiro a formular, ainda como hipótese matemática, a teoria do movimento dos planetas ao redor do Sol que estaria no centro do Universo. De Galileu , recebeu uma nova formulação da ciência da Mecânica, baseada no princípio da inércia. De Descartes, a concepção mecanicista do mundo a visão da natureza como uma grande máquina, que funcionaria para sempre com base apenas no movimento de suas partes. Descartes deu ainda a Newton outro legado formidável: a Geometria Analítica, novo ramo da Matemática que permitia resolver problemas, até então insolúveis, pelos métodos algébricos.&lt;br /&gt;Com base em Kepler, Galileu e Descartes, o jovem Newton pôde fazer uma crítica da ciência grega que ainda era ensinada na universidade e anotou em latim num de seus cadernos: Amicus Plato, amicus Aristoteles, magis amica veritas (Platão é amigo, Aristóteles é amigo, mas amiga maior é a verdade). Três outras influências marcaram a formação de seu pensamento: o filósofo francês Pierre Gassendi, o químico inglês Robert Boyle e o filósofo também inglês Henry More. Gassendi havia ressuscitado a idéia grega de que a matéria se compunha de átomos e isso seria um ingrediente decisivo na receita newtoniana da natureza. Boyle forneceu-lhe a base para sua considerável obra em Química. More, finalmente, abriu-lhe a porta para o mundo do hermetismo, da tradição mágica e da alquimia. O fundador da ciência racional moderna era, também, um amante do oculto.&lt;br /&gt;Quando a Universidade de Cambridge foi fechada, devido à peste, Newton já havia recebido o grau de bacharel. Reaberta dois anos depois, ele ganhou a condição de fellow, que lhe permitia continuar os estudos à custa da universidade. Mais dois anos, e o catedrático de Matemática Isaac Barrow, que estava abandonando o magistério, indicou-o para sucedê-lo. Newton escolheu como tema inicial do curso seus estudos sobre a luz e as cores. De 1670 a 1672, suas palestras forneceriam material para o livro I de Ótica. O centro de sua contribuição era uma nova teoria das cores.&lt;br /&gt;Baseado nela, concluiu que a distorção cromática produzida pelas lentes convencionais era inevitável; para eliminar essa perturbação das observações astronômicas, construiu o primeiro telescópio por reflexão. Esse foi seu passaporte para o fechado clube dos grandes cientistas da época a Royal Society, a mais prestigiosa entidade científica da Inglaterra e da Europa. Em 1671, Newton foi eleito membro. Era o início da consagração. Mas havia uma pedra no meio do caminho. Seu nome: Robert Hooke, um dos mais brilhantes cientistas ingleses e líder da Royal Society.&lt;br /&gt;Ao contrário de Newton, Hooke acreditava que a luz era uma onda que se propagava no éter substância sutilíssima que preencheria todo o Universo. A ciência atual acabaria dando razão aos dois: embora a hipótese do éter universal tenha sido derrubada, sabe-se hoje que a luz realmente se comporta ora como se fosse formada por partículas ora como onda (SUPERINTERESSANTE n.º 3). Mas, na segunda metade do século XVII, as diferenças científicas entre Hooke e Newton transformaram-se em interminável desavença pessoal.&lt;br /&gt;A culpa, sem dúvida, foi do suscetível Newton: o contraponto do complexo de inferioridade era uma certeza intelectual que não admitia a menor contestação. Quase um ano depois da crítica de Hooke, ele continuava tão abalado que mergulhou em virtual isolamento. Quando, finalmente, em 1675, resolveu publicar o livro II de Ótica, jesuítas ingleses de Liège, na Bélgica, acusaram-no de erro nas experiências. A polêmica durou até 1678, quando Newton chegou ao completo esgotamento nervoso. Nos seis anos seguintes, ele fugiria a qualquer tipo de contato intelectual.&lt;br /&gt;Nesse período, entregou-se ao hermetismo. Sua biblioteca particular continha mais de cem tratados sobre alquimia, muitos copiados a mão por ele. Seu forno de alquimista para experiências com metais permaneceu aceso meses a fio. Sob a influência da chamada arte de transmutação dos metais, também sua concepção da natureza se transmudou. Antes, a idéia de que a matéria pode exercer ação a distância, como nos fenômenos eletrostáticos e gravitacionais, lhe era inaceitável: devia haver mecanismos invisíveis operando no éter.&lt;br /&gt;Agora, questões enigmáticas, como o fato de certas substâncias químicas reagirem entre si e outras não, o levaram a imaginar um princípio secreto regendo as simpatias e as antipatias entre as substâncias. Parece incrível, mas a Teoria da Gravitação Universal, coluna mestra da Física moderna, é descendente direta da filosofia hermética. Para Newton, estas eram correções inevitáveis no pensamento mecanicista, única forma de dar à natureza um tratamento matemático exato: as atrações à distância eram rigorosamente quantitativos.&lt;br /&gt;Em agosto de 1684, uma visita do astrônomo Edmond Halley tirou Newton da concha em que se fechara. Halley, cujo nome seria dado a um cometa, era uma espécie de fiel escudeiro de Newton. Soubera que este havia resolvido o problema da explicação física dos movimentos planetários: foi cobrar a demonstração. Newton prometeu atender. Da promessa resultou, quase três anos depois, a obra fundamental da ciência moderna: Philosophiae Naturalis Principia Mathematica (Princípios matemáticos da Filosofia natural).&lt;br /&gt;Com a primeira edição de quatrocentos exemplares, financiada pelo próprio Halley, os Principia, como a obra ficou conhecida, projetaram imediatamente o nome de Newton. Os jovens cientistas fizeram dele o seu modelo. Newton, de seu lado, sentia-se bem nessa companhia particularmente, na companhia de Fatio de Duillier, matemático suíço residente em Londres. Depois da relação com a mãe, a amizade com Fatio foi sua mais profunda experiência afetiva. Sob a influência da fama e do amigo, começou a abandonar a solidão.&lt;br /&gt;Protestante fervoroso, participou da resistência da Universidade de Cambridge à tentativa do rei James II de torná-la católica. Depois da revolução incruenta de 1688, que derrubou James do poder, foi eleito representante da Universidade na conferência de Londres, que estabeleceu o acordo entre os revolucionários vitoriosos. Isto lhe deu oportunidade de travar relações com os notáveis do país entre eles, o filósofo John Locke. A vida intensa da capital o atraiu. Tanto que fez gestões junto ao político Charles Montague, futuro Lord Halifax, para arranjar emprego ali. Em 1696, Montague conseguiu-lhe a nomeação para a diretoria da Casa da Moeda.&lt;br /&gt;Mudou-se finalmente para Londres. Fatio havia voltado para a Suíça, apesar dos protestos de Newton, que se oferecera até para sustentá-lo na Inglaterra. Londres era o encerramento de sua atividade científica criadora. Suas preocupações intelectuais se voltavam para outra direção. Tentou provar que as passagens bíblicas sobre a Santíssima Trindade eram corrupções tardias do texto original. Dedicou um livro à interpretação das profecias de Daniel e do Apocalipse de São João. Mergulhou num estudo exaustivo e infecundo sobre a cronologia das antigas civilizações.&lt;br /&gt;Como diretor e, depois, presidente da Casa da Moeda, recebia um polpudo salário anual de 2 mil libras, o que o transformou rapidamente num homem rico. Poderia contentar-se em ser um marajá da administração inglesa. Mas não sossegou: voltou sua raiva contra os falsificadores de dinheiro, levando vários à forca. Em 1703, foi eleito presidente da Royal Society, que dirigiria como ditador até o final da vida. Seus últimos anos foram dedicados a uma nova briga desta vez, com um adversário à altura: o filósofo e matemático alemão Gottfried Wilhelm Leibniz (1646-1716). Motivo: a prioridade na invenção do cálculo infinitesimal.&lt;br /&gt;Na verdade, Newton foi o inventor, e Leibniz o primeiro a publicar a invenção. Mas a polêmica era boa demais para ser deixada de lado com argumentos razoáveis. Newton redigiu pessoalmente a maior parte dos artigos em sua defesa assinados por seus partidários. Como presidente da Royal Society, nomeou um comitê imparcial para investigar o caso, enquanto secretamente escrevia o relatório oficial com as conclusões desse mesmo comitê. Nem a morte de Leibniz o acalmou: qualquer artigo, sobre qualquer assunto, continuava a ser uma boa oportunidade para espinafrar o filósofo alemão. Somente sua própria morte, em 20 de março de 1727, pôs fim à pendenga. E pensar que dessa mente conturbada nasceu a mais prodigiosa obra científica já produzida por um homem em todos os tempos.&lt;br /&gt;Para saber mais:&lt;br /&gt;Einstein, o homem que mudou o mundo&lt;br /&gt;(SUPER número 11, ano 1)&lt;br /&gt;O novo mundo de Galileu&lt;br /&gt;(SUPER número 5, ano 3)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Boxes da reportagem&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim na Terra como no céu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como qualquer história inglesa que se preze, também esta envolveu uma aposta. Cenário: uma taberna londrina, próxima à Royal Society. Época: 1684. Animada pelo álcool, uma discussão se instala entre três celebridades: o astrônomo Edmond Halley; o então presidente da Royal Society, Robert Hooke; e o ilustre arquiteto Christopher Wren. O assunto, como convém a intelectuais desse porte, é o movimento dos planetas ao redor do Sol.&lt;br /&gt;Halley diz que se pode calcular a força que mantém os planetas em órbita. Ela variaria com o inverso do quadrado da distância que os separa do Sol. Hooke argumenta que, se isso for verdade, será preciso demonstrar, a partir daí, todas as leis sobre o movimento planetário, descobertas por Kepler algo que ele próprio está certo de poder fazer. Wren propõe então: quem resolver o problema receberá um prêmio simbólico de 40 shillings. A disputa estimula Halley a viajar a Cambridge, à procura do solitário Isaac Newton. Qual não é sua surpresa quando Newton lhe diz que, realmente, já havia considerado a possibilidade de que a força de atração variasse segundo o inverso do quadrado da distância.&lt;br /&gt;A partir dessa hipótese, acrescenta, era possível deduzir matematicamente as órbitas dos planetas, estabelecidas por Kepler. E mais: tinha certeza disso porque fizera pessoalmente os cálculos, uns vinte anos antes, durante a peste de Londres; mas depois se desinteressara do assunto. A insistência de Halley o convenceu a retomar o estudo. Durante três anos, Newton trabalhou nas idéias esboçadas naquele ano maravilhoso de sua juventude. Quando finalmente publica suas conclusões, em 1687, está criada uma nova Física, simples e coerente. Sua base são as três leis sobre o movimento dos corpos, apresentadas no livro I dos Principia.&lt;br /&gt;Em linguagem atual, elas podem ser assim redigidas: 1) A menos que atue uma força externa, qualquer corpo tende a manter-se indefinidamente em repouso ou em movimento retilíneo e uniforme (princípio da inércia); 2) caso uma força externa atue a aceleração que o corpo recebe é proporcional à intensidade da força (princípio fundamental da dinâmica); 3) toda vez que um corpo recebe de outro uma força, ele também exerce sobre este uma força de mesma intensidade e direção, mas de sentido contrário (princípio da ação e reação).&lt;br /&gt;A partir dessas três leis, Newton calculou a força centrípeta (de fora para dentro) necessária para fazer um corpo transformar seu movimento retilíneo e uniforme em movimento circular. Depois chegou à sua famosa Lei da Gravitação Universal: cada partícula de matéria do Universo atrai qualquer outra com uma força proporcional ao produto de suas massas e inversamente proporcional ao quadrado da distância que as separa. Não se sabe se Newton recebeu os 40 shillings de Wren, mas seus Principia se tornaram o paradigma da Física clássica.&lt;br /&gt;Quando a sonda espacial norte-americana Voyager abandona o sistema solar e, sem nenhuma propulsão, continua a se deslocar no espaço, é o princípio da inércia que está sendo mais uma vez confirmado. Quando, milhões de vezes todos os dias, os motoristas aceleram seus carros, a relação entre a força produzida pelo motor e a aceleração do veículo é governada pelo princípio fundamental da dinâmica. Quando um nadador, ao atravessar uma piscina, empurra com os braços e pernas a água para trás e recebe da água a força equivalente que o impulsiona, é o princípio da ação e reação que está em jogo. Depois de Einstein e da Mecânica Quântica, a Física de Newton já não explica o Universo. Mas explica uma infinidade de fenômenos comuns do mundo cotidiano.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bia de S&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/25961370-5911519352322496385?l=cronicasdeasgardh.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://cronicasdeasgardh.blogspot.com/feeds/5911519352322496385/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=25961370&amp;postID=5911519352322496385&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/25961370/posts/default/5911519352322496385'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/25961370/posts/default/5911519352322496385'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://cronicasdeasgardh.blogspot.com/2009/03/newton-genio-dificil.html' title='newton: gênio difícil'/><author><name>Motoko Aramaki</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='33' height='12' src='http://photos1.blogger.com/blogger/5784/479/400/imagemlogo2.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_uFOPZxZ5oTg/SBdx-0txDII/AAAAAAAAAIk/hlnrRiFvtpQ/s72-c/Isaac_Newton.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-25961370.post-8873052793494986384</id><published>2009-03-07T13:57:00.001-03:00</published><updated>2009-03-07T14:11:56.298-03:00</updated><title type='text'>DANTE E ADIVINA COMÉDIA</title><content type='html'>&lt;p align="center" style="text-align:center"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"   style="color: rgb(0, 51, 51);  font-family:Tahoma;font-size:24px;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p align="center" style="text-align:center"&gt;&lt;strong&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="Verdana&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;font-family:&amp;quot;;font-size:7.5pt;color:#330000;"&gt;José Antunes&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p align="center" style="text-align:center"&gt;&lt;span style="Tahoma&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt; &lt;/span&gt; &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;div align="center"&gt;  &lt;table class="MsoNormalTable" border="0" cellpadding="0" width="100%" style="width:100.0%;mso-cellspacing:1.5pt;mso-yfti-tbllook:1184" height="66"&gt;  &lt;tbody&gt;&lt;tr style="mso-yfti-irow:0;mso-yfti-firstrow:yes;mso-yfti-lastrow:yes"&gt;   &lt;td width="6" style="width:4.5pt;padding:.75pt .75pt .75pt .75pt"&gt;&lt;/td&gt;   &lt;td width="571" valign="top" style="width:428.25pt;padding:.75pt .75pt .75pt .75pt"&gt;   &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="mso-fareast-Times New Roman&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;!--[if gte vml 1]&gt;&lt;v:shapetype id="_x0000_t75" coordsize="21600,21600" spt="75" preferrelative="t" path="m@4@5l@4@11@9@11@9@5xe" filled="f" stroked="f"&gt;    &lt;v:stroke joinstyle="miter"&gt;    &lt;v:formulas&gt;     &lt;v:f eqn="if lineDrawn pixelLineWidth 0"&gt;     &lt;v:f eqn="sum @0 1 0"&gt;     &lt;v:f eqn="sum 0 0 @1"&gt;     &lt;v:f eqn="prod @2 1 2"&gt;     &lt;v:f eqn="prod @3 21600 pixelWidth"&gt;     &lt;v:f eqn="prod @3 21600 pixelHeight"&gt;     &lt;v:f eqn="sum @0 0 1"&gt;     &lt;v:f eqn="prod @6 1 2"&gt;     &lt;v:f eqn="prod @7 21600 pixelWidth"&gt;     &lt;v:f eqn="sum @8 21600 0"&gt;     &lt;v:f eqn="prod @7 21600 pixelHeight"&gt;     &lt;v:f eqn="sum @10 21600 0"&gt;    &lt;/v:formulas&gt;    &lt;v:path extrusionok="f" gradientshapeok="t" connecttype="rect"&gt;    &lt;o:lock ext="edit" aspectratio="t"&gt;   &lt;/v:shapetype&gt;&lt;v:shape id="_x0000_s1026" type="#_x0000_t75" alt="" style="'position:absolute;" allowoverlap="f"&gt;    &lt;v:imagedata src="http://www.nova-acropole.pt/imagens%20artigos/estatua%20de%20dante%20allighieri.jpg"&gt;    &lt;w:wrap type="square"&gt;   &lt;/v:shape&gt;&lt;![endif]--&gt;&lt;img width="250" height="333" src="http://www.nova-acropole.pt/imagens%20artigos/estatua%20de%20dante%20allighieri.jpg" align="left" hspace="10" shapes="_x0000_s1026" /&gt;&lt;span style="font-family:&amp;quot;Tahoma&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-Times New Roman&amp;quot;font-family:&amp;quot;;font-size:10.0pt;"&gt;Dante Alighieri foi um dos maiores vultos intelectuais da   época pré-renascentista. Contemporâneo de personagens célebres da Europa,   como Giotto, Marco Polo, Afonso X o Sábio, etc., é considerado como o autor   mais importante da língua italiana. Viveu numa época muito conturbada na   península itálica, as cidades guerreavam-se entre si, e dentro das próprias   cidades não havia a melhor coesão política.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nascido na cidade de Florença em Maio de 1265 vai sofrer as conturbações e   incompreensões dos seus conterrâneos. O seu pai era um pequeno proprietário   de terras e sua mãe morreu pouco anos após Dante ter nascido. O pai teve um   novo casamento do qual nasceram mais três filhos com os quais Dante teve   sempre boas relações. Aos nove anos avista pela primeira vez a pequena   Beatriz, poucos meses mais nova do que ele, que irá ser a musa inspiradora do   futuro poeta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Frequentou as escolas de Florença mas o maior contributo para a sua formação   foi o contacto com Brunetto Latini, homem apaixonado pelas letras que   frequentara os maiores centros culturais da Europa. Aos 18 anos volta a   encontrar Beatriz que o inspira para a criação de poesia, iniciando-se a sua   actividade como escritor. Fazendo parte dos feditori, os cavaleiros   destinados ao assalto, defendeu valorosamente a sua cidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em 1290 morre Beatriz, o que causa a Dante grande perturbação levando-o a   procurar reconforto na leitura de autores clássicos. Casa depois com Gemma   Donati, a quem a família o ligara desde criança, procurando assim uma   estabilização familiar, continuando no entanto a sua actividade nos círculos   intelectuais de Florença.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Florença passava nesta época algumas conturbações políticas. Era notória a   rivalidade entre a nascente burguesia e a velha nobreza, representadas por   duas poderosas famílias: os Cerchi e os Donati. Aqueles fizeram grande   fortuna com o comércio, enquanto que os Donati eram ricos, pertenciam a uma   antiga estirpe. A rivalidade acentua-se com a luta pelo poder político na   cidade.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;!--[if gte vml 1]&gt;&lt;v:shape id="_x0000_s1027" type="#_x0000_t75" alt="" style="'position:absolute;margin-left:147.5pt;margin-top:0;width:187.5pt;" allowoverlap="f"&gt;    &lt;v:imagedata src="http://www.nova-acropole.pt/imagens%20artigos/beatriz%20y%20dante.JPG"&gt;    &lt;w:wrap type="square"&gt;   &lt;/v:shape&gt;&lt;![endif]--&gt;&lt;img width="250" height="200" src="http://www.nova-acropole.pt/imagens%20artigos/beatriz%20y%20dante.JPG" align="right" hspace="10" shapes="_x0000_s1027" /&gt;&lt;span style="font-family:&amp;quot;Tahoma&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-Times New Roman&amp;quot;font-family:&amp;quot;;font-size:10.0pt;"&gt;&lt;br /&gt;É nesta altura que Dante entra na política ocupando um cargo público.   Situação difícil para a natureza de um homem como Dante, pois tentando-se   sobrepôr a todo o tipo de facção para que realmente prevalecessem os   interesses da cidade, acabou por tomar partido pelos Brancos (assim eram   designados os que tinham o partido dos Cerchi, enquanto que a outra facção   eram denominados de Negros) para se opôr aos interesses de Bonifácio VIII,   que tinha o objectivo de se apoderar da Toscana e que dava apoio aos Negros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em 1301 é enviado a Roma como membro de uma embaixada. O papa, tendo-se   apercebido de que Dante era um temível adversário dos seus interesses, não o   deixou partir. Entretanto a situação muda bruscamente em Florença. Os Negros   vencem, expulsam os Brancos incendiando as suas casas e condenam os ausentes   à revelia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Inicia-se assim um exílio que irá manter o célebre florentino longe da sua   pátria por toda a vida. Irá percorrer toda a Itália sonhando sempre com o   regresso à pátria e com uma ideia avançada para a época: a unificação de toda   a península.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em 1310 vai à Itália Henrique VII do Luxemburgo, o poderoso Imperador que irá   tentar pacificar as cidades italianas, unificando-as sob o seu domínio. Mas   são os próprios florentinos que desencadeiam um movimento oposto a esta ideia   e que depressa alastrou por toda a Itália pondo fim a esta tentativa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Percorrendo cidade após cidade, Dante passa os últimos anos de sua vida na   cidade de Ravena onde, diz-se, terá tido uma cátedra na Universidade desta   cidade. Em 1321, no regresso de uma viagem a Veneza, onde fora como   embaixador do senhor de Ravena, Dante adoece, vindo a desencarnar na noite de   13 de Setembro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Homem de qualidade superiores, Dante vai-se imortalizar através da sua vasta   obra, e mais concretamente através da &lt;em&gt;&lt;span style="Tahoma&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;“Divina   Comédia”&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;, que o tornou um dos grandes escritores de todos os   tempos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Abrangendo áreas desde a retórica até à política, passando pela poesia, Dante   transmite-nos não só a experiência de um homem da sua época com uma vida   atribulada, mas também as vivências e inquietudes do Homem de sempre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A sua primeira obra, &lt;em&gt;&lt;span style="Tahoma&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;“Vida   Nova”&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;, é um trabalho em poesia e prosa cujo tema é o seu grande   amor por Beatriz. As poesias são ou comentadas ou introduzidas por textos   escritos em prosa onde Dante narra o seu elevado sentimento de amor. Não um   amor inferior mas um amor platónico que o poeta descobre dentro de si e que   transmite através dos versos. Este amor por Beatriz alcançará uma dimensão   mais elevada na última parte da &lt;em&gt;&lt;span style="Tahoma&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;“Divina   Comédia”&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="Tahoma&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;“O Convívio”&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;,   composto nos anos que vão de 1304 a 1307, é uma das primeiras obras que Dante   escreve fora da sua terra natal. Obra em que o autor demonstra o seu vasto   conhecimento e saber, é escrita em prosa e os temas são extraídos de pequenas   composições poéticas que o precedem. Dante projectará &lt;em&gt;&lt;span style="Tahoma&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;“O Convívio”&lt;/span&gt;&lt;/em&gt; para 15   tratados mas apenas foram escritos 4, sendo o primeiro uma introdução.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Escrito em italiano comum, o primeiro do género, pois na época obras deste   cariz eram escritas em latim, Dante tenta fazer chegar o conhecimento a todos   os homens, desde príncipes, barões, cavaleiros e muitos outros nobres, até ao   povo, não só homens mas também mulheres.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;!--[if gte vml 1]&gt;&lt;v:shape id="_x0000_s1028" type="#_x0000_t75" alt="" style="'position:absolute;margin-left:0;margin-top:0;width:175.5pt;" allowoverlap="f"&gt;    &lt;v:imagedata src="http://www.nova-acropole.pt/imagens%20artigos/virgilio%20y%20dante%20ante%20el%20infierno%20de%20los%20traidores,%20blake.jpg"&gt;    &lt;w:wrap type="square"&gt;   &lt;/v:shape&gt;&lt;![endif]--&gt;&lt;img width="234" height="216" src="http://www.nova-acropole.pt/imagens%20artigos/virgilio%20y%20dante%20ante%20el%20infierno%20de%20los%20traidores,%20blake.jpg" align="left" hspace="10" vspace="10" shapes="_x0000_s1028" /&gt;&lt;span style="font-family:&amp;quot;Tahoma&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-Times New Roman&amp;quot;font-family:&amp;quot;;font-size:10.0pt;"&gt;&lt;br /&gt;De realçar nesta obra o conceito de nobreza que &lt;em&gt;&lt;span style="Tahoma&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;“é a perfeição da própria natureza em cada coisa”&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;,   não se herda, não provém da estirpe, nem do tempo, nem das riquezas, mas da   Alma, e compreendem em si, além das virtudes morais e intelectuais, as boas   disposições naturais, a bondade, os sentimentos generosos. Ela, a nobreza, é   depois sublimada pela graça santificante, e torna-se semente de vida feliz,   que se desenvolve, primeiro naturalmente e depois racionalmente, &lt;em&gt;&lt;span style="Tahoma&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;“até levar até Deus a Alma por Deus   criada”&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="Tahoma&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;“A Vulgar Eloquência”&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;   é um tratado de filologia ou ciência da linguagem. Composta por dois volumes,   Dante analisa a linguagem como tendo uma única raíz que se foi multiplicando   até se criarem os particulares dialectos. Faz distinção entre linguagem   popular e linguagem culta, distingue na poesia as várias métricas, os versos,   os estilos, etc... Preconiza que deveria existir uma língua comum em toda a   península itálica, o que significa a existência de uma nação, conceito   inexistente na época puramente feudal do seu tempo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="Tahoma&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;“Monarquia”&lt;/span&gt;&lt;/em&gt; é   um tratado de teor político-filosó&lt;wbr&gt;fico, escrito em latim, no qual Dante   exprime as suas ideias sociais. Ao grande partidarismo da época, Dante opõe o   conceito de um governador universal representado por um Imperador, que   unifique todos os países e nações. O Imperador ou Monarca imperará sobre   todos os reis, ministros ou chefes dos povos, e agindo segundo a Justiça,   conseguirá que todos os que agem abaixo dele sigam o seu exemplo. Assim a   humanidade viveria em Paz e Justiça social, de harmonia com a Lei Universal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De Dante podemos ainda encontrar outras obras menores, a maioria póstumas,   reunidas e publicadas mais tarde. Estão neste caso as &lt;em&gt;&lt;span style="Tahoma&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;“Éclogas”&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;, &lt;em&gt;&lt;span style="Tahoma&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;“As Epístolas”&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;, &lt;em&gt;&lt;span style="Tahoma&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;“As Rimas”&lt;/span&gt;&lt;/em&gt; e &lt;em&gt;&lt;span style="Tahoma&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;“A Questão da Água e Terra&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;”.   Simples documentos da actividade intelectual do poeta nos meios cultos da   época.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="Tahoma&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;“A Divina Comédia”&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;É a obra-prima de Dante. Começada por volta de 1307, trabalhou nela durante   todo o resto da sua vida. Poema composto por três partes contendo a primeira   parte 34 cantos e as outras duas partes 33 cantos cada uma, totalizando 100   cantos, está escrito em tercetos de versos decassilábicos com rima encadeada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tendo o título original de &lt;em&gt;&lt;span style="Tahoma&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;“Comédia”&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;,   mais tarde os editores colocam-lhe o título de &lt;em&gt;&lt;span style="Tahoma&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;“A Divina Comédia”&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;!--[if gte vml 1]&gt;&lt;v:shape id="_x0000_s1029" type="#_x0000_t75" alt="" style="'position:absolute;margin-left:0;margin-top:0;width:123pt;" allowoverlap="f"&gt;    &lt;v:imagedata src="http://www.nova-acropole.pt/imagens%20artigos/plano%20del%20infierno%20de%20dante.jpg"&gt;    &lt;w:wrap type="square"&gt;   &lt;/v:shape&gt;&lt;![endif]--&gt;&lt;img width="164" height="243" src="http://www.nova-acropole.pt/imagens%20artigos/plano%20del%20infierno%20de%20dante.jpg" align="left" hspace="10" vspace="10" shapes="_x0000_s1029" /&gt;&lt;span style="font-family:&amp;quot;Tahoma&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-Times New Roman&amp;quot;font-family:&amp;quot;;font-size:10.0pt;"&gt;&lt;br /&gt;É nesta obra que Dante coloca todo o Conhecimento e Sabedoria do homem   superior que era, adaptando o Saber Tradicional à forma religiosa vigente   para assim transmitir esses mesmos Conhecimentos aos outros homens. Rica em   simbolismo, &lt;em&gt;&lt;span style="Tahoma&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;“A Divina   Comédia”&lt;/span&gt;&lt;/em&gt; está perfeitamente adaptada ao cristianismo, podendo ser   lida por todos aqueles que a queiram ler. Uns contentam-se apenas com o   invólucro de que está revestida a obra, outros antevêm mais além, cada um   segundo as suas possibilidades de beber na fonte inesgotável do simbolismo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na &lt;em&gt;&lt;span style="Tahoma&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;“Comédia”&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;   Dante relata todo o processo de aceleração da evolução humana, ou seja, o   processo iniciático, desde a descida aos mundos inferiores até à contemplação   do Divino, processo este que é dividido em três partes: &lt;em&gt;&lt;span style="Tahoma&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;“Inferno”&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;, &lt;em&gt;&lt;span style="Tahoma&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;“Purgatório”&lt;/span&gt;&lt;/em&gt; e &lt;em&gt;&lt;span style="Tahoma&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;“Paraíso”&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;!--[if gte vml 1]&gt;&lt;v:shape id="_x0000_s1030" type="#_x0000_t75" alt="" style="'position:absolute;margin-left:147.5pt;margin-top:0;width:187.5pt;" allowoverlap="f"&gt;    &lt;v:imagedata src="http://www.nova-acropole.pt/imagens%20artigos/dnate%20se%20encuentra%20con%20virgilio,%20ilustracion%20de%20william%20blake%20para%20la%20divina%20comedia.jpg"&gt;    &lt;w:wrap type="square"&gt;   &lt;/v:shape&gt;&lt;![endif]--&gt;&lt;img width="250" height="174" src="http://www.nova-acropole.pt/imagens%20artigos/dnate%20se%20encuentra%20con%20virgilio,%20ilustracion%20de%20william%20blake%20para%20la%20divina%20comedia.jpg" align="right" hspace="10" shapes="_x0000_s1030" /&gt;&lt;span style="font-family:&amp;quot;Tahoma&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-Times New Roman&amp;quot;font-family:&amp;quot;;font-size:10.0pt;"&gt;Na primeira parte Dante narra que, tendo-se perdido numa   floresta obscura, tenta em vão subir a uma colina iluminada pelos raios do   sol nascente pois encontra-se frente a três feras que o impedem. Surge então   Virgílio, o grande poeta latino, que será o guia espiritual nas duas   primeiras partes da odisseia que Dante terá de percorrer. Virgílio   tranquiliza-&lt;wbr&gt;o, oferecendo-se para o tirar dali, levando-o através do   Inferno e do Purgatório, um privilégio concedido a Dante pela oração de   Beatriz, para que ele possa alcançar o Reino dos Bem-Aventurados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É assim que Dante se encontra no caminho da &lt;em&gt;&lt;span style="Tahoma&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;“Via Fatale”&lt;/span&gt;&lt;/em&gt; sobre cujos portais se   encontra gravado:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;  &lt;em&gt;&lt;span style="Tahoma&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;«Por mim se vai à   cidade dolente&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;i&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="Tahoma&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;  Por mim se vai ao   eterno tormento&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="Tahoma&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;  Por mim se vai   viver com a perdida gente».&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;!--[if gte vml 1]&gt;&lt;v:shape id="_x0000_s1031" type="#_x0000_t75" alt="" style="'position:absolute;margin-left:0;margin-top:0;width:139.5pt;" allowoverlap="f"&gt;    &lt;v:imagedata src="http://www.nova-acropole.pt/imagens%20artigos/dante%20y%20virgilio%20ante%20las%20puertas%20del%20infierno,%20ilustracion%20de%20william%20blake.jpg"&gt;    &lt;w:wrap type="square"&gt;   &lt;/v:shape&gt;&lt;![endif]--&gt;&lt;img width="186" height="270" src="http://www.nova-acropole.pt/imagens%20artigos/dante%20y%20virgilio%20ante%20las%20puertas%20del%20infierno,%20ilustracion%20de%20william%20blake.jpg" align="left" hspace="10" shapes="_x0000_s1031" /&gt;&lt;span style="font-family:&amp;quot;Tahoma&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-Times New Roman&amp;quot;font-family:&amp;quot;;font-size:10.0pt;"&gt;É o primeiro passo, atravessar a terrível porta para se   entrar nos mundos inferiores. Para isso é necessária toda a preparação e   purificação para não se cair nos domínios inferiores. É a inspiração amorosa   que leva Dante a “agir”, mas um amor platónico, ou seja, oriundo de Vénus   Urania.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É necessária a “acção” para que todo o processo se inicie. Como diz Krishna a   Arjuna no Bhagavad-Gita, o caminho do Conhecimento é o caminho da Acção   ultrapassada. Só com a experiência vem o verdadeiro Conhecimento, e o poeta   terá que percorrer todo o longo caminho até chegar ao Conhecimento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nas duas primeiras partes do poema vemos Dante conduzido por Virgílio, símbolo   da razão, do conhecimento, da sabedoria, de toda a herança cultural dos   antigos. É a etapa em que o homem necessita do apoio externo para que possa   avançar no “tortuoso caminho”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;!--[if gte vml 1]&gt;&lt;v:shape id="_x0000_s1032" type="#_x0000_t75" alt="" style="'position:absolute;margin-left:185pt;margin-top:0;width:225pt;" allowoverlap="f"&gt;    &lt;v:imagedata src="http://www.nova-acropole.pt/imagens%20artigos/beatriz%20ensena%20el%20paraiso%20a%20dante.jpg"&gt;    &lt;w:wrap type="square"&gt;   &lt;/v:shape&gt;&lt;![endif]--&gt;&lt;img width="300" height="214" src="http://www.nova-acropole.pt/imagens%20artigos/beatriz%20ensena%20el%20paraiso%20a%20dante.jpg" align="right" hspace="10" shapes="_x0000_s1032" /&gt;&lt;span style="font-family:&amp;quot;Tahoma&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-Times New Roman&amp;quot;font-family:&amp;quot;;font-size:10.0pt;"&gt;Após estas etapas, o poeta caminha não sozinho mas   acompanhado por Beatriz que o conduzirá até ao final de toda a odisseia.   Beatriz é Vénus Urania, a grande paixão do homem por aquela sua “parte” que   lhe falta: a Alma. Nesta fase o “lanu” não necessita de apoio externo do   mestre, mas aspira a algo mais, aspira a conquistar a Essência perdida em   tempos remotos. É com esta conquista que Dante entra no Reino dos   Bem-Aventurados, onde habitam os Deuses, o Paraíso cristão, o Amenti egípcio,   o Nirvana de Buda. Diversas terminologias para exprimirem todas o mesmo: o   Inexprimível.&lt;/span&gt;&lt;span style="mso-fareast-Times New Roman&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:&amp;quot;Tahoma&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;   mso-fareast-Times New Roman&amp;quot;font-family:&amp;quot;;font-size:10.0pt;"&gt;&lt;br /&gt;Kartia Fonseca&lt;/span&gt;&lt;span style="mso-fareast-Times New Roman&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;/td&gt;  &lt;/tr&gt; &lt;/tbody&gt;&lt;/table&gt;  &lt;/div&gt;  &lt;span style="font-family:&amp;quot;Tahoma&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-mso-fareast-theme-font:minor-latin;mso-ansi-language:PT-BR;mso-fareast-language: PT-BR;mso-bidi-language:AR-SAfont-family:Calibri;font-size:12.0pt;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/25961370-8873052793494986384?l=cronicasdeasgardh.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://cronicasdeasgardh.blogspot.com/feeds/8873052793494986384/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=25961370&amp;postID=8873052793494986384&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/25961370/posts/default/8873052793494986384'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/25961370/posts/default/8873052793494986384'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://cronicasdeasgardh.blogspot.com/2009/03/dante-e-adivina-comedia.html' title='DANTE E ADIVINA COMÉDIA'/><author><name>Motoko Aramaki</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='33' height='12' src='http://photos1.blogger.com/blogger/5784/479/400/imagemlogo2.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-25961370.post-6023271042996899340</id><published>2008-11-18T12:11:00.000-02:00</published><updated>2009-03-07T14:32:03.368-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='By Athena in Asgarh'/><title type='text'>Dante e a Divina Comédia</title><content type='html'>&lt;p align="center" style="text-align:center"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"   style="color: rgb(0, 51, 51);  font-family:Tahoma;font-size:24px;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p align="center" style="text-align:center"&gt;&lt;strong&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="Verdana&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;font-family:&amp;quot;;font-size:7.5pt;color:#330000;"&gt;José Antunes&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p align="center" style="text-align:center"&gt;&lt;span style="Tahoma&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt; &lt;/span&gt; &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;div align="center"&gt;  &lt;table class="MsoNormalTable" border="0" cellpadding="0" width="100%" style="width:100.0%;mso-cellspacing:1.5pt;mso-yfti-tbllook:1184" height="66"&gt;  &lt;tbody&gt;&lt;tr style="mso-yfti-irow:0;mso-yfti-firstrow:yes;mso-yfti-lastrow:yes"&gt;   &lt;td width="6" style="width:4.5pt;padding:.75pt .75pt .75pt .75pt"&gt;&lt;/td&gt;   &lt;td width="571" valign="top" style="width:428.25pt;padding:.75pt .75pt .75pt .75pt"&gt;   &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="mso-fareast-Times New Roman&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;!--[if gte vml 1]&gt;&lt;v:shapetype id="_x0000_t75" coordsize="21600,21600" spt="75" preferrelative="t" path="m@4@5l@4@11@9@11@9@5xe" filled="f" stroked="f"&gt;    &lt;v:stroke joinstyle="miter"&gt;    &lt;v:formulas&gt;     &lt;v:f eqn="if lineDrawn pixelLineWidth 0"&gt;     &lt;v:f eqn="sum @0 1 0"&gt;     &lt;v:f eqn="sum 0 0 @1"&gt;     &lt;v:f eqn="prod @2 1 2"&gt;     &lt;v:f eqn="prod @3 21600 pixelWidth"&gt;     &lt;v:f eqn="prod @3 21600 pixelHeight"&gt;     &lt;v:f eqn="sum @0 0 1"&gt;     &lt;v:f eqn="prod @6 1 2"&gt;     &lt;v:f eqn="prod @7 21600 pixelWidth"&gt;     &lt;v:f eqn="sum @8 21600 0"&gt;     &lt;v:f eqn="prod @7 21600 pixelHeight"&gt;     &lt;v:f eqn="sum @10 21600 0"&gt;    &lt;/v:formulas&gt;    &lt;v:path extrusionok="f" gradientshapeok="t" connecttype="rect"&gt;    &lt;o:lock ext="edit" aspectratio="t"&gt;   &lt;/v:shapetype&gt;&lt;v:shape id="_x0000_s1026" type="#_x0000_t75" alt="" style="'position:absolute;" allowoverlap="f"&gt;    &lt;v:imagedata src="http://www.nova-acropole.pt/imagens%20artigos/estatua%20de%20dante%20allighieri.jpg"&gt;    &lt;w:wrap type="square"&gt;   &lt;/v:shape&gt;&lt;![endif]--&gt;&lt;img width="250" height="333" src="http://www.nova-acropole.pt/imagens%20artigos/estatua%20de%20dante%20allighieri.jpg" align="left" hspace="10" shapes="_x0000_s1026" /&gt;&lt;span style="font-family:&amp;quot;Tahoma&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-Times New Roman&amp;quot;font-family:&amp;quot;;font-size:10.0pt;"&gt;Dante Alighieri foi um dos maiores vultos intelectuais da   época pré-renascentista. Contemporâneo de personagens célebres da Europa,   como Giotto, Marco Polo, Afonso X o Sábio, etc., é considerado como o autor   mais importante da língua italiana. Viveu numa época muito conturbada na   península itálica, as cidades guerreavam-se entre si, e dentro das próprias   cidades não havia a melhor coesão política.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nascido na cidade de Florença em Maio de 1265 vai sofrer as conturbações e   incompreensões dos seus conterrâneos. O seu pai era um pequeno proprietário   de terras e sua mãe morreu pouco anos após Dante ter nascido. O pai teve um   novo casamento do qual nasceram mais três filhos com os quais Dante teve   sempre boas relações. Aos nove anos avista pela primeira vez a pequena   Beatriz, poucos meses mais nova do que ele, que irá ser a musa inspiradora do   futuro poeta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Frequentou as escolas de Florença mas o maior contributo para a sua formação   foi o contacto com Brunetto Latini, homem apaixonado pelas letras que   frequentara os maiores centros culturais da Europa. Aos 18 anos volta a   encontrar Beatriz que o inspira para a criação de poesia, iniciando-se a sua   actividade como escritor. Fazendo parte dos feditori, os cavaleiros   destinados ao assalto, defendeu valorosamente a sua cidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em 1290 morre Beatriz, o que causa a Dante grande perturbação levando-o a   procurar reconforto na leitura de autores clássicos. Casa depois com Gemma   Donati, a quem a família o ligara desde criança, procurando assim uma   estabilização familiar, continuando no entanto a sua actividade nos círculos   intelectuais de Florença.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Florença passava nesta época algumas conturbações políticas. Era notória a   rivalidade entre a nascente burguesia e a velha nobreza, representadas por   duas poderosas famílias: os Cerchi e os Donati. Aqueles fizeram grande   fortuna com o comércio, enquanto que os Donati eram ricos, pertenciam a uma   antiga estirpe. A rivalidade acentua-se com a luta pelo poder político na   cidade.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;!--[if gte vml 1]&gt;&lt;v:shape id="_x0000_s1027" type="#_x0000_t75" alt="" style="'position:absolute;margin-left:147.5pt;margin-top:0;width:187.5pt;" allowoverlap="f"&gt;    &lt;v:imagedata src="http://www.nova-acropole.pt/imagens%20artigos/beatriz%20y%20dante.JPG"&gt;    &lt;w:wrap type="square"&gt;   &lt;/v:shape&gt;&lt;![endif]--&gt;&lt;img width="250" height="200" src="http://www.nova-acropole.pt/imagens%20artigos/beatriz%20y%20dante.JPG" align="right" hspace="10" shapes="_x0000_s1027" /&gt;&lt;span style="font-family:&amp;quot;Tahoma&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-Times New Roman&amp;quot;font-family:&amp;quot;;font-size:10.0pt;"&gt;&lt;br /&gt;É nesta altura que Dante entra na política ocupando um cargo público.   Situação difícil para a natureza de um homem como Dante, pois tentando-se   sobrepôr a todo o tipo de facção para que realmente prevalecessem os   interesses da cidade, acabou por tomar partido pelos Brancos (assim eram   designados os que tinham o partido dos Cerchi, enquanto que a outra facção   eram denominados de Negros) para se opôr aos interesses de Bonifácio VIII,   que tinha o objectivo de se apoderar da Toscana e que dava apoio aos Negros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em 1301 é enviado a Roma como membro de uma embaixada. O papa, tendo-se   apercebido de que Dante era um temível adversário dos seus interesses, não o   deixou partir. Entretanto a situação muda bruscamente em Florença. Os Negros   vencem, expulsam os Brancos incendiando as suas casas e condenam os ausentes   à revelia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Inicia-se assim um exílio que irá manter o célebre florentino longe da sua   pátria por toda a vida. Irá percorrer toda a Itália sonhando sempre com o   regresso à pátria e com uma ideia avançada para a época: a unificação de toda   a península.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em 1310 vai à Itália Henrique VII do Luxemburgo, o poderoso Imperador que irá   tentar pacificar as cidades italianas, unificando-as sob o seu domínio. Mas   são os próprios florentinos que desencadeiam um movimento oposto a esta ideia   e que depressa alastrou por toda a Itália pondo fim a esta tentativa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Percorrendo cidade após cidade, Dante passa os últimos anos de sua vida na   cidade de Ravena onde, diz-se, terá tido uma cátedra na Universidade desta   cidade. Em 1321, no regresso de uma viagem a Veneza, onde fora como   embaixador do senhor de Ravena, Dante adoece, vindo a desencarnar na noite de   13 de Setembro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Homem de qualidade superiores, Dante vai-se imortalizar através da sua vasta   obra, e mais concretamente através da &lt;em&gt;&lt;span style="Tahoma&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;“Divina   Comédia”&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;, que o tornou um dos grandes escritores de todos os   tempos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Abrangendo áreas desde a retórica até à política, passando pela poesia, Dante   transmite-nos não só a experiência de um homem da sua época com uma vida   atribulada, mas também as vivências e inquietudes do Homem de sempre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A sua primeira obra, &lt;em&gt;&lt;span style="Tahoma&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;“Vida   Nova”&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;, é um trabalho em poesia e prosa cujo tema é o seu grande   amor por Beatriz. As poesias são ou comentadas ou introduzidas por textos   escritos em prosa onde Dante narra o seu elevado sentimento de amor. Não um   amor inferior mas um amor platónico que o poeta descobre dentro de si e que   transmite através dos versos. Este amor por Beatriz alcançará uma dimensão   mais elevada na última parte da &lt;em&gt;&lt;span style="Tahoma&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;“Divina   Comédia”&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="Tahoma&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;“O Convívio”&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;,   composto nos anos que vão de 1304 a 1307, é uma das primeiras obras que Dante   escreve fora da sua terra natal. Obra em que o autor demonstra o seu vasto   conhecimento e saber, é escrita em prosa e os temas são extraídos de pequenas   composições poéticas que o precedem. Dante projectará &lt;em&gt;&lt;span style="Tahoma&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;“O Convívio”&lt;/span&gt;&lt;/em&gt; para 15   tratados mas apenas foram escritos 4, sendo o primeiro uma introdução.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Escrito em italiano comum, o primeiro do género, pois na época obras deste   cariz eram escritas em latim, Dante tenta fazer chegar o conhecimento a todos   os homens, desde príncipes, barões, cavaleiros e muitos outros nobres, até ao   povo, não só homens mas também mulheres.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;!--[if gte vml 1]&gt;&lt;v:shape id="_x0000_s1028" type="#_x0000_t75" alt="" style="'position:absolute;margin-left:0;margin-top:0;width:175.5pt;" allowoverlap="f"&gt;    &lt;v:imagedata src="http://www.nova-acropole.pt/imagens%20artigos/virgilio%20y%20dante%20ante%20el%20infierno%20de%20los%20traidores,%20blake.jpg"&gt;    &lt;w:wrap type="square"&gt;   &lt;/v:shape&gt;&lt;![endif]--&gt;&lt;img width="234" height="216" src="http://www.nova-acropole.pt/imagens%20artigos/virgilio%20y%20dante%20ante%20el%20infierno%20de%20los%20traidores,%20blake.jpg" align="left" hspace="10" vspace="10" shapes="_x0000_s1028" /&gt;&lt;span style="font-family:&amp;quot;Tahoma&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-Times New Roman&amp;quot;font-family:&amp;quot;;font-size:10.0pt;"&gt;&lt;br /&gt;De realçar nesta obra o conceito de nobreza que &lt;em&gt;&lt;span style="Tahoma&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;“é a perfeição da própria natureza em cada coisa”&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;,   não se herda, não provém da estirpe, nem do tempo, nem das riquezas, mas da   Alma, e compreendem em si, além das virtudes morais e intelectuais, as boas   disposições naturais, a bondade, os sentimentos generosos. Ela, a nobreza, é   depois sublimada pela graça santificante, e torna-se semente de vida feliz,   que se desenvolve, primeiro naturalmente e depois racionalmente, &lt;em&gt;&lt;span style="Tahoma&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;“até levar até Deus a Alma por Deus   criada”&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="Tahoma&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;“A Vulgar Eloquência”&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;   é um tratado de filologia ou ciência da linguagem. Composta por dois volumes,   Dante analisa a linguagem como tendo uma única raíz que se foi multiplicando   até se criarem os particulares dialectos. Faz distinção entre linguagem   popular e linguagem culta, distingue na poesia as várias métricas, os versos,   os estilos, etc... Preconiza que deveria existir uma língua comum em toda a   península itálica, o que significa a existência de uma nação, conceito   inexistente na época puramente feudal do seu tempo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="Tahoma&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;“Monarquia”&lt;/span&gt;&lt;/em&gt; é   um tratado de teor político-filosó&lt;wbr&gt;fico, escrito em latim, no qual Dante   exprime as suas ideias sociais. Ao grande partidarismo da época, Dante opõe o   conceito de um governador universal representado por um Imperador, que   unifique todos os países e nações. O Imperador ou Monarca imperará sobre   todos os reis, ministros ou chefes dos povos, e agindo segundo a Justiça,   conseguirá que todos os que agem abaixo dele sigam o seu exemplo. Assim a   humanidade viveria em Paz e Justiça social, de harmonia com a Lei Universal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De Dante podemos ainda encontrar outras obras menores, a maioria póstumas,   reunidas e publicadas mais tarde. Estão neste caso as &lt;em&gt;&lt;span style="Tahoma&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;“Éclogas”&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;, &lt;em&gt;&lt;span style="Tahoma&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;“As Epístolas”&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;, &lt;em&gt;&lt;span style="Tahoma&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;“As Rimas”&lt;/span&gt;&lt;/em&gt; e &lt;em&gt;&lt;span style="Tahoma&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;“A Questão da Água e Terra&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;”.   Simples documentos da actividade intelectual do poeta nos meios cultos da   época.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="Tahoma&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;“A Divina Comédia”&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;É a obra-prima de Dante. Começada por volta de 1307, trabalhou nela durante   todo o resto da sua vida. Poema composto por três partes contendo a primeira   parte 34 cantos e as outras duas partes 33 cantos cada uma, totalizando 100   cantos, está escrito em tercetos de versos decassilábicos com rima encadeada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tendo o título original de &lt;em&gt;&lt;span style="Tahoma&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;“Comédia”&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;,   mais tarde os editores colocam-lhe o título de &lt;em&gt;&lt;span style="Tahoma&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;“A Divina Comédia”&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;!--[if gte vml 1]&gt;&lt;v:shape id="_x0000_s1029" type="#_x0000_t75" alt="" style="'position:absolute;margin-left:0;margin-top:0;width:123pt;" allowoverlap="f"&gt;    &lt;v:imagedata src="http://www.nova-acropole.pt/imagens%20artigos/plano%20del%20infierno%20de%20dante.jpg"&gt;    &lt;w:wrap type="square"&gt;   &lt;/v:shape&gt;&lt;![endif]--&gt;&lt;img width="164" height="243" src="http://www.nova-acropole.pt/imagens%20artigos/plano%20del%20infierno%20de%20dante.jpg" align="left" hspace="10" vspace="10" shapes="_x0000_s1029" /&gt;&lt;span style="font-family:&amp;quot;Tahoma&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-Times New Roman&amp;quot;font-family:&amp;quot;;font-size:10.0pt;"&gt;&lt;br /&gt;É nesta obra que Dante coloca todo o Conhecimento e Sabedoria do homem   superior que era, adaptando o Saber Tradicional à forma religiosa vigente   para assim transmitir esses mesmos Conhecimentos aos outros homens. Rica em   simbolismo, &lt;em&gt;&lt;span style="Tahoma&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;“A Divina   Comédia”&lt;/span&gt;&lt;/em&gt; está perfeitamente adaptada ao cristianismo, podendo ser   lida por todos aqueles que a queiram ler. Uns contentam-se apenas com o   invólucro de que está revestida a obra, outros antevêm mais além, cada um   segundo as suas possibilidades de beber na fonte inesgotável do simbolismo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na &lt;em&gt;&lt;span style="Tahoma&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;“Comédia”&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;   Dante relata todo o processo de aceleração da evolução humana, ou seja, o   processo iniciático, desde a descida aos mundos inferiores até à contemplação   do Divino, processo este que é dividido em três partes: &lt;em&gt;&lt;span style="Tahoma&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;“Inferno”&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;, &lt;em&gt;&lt;span style="Tahoma&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;“Purgatório”&lt;/span&gt;&lt;/em&gt; e &lt;em&gt;&lt;span style="Tahoma&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;“Paraíso”&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;!--[if gte vml 1]&gt;&lt;v:shape id="_x0000_s1030" type="#_x0000_t75" alt="" style="'position:absolute;margin-left:147.5pt;margin-top:0;width:187.5pt;" allowoverlap="f"&gt;    &lt;v:imagedata src="http://www.nova-acropole.pt/imagens%20artigos/dnate%20se%20encuentra%20con%20virgilio,%20ilustracion%20de%20william%20blake%20para%20la%20divina%20comedia.jpg"&gt;    &lt;w:wrap type="square"&gt;   &lt;/v:shape&gt;&lt;![endif]--&gt;&lt;img width="250" height="174" src="http://www.nova-acropole.pt/imagens%20artigos/dnate%20se%20encuentra%20con%20virgilio,%20ilustracion%20de%20william%20blake%20para%20la%20divina%20comedia.jpg" align="right" hspace="10" shapes="_x0000_s1030" /&gt;&lt;span style="font-family:&amp;quot;Tahoma&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-Times New Roman&amp;quot;font-family:&amp;quot;;font-size:10.0pt;"&gt;Na primeira parte Dante narra que, tendo-se perdido numa   floresta obscura, tenta em vão subir a uma colina iluminada pelos raios do   sol nascente pois encontra-se frente a três feras que o impedem. Surge então   Virgílio, o grande poeta latino, que será o guia espiritual nas duas   primeiras partes da odisseia que Dante terá de percorrer. Virgílio   tranquiliza-&lt;wbr&gt;o, oferecendo-se para o tirar dali, levando-o através do   Inferno e do Purgatório, um privilégio concedido a Dante pela oração de   Beatriz, para que ele possa alcançar o Reino dos Bem-Aventurados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É assim que Dante se encontra no caminho da &lt;em&gt;&lt;span style="Tahoma&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;“Via Fatale”&lt;/span&gt;&lt;/em&gt; sobre cujos portais se   encontra gravado:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;  &lt;em&gt;&lt;span style="Tahoma&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;«Por mim se vai à   cidade dolente&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;i&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="Tahoma&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;  Por mim se vai ao   eterno tormento&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="Tahoma&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;  Por mim se vai   viver com a perdida gente».&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;!--[if gte vml 1]&gt;&lt;v:shape id="_x0000_s1031" type="#_x0000_t75" alt="" style="'position:absolute;margin-left:0;margin-top:0;width:139.5pt;" allowoverlap="f"&gt;    &lt;v:imagedata src="http://www.nova-acropole.pt/imagens%20artigos/dante%20y%20virgilio%20ante%20las%20puertas%20del%20infierno,%20ilustracion%20de%20william%20blake.jpg"&gt;    &lt;w:wrap type="square"&gt;   &lt;/v:shape&gt;&lt;![endif]--&gt;&lt;img width="186" height="270" src="http://www.nova-acropole.pt/imagens%20artigos/dante%20y%20virgilio%20ante%20las%20puertas%20del%20infierno,%20ilustracion%20de%20william%20blake.jpg" align="left" hspace="10" shapes="_x0000_s1031" /&gt;&lt;span style="font-family:&amp;quot;Tahoma&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-Times New Roman&amp;quot;font-family:&amp;quot;;font-size:10.0pt;"&gt;É o primeiro passo, atravessar a terrível porta para se   entrar nos mundos inferiores. Para isso é necessária toda a preparação e   purificação para não se cair nos domínios inferiores. É a inspiração amorosa   que leva Dante a “agir”, mas um amor platónico, ou seja, oriundo de Vénus   Urania.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É necessária a “acção” para que todo o processo se inicie. Como diz Krishna a   Arjuna no Bhagavad-Gita, o caminho do Conhecimento é o caminho da Acção   ultrapassada. Só com a experiência vem o verdadeiro Conhecimento, e o poeta   terá que percorrer todo o longo caminho até chegar ao Conhecimento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nas duas primeiras partes do poema vemos Dante conduzido por Virgílio, símbolo   da razão, do conhecimento, da sabedoria, de toda a herança cultural dos   antigos. É a etapa em que o homem necessita do apoio externo para que possa   avançar no “tortuoso caminho”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;!--[if gte vml 1]&gt;&lt;v:shape id="_x0000_s1032" type="#_x0000_t75" alt="" style="'position:absolute;margin-left:185pt;margin-top:0;width:225pt;" allowoverlap="f"&gt;    &lt;v:imagedata src="http://www.nova-acropole.pt/imagens%20artigos/beatriz%20ensena%20el%20paraiso%20a%20dante.jpg"&gt;    &lt;w:wrap type="square"&gt;   &lt;/v:shape&gt;&lt;![endif]--&gt;&lt;img width="300" height="214" src="http://www.nova-acropole.pt/imagens%20artigos/beatriz%20ensena%20el%20paraiso%20a%20dante.jpg" align="right" hspace="10" shapes="_x0000_s1032" /&gt;&lt;span style="font-family:&amp;quot;Tahoma&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-Times New Roman&amp;quot;font-family:&amp;quot;;font-size:10.0pt;"&gt;Após estas etapas, o poeta caminha não sozinho mas   acompanhado por Beatriz que o conduzirá até ao final de toda a odisseia.   Beatriz é Vénus Urania, a grande paixão do homem por aquela sua “parte” que   lhe falta: a Alma. Nesta fase o “lanu” não necessita de apoio externo do   mestre, mas aspira a algo mais, aspira a conquistar a Essência perdida em   tempos remotos. É com esta conquista que Dante entra no Reino dos   Bem-Aventurados, onde habitam os Deuses, o Paraíso cristão, o Amenti egípcio,   o Nirvana de Buda. Diversas terminologias para exprimirem todas o mesmo: o   Inexprimível.&lt;/span&gt;&lt;span style="mso-fareast-Times New Roman&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:&amp;quot;Tahoma&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;   mso-fareast-Times New Roman&amp;quot;font-family:&amp;quot;;font-size:10.0pt;"&gt;&lt;br /&gt;Kartia Fonseca&lt;/span&gt;&lt;span style="mso-fareast-Times New Roman&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;/td&gt;  &lt;/tr&gt; &lt;/tbody&gt;&lt;/table&gt;  &lt;/div&gt;  &lt;span style="font-family:&amp;quot;Tahoma&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-mso-fareast-theme-font:minor-latin;mso-ansi-language:PT-BR;mso-fareast-language: PT-BR;mso-bidi-language:AR-SAfont-family:Calibri;font-size:12.0pt;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/25961370-6023271042996899340?l=cronicasdeasgardh.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://cronicasdeasgardh.blogspot.com/feeds/6023271042996899340/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=25961370&amp;postID=6023271042996899340&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/25961370/posts/default/6023271042996899340'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/25961370/posts/default/6023271042996899340'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://cronicasdeasgardh.blogspot.com/2008/11/dante-e-divina-comedia.html' title='Dante e a Divina Comédia'/><author><name>Motoko Aramaki</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='33' height='12' src='http://photos1.blogger.com/blogger/5784/479/400/imagemlogo2.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-25961370.post-9054075305930675291</id><published>2008-04-29T16:03:00.000-03:00</published><updated>2009-03-07T14:32:03.381-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='by Asgardh'/><title type='text'>newton: gênio difícil</title><content type='html'>&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_uFOPZxZ5oTg/SBdx-0txDII/AAAAAAAAAIk/hlnrRiFvtpQ/s1600-h/Isaac_Newton.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5194746019311586434" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/_uFOPZxZ5oTg/SBdx-0txDII/AAAAAAAAAIk/hlnrRiFvtpQ/s400/Isaac_Newton.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;Perfil biográfico de Isaac Newton, o pai da Teoria da Gravitação Universal.&lt;br /&gt;Solitário, inseguro, rancoroso, o inglês Isaac Newton foi um cientista de talento excepcional, capaz de juntar numa só fórmula a queda de uma maçã e o movimento dos planetas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por José Tadeu Arantes&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O ano de 1666 foi fatídico para os ingleses. Em Londres, recém-saída da peste que matou 75 mil de seus 460 mil habitantes, um incêndio, iniciado numa padaria, se propagou durante quatro dias, consumindo mais de treze mil casas. Mas, na história da ciência, 1666 ficou conhecido como Annus Mirabilis ano maravilhoso. E isso se deveu ao gênio de uma só pessoa: Isaac Newton. Com a Universidade de Cambridge fechada devido aos temores de contágio, Newton, então com apenas 24 anos, se refugiou no campo, na casa da mãe no lugarejo de Woolsthorpe, onde nascera.&lt;br /&gt;No ambiente pacato da aldeia, ao passar em revista os conhecimentos que havia adquirido na renomada universidade, realizou a maior proeza intelectual já alcançada por um cientista em qualquer época algo que só teria paralelo no século XX, com as teorias de Albert Einstein. Pois, em seu refúgio campestre, o jovem Newton não só inventou o cálculo infinitesimal, de aplicação quase ilimitada nos mais diferentes ramos da ciência, como também lançou os fundamentos da ótica moderna, com um estudo sobre a luz e as cores e, principalmente, esboçou sua maior contribuição ao conhecimento humano a Teoria da Gravitação Universal. Muito tempo depois, ele mesmo explicaria a descoberta da gravitação com uma anedota que ficou famosa.&lt;br /&gt;Estava sentado uma noite ao ar livre, quando viu uma maçã cair. No mesmo instante, a Lua se levantava no firmamento. Uma pergunta atravessou sua mente como um relâmpago: a força que faz a maçã cair não seria a mesma que mantém a Lua em órbita ao redor da Terra? A questão possuía um alcance incrível: durante séculos, sob o domínio das idéias de Aristóteles (384-322 a.C.), acreditava-se que a Física terrestre e a Física celeste nada tinham em comum.&lt;br /&gt;Mergulhou então em profundos raciocínios: se a força de atração da Terra atuava sobre a Lua, o que mantinha os planetas em órbita deveria ser uma força do mesmo tipo, exercida pelo Sol. E essa força seria tanto mais fraca quanto mais distante o planeta estivesse do Sol. Partindo das leis sobre o movimento planetário, estabelecidas décadas antes pelo astrônomo e matemático alemão Johanes Kepler , Newton calculou que a força de atração varia de acordo com o inverso do quadrado da distância.&lt;br /&gt;Estava apenas a um passo da Lei da Gravitação Universal. A maçã, que os ingleses tanto apreciam para fazer tortas, havia permitido a Newton mudar a concepção do Universo, mas, ao contrário da lenda, não tinha caído sobre sua cabeça.&lt;br /&gt;O que havia na cabeça de Newton além da formidável intuição, era uma senhora neurose, resultado de uma infância que parecia conspiração do destino. Para começar, nasceu (no dia de Natal de 1642) prematuro, minúsculo e fraco. Ninguém acreditava que pudesse sobreviver ao primeiro dia: viveu 84 anos. Além disso, órfão de pai: o sitiante Isaac Newton, de quem herdou o nome, morrera três meses antes. Quando não havia ainda completado 3 anos, a mãe, Hannah, se casou de novo, com o pastor protestante Barnabas Smith. Este a levou para morar numa cidadezinha próxima de Woolsthorpe e exigiu que Isaac fosse deixado com a avó.&lt;br /&gt;Newton odiaria esse padrasto a vida inteira. Certa vez, ameaçou queimá-lo. E certamente projetou o ódio em todos os rivais. Brutal complexo de inferioridade e aguda sensação de insegurança o acompanhariam até o fim. Foi aluno medíocre, até que uma violenta briga com um colega ativou nele algum secreto talento que o transformou no primeiro da classe. Tímido e isolado, possuía, porém, excepcional habilidade para inventar e construir brinquedos mecânicos, como relógios e moinhos de vento. Se dependesse da mãe, que enviuvara de novo, Isaac trocaria os livros pela administração da propriedade que ela herdara do marido pastor. Mas o diretor da escola insistiu com Hannah para que deixasse o moço estudar.&lt;br /&gt;Assim, em junho de 1661, com 19 anos, entrou no Trinity College, da Universidade de Cambridge. Como estudante, primeiro, e logo como professor, continuava a ser uma figura excêntrica. Cabelos emaranhados, meias caindo nos calcanhares, era o tipo do gênio amalucado distraído a ponto de se sentar à mesa do refeitório e esquecer de comer. Puritano, abstêmio, solitário, sua vida se passava entre as salas da universidade. A idade não o modificaria muito: é quase certo que tenha morrido virgem.&lt;br /&gt;Mas a timidez no relacionamento humano era compensada por uma incrível vontade de saber. Para sorte de Newton, a grande revolução científica do século XVII já estava bastante adiantada quando chegou a Cambridge. Ele afirmaria mais tarde: se havia enxergado longe, era porque pudera se apoiar nos ombros de gigantes. Esses gigantes da revolução científica eram Johannes Kepler (1571-1630), o físico italiano (1564-1642) e o filósofo e matemático francês René Descartes (1596-1650).&lt;br /&gt;De Kepler, Newton herdou uma decisiva revisão do sistema concebido pelo polonês Nicolau Copérnico (1473-1543), o primeiro a formular, ainda como hipótese matemática, a teoria do movimento dos planetas ao redor do Sol que estaria no centro do Universo. De Galileu , recebeu uma nova formulação da ciência da Mecânica, baseada no princípio da inércia. De Descartes, a concepção mecanicista do mundo a visão da natureza como uma grande máquina, que funcionaria para sempre com base apenas no movimento de suas partes. Descartes deu ainda a Newton outro legado formidável: a Geometria Analítica, novo ramo da Matemática que permitia resolver problemas, até então insolúveis, pelos métodos algébricos.&lt;br /&gt;Com base em Kepler, Galileu e Descartes, o jovem Newton pôde fazer uma crítica da ciência grega que ainda era ensinada na universidade e anotou em latim num de seus cadernos: Amicus Plato, amicus Aristoteles, magis amica veritas (Platão é amigo, Aristóteles é amigo, mas amiga maior é a verdade). Três outras influências marcaram a formação de seu pensamento: o filósofo francês Pierre Gassendi, o químico inglês Robert Boyle e o filósofo também inglês Henry More. Gassendi havia ressuscitado a idéia grega de que a matéria se compunha de átomos e isso seria um ingrediente decisivo na receita newtoniana da natureza. Boyle forneceu-lhe a base para sua considerável obra em Química. More, finalmente, abriu-lhe a porta para o mundo do hermetismo, da tradição mágica e da alquimia. O fundador da ciência racional moderna era, também, um amante do oculto.&lt;br /&gt;Quando a Universidade de Cambridge foi fechada, devido à peste, Newton já havia recebido o grau de bacharel. Reaberta dois anos depois, ele ganhou a condição de fellow, que lhe permitia continuar os estudos à custa da universidade. Mais dois anos, e o catedrático de Matemática Isaac Barrow, que estava abandonando o magistério, indicou-o para sucedê-lo. Newton escolheu como tema inicial do curso seus estudos sobre a luz e as cores. De 1670 a 1672, suas palestras forneceriam material para o livro I de Ótica. O centro de sua contribuição era uma nova teoria das cores.&lt;br /&gt;Baseado nela, concluiu que a distorção cromática produzida pelas lentes convencionais era inevitável; para eliminar essa perturbação das observações astronômicas, construiu o primeiro telescópio por reflexão. Esse foi seu passaporte para o fechado clube dos grandes cientistas da época a Royal Society, a mais prestigiosa entidade científica da Inglaterra e da Europa. Em 1671, Newton foi eleito membro. Era o início da consagração. Mas havia uma pedra no meio do caminho. Seu nome: Robert Hooke, um dos mais brilhantes cientistas ingleses e líder da Royal Society.&lt;br /&gt;Ao contrário de Newton, Hooke acreditava que a luz era uma onda que se propagava no éter substância sutilíssima que preencheria todo o Universo. A ciência atual acabaria dando razão aos dois: embora a hipótese do éter universal tenha sido derrubada, sabe-se hoje que a luz realmente se comporta ora como se fosse formada por partículas ora como onda (SUPERINTERESSANTE n.º 3). Mas, na segunda metade do século XVII, as diferenças científicas entre Hooke e Newton transformaram-se em interminável desavença pessoal.&lt;br /&gt;A culpa, sem dúvida, foi do suscetível Newton: o contraponto do complexo de inferioridade era uma certeza intelectual que não admitia a menor contestação. Quase um ano depois da crítica de Hooke, ele continuava tão abalado que mergulhou em virtual isolamento. Quando, finalmente, em 1675, resolveu publicar o livro II de Ótica, jesuítas ingleses de Liège, na Bélgica, acusaram-no de erro nas experiências. A polêmica durou até 1678, quando Newton chegou ao completo esgotamento nervoso. Nos seis anos seguintes, ele fugiria a qualquer tipo de contato intelectual.&lt;br /&gt;Nesse período, entregou-se ao hermetismo. Sua biblioteca particular continha mais de cem tratados sobre alquimia, muitos copiados a mão por ele. Seu forno de alquimista para experiências com metais permaneceu aceso meses a fio. Sob a influência da chamada arte de transmutação dos metais, também sua concepção da natureza se transmudou. Antes, a idéia de que a matéria pode exercer ação a distância, como nos fenômenos eletrostáticos e gravitacionais, lhe era inaceitável: devia haver mecanismos invisíveis operando no éter.&lt;br /&gt;Agora, questões enigmáticas, como o fato de certas substâncias químicas reagirem entre si e outras não, o levaram a imaginar um princípio secreto regendo as simpatias e as antipatias entre as substâncias. Parece incrível, mas a Teoria da Gravitação Universal, coluna mestra da Física moderna, é descendente direta da filosofia hermética. Para Newton, estas eram correções inevitáveis no pensamento mecanicista, única forma de dar à natureza um tratamento matemático exato: as atrações à distância eram rigorosamente quantitativos.&lt;br /&gt;Em agosto de 1684, uma visita do astrônomo Edmond Halley tirou Newton da concha em que se fechara. Halley, cujo nome seria dado a um cometa, era uma espécie de fiel escudeiro de Newton. Soubera que este havia resolvido o problema da explicação física dos movimentos planetários: foi cobrar a demonstração. Newton prometeu atender. Da promessa resultou, quase três anos depois, a obra fundamental da ciência moderna: Philosophiae Naturalis Principia Mathematica (Princípios matemáticos da Filosofia natural).&lt;br /&gt;Com a primeira edição de quatrocentos exemplares, financiada pelo próprio Halley, os Principia, como a obra ficou conhecida, projetaram imediatamente o nome de Newton. Os jovens cientistas fizeram dele o seu modelo. Newton, de seu lado, sentia-se bem nessa companhia particularmente, na companhia de Fatio de Duillier, matemático suíço residente em Londres. Depois da relação com a mãe, a amizade com Fatio foi sua mais profunda experiência afetiva. Sob a influência da fama e do amigo, começou a abandonar a solidão.&lt;br /&gt;Protestante fervoroso, participou da resistência da Universidade de Cambridge à tentativa do rei James II de torná-la católica. Depois da revolução incruenta de 1688, que derrubou James do poder, foi eleito representante da Universidade na conferência de Londres, que estabeleceu o acordo entre os revolucionários vitoriosos. Isto lhe deu oportunidade de travar relações com os notáveis do país entre eles, o filósofo John Locke. A vida intensa da capital o atraiu. Tanto que fez gestões junto ao político Charles Montague, futuro Lord Halifax, para arranjar emprego ali. Em 1696, Montague conseguiu-lhe a nomeação para a diretoria da Casa da Moeda.&lt;br /&gt;Mudou-se finalmente para Londres. Fatio havia voltado para a Suíça, apesar dos protestos de Newton, que se oferecera até para sustentá-lo na Inglaterra. Londres era o encerramento de sua atividade científica criadora. Suas preocupações intelectuais se voltavam para outra direção. Tentou provar que as passagens bíblicas sobre a Santíssima Trindade eram corrupções tardias do texto original. Dedicou um livro à interpretação das profecias de Daniel e do Apocalipse de São João. Mergulhou num estudo exaustivo e infecundo sobre a cronologia das antigas civilizações.&lt;br /&gt;Como diretor e, depois, presidente da Casa da Moeda, recebia um polpudo salário anual de 2 mil libras, o que o transformou rapidamente num homem rico. Poderia contentar-se em ser um marajá da administração inglesa. Mas não sossegou: voltou sua raiva contra os falsificadores de dinheiro, levando vários à forca. Em 1703, foi eleito presidente da Royal Society, que dirigiria como ditador até o final da vida. Seus últimos anos foram dedicados a uma nova briga desta vez, com um adversário à altura: o filósofo e matemático alemão Gottfried Wilhelm Leibniz (1646-1716). Motivo: a prioridade na invenção do cálculo infinitesimal.&lt;br /&gt;Na verdade, Newton foi o inventor, e Leibniz o primeiro a publicar a invenção. Mas a polêmica era boa demais para ser deixada de lado com argumentos razoáveis. Newton redigiu pessoalmente a maior parte dos artigos em sua defesa assinados por seus partidários. Como presidente da Royal Society, nomeou um comitê imparcial para investigar o caso, enquanto secretamente escrevia o relatório oficial com as conclusões desse mesmo comitê. Nem a morte de Leibniz o acalmou: qualquer artigo, sobre qualquer assunto, continuava a ser uma boa oportunidade para espinafrar o filósofo alemão. Somente sua própria morte, em 20 de março de 1727, pôs fim à pendenga. E pensar que dessa mente conturbada nasceu a mais prodigiosa obra científica já produzida por um homem em todos os tempos.&lt;br /&gt;Para saber mais:&lt;br /&gt;Einstein, o homem que mudou o mundo&lt;br /&gt;(SUPER número 11, ano 1)&lt;br /&gt;O novo mundo de Galileu&lt;br /&gt;(SUPER número 5, ano 3)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Boxes da reportagem&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim na Terra como no céu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como qualquer história inglesa que se preze, também esta envolveu uma aposta. Cenário: uma taberna londrina, próxima à Royal Society. Época: 1684. Animada pelo álcool, uma discussão se instala entre três celebridades: o astrônomo Edmond Halley; o então presidente da Royal Society, Robert Hooke; e o ilustre arquiteto Christopher Wren. O assunto, como convém a intelectuais desse porte, é o movimento dos planetas ao redor do Sol.&lt;br /&gt;Halley diz que se pode calcular a força que mantém os planetas em órbita. Ela variaria com o inverso do quadrado da distância que os separa do Sol. Hooke argumenta que, se isso for verdade, será preciso demonstrar, a partir daí, todas as leis sobre o movimento planetário, descobertas por Kepler algo que ele próprio está certo de poder fazer. Wren propõe então: quem resolver o problema receberá um prêmio simbólico de 40 shillings. A disputa estimula Halley a viajar a Cambridge, à procura do solitário Isaac Newton. Qual não é sua surpresa quando Newton lhe diz que, realmente, já havia considerado a possibilidade de que a força de atração variasse segundo o inverso do quadrado da distância.&lt;br /&gt;A partir dessa hipótese, acrescenta, era possível deduzir matematicamente as órbitas dos planetas, estabelecidas por Kepler. E mais: tinha certeza disso porque fizera pessoalmente os cálculos, uns vinte anos antes, durante a peste de Londres; mas depois se desinteressara do assunto. A insistência de Halley o convenceu a retomar o estudo. Durante três anos, Newton trabalhou nas idéias esboçadas naquele ano maravilhoso de sua juventude. Quando finalmente publica suas conclusões, em 1687, está criada uma nova Física, simples e coerente. Sua base são as três leis sobre o movimento dos corpos, apresentadas no livro I dos Principia.&lt;br /&gt;Em linguagem atual, elas podem ser assim redigidas: 1) A menos que atue uma força externa, qualquer corpo tende a manter-se indefinidamente em repouso ou em movimento retilíneo e uniforme (princípio da inércia); 2) caso uma força externa atue a aceleração que o corpo recebe é proporcional à intensidade da força (princípio fundamental da dinâmica); 3) toda vez que um corpo recebe de outro uma força, ele também exerce sobre este uma força de mesma intensidade e direção, mas de sentido contrário (princípio da ação e reação).&lt;br /&gt;A partir dessas três leis, Newton calculou a força centrípeta (de fora para dentro) necessária para fazer um corpo transformar seu movimento retilíneo e uniforme em movimento circular. Depois chegou à sua famosa Lei da Gravitação Universal: cada partícula de matéria do Universo atrai qualquer outra com uma força proporcional ao produto de suas massas e inversamente proporcional ao quadrado da distância que as separa. Não se sabe se Newton recebeu os 40 shillings de Wren, mas seus Principia se tornaram o paradigma da Física clássica.&lt;br /&gt;Quando a sonda espacial norte-americana Voyager abandona o sistema solar e, sem nenhuma propulsão, continua a se deslocar no espaço, é o princípio da inércia que está sendo mais uma vez confirmado. Quando, milhões de vezes todos os dias, os motoristas aceleram seus carros, a relação entre a força produzida pelo motor e a aceleração do veículo é governada pelo princípio fundamental da dinâmica. Quando um nadador, ao atravessar uma piscina, empurra com os braços e pernas a água para trás e recebe da água a força equivalente que o impulsiona, é o princípio da ação e reação que está em jogo. Depois de Einstein e da Mecânica Quântica, a Física de Newton já não explica o Universo. Mas explica uma infinidade de fenômenos comuns do mundo cotidiano.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bia de S&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/25961370-9054075305930675291?l=cronicasdeasgardh.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://cronicasdeasgardh.blogspot.com/feeds/9054075305930675291/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=25961370&amp;postID=9054075305930675291&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/25961370/posts/default/9054075305930675291'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/25961370/posts/default/9054075305930675291'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://cronicasdeasgardh.blogspot.com/2008/04/newton-genio-dificil.html' title='newton: gênio difícil'/><author><name>Motoko Aramaki</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='33' height='12' src='http://photos1.blogger.com/blogger/5784/479/400/imagemlogo2.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_uFOPZxZ5oTg/SBdx-0txDII/AAAAAAAAAIk/hlnrRiFvtpQ/s72-c/Isaac_Newton.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-25961370.post-2234483465370400162</id><published>2008-04-25T01:47:00.003-03:00</published><updated>2008-04-25T02:19:12.294-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='by Asgardh'/><title type='text'>Arthur Schopenhauer</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://1.bp.blogspot.com/_uFOPZxZ5oTg/SBFpeEtxDGI/AAAAAAAAAIY/tyNNEjaKh3c/s1600-h/Schopenhauer.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;" src="http://1.bp.blogspot.com/_uFOPZxZ5oTg/SBFpeEtxDGI/AAAAAAAAAIY/tyNNEjaKh3c/s400/Schopenhauer.jpg" border="0" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5193047810717584482" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;p class="MsoNormal" align="center" style="text-align:center"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-family:&amp;quot;Verdana&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-Times New Roman&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;Arthur Schopenhauer (Danzig, 22 de Fevereiro 1788 - Frankfurt am Main, 21 de Setembro 1860) foi um filósofo alemão do século XIX da corrente irracionalista. Sua obra principal é O mundo como vontade e representação, embora o seu livro Parerga e Paraliponema (1851) seja o mais conhecido. Schopenhauer foi o filósofo que introduziu o Budismo e o pensamento indiano na metafísica alemã. Ficou conhecido por seu pessimismo e entendia o Budismo como uma confirmação dessa visão. Schopenhauer também combateu fortemente a filosofia hegeliana e influenciou fortemente o pensamento de Friedrich Nietzsche.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="font-family:&amp;quot;Verdana&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-Times New Roman&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="Verdana&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;Idéias&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="Verdana&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;O pensamento de Schopenhauer parte de uma interpretação de alguns pressupostos da filosofia kantiana, em especial de sua concepção de Fenômeno. Esta noção leva Schopenhauer a postular que o mundo não é mais que Representação. Esta conta com dois pólos inseparáveis: por um lado, o objeto, constituído a partir de espaço e tempo; por outro, a consciência subjetiva acerca do mundo, sem a qual este não existiria. Contudo, Schopenhauer rompe com Kant, uma vez que este afirma a impossibilidade da consciência alcançar a Coisa-em-si, isto é, a realidade não fenomênica. Segundo Schopenhauer, ao tomar consciência de si, o homem se experiencia como um ser movido por aspirações e paixões. Estas constituem a unidade da Vontade, compreendida como o princípio norteador da vida humana. Voltando o olhar para a natureza, o filósofo percebe esta mesma Vontade presente em todos os seres, figurando como fundamento de todo e qualquer movimento. Para Schopenhauer, a Vontade corresponde à Coisa-em-si; ela é o substrato último de toda realidade.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="Verdana&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;A vontade, no entanto, não se manifesta como um princípio racional; ao contrário, ela é o impulso cego que leva todo ente, desde o inorgânico até o homem, a desejar sua preservação. A consciência humana seria uma mera superfície, tendendo a encobrir, ao conferir causalidade a seus atos e ao próprio mundo, a irracionalidade inerente à vontade. Sendo deste modo compreendida, ela constitui, igualmente, a causa de todo sofrimento, uma vez que lança os entes em uma cadeia perpétua de aspirações sem fim, o que provoca a dor de permanecer algo que jamais consegue completar-se. Segundo tal concepção pessimista, o prazer consiste apenas na supressão momentânea da dor; esta é a única e verdadeira realidade.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="Verdana&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;Contudo, há alguns caminhos que possibilitam ao homem escapar da vontade, e assim, da dor que ela acarreta. A primeira via é a da arte. Schopenhauer traça uma hierarquia presente nas manifestações artísticas, na qual cada modalidade artística, ao nos lançar em uma pura contemplação de Idéias, nos apresenta um grau de objetivação da vontade. Partindo da arquitetura como seu grau inferior, ao mostrar a resistência e as forças intrínsecas presentes na matéria, o último patamar desta contemplação reside na experiência musical; a música, por ser independente de toda imagem externa, é capaz de nos apresentar a pura Vontade em seus movimentos próprios; a música é, pois, a própria vontade encarnada. Tal contemplação, trazendo a vontade para diante de nós, consegue nos livrar, momentaneamente, de seus liames.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="Verdana&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;A arte representa apenas um paliativo para o sofrimento humano. Outra possibilidade de escape é apontada através da moral. A conduta humana deve voltar-se para a superação do egoísmo; este provém da ilusão de individuação, pela qual um indivíduo deseja, constantemente, suplantar os outros. A compreensão da Vontade faz aparecer todos os entes desde seu caráter único, o que leva, necessariamente, a um sentimento de fraternidade e a uma prática de caridade e compaixão.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="Verdana&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;Entretanto, a suprema felicidade somente pode ser conseguida pela anulação da vontade. Tal anulação é encontrada por Schopenhauer no misticismo hindu, particularmente o Budismo; a experiência do Nirvana constitui a aniquilação desta vontade última, o desejo de viver. Somente neste estado, o homem alcança a única felicidade real e estável.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="Verdana&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;A filosofia de Schopenhauer influenciou marcadamente vários pensadores, entre os quais destacam-se: Nietzsche, Hartmann, Simmel, Bergson e Freud&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="Verdana&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;Principais Obras&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="Verdana&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;Sobre a raiz quádrupla do princípio da razão suficiente (1813). &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="Verdana&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;O mundo como vontade e representação (1819). &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="Verdana&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;Sobre a Vontade da Natureza (1836). &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="Verdana&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;Os Dois Problemas Fundamentais da Ética (1841). &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="Verdana&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;Parerga e Paralipomena (1851). &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="Verdana&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;Contexto filósofico e cultural&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="Verdana&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;Filho de Heinrich Floris Schopenhauer, comerciante da cidade de Dantzig, na Prússia, o filósofo Arthur Schopenhauer estava destinado a seguir a profissão de seu pai. Por isso, a família nunca se preocupou muito com sua educação intelectual e, quando contava apenas doze anos de idade, em 1800, induziu-o a empreender uma série de viagens importantes para um futuro comerciante. Schopenhauer percorreu a Alemanha, a França, a Inglaterra, a Holanda, a Suíça, a Silésia e a Áustria. Mas seu interesse não foi despertado por aquilo que seu pai mais desejava: o que fez de mais importante, durante essas viagens, foi redigir uma série de considerações melancólicas e pessimistas sobre a miséria da condição humana. Em 1805, a família fixou-se em Hamburgo e o obrigou a cursar uma escola comercial. A morte do pai (presumivelmente cometeu suicídio) permitiu-lhe, contudo, abandonar para sempre os estudos comerciais e voltar-se para uma carreira universitária, como era seu desejo. Assim, Schopenhauer passou a dedicar-se aos estudos humanísticos, ingressando no Liceu de Weimar em 1807; dois anos depois, encontrava-se na faculdade de medicina de Göttingen, onde adquiriu vastos conhecimentos científicos.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="Verdana&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;Em 1811, na Universidade de Berlim, assistiu aos cursos dos filósofos Schleiermacher (1768-1834) e Fichte (1762-1814). Este último seria, mais tarde, acusado por Schopenhauer de ter deliberadamente caricaturado a filosofia de Kant (1724-1804), tentando “envolver o povo alemão com a neblina filosófica”. Em 1813, Schopenhauer doutourou-se pela Universidade de Berlim com a tese Sobre a Quádrupla Raiz do Princípio de Razão Suficiente.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="Verdana&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;Nessa época, sua mãe, Johanna Schopenhauer, estabeleceu-&lt;wbr&gt;se em Weimar, onde começou a obter progressivo sucesso como novelista e passou a freqüentar os círculos mundanos que Schopenhauer detestava e se esforçava por ridicularizar ao máximo. As relações entre os dois deterioraram-&lt;wbr&gt;se a ponto de Johanna declarar publicamente que a tese de seu filho não passava de um tratado de farmácia; em contrapartida, Schopenhauer afirmava ser incerto o futuro de sua mãe como romancista e que ela somente seria lembrada no futuro pelo fato de ser sua progenitora.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="Verdana&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;Apesar dessas brigas, Schopenhauer freqüentou durante algum tempo o salão de sua mãe. Ali torreou-se amigo de Goethe (1749-1832), que reconhecia seu gênio filosófico e sugeriu-lhe que trabalhasse numa teoria antinewtoniana da visão. A partir dessa sugestão, Schopenhauer escreveu Sobre a Visão e as Cores, publicado em 1816.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="Verdana&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;Em 1814, Schopenhauer rompeu definitivamente com a família e quatro anos depois concluiu sua principal obra, O Mundo como Vontade e Representação. Em 1819, o livro foi publicado, mas um ano e meio após haviam sido vendidos apenas cerca de 100 exemplares. A crítica também não foi favorável à obra.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="Verdana&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;Durante os anos de 1818 e 1819, Schopenhauer passou uma temporada na Itália: ao voltar, sua situação econômica não era das melhores. Solicitou então um posto de monitor na Universidade de Berlim, valendo-se de seu título de doutor e passando por uma prova que consistia numa conferência. Admitido em 1820, encarregou-se de um curso intitulado A Filosofia Inteira, ou O Ensino do Mundo e do Espírito Humano. O título do curso devia-se, provavelmente, a Hegel (1770-1831), que na época era um dos mais reputados professores da Universidade de Berlim. Tentando competir com Hegel, Schopenhauer escolheu o mesmo horário utilizado pelo rival, mas a tentativa redundou em fracasso completo: apenas quatro ouvintes assistiam a suas aulas. Ao fim de um semestre, renunciou à universidade.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="Verdana&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;Em 1821, envolveu-se em um acidente que teve desagradáveis conseqüências econômicas e, sobretudo, viria causar-lhe periódica crise de depressão psicológica. Nessa época, o filósofo residia numa pensão, cujos principais locatários, em sua grande maioria, eram senhoritas de idade avançada. Essas pensionistas tinham o desagradável hábito de espionar a chegada de supostas amantes, recebidas por Schopenhauer em seus aposentos. Certa noite, quando uma costureira chamada Caroline-Louise Marquet dedicava-se a esse mister, Schopenhauer, perdendo a paciência, atirou-a escada abaixo. Como resultado, foi processado e acabou sendo condenado a pagar trezentos thalers de despesas médicas. Além disso, ficava obrigado a pagar sessenta thalers anuais, até a morte de Caroline, que somente veio a falecer vinte anos depois. Durante todo esse tempo, Schopenhauer entrava em depressão nervosa, uma vez por ano, todas as vezes que era obrigado a pagar a pensão. Sua revolta dizia respeito menos à quantia desembolsada do que àquilo que sentia como injustiça cometida pelas autoridades.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="Verdana&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;Entre 1826 e 1833, Schopenhauer empreendeu freqüentes viagens, adoeceu por diversas vezes e tentou uma segunda experiência como professor da Universidade de Berlim. Foi mais uma tentativa fracassada, somente contrabalançada pela crítica elogiosa a seu O Mundo como Vontade e Representação, publicada no periódico Kleine Bücherschau.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="Verdana&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;Em 1833, depois de muitas hesitações, o filósofo resolveu fixar-se em Frankfurt-sobre-&lt;wbr&gt;o-Meno, onde permaneceria até sua morte em 1860. Durante os vinte e sete anos que passou em Frankfurt, levou uma vida solitária, acompanhado por seu cão. Sua predileção por animais era filosoficamente justificada; segundo Schopenhauer, entre os cães, contrariamente ao que ocorre entre os homens, a vontade não é dissimulada pela máscara do pensamento.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="Verdana&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;Dedicado exclusivamente à reflexão filosófica, Schopenhauer trabalhou intensamente em Frankfurt, redigindo e publicando diversos livros. Em 1836, veio a lume o ensaio Sobre a Vontade na Natureza, que deveria completar o segundo livro de O Mundo como Vontade e Representação. Na mesma época, redigiu também dois ensaios sobre moral. O primeiro, escrito para concorrer a um concurso da Academia de Ciências de Trondheim (Noruega), intitula-se Sobre a Liberdade da Vontade. O segundo, O Fundamento da Moral, concorreu ao concurso da Academia de Copenhague e continha verdadeiros insultos a Hegel e a Fichte, que provocaram escândalo; embora fosse o único concorrente, o livro não foi premiado. Posteriormente, os dois ensaios seriam reunidos sob o título de Os Dois Problemas Fundamentais da Ética e publicados em 1841. Três anos depois, surgiu a segunda edição de O Mundo como Vontade e Representação, enriquecida com alguns suplementos. Apesar disso, não teve sucesso.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="Verdana&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;O mesmo não ocorreu com a última obra escrita e publicada por Schopenhauer. Intitulava-se Parerga e Paralipomena e continha pequenos ensaios sobre os mais diversos temas: política, moral, literatura, filosofia, estilo e metafísica, entre outros. A obra alcançou inesperado sucesso, logo depois de ser publicada em 1851. A partir daí, a notoriedade do autor espalhou-se pela Alemanha e depois pela Europa. Um artigo de Oxenford, publicado na Inglaterra, deu início à grande difusão de sua filosofia. Na França, muitos filósofos e escritores viajaram até Frankfurt para visitá-lo. Na Alemanha, a filosofia de Hegel entrou em declínio e Schopenhauer surgiu como ídolo das novas gerações.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="Verdana&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;Assim, os últimos anos da vida de Schopenhauer proporcionaram-&lt;wbr&gt;lhe um reconhecimento que ele sempre buscou. Artigos críticos surgiram em grande quantidade nos principais periódicos da época. A Universidade de Breslau dedicou cursos à análise de sua obra e a Academia Real de Ciências de Berlim propôs-lhe o título de membro, em 1858, que ele recusou.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="Verdana&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;Dois anos depois, a 21 de setembro de 1860, Arthur Schopenhauer, que Nietzsche (1844 – 1900) chamaria "o cavaleiro solitário", faleceu, vítima de pneumonia. Contava, então, 72 anos de idade.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="Verdana&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;Um mundo cego e irracional&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="Verdana&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;O ponto de partida do pensamento de Schopenhauer encontra-se na filosofia kantiana. Immanuel Kant (1724 – 1804) estabelecera distinção entre os fenômenos e a coisa-em-si (que chamou noumenon), isto é, entre o que nos aparece e o que existiria em si mesmo. A coisa-em-si (noumenon) não poderia, segundo Kant, ser objeto de conhecimento científico, como até então pretendera a metafísica clássica. A ciência restringir-se-&lt;wbr&gt;ia, assim, ao mundo dos fenômenos, e seria constituída pelas formas a priori da sensibilidade (espaço e tempo) e pelas categorias do entendimento. Dessas distinções, Schopenhauer concluiu que o mundo não seria mais do que representações, entendidas por ele, num primeiro momento, como síntese entre o subjetivo e o objetivo, entre a realidade exterior e a consciência humana. Como afirma em O Mundo como Vontade e Representação, “por mais maciço e imenso que seja este mundo, sua existência depende, em qualquer momento, apenas de um fio único e delgadíssimo: a consciência em que aparece”. Em outra passagem de sua principal obra, Schopenhauer deixa mais clara essa idéia: “O mundo como representação, isto é; unicamente do ponto de vista de que o consideramos aqui, tem duas metades essenciais, necessárias e inseparáveis. Uma é o objeto; suas formas são o espaço e o tempo, donde a pluralidade. A outra metade é o sujeito; não se encontra colocada no tempo e no espaço, porque existe inteira e indivisa em todo ser que percebe: daí resulta que um só desses seres junto ao objeto completa o mundo como representação, tão perfeitamente quanto todos os milhões de seres semelhantes que existem: mas, também, se esse ser desaparece, o mundo como representação não mais existe”.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="Verdana&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;Não se pode dizer que essas idéias expressem exatamente o pensamento kantiano, mas, seja como for, Schopenhauer chegou a essas conclusões, partindo do mestre que tanto admirava. Schopenhauer, contudo, separa-se, explicitamente, de Kant em um ponto essencial e, a partir daí, constrói uma filosofia original. Para Kant, a coisa-em-si é inacessível ao conhecimento humano, pois encontra-se além dos limites das estruturas do próprio ato cognitivo, entendido como síntese dos dados da intuição sensível, síntese essa realizada pelas categorias a priori do entendimento. Schopenhauer, ao contrário, pretendeu abordar a própria coisa-em-si. Essa coisa-em-si, raiz metafísica de toda a realidade, seria a Vontade.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="Verdana&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;Segundo o autor de O Mundo como Vontade e Representação, a experiência interna do indivíduo assegura-lhe mais do que o simples fato de ele ser “um objeto entre outros”. A experiência interna também revela ao indivíduo que ele é um ser que se move a si mesmo, um ser ativo cujo comportamento manifesto expressa diretamente sua vontade. Essa consciência interior que cada um possui de si mesmo como vontade seria primitiva e irredutível: A vontade revelar-se-ia imediatamente a todas as pessoas como o em-si e a percepção que as pessoas têm de si mesmas como vontades seria distinta da percepção que as mesmas têm como corpo. Mas isso não significa que Schopenhauer tinha esposado a tese de que as ações corporais e as ações da vontade constituem duas séries de fatos, entendidas as primeiras como causadoras das segundas. Para Schopenhauer, o corpo humano é apenas objetivação da vontade, tal como aparece sob as condições da percepção externa. Em outros termos, o que se quer e o que se faz são uma e a mesma coisa, vistos, porém, de perspectivas diferentes.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="Verdana&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;Da mesma forma como nos homens, a vontade seria o princípio fundamental da natureza. Para Schopenhauer, na queda de uma pedra, no crescimento de uma planta ou no puro comportamento instintivo de um animal afirmam-se tendências, em cuja objetivação se constituem os corpos. Essas diversas tendências não passariam de disfarces sob os quais se oculta uma vontade única, superior, de caráter metafísico e presente igualmente na planta que nasce e cresce, e nas complexas ações humanas. Essa vontade, para Schopenhauer, é independente da representação e, portanto, não se submete às leis da razão. Ao contrário de Hegel, para quem o real é racional, a filosofia de Schopenhauer sustenta que o real é em si mesmo cego e irracional, enquanto vontade. As formas racionais da consciência não passariam de ilusórias aparências e a essência de todas as coisas seria alheia à razão: "A consciência é a mera superfície de nossa mente, da qual, como da terra, não conhecemos o interior, mas apenas a crosta". o inconsciente representa, assim, papel fundamental na filosofia de Schopenhauer. Sob esse aspecto, o autor de O Mundo como Vontade e Representação antecipou-se a alguns dos conceitos mais importantes da psicanálise fundada por Sigmund Freud (1856-1939).&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="Verdana&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;O próprio Freud reconheceu a importância das idéias de Schopenhauer; em um de seus escritos afirma que certas considerações sobre a loucura, encontradas no Mundo como Vontade e Representação, poderiam "rigorosamente, sobrepor-se à doutrina da repressão".&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="Verdana&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;Viver é sofrer&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="Verdana&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;No sistema de Schopenhauer, a vontade é a raiz metafísica do mundo e da conduta humana; ao mesmo tempo, e a fonte de todos os sofrimentos. Sua filosofia é, assim, profundamente pessimista, pois a vontade é concebida em seu sistema como algo sem nenhuma meta ou finalidade, um querer irracional e inconsciente. Sendo um mal inerente à existência do homem, ela gera a dor, necessária e inevitavelmente, aquilo que se conhece como felicidade seria apenas a interrupção temporária de um processo de infelicidade e somente a lembrança de um sofrimento passado criaria a ilusão de um bem presente. Para Schopenhauer, o prazer é momento fugaz de ausência de dor e não existe satisfação durável. Todo prazer é ponto de partida de novas aspirações, sempre obstadas e sempre em luta por sua realização: “Viver é sofrer”. Mas, apesar de todo seu profundo pessimismo, a filosofia de Schopenhauer aponta algumas vias para a suspensão da dor. Num primeiro momento, o caminho para a supressão da dor encontra-se na contemplação artística. A contemplação desinteressada das idéias seria um ato de intuição artística e permitiria a contemplação da vontade em si mesma, o que, por sua vez, conduziria ao domínio da própria vontade. Na arte, a relação entre a vontade e a representação inverte-se, a inteligência passa a uma posição superior e assiste à história de sua própria vontade; em outros termos, a inteligência deixa de ser atriz para ser espectadora. A atividade artística revelaria as idéias eternas através de diversos graus, passando sucessivamente pela arquitetura, escultura, pintura, poesia lírica, poesia trágica, e, finalmente, pela música. Em Schopenhauer, pela primeira vez na história da filosofia, a música ocupa o primeiro lugar entre todas as artes. Liberta de toda referência específica aos diversos objetos da vontade, a música poderia exprimir a Vontade em sua essência geral e indiferenciada, constituindo um meio capaz de propor a libertação do homem, em face dos diferentes aspectos assumidos pela Vontade.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="Verdana&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;No Nada, a salvação&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="Verdana&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;A libertação proporcionada pela arte, segundo Schopenhauer, não é, contudo, total e completa. A arte significa apenas um distanciamento relativamente passageiro e não a supressão da Vontade. Para que atinja a libertação, é necessário que o homem ascenda ao nível da conduta ética, a qual representa uma etapa superior no processo de superação das "dores do mundo". A ética de Schopenhauer não está, contudo, presa à noção de "dever"; Schopenhauer rejeita as formas imperativas de filosofia que são, para ele, formas de coerção. Sua ética não se apóia em mandamentos, antes na noção de que a contemplação da verdade é o caminho de acesso ao bem. Para Schopenhauer, o egoísmo, que faz do homem o inimigo do homem, advém da ilusão de vontades independentes que afirmam seus ímpetos individuais. A superação do egoísmo somente seria possível mediante o conhecimento da natureza única universal da Vontade. Como conseqüência moral do desaparecimento de sua individualidade, o homem pode tornar-se bom; ao espírito de luta contra os semelhantes segue-se o espírito de simpatia. Libertado, pela etapa ética, o homem atinge o princípio que é o fundamento de toda verdade moral: "Não prejudiques pessoa alguma, sê bom com todos".&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="Verdana&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;Essa ética da piedade e da comiseração, segundo Schopenhauer, encontrou sua mais acabada expressão nos evangelhos, onde "ama a teu próximo como a ti mesmo" constitui o princípio fundamental da conduta. Mas nem mesmo a ética da piedade possibilitaria ao homem atingir a felicidade última. Para Schopenhauer, a mais completa forma de salvação para o homem somente pode ser encontrada na renúncia quietista ao mundo e a todas as suas solicitações, na mortificação dos instintos, na auto-anulação da vontade e na fuga para o Nada: "...desviemos um instante os olhos de nossa própria indigência e de nosso limitado horizonte; levemo-lo sobre esses homens que venceram o mundo nos quais a vontade, atingindo a perfeita consciência de si, se reconheceu em tudo que existe e livremente renunciou a si mesma...&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="Verdana&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;Então, em vez desse tumulto de aspirações sem fim, em vez dessas passagens constantes do desejo ao medo, da alegria ao sofrimento, em vez dessas esperanças sempre inalcançadas e sempre renascentes, que fazem da vida humana, enquanto animada pela vontade, um sonho interrompido, não perceberemos mais do que esta paz, mais preciosa que todos os tesouros da razão, a calma absoluta do espírito, esta serenidade imperturbável, tal como Rafael e Corregio a pintaram nas figuras de seus santos e cujo brilho deve ser para nós a mais completa e verídica anunciação da boa nova: a vontade desapareceu; subsiste apenas o conhecimento"&lt;wbr&gt;.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="Verdana&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;Linha do tempo&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="Verdana&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;1788&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="Verdana&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;Nascimento de Schopenhauer em Dantzig, no dia 22 de fevereiro. Kant: Crítica da razão prática.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="Verdana&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;1793&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="Verdana&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;Os Schopenhauer se mudam para Hamburgo.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="Verdana&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="Verdana&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;1800-1805&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="Verdana&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;Destinado por seu pai ao comércio, Schopenhauer realiza uma série de viagens pela Europa ocidental: Áustria, Suíça, França, Países Baixos, Inglaterra. Isso lhe rende um Diário de viagem e um excelente conhecimento do francês e do inglês.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="Verdana&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;Napoleão é imperador pela Europa.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="Verdana&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;Beethoven compõe a Heróica.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="Verdana&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;1805&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="Verdana&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;Suicida-se o pai de Schopenhaer; este permanece em Hamburgo, renuncia à carreira comercial para dedicar-se aos estudos dos liceus de Gotha e de Weimar, e sua mãe muda-se para Weimar.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="Verdana&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;Napoleão é rei da Itália.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="Verdana&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;1811&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="Verdana&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;Ingresso de Schopenhauer na Universidade de Berlim, onde estuda filosofia.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="Verdana&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;1813&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="Verdana&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;Schopenhauer: Da quádrupla raiz do princípio da razão suficiente (tese de doutorado).&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="Verdana&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;Nascimento de Kierkegaard.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="Verdana&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;1814&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="Verdana&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;Schopenhauer rompe relações com a mãe e muda-se para Dresden.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="Verdana&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;Napoleão abdica e se retira para a ilha de Elba.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="Verdana&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;Morre Fichte.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="Verdana&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;1816&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="Verdana&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;Schopenhauer: Da visão e das cores.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="Verdana&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;1819&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="Verdana&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;Schopenhauer: O mundo como vontade e representação.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="Verdana&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;1820&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="Verdana&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;Schopenhauer começa a lecionar em Berlim com o título de privat-dozent. Fracassa.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="Verdana&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;1825&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="Verdana&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;Nova tentativa na universidade de Berlim. Novo fracasso. Schopenhauer renuncia à docência e passa a viver daí em diante com a herança paterna.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="Verdana&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="Verdana&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;1833&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="Verdana&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;Schopenhauer estabelece-se em Frankfurt, onde residirá até sua morte.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="Verdana&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;1836&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="Verdana&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;Schopenhauer: Da vontade na natureza.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="Verdana&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;1839&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="Verdana&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;Schopenhauer recebe um prêmio da Sociedade Norueguesa de Ciências de Drontheim por uma dissertação sobre "A liberdade da vontade".&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="Verdana&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;1841&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="Verdana&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;Schopenhauer publica suas duas dissertações de concurso sob o título de Os dois problemas fundamentais da ética.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="Verdana&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;Feuerbach: A essência do cristianismo.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="Verdana&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;1843&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="Verdana&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;Schopenhauer: O mundo como vontade e representação, segunda edição acompanhada de Suplementos.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="Verdana&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;Stirner: O único e sua propriedade.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="Verdana&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;Marx e Engels: A sagrada família ou Crítica da crítica crítica contra Bruno Bauer e sócios.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="Verdana&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;Kiergaard: O conceito da angústia.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="Verdana&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;Nascimento de Nietzsche.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="Verdana&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;1851&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="Verdana&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;Schopenhauer: Parerga e Paralipomena. Êxito e primeiros discípulos, Frauenstädt, Gwinner etc.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="Verdana&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;1860&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="Verdana&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;Schopenhauer morre em 21 de setembro.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="Verdana&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;Fechner: Elementos de psicologia.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;span style="mso-fareast-Times New Roman&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="mso-fareast-Times New Roman&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt; &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/25961370-2234483465370400162?l=cronicasdeasgardh.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://cronicasdeasgardh.blogspot.com/feeds/2234483465370400162/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=25961370&amp;postID=2234483465370400162&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/25961370/posts/default/2234483465370400162'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/25961370/posts/default/2234483465370400162'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://cronicasdeasgardh.blogspot.com/2008/04/arthur-schopenhauer.html' title='Arthur Schopenhauer'/><author><name>Motoko Aramaki</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='33' height='12' src='http://photos1.blogger.com/blogger/5784/479/400/imagemlogo2.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_uFOPZxZ5oTg/SBFpeEtxDGI/AAAAAAAAAIY/tyNNEjaKh3c/s72-c/Schopenhauer.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-25961370.post-516840613536551980</id><published>2007-04-24T13:00:00.000-03:00</published><updated>2007-04-24T13:03:52.538-03:00</updated><title type='text'>O VIOLINO, DE Anne Rice</title><content type='html'>&lt;a href="http://asgardh.blogspot.com/"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5057025683166580834" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_uFOPZxZ5oTg/Ri4qEMkr0GI/AAAAAAAAAFg/nYtmeFJpr9c/s400/fullmoon.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;De: &lt;a onclick="return top.js.OpenExtLink(window,event,this)" href="mailto:lancelot.grupos@gmail.com" target="_blank"&gt;Lancelot&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a onclick="return top.js.OpenExtLink(window,event,this)" href="http://www.esnips.com/web/Rev---Internacionais---Anne-Rice" target="_blank"&gt;http://www.esnips.com/web/Rev---Internacionais---Anne-Rice&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A escritora gótica Anne Rice retorna ao romantismo selvagem de seus primeiros livros e atravessa séculos e continentes para contar a história de três carismáticas figuras, sensíveis e ligadas entre si por uma arrebatadora devoção à música. Violino se move de uma Viena do século XIX para uma moderna Nova Orleans, passando também por um irresistível e sedutor Rio de Janeiro onde sonhos assumem formas diferentes, pessoas se comunicam com espíritos, santos e deuses se fundem em altares dourados.A personagem feminina é Triana, uma viúva que sonha em ser uma grande artista, mais especificamente uma musicista. Sua paixão pela carreira a conduz a um embate com um romântico e atormentado jovem violinista, Stefan. E especialíssimo: ele é imortal. Stefan utiliza seus dons e o violino mágico para comprometer e dominar as emoções de suas presas. O terceiro personagem só aparece de forma virtual, mas constante: é o espectro de Ludwig von Beethoven.O dramático entrelaçamento das ambições, sonhos e desejos de Triana e Stefan os arrasta para uma terrificante esfera sobrenatural, povoada de reminiscências, delírios, fantasias, horrores e terríveis verdades. A princípio vítima do feitiço do violino mágico de Stefan, seduzida por ele, Triana vai se libertando aos poucos para compreender a força da música e a luta pela própria vida.Fortíssimo em emoções, Violino captura a paixão vulcânica de seus personagens através de um estilo narrativo fascinante. É um autêntico Anne Rice&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/25961370-516840613536551980?l=cronicasdeasgardh.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://cronicasdeasgardh.blogspot.com/feeds/516840613536551980/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=25961370&amp;postID=516840613536551980&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/25961370/posts/default/516840613536551980'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/25961370/posts/default/516840613536551980'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://cronicasdeasgardh.blogspot.com/2007/04/o-violino-de-anne-rice.html' title='O VIOLINO, DE Anne Rice'/><author><name>Motoko Aramaki</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='33' height='12' src='http://photos1.blogger.com/blogger/5784/479/400/imagemlogo2.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_uFOPZxZ5oTg/Ri4qEMkr0GI/AAAAAAAAAFg/nYtmeFJpr9c/s72-c/fullmoon.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-25961370.post-9034876428075951740</id><published>2007-03-07T16:27:00.000-03:00</published><updated>2007-03-07T16:30:01.806-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='http://asgardh.blogspot.com/'/><title type='text'>O CONTO DO GRAAL, de  CHRÉTIEN DE TROYES</title><content type='html'>O mais antigo dos manuscritos conservados sobre o Graal, do início do       século XIII&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;       Título original:  Le Conte du Graal &lt;br /&gt;          Autor: Chrétien de Troyes  &lt;br /&gt;    &lt;br /&gt;    NOTA PRELIMINAR&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Escassos são os dados que possuímos sobre a personalidade de Chrétien de Troyes, cuja obra literária se conservam cinco extensas novelas de atribuição segura: Erec, Cligés, Le chevaliers au lion (intitulada  também Yvain), Le chevaliers de la charrete (a qual, às vezes, se dá o título de seu protagonista, Láncelot) e Le Conté du Graal. Com certa verossimilhança lhe atribui também outra novela de caráter cavalheiresco e piedoso, Guillaume d'Angleterre (da qual existe uma tradução em prosa castelhana do século XIV), uma adaptação de uma fábula ovidiana sobre o mito de Filomela. Das seis poesias líricas que os cancioneiros atribuem à Chrétien de Troyes, duas são com segurança obra de nosso escritor. Este, por outra parte, confessa, nos versos iniciais de “Cligés”, ter traduzido os “Remedia Amoris” e o “Ars Amatoria” de Ovídio; composto uma narração sobre o mito de Tántalo e Pélope  (sem dúvida baseado nas Metamorfoses ovidianas); e um relato sobre "o rei Marc e Iseut la rubia", ou seja, a lenda de Tristão, todo o qual se perdeu. Tendo em conta as pessoas às quais dedica suas obras, chegamos à conclusão de que a produção de Chrétien de Troyes desenvolveu-se entre os anos 1159 e 1190.&lt;br /&gt; Trata-se, pois, de um escritor da segunda metade do século XII que, como os homens de cultura de seu tempo, possui uma sólida preparação clássica, posta de manifesto não tão somente em suas versões dos tratados eróticos do Ovídio e em suas adaptações de fábulas mitológicas, mas também em bom número de detalhes retóricos e estilísticos que aparecem em sua obra. Todas as novelas de Chrétien de Troyes conservadas, estão escritas em verso: emparelhados de oito sílabas (nove, contando à castelhana) de rima consoante, forma que desde a metade daquele século tinha adotado a narrativa francesa culta, tão distinta da narrativa tradicional das gestas. Antes de Chrétien de Troyes os narradores franceses cultos, precursores e criadores do román, ou seja, da novela, empregavam os emparelhados octosilábicos em suas versões de obras clássicas (a “Tebaida” de Estado, “Eneida”, algumas fábulas tiradas de “Metamorfose” de Ovídio, etc.) e na famosa tradução da “História regum Brittanniae”, de Godofredo de Mon mouth, feita por Wace e intitulada “Román de Brut”.  Esta tradução, que Chrétien de Troyes revela conhecer bem, contribuiu para colocar a moda nos ambientes cultos e aristocráticos o mundo fantástico do fabuloso “rei Artur da Bretanha e dos cavaleiros da Távola Redonda”, recolhendo velhas lendas bretãs, mas estruturando-as em uma narração que pretendia ser histórica. São de tema artúrico algumas das narrações breves que, antes ou contemporaneamente à Chrétien, tinha escrito, também em verso octosílabo, María da França e que revistam intitular-se “Lais”. Artúricas são as cinco  novelas conservadas de nosso escritor, embora o “Cligés” só parcialmente, pois sua trama principal tem caráter bizantino.&lt;br /&gt; “Le chevaliers de charrete”, ou “Lancelot”, é dedicado por Chrétien à sua senhora, a condessa María  de Champagne, filha de Luis VII da França e de Leonor de Aquitania, esposa do conde Enrique de Champagne, que estava acostumado a residir em seu palácio de Troyes, capital do condado, e, sem dúvida, cidade em que nasceu nosso escritor. Tanto María de Champagne como sua mãe Leonor de Aquitania desempenharam um papel muito importante no florescimento da literatura chamada cortesã. Contribuíram para instaurar na França os achados e as novidades da poesia dos trovadores, de sorte, que a aventura cavalheiresca uniu-se ao sentimentalismo amoroso, união que constitui uma das características da novela do século XII. Entretanto,  Chrétien de Troyes não se limitou, em suas novelas, a direta narração de uma peripécia cavalheiresca, com seus lances heróicos; seus episódios "maravilhosos e a exaltação das virtudes militares de seres extraordinários; nem adotou a aventura de um conteúdo amoroso; esboça uma hábil e acertada caracterização psicológica dos personagens principais da ação. Além de tudo isto, pretendeu dar à suas novelas o transcendente valor de uma lição moral e espiritual destinada ao aperfeiçoamento da sociedade na qual vivia, de modo principal, da aristocracia que lia suas obras. Tal propósito é decisivo e deliberado em nosso escritor, pois nos versos iniciais de “Le chevaliers de charrete” distingue, em sua obra literária, a matéria (matière), que é o assunto, ou argumento da narração, o simples relato de feitos novelescos, do sentido (sans), que deve ser a interpretação doutrinal da obra, o que chamaríamos sua tese. De uma afirmação feita no “Erec” desprende-se que a ordenação e articulação da matéria com o sentido, ou seja, a acomodação da intriga do relato à uma tese, constitui a junta (conjointure) da novela. O  criar novelas de Chrétien de Troyes é, pois, algo que ambiciona ser muito mais que o simples narrar, colocando uma rica trama de aventuras a serviço de uma tendência à exaltação dos valores morais do cavaleiro.&lt;br /&gt; Esta intenção superior não deve ser esquecida  quando se lê “O conto do Graal” (Le Conté du Graal), pois se nos ativermos, exclusivamente, a sua matéria, em alguns trechos poderia parecer um ingênuo conto, ou uma insignificante novela de aventuras. Correríamos o perigo de valorizá-lo só em atenção a seus inegáveis méritos literários. A obra vai precedida de uma dedicatória ao conde Felipe de Flandes, ou seja, Felipe de Alsacia, quem, desde 1168, foi conde de Flandes; partiu para Ultramar como cruzado em setembro de 1190 e morreu em Acre em junho seguinte. Entre 1168 e 1191, pois, iniciou Chrétien de Troyes a redação do conto do Graal, e os intentos feitos para precisar mais a data se revelaram pouco firmes. Esta dedicatória surpreende, por seu caráter religioso; glosa nela vários versículos neo-testamentários e disserta sobre a caridade; o que dá à estas páginas introdutórias, um acusado matiz cristão que por força tem que corresponder com o profundo sentido que o autor pensa dar em sua obra.&lt;br /&gt; Chrétien escolheu como protagonista de sua narração um moço em plena adolescência, forte, hábil caçador e ingênuo; vivendo em uma "erma floresta solitária" isolado do resto do mundo. Unicamente entregue à caça e sem outra relação humana a não ser sua mãe e os lavradores que cultivam suas terras, situadas em Gales. Este moço pertence à uma ilustre linhagem de cavaleiros; tanto seu pai, como seus dois irmãos maiores, foram vítimas das guerras e dos combates; devido a isso, sua mãe o criou em completa ignorância de tudo quanto acontece no mundo, principalmente da cavalaria. Todavia, a força do sangue se impõe aos planos maternos; assim que o moço, no início da novela, encontra-se com alguns cavaleiros, decide irrevogavelmente ser um deles encaminhando-se à corte do rei Artur para que lhe arme; o qual produz tal desgosto a sua mãe que cai morta ao vê-lo partir de seu lado. Desta sorte, Chrétien pode expor a seus leitores as etapas da formação cavalheiresca, que seu jovem herói percorre numa velocidade vertiginosa. Ao sair da solitária morada materna, o herói está na plenitude de suas forças físicas; é robusto e valente, condições naturais, indispensáveis, para tudo o que tenha que exercer na cavalaria. Sua chegada à corte do rei Artur provoca dois maravilhosos vaticínios, pois, tanto a donzela que jamais sorriu, quanto o bufão, prognosticam que aquele galhardo e ingênuo jovem está destinado a ser o melhor cavaleiro do mundo. A vitória do moço sobre o cavaleiro Vermelho, deve-se à primária habilidade daquele no lançamento de flechas, adquirida em suas caçadas: é um tipo de luta que se acha muito distante do sábio tecnicismo da nobre arte das armas. Por esta razão, depois desta primeira vitória, Chrétien leva seu protagonista ao castelo de Gornemant de Goort, cavaleiro amadurecido e experiente, que gosta muito das virtudes e da simpatia do jovem selvagem. Ensina-lhe lições de cavalaria, que o moço aprende com grande precisão e rapidamente, por fim, consagra-o cavaleiro. Nosso protagonista já é um cavaleiro; os episódios da defesa do castelo de Belrepeire demonstram seu acerto e sua maestria no manejo das armas; mas ali também, como corresponde a todo cavaleiro, nasce no jovem herói, seu amor pela formosa Blancheflor.&lt;br /&gt; Entretanto, há nele um remorso que o tortura: a sorte de sua mãe, que viu cair desvanecida ao abandonar sua morada solitária. Não sabe ainda que morreu, embora o suspeita, isso  tortura seu ânimo com a consciência do pecado. Esta situação, quer dizer, com a alma manchada por ele ter pecado, oferece-lhe a mais alta de suas aventuras: a prova do castelo do Graal, episódio culminante da novela. Convidado pelo Rico Rei Pescador, ou Rei Aleijado, o jovem cavaleiro janta na ampla e suntuosa sala quadrada do castelo. Vê desfilar ante si um singular cortejo em que figuram um pajem, que empunha uma lança de cuja ponta emana uma gota de sangue; uma formosa donzela que leva em suas mãos um Graal; e outra com um prato de prata. O herói, temendo revelar sua rusticidade, não se atreve  a perguntar por que sangra a lança, nem a quem se serve com aquele Graal. A razão de seu mutismo —o esclarece depois Chrétien— é mais profunda: o fato de achar-se em pecado travou-lhe a língua. Isso constitui o fatal engano do moço, pois, se tivesse formulado aquelas duas perguntas, teria reparado uma série de males que afligiam precisamente a sua linhagem; já que, averiguaremos logo, que o Rico Rei Pescador, prostrado pela paralisia e sem a posse de suas terras, teria recuperado saúde e domínios se aquelas duas perguntas tivessem saído dos lábios do moço. Chrétien de Troyes não nos esclarece isso pontualmente — veremos que a novela ficou inacabada—, mas, não cabe dúvida de que a lança que sangra é a de Longinos, ou seja, aquela com a qual foi ferido o flanco de Jesus Cristo. O Graal, nome que se dava a certos recipientes, é um riquíssimo cálice sagrado no qual se leva diariamente uma hóstia ao Rei do Graal —pai do Rico Rei Pescador e irmão da mãe do protagonista—, o qual há anos vive exclusivamente graças ao alimento que lhe proporciona a Eucaristia. Este tipo de milagre deu-se, com freqüência, na Idade Média e, ainda hoje em dia, entusiasma aos cristãos. O prato de prata é, sem dúvida alguma, a bandeja que fica debaixo do queixo, no qual comunga para evitar que, por um acidente, a sagrada forma caia ao chão. O tema das perguntas não formuladas, conduzindo à maus danos, não é estranho no folclore; mas, em nosso caso, oferece uma surpreendente similitude com a cerimônia da Páscoa dos judeus, cujo rito não pode iniciar-se, até que o mais jovem da família, tenha feito umas ingênuas perguntas. Não é estranho que Chrétien tenha adaptado a seu episódio este rito judaico, sobretudo se tivermos em conta a importância da comunidade israelita de Troyes no século XII. A formosa donzela portadora do Graal é, com toda segurança, uma figura simbólica: a Igreja personificada, que em representações artísticas da época está acostumada achar-se à direita da cruz, recolhendo em um rico cálice o sangue do Salvador que emana da ferida produzida pela lança de Longinos. A lança empunhada pelo pajem, que desfila em nosso episódio, emana sem cessar, para significar, sem dúvida, a persistência do sacrifício do Gólgota, que redime constantemente.&lt;br /&gt; Nosso herói, se dá conta de seu grande fracasso no castelo do Graal, no dia seguinte, ao encontrar na solidão do bosque sua prima, quem lhe faz ver seu engano. Então, quando por seu engano se faz responsável, o jovem herói da novela adivinha seu  nome e o averigua pela primeira vez o leitor: chama-se Perceval. O nome vai unido à personalidade, enquanto nosso herói não significou nada para o mundo, viveu anonimamente; agora que, por sua culpa e por seu pecado, impediu que se realizasse um bem e não evitou o mal, sua responsabilidade lhe fez adivinhar seu nome. O episódio das gotas de sangue sobre a neve, uma das mais belas páginas da literatura francesa medieval, demonstra, por um lado, a idealização do amor de Perceval pela formosa Blancheflor, a cor rosada, de cuja face lhe rememora, ao ver a branca neve colorida pelo vermelho sangue; grandiosa metáfora investida, que tentou mais de uma vez, grandes poetas, desde Ovídio até Góngora. Por outro lado, este episódio, na economia da novela, supõe o cumprimento dos augúrios da donzela que jamais tinha sorrido e do bufão, graças ao qual, fica manifesto que Perceval, quinze dias antes era um ingênuo moço selvagem, sendo agora o melhor cavaleiro do mundo.&lt;br /&gt; O “Conto do Graal” interrompe-se bruscamente, depois do verso 9234, deixando em suspense um episódio. Deve-se a interrupção, que a morte surpreendeu Chrétien de Troyes em plena redação da novela; quando a ação principal desta, distava o bastante, sem dúvida, de ter chegado a seu desenlace. Isso motivou que tema do Graal se fizesse logo, algo misterioso e vago. Os continuadores anônimos da novela, que iniciaram seu trabalho ainda no século XII, não acertaram a lhe dar um final congruente, nem digno do grande tema criado pelo escritor de Champagne. Inclusive a crítica moderna, até a mais recente, debateu-se em engenhosas e, às vezes, fantásticas lucubrações sobre o Graal e as intenções de Chrétien de Troyes, o qual morreu levando à tumba o profundo e secreto de sua novela, do mesmo modo que o marinheiro do romance castelhano do conde Arnaldos se joga ao mar sem nos dizer sua canção.&lt;br /&gt; O leitor observará que a ação principal da novela, ou seja, as aventuras de Perceval, vê-se concorrida, a partir de certo momento, por outra trama muito distinta, que tem por herói Gauvain, o sobrinho do rei Artur. Esta dualidade de assunto quis explicar o caso do autor pretender contrapor o cavaleiro inexperiente, Perceval, ao cavaleiro veterano, Gauvain. Não obstante, há nas duas tramas contradições tão acusadas que não é inverossímil acreditar que Chrétien de Troyes, no momento em que lhe surpreendeu a morte, estava escrevendo duas novelas muito distintas: uma dedicada a narrar as aventuras de Perceval e outra, contar as façanhas de Gauvain; sendo que seus rascunhos foram mesclados e absurdamente fundidos por quem os arrumou, a fim de lhes dar uma forma, que hoje diríamos publicável, acreditando que pertenciam à mesma novela. Seja como for, a parte dedicada à Gauvain é de grande beleza e revela a maestria de Chrétien como narrador. Constitui um magnífico livro de cavalarias, no qual se destacam episódios tão notáveis como o da “Donzela das Mangas Pequenas”, de uma delicadeza pouco comum; o do “Castelo das Rainhas”, com seu ambiente de magia e de mistérios; e os da “Orgulhosa de Logres”, que põe à prova o cavalheirismo de Gauvain.&lt;br /&gt; A presente tradução foi feita sobre o texto da edição de William Roach, Chrétien de Troyes, “Le román de Perceval”, ou “Conté du Graal”, em "Texte littéraires français", Genève-Lille, 1959 (segunda impressão). Em algumas passagens me separei de sua leitura, que é a do manuscrito “T”, para ater-me na edição crítica de Alfons Hilka, “Der Perceval Roman” (Le conte do Graal) em "Christian von Troyes sämtliche erhaltene Werke", V, Halle, 1932. Foi de grande utilidade a consulta da prosa de 1530 (editada pela Hilka  em apêndice) e da tradução em prosa francesa moderna de Lucien Foulet, Chrétien de Troyes, “Perceval de Gallois”, ou o “Conté du Graal”, em "Cent romans français", Paris, 1947. Procurei ser o mais literal que permite a correção idiomática; conservei certas repetições do texto original e as freqüentes mudanças de tempos verbais. O leitor não deve esquecer que o que está lendo é tradução de um relato escrito em versos curtos de rima consoante; implicando ao autor ver-se, às vezes, obrigado à rodeios um pouco forçados que, embora no original do século XII amoldem-se a uma determinada técnica narrativa, ao converter-se em prosa moderna pode surpreender. A fim de que em todo momento se possa comparar minha versão, com o texto de Chrétien de Troyes, na parte superior das páginas indico os versos franceses que correspondem a seu conteúdo.&lt;br /&gt;           Martín de Riquer&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;         CONTO DO GRAAL&lt;br /&gt;                            &lt;br /&gt;   DEDICATÓRIA À FELIPE DE FLANDES&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Quem pouco semeia, pouco colhe e o que queira colher algo, que jogue sua semente em lugar onde Deus lhe conceda o cêntuplo; pois, em terra que nada vale, a boa semente seca e deteriora. Chrétien semeia e joga a semente de uma novela que começa. Semeia-a em lugar tão bom que não pode ficar sem grande proveito, pois, o faz para o mais prudente que existe no império de Roma. Trata-se do conde Felipe de Flandes, que vale mais que Alejandro, de quem se diz que foi tão bom. Eu demonstrarei que o conde vale muito mais, pois, aquele reuniu em si todos os vícios e todos os defeitos dos quais o conde está limpo e isento.&lt;br /&gt; O conde é de tal condição que não escuta nem vis grosserias nem palavras néscias, e lhe pesa ouvir falar mal de outro, seja quem for. O conde ama a reta justiça, a lealdade e a Santa Igreja e abomina toda vilania. É mais dadivoso do que se supõe, pois, dá sem hipocrisia e sem engano, segundo o Evangelho, que diz: "Não saiba sua esquerda os benefícios que faça sua direita". Que saiba quem os recebe e Deus, que vê todos os segredos e conhece o mais escondido que há nos corações e nas vísceras.&lt;br /&gt;(VS. 13-107)&lt;br /&gt; Sabem por que diz o Evangelho "esconde os  benefícios da sua esquerda"? Porque, segundo o relato, a esquerda significa vanglória, que procede de falsa hipocrisia. E o que significa a direita? A caridade, que não se envaidece de suas boas obras, mas sim se esconde para que só as saiba aquele que se chama Deus e caridade. Deus é caridade. Quem segundo a Escritura vive em caridade, diz São Paulo, e eu o tenho lido, que mora em Deus, e Deus nele. Saibam, na verdade, que as dádivas que faz o bom conde Felipe são de caridade; nunca fala disso com ninguém a não ser com seu bom coração generoso, que lhe aconselha obrar bem. Não vale, pois, ele mais que Alejandro, a quem não lhe importou a caridade, nem nenhum benefício? Sim, não o duvidem. Bem empregado estará, pois, o trabalho de Chrétien, que se esforça e trabalha em excesso, por ordem do conde, em rimar o melhor conto que foi contado na corte real: é o “Conto  do Graal”, sobre o qual o conde lhe deu o livro. Ouçam como cumpre seu encargo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    NA ERMA FLORESTA SOLITÁRIA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Era o tempo em que as árvores florescem, a erva, o bosque e os prados verdes, os pássaros cantam docemente em seu latim pela manhã e toda criatura se inflama de alegria, quando o filho da Dama Viúva se levantou na Erma Floresta Solitária, e sem preguiça pôs a sela em seu corcel, pegou três flechas e saiu assim da morada de sua mãe. Pensou que iria ver os lavradores de sua mãe, que lhe rastelavam a aveia; tinham doze bois e seis rastros. Assim entrou na floresta. De repente o coração se alegrou nas entranhas pela doçura do tempo, ao ouvir o canto gostoso dos pássaros: tudo isto lhe agradava. Pela benignidade do tempo sereno tirou o freio do corcel e deixou que pastasse pela verde erva fresca. Ele, que sabia lançar muito bem as flechas que levava, ia em torno, disparando-as ora para trás, ora para frente, ora para baixo, ora para cima, até que ouviu, vindo pelo bosque, cinco cavaleiros armados com todas as suas armas. Enorme ruído faziam as armas dos que chegavam, pois, freqüentemente, chocavam-se com os ramos dos carvalhos e dos arranjos. As lanças entrechocavam-se com os escudos; as armaduras chiavam; ressonava a madeira, ressonava o ferro, tanto dos escudos, como das armaduras.&lt;br /&gt;(VS. 108-191)&lt;br /&gt; O moço ouvia e não via os que a ele caminhavam passo a passo, e muito assombrado disse:&lt;br /&gt;— Por minha alma! Razão tinha minha mãe, minha senhora,  quando me disse que os diabos são as coisas mais feias do mundo; e para me instruir disse que ante eles terei que benzer-se. Mas, eu desdenharei este ensino e não me benzerei de modo algum, antes bem, atacarei em seguida, ao mais forte, com uma destas flechas que levo e não se aproximará de mim nenhum outro, conforme acredito.&lt;br /&gt; Deste modo o moço falou para si, antes de vê-los. Todavia, quando os viu abertamente, assim que o bosque os descobriu, viu as armaduras cintilantes; os cascos claros e reluzentes; o branco e o vermelho resplandecerem contra o sol, o ouro, o azul e a prata; pareceu-lhe muito formoso e muito agradável, e disse:&lt;br /&gt;— Ah, senhor Deus,  perdão!  São anjos os que aqui vejo. Realmente, pequei agora muito e obrei muito mal, ao dizer que eram diabos. Contou-me uma fábula, minha mãe, quando me disse que os anjos eram as coisas mais belas que existem, exceto Deus,  que é mais belo que tudo. Aqui, acredito que vejo nosso Senhor, pois, contemplo a um tão formoso, que os outros, valha-me Deus, não têm nem a décima parte de beleza. Minha mesma mãe me disse que se deve adorar, suplicar e honrar a Deus sobre todas as coisas. Eu adorarei a este, e depois a todos os anjos.&lt;br /&gt; Imediatamente atira-se ao chão e diz todo o credo e as orações que sabia, porque sua mãe as tinha ensinado. O principal dos cavaleiros, vê e diz:&lt;br /&gt;— Fiquem para trás. O moço que vimos, caiu no chão de medo. Se formos todos juntos para ele, parece-me que será tal seu espanto que morrerá, e não poderá responder a nada que perguntemos.&lt;br /&gt;  Todos param e ele se adianta galopando até o moço. Saúda-o e o tranqüiliza dizendo:&lt;br /&gt;—Moço, não tenha medo.&lt;br /&gt;—Não o tenho —diz o moço—, pelo Salvador em quem acredito. São vocês, Deus?&lt;br /&gt;—Não, a minha fé.&lt;br /&gt;—Quem são, pois?&lt;br /&gt;—Sou um cavaleiro.&lt;br /&gt;—Jamais conheci um cavaleiro —responde o moço—, nem vi, nem ouvi falar nunca de nenhum, mas vocês são mais formosos que Deus. Oxalá fosse eu assim, tão reluzente e feito deste modo!&lt;br /&gt; Enquanto isso o cavaleiro aproximou-se dele perguntando-lhe:&lt;br /&gt;—Viu hoje, por estas bandas, cinco cavaleiros e três donzelas?&lt;br /&gt; Ao moço interessa averiguar e perguntar outras coisas. Com a mão toca a lança, agarra-a e lhe diz:&lt;br /&gt;—Bom senhor amável, você que o chamam cavaleiro, o que é isto que leva?&lt;br /&gt;(VS.  192-265)&lt;br /&gt;-  Agora sim...Parece que vou por bom caminho! —responde o cavaleiro—. Eu que pensei, meu doce amigo, saber novas de ti, e as quer ouvir de mim. Já lhe direi: isto é minha lança.&lt;br /&gt;-  Dizem que se lança —disse ele— como eu faço com minhas flechas?&lt;br /&gt;-  Não, moço.  É muito tolo!  Ataca-se com ela sem soltá-la.&lt;br /&gt;—Assim, pois, vale mais uma destas três flechas que vêem aqui, porque sempre que quero com elas mato pássaros e animais a meu prazer, e os mato de tão longe como se poderia fazer com uma lança.&lt;br /&gt; —Moço, isto não me importa nada. Mas, responda-me sobre os cavaleiros. Diga-me se souber, onde estão e se viu as donzelas.&lt;br /&gt; O moço agarra a ponta do escudo e lhe diz  francamente:&lt;br /&gt;- O que é isto e do que lhes serve?&lt;br /&gt;- Moço   —diz ele—   isto é uma brincadeira.  Leva-me à questões distintas das quais eu peço e pergunto.  Eu supunha, assim Deus me prospere, que você me daria novas em vez de que as soubesse de mim, e você quer que lhe dê isso. Como é, eu lhe direi isso, pois eu gosto de agradar. Isto que levo se chama escudo.&lt;br /&gt;- Chama-se escudo?&lt;br /&gt;-  Sim —diz ele—, e não devo desprezá-lo porque me  é tão fiel que, se alguém lança ou dispara sobre mim, interpõe-se a todos os golpes. Este é o serviço que me faz.&lt;br /&gt;Entretanto, os que estavam atrás vieram a toda corrida para seu senhor, e lhe disseram pouco tempo depois:&lt;br /&gt;—Senhor, o que lhe diz este gaulês?&lt;br /&gt;—Desconhece as maneiras —disse o senhor—, assim  Deus me perdoe, pois, nada do que lhe perguntei respondeu direito nenhuma só vez, mas sim pergunta como se chama tudo o que vê e o que se faz com isso.&lt;br /&gt;—Senhor, saiba de uma vez para sempre, que os gauleses são, por natureza, mais tolos que as bestas que pastam, e este é como uma besta. É ignorante quem se detém com ele, senão quer entreter-se com bobagens e gastar o tempo em tolices.&lt;br /&gt;— Não sei —diz ele—, mas, assim seja Deus, com tanto que me ponha no caminho lhe direi tudo o que queira saber; de outro modo não partirei.&lt;br /&gt; Logo, pergunta-lhe  uma vez mais:&lt;br /&gt;—Moço, apesar dos pesares, diga-me dos cinco cavaleiros e também se hoje encontrou, ou viu as donzelas.&lt;br /&gt; O moço pega pela armadura e estica-a.&lt;br /&gt;—Diga-me agora —disse ele —, bom senhor, o que é isso que têm vestido?&lt;br /&gt;—Moço, não sabe?&lt;br /&gt;—Não sei.&lt;br /&gt;—Moço, é minha armadura, e é tão pesada como  o ferro.&lt;br /&gt;—É de ferro?&lt;br /&gt;—Bem o pode ver.&lt;br /&gt;(VS.   266-345)&lt;br /&gt;    —Não sei nada disto —disse ele—, mas é muito  bela, valha-me Deus. O que fazem com ela e do que lhes serve?&lt;br /&gt;—Moço, é muito simples de explicar. Se fosse me atirar um dardo, ou me lançar uma flecha, não me faria nenhum dano.&lt;br /&gt;— Senhor cavaleiro, de tais armaduras preserve Deus, às corças e aos cervos, pois não poderia matar a nenhum nem correria nunca mais atrás deles.&lt;br /&gt;O cavaleiro replicou:&lt;br /&gt;— Moço, valha-o Deus, pode me dar novas dos cavaleiros e das donzelas?&lt;br /&gt;Ele, que tinha muito pouco critério, disse-lhe:&lt;br /&gt;—Nasceram assim?&lt;br /&gt;—Não, moço, é impossível que alguém possa  nascer assim.&lt;br /&gt;—Quem, pois, embelezou-lhes desta sorte?&lt;br /&gt;—Moço, eu te direi quem.&lt;br /&gt;—Diga, pois.&lt;br /&gt;— Com muito prazer. Ainda não se cumpriram cinco anos em que o rei Artur, armou-me cavaleiro, deu-me toda esta guarnição. E agora me diga de uma vez, o que foi feito dos cavaleiros, que passaram por aqui, levando as três donzelas. Iam passeando ou fugiam?&lt;br /&gt;Ele disse:&lt;br /&gt;— Senhor, olhe para o bosque mais alto que rodeia aquela montanha. Ali estão os desfiladeiros de Valbona.&lt;br /&gt;—Bem, é o que, bom irmão?&lt;br /&gt;—Ali estão os lavradores de minha mãe, que semeiam e aram suas terras. Se esta gente passou por ali e eles viram, dir-lhes-ão isso.&lt;br /&gt; Respondem-lhe que irão com ele, se os guiar, aos quais rastelam a aveia. O moço monta em seu corcel e vai onde os lavradores rastelavam as terras aradas, nas quais semearam a aveia. Assim que viram seu senhor ficaram tremendo de medo. Sabem por que razão? Porque viram que com ele vinham cavaleiros armados. Sabiam bem que se lhes perguntassem por seu ofício e de sua condição, eles queriam ser cavaleiro; sua mãe perderia o juízo, pois queria evitar que vissem cavaleiros e se inteirassem nesse ofício. O moço disse aos trabalhadores:&lt;br /&gt;— Viram passar por aqui cinco cavaleiros e três donzelas?&lt;br /&gt;—Em todo o dia de hoje passearam por estes desfiladeiros —respondem os trabalhadores.&lt;br /&gt; O moço disse ao cavaleiro que tinha falado  tanto com ele:&lt;br /&gt;— Senhor, os cavaleiros e as donzelas passaram por aqui; mas, agora me fale mais do rei que faz cavaleiros, e do lugar onde ele está com mais freqüência.&lt;br /&gt;—Moço —respondeu ele—, direi que o rei mora em Carduel. Ainda não passaram cinco dias que ele residia ali, pois, eu estive lá e o vi. Senão o encontrar ali, haverá quem indique aonde se encaminhou. Mas, agora rogo que me diga com que nome devo chama-lo.&lt;br /&gt;(vs. 346-422)&lt;br /&gt;-  Senhor —disse ele —, já lhes direi isso:  eu me chamo  "bom filho".&lt;br /&gt;-  "Bom filho"? Suponho que tem algum outro nome.&lt;br /&gt;—Senhor, a minha fé, meu nome é "bom irmão".&lt;br /&gt;—Acredito. Bem, mas se quer saber a verdade,  queria saber seu nome verdadeiro.&lt;br /&gt;-  Senhor —disse ele — , posso dizer isso bem, porque meu verdadeiro nome é "bom senhor".&lt;br /&gt;-  Valha-me Deus! É um bom nome. Tem algum mais?&lt;br /&gt;- Não, senhor, jamais tive outro algum.&lt;br /&gt;-  Valha-me Deus! Ouvi as coisas mais surpreendentes que jamais ouvi e que nunca penso ouvir. &lt;br /&gt; Imediatamente o cavaleiro parte galopando, pois, tinha pressa em reunir-se com os outros. O moço não demonstrava pressa em voltar para sua morada, onde sua mãe tinha o coração enfermo e escurecido por sua demora. Assim que o vê, experimenta grande alegria, não pode escondê-la, porque, como mãe que muito o quer, corre para ele e lhe chama "Bom filho, bom filho!", mais de cem vezes:&lt;br /&gt; —Bom filho, meu coração esteve muito torturado por sua demora. A dor me afligiu tanto, que por pouco morro. Onde esteve hoje tanto tempo?&lt;br /&gt;—Onde, senhora? Já lhe direi isso, sem mentir em nada, pois tive grande alegria por uma coisa que vi. Mãe, não costumava dizer que os anjos e Deus Nosso Senhor, são tão formosos que jamais a natureza criou tão formosas criaturas, nem há nada tão belo no mundo?&lt;br /&gt;-  Bom filho, e lhe digo isso outra vez; digo-lhe isso, porque é verdade e lhe repito isso.&lt;br /&gt;-  Cale-se, mãe! Acaso não acabo de ver as coisas mais formosas que existem, que vão pela Erma Floresta? Imagino que são mais formosos do que Deus e todos os seus anjos.&lt;br /&gt;A mãe toma-o em seus braços e lhe diz:&lt;br /&gt;-  Bom filho, a Deus o encomendo, pois, sinto grande temor por ti. Você viu, penso, aos anjos dos que a gente se lamenta, que matam tudo que alcançam.&lt;br /&gt;-  Não, mãe, não, não é isto! Dizem que se chamam cavaleiros.&lt;br /&gt;Ao ouvir pronunciar a palavra “cavaleiros” a mãe deprime-se; e assim que se repôs, disse como mulher aflita:&lt;br /&gt;(VS. 423-521)&lt;br /&gt;— Ai,  desventurada,  que  infeliz  sou!  Doce bom  filho, queria lhe preservar de ouvir falar de cavalaria e de que visse algum destes. Tivesse sido cavaleiro, bom filho, se tivesse agradado ao Nosso Senhor que seu pai velasse por você e por seus amigos. Em todas as ilhas do mar não houve cavaleiro de tão alto mérito, nem tão temido, nem aterrador, bom filho, como foi seu pai. Bom filho, pode se orgulhar de que não desmentem em nada sua linhagem, nem a minha, pois, eu procedo dos melhores cavaleiros desta comarca. Em meus tempos não houve linhagem melhor que as minhas nas ilhas do mar; mas os melhores decaíram, e se viu em muitas ocasiões, que as desditas ocorrem aos nobres que se mantêm em grande honra e em dignidade. Maldade, vergonha e preguiça não decaem, pois não podem, mas aos bons os deixam decair. Seu pai, se não sabe, foi ferido no meio das pernas, de sorte que seu corpo ficou aleijado. As grandes terras e os grandes tesouros que como homem principal tinha, perderam-se completamente, e caiu em grande pobreza. Empobrecidos, deserdados e arruinados foram injustamente os gentis homens depois da morte de Uter Pendragon, que foi rei e pai do bom rei Artur. As terras foram devastadas e os pobres abatidos, fugiu o que pôde fugir. Seu pai tinha esta morada nesta Erma Floresta; não pôde fugir. Apressadamente, trouxeram-no aqui em um beliche, pois, não sabia outro local no qual se refugiar. Você era pequeno, e tinha dois formosos irmãos; também pequenos, um menino de peito, tinha pouco mais de dois anos. Quando seus dois irmãos eram maiores, com a licença e conselho de seu pai foram à corte real para conseguir armas e cavalos. O maior foi ao rei de Escavalón, e o serve tanto que foi armado cavaleiro. O outro, que era menor, foi ao rei Ban de Gomeret. Ambos os moços foram consagrados cavaleiros no mesmo dia. No mesmo dia retornariam para casa, porque queriam dar alegria a mim e a seu pai, que já não os viu mais, pois, foram vencidos pelas armas. Pelas armas ambos foram mortos, pelo que eu senti grande dor e grande pena. Do maior chegaram novas terríveis: os corvos e as gralhas lhe arrebentaram os olhos; assim encontraram-no morto. Pela dor do filho morreu seu pai, e eu sofri vida muito amarga desde que ele morreu. Vocês eram todo o consolo e todo o bem que eu tinha, nunca ficava sem os meus. Deus só me deixou você para que estivesse alegre e contente.&lt;br /&gt;  O moço escuta muito pouco o que sua mãe  vai dizendo.&lt;br /&gt; —Dê-me de comer —diz—; não sei do que me fala. Com muito gosto iria ao rei que faz cavaleiros; e eu irei, que pese a quem pesar.&lt;br /&gt; A mãe o retém e o cuida tanto como lhe é possível. Prepara e confecciona uma grossa camisa de cânhamo e calças à guisa de Gales; onde se fazem, conforme acredito, calças e meias de uma peça; e uma capa com capuz, de pele de cervo, fechada ao redor. Assim o equipou a mãe. Só três dias o reteve, pois, para mais não foram eficazes suas adulações. Então, sentiu a mãe uma estranha dor; beijou-o e o abraçou chorando e lhe disse:&lt;br /&gt;(VS.  522-613)&lt;br /&gt;—Agora sinto uma dor muito grande, bom filho,  quando o vejo partir. Vá a corte do rei e diga-lhe que lhe dê armas. Não haverá nenhum inconveniente, pois, bem sei que dará. Todavia, quando chegar o momento de levar as armas, o que ocorrerá então? Como poderá dar conta, ao que jamais fizera, nem vira fazer a outros? Realmente, temo que mal. Entretanto, será pouco destro, parece-me, porque não é de admirar, que não se saiba, o que não se aprendeu; o admirável é que não se aprenda o que vê e ouve freqüentemente. Bom filho, quero lhe dar um conselho que deve compreender muito bem, e, se lhe agrada recordá-lo, poderá lhe chegar grande bem. Filho, se agradar a Deus, e eu assim acredito, dentro em pouco, será cavaleiro. Perto ou longe se encontrar dama que tenha necessidade de amparo, ou donzela desconsolada; preste-lhe sua ajuda, se ela lhe requerer isso, pois toda a honra radica nisso. Quem não rende honra às damas, sua honra deve estar morta. Sirva à damas e donzelas, e será honrado em toda parte; mas, se zangar alguma, não guarde nada que lhe desagrade. Muito consegue de donzela quem a beija. Se lhe consente que a beije, eu lhe proíbo o resto, se por mim quer deixá-lo. Se ela tiver anel no dedo, ou caritativa em seu cinturão; e por amor ou por rogo lhe der isso, parecerá bom e gentil que leve seu anel. Dou-lhe permissão para tomar o anel e a caritativa. Bom filho, quero lhe dizer algo mais: nem a caminho, nem em estalagem, não tenha por muito tempo companheiro sem lhe perguntar seu nome; e saiba, em resolução, que pelo nome se conhece homem. Bom filho, converse-se com os mestres e esteja em sua companhia; os mestres não aconselham mal nunca os quais têm ao seu lado. Rogo, sobretudo, que reze a Nosso Senhor em igreja e em monastério, para que lhe dê honra neste século e permita-lhe comportar de tal sorte que chegue a bom fim.&lt;br /&gt;—Senhora —disse ele —, o que é igreja?&lt;br /&gt;—Filho, ali onde se faz o serviço de Deus, Aquele que fez céu e terra; e pôs nela homens e mulheres.&lt;br /&gt;—E o que é monastério?&lt;br /&gt;—Filho, o mesmo: uma casa formosa e muito santa na qual há corpos de Santos e tesouros; ali se sacrifica o corpo de Jesus Cristo, o santo profeta, a quem os judeus fizeram tantos insultos. Foi traído e julgado injustamente; sofreu angústias de morte pelos homens e pelas mulheres; pois, as almas vão para o inferno quando se separavam dos corpos, e Ele as resgatou dali. Foi preso à um poste, açoitado, sacrificado; e levou uma coroa de espinhos. Para ouvir missa, orações e para adorar a este Senhor lhe aconselho a ir ao monastério.&lt;br /&gt; —Irei, pois, de muito bom grado às Igrejas e aos monastérios —disse o moço— de agora em diante. Assim lhe prometo isso.&lt;br /&gt; Então já não se entretém mais; despede-se e a  mãe chora. A sela já estava posta. Ia vestido à maneira e guisa do Gales; levava nos pés calçados com adorno, e por toda parte onde ia, estava acostumado a levar três flechas. Quis fazê-lo, mas, sua mãe lhe fez deixar duas, para que não parecesse muito gaulês, e, se pudesse, com muito prazer lhe faria desprender-se das três. Levava uma vara na mão direita para fustigar o cavalo.&lt;br /&gt;(VS. 614-695)&lt;br /&gt; A mãe, que tanto o amava, chorando beija-o. Ao separar-se dele, roga a Deus que o encaminhe.&lt;br /&gt; —Bom filho —disse ela—, Deus lhe guie, e onde quer que vá, dê-lhe mais gozo do que para o que fica.&lt;br /&gt; Quando o moço se afastou já a pouca distância olhou para trás; viu sua mãe de cabeça baixa sobre a ponte; estava desvanecida como se tivesse morta de cansaço. Ele fustiga com a vara a garupa do cavalo, o qual parte, sem tropeçar, e o leva a galope pela grande floresta escura. Cavalgou da manhã até que declinou o dia. Aquela noite dormiu no bosque até que amanheceu o claro dia.&lt;br /&gt;    A DONZELA DA TENDA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Pela manhã, com o canto dos pássaros, levantou-se o moço. Montou e cavalgou até que viu uma tenda levantada em uma bela pradaria, perto do arroio de uma fonte pequena. A tenda era maravilhosamente formosa: uma metade era vermelha e a outra bordada de orifrés, em cima havia uma águia dourada. O sol, claro e avermelhado, batia na águia, reluzindo todos os campos pelo resplendor da tenda. Ao redor dela, que era a mais formosa do mundo, havia cabanas de ramos e folhas; e se levantaram choças gaulesas. O moço foi para a tenda, e disse antes de chegar:&lt;br /&gt; —Deus, agora vejo sua casa. Obraria com menosprezo se não o adorasse. Realmente teve razão minha mãe ao me dizer que monastério era a coisa mais formosa que existe; e acrescentou que, sempre que encontrasse um monastério, entrasse para adorar ao Criador em quem acredito. Com fé pedir-lhe-ei que me dê hoje de comer, que o necessitarei muito.&lt;br /&gt; Logo vai à loja a qual encontra aberta; vê no meio uma cama coberta com uma colcha de seda; e na cama estava deitada, sozinha, uma donzela dormindo. Seu acompanhante estava no bosque, aonde fora colher flores frescas com as quais queria atapetar a loja, como estava acostumado a fazê-lo.&lt;br /&gt; Quando o moço entrou, seu cavalo soprou tão forte que a donzela o ouviu e despertou estremecida. O moço, que era simples, disse-lhe:&lt;br /&gt; —Donzela, saudação! Como minha mãe me ensinou a fazê-lo. Minha mãe me aconselhou e recomendou que saudasse às donzelas em qualquer lugar que as encontrasse.&lt;br /&gt; A donzela treme de medo pelo moço, que lhe parece bobo, e se tem por loucura comprovada porque a encontrou sozinha.&lt;br /&gt; —Moço —diz ela—, segue seu caminho. Foge,  antes de que meu amigo o veja.&lt;br /&gt; —Antes lhe beijarei, por minha cabeça —diz o moço—, pese a quem pesar, pois minha mãe me recomendou isso.&lt;br /&gt;(VS. 696-783)&lt;br /&gt; —Eu não o beijarei —disse a donzela—, se posso evitá-lo. Foge, para que meu amigo não o encontre aqui, porque senão o matará.&lt;br /&gt; O moço, que tinha os braços fortes, abraçou-a muito simples, pois não soube fazê-lo de outro modo. Colocou-a debaixo dele toda estendida, ela se defendeu muito e revolveu-se quanto pôde; mas não adiantou de nada, pois o moço violentamente, tanto se ela o queria como se não, beijou-a sete vezes, conforme diz o conto, até que viu em seu dedo um anel com uma esmeralda muito clara.&lt;br /&gt; —Também me disse minha mãe —acrescentou ele—, que tomasse o anel de seu dedo, e que não lhe fizesse nada mais. Dê-me o anel, que o quero!&lt;br /&gt; —De modo algum terá meu anel —disse a donzela —, sabe-o bem, senão me arrancar do dedo a força.&lt;br /&gt; O moço agarra a mão a força, estende o dedo, tira-lhe o anel e o põe no seu, e diz:&lt;br /&gt; —Donzela, passe bem. Agora partirei bem pago, e é muito melhor beijar você do que a quaisquer garçonetes da casa de minha mãe, pois não tem a boca amarga.&lt;br /&gt; E ela chora e diz:&lt;br /&gt; —Moço, não leve meu anel. Por isso eu  seria maltratada e você, cedo ou tarde, perderia a vida, asseguro-lhe isso.&lt;br /&gt; Ao moço não lhe chega ao coração nada do  que ouve; mas como estava em jejum morria penosamente de fome. Encontra uma garrafa cheia  de vinho e a seu lado um copo de prata, e vê sobre um  feixe de junco um guardanapo branco e novo. Levanta-o e debaixo encontra três bons bolos de coisa tenra, e não lhe desagrada tal manjar. Pela fome que fortemente lhe angustia parte um dos bolos e o come com grande apetite; na taça de prata verte vinho, que não era mau, e o bebe com freqüentes e longos goles; e diz:&lt;br /&gt; —Donzela, estes bolos não serão hoje consumidos por mim. Venha comer, que são muito bons. Cada um terá bastante para si e ainda sobrará um inteiro.&lt;br /&gt; Enquanto isso ela chora, e por muito que ele a negue e exorte, não lhe responde nenhuma palavra, mas sim chora mais ainda e retorce as mãos com muita dureza. Ele comeu tanto quanto, bebeu até ficar satisfeito, tampou o que sobrava e se despediu imediatamente, encomendando a Deus aquela a quem não gostou de sua saudação:&lt;br /&gt; —Deus lhe guarde —disse—, formosa amiga; mas, por Deus, não se aborreça que leve seu anel, pois antes de que eu mora de morte lhe recompensarei isso. Vou com sua licença.&lt;br /&gt;  Ela chora e diz que não o recomendará a Deus, pois por sua culpa terá mais vergonha e mais falta de sorte que jamais teve nenhuma desgraçada; e enquanto viva não terá socorro, nem ajuda; que saiba bem, que a traiu.&lt;br /&gt; Ela ficou assim chorando, e não passou muito tempo seu amigo voltou do bosque; viu os rastros do moço,  que seguia seu caminho, e isso lhe indignou. Ao encontrar chorando sua amiga, disse-lhe.&lt;br /&gt;(VS. 784-864)&lt;br /&gt; —Senhora; acredito, pelos sinais que vejo, que aqui esteve um cavaleiro.&lt;br /&gt; —Não, senhor, asseguro-lhe isso; esteve um moço de Gales, irritante, vilão e tolo, que bebeu tanto vinho seu como lhe agradou e comeu seus três bolos.&lt;br /&gt; —E por isso chora, formosa? Queria que o tivesse bebido e comido tudo.&lt;br /&gt; —Há algo mais, senhor —disse ela—. Está em jogo meu anel, que me tirou e o leva. Preferiria estar morta do que o tivesse levado assim.&lt;br /&gt; Aqui ele se turva, com o coração angustiado e diz:&lt;br /&gt;—Por minha fé, isto é um ultraje. Desde o momento que o leva e que fique. Porém, acredito que terá feito algo mais. Se houve algo mais, não o esconda.&lt;br /&gt;—Senhor —disse ela—, beijou-me.&lt;br /&gt;—Beijou-lhe?&lt;br /&gt;—Seriamente, já lhe digo isso. Mas foi contra minha vontade.&lt;br /&gt;—Ao contrário: vocês gostaram e você cedeu; não encontrou nisso oposição alguma —responde aquele a quem o ciúmes tortura—. Pensa que não lhe conheço? Sim, certo; conheço-lhe bem. Não sou tão tonto, nem tão vesgo, que não veja sua falsidade. Entrou em mau caminho, em má desdita: seu cavalo não comerá aveia, será sangrado até que eu me vingue. E quando perder as ferraduras, não voltará a ser ferrado; e se morrer, seguir-me-ão a pé. Jamais trocarão as roupas as quais vestem, me seguirá a pé e nua até que lhe tenha talhado a cabeça. Esta será minha justiça.&lt;br /&gt;E então sentou e comeu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    NA CORTE DO REI ARTUR&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; O moço cavalgou até que viu um carvoeiro, que levava um asno adiante, e lhe disse:&lt;br /&gt; —Camponês que leva um asno adiante, ensina-me o caminho mais reto para ir ao Carduel. Quero ver o rei Artur, o qual dizem que ali faz cavaleiros.&lt;br /&gt; —Moço — responde-lhe — nesta direção há  um castelo edificado ao lado do mar. Se você for a este castelo, doce bom amigo, encontrará ao rei Artur alegre e triste.&lt;br /&gt; —Agora satisfará meu desejo me dizendo por que  o rei tem alegria e tristeza.&lt;br /&gt; —Direi isso em seguida — responde-lhe—. O rei  Artur, com toda sua hoste, lutou com o rei Rión. O rei das ilhas foi vencido e, por isso, o rei Artur está alegre; mas está zangado com seus companheiros que partiram de seu castelo, onde vivem mais amplamente, e não sabe o que é deles; e esta é a tristeza que tem o rei.&lt;br /&gt; O moço não aprecia as novas artimanhas dadas pelo carvoeiro; encaminhando-se na direção indicada, até que ao lado do mar viu um castelo muito bem situado, forte e formoso.&lt;br /&gt;(VS. 865-951)  &lt;br /&gt; E vê sair pela porta um cavaleiro armado que  levava uma taça de ouro na mão; com a esquerda sujeitava a lança, o freio e o escudo, e na direita levava a taça de ouro. Assentavam-lhe muito bem as armas, que eram todas vermelhas. O moço viu aquelas armas tão belas, que eram muito novas, gostou e se disse:&lt;br /&gt; —Com minha fé, as pedirei ao rei; se me der, estarei muito bem, e maldito seja quem procura outras.&lt;br /&gt; Corre para o castelo, pois está impaciente para chegar a corte; mas quando passa ao lado do cavaleiro, este o reteve um momento e pergunta:&lt;br /&gt; —Aonde  vai,  moço?  Diga-me. &lt;br /&gt; —Vou à corte —responde— para pedir ao rei estas armas.&lt;br /&gt; —Moço —disse o cavaleiro—, fará muito bem;  vem, pois, em seguida, e volta. E dirá ao malvado rei que se quer ter sua terra sujeita a meu senhorio, que me entregue isso, ou que envie quem a defenda contra mim, afirmo que é minha. E acreditará quando lhe disser que recentemente lhe tirei esta taça que levo com todo o vinho que bebia.&lt;br /&gt; Que se busque outro mensageiro, porque este não entendeu nenhuma palavra. Não parou até a corte, onde o rei e os cavaleiros estavam sentados para comer. A sala estava ao mesmo nível terra, pavimentada, e era tão larga como longa, e o moço entrou nela a cavalo. O rei Artur estava sentado pensativo à cabeceira da mesa, e todos os cavaleiros riam e brincavam uns com outros, salvo ele, que estava pensativo e mudo. O moço se adianta sem saber a quem saudar, porque não conhece o rei, e para ele vai Yonet, que levava uma faca na mão, ao que diz:&lt;br /&gt;—Vassalo, você que vem aqui levando uma  faca na mão, ensina-me quem é o rei.&lt;br /&gt;Yonet, que era muito cortês, responde-lhe:&lt;br /&gt;—Amigo, veja ali.&lt;br /&gt; Ele em seguida foi para ele e o saudou como soube. O rei, pensativo, não lhe disse uma palavra, e ele outra vez o interpelou; o rei continua muito pensativo e não pronuncia palavra.&lt;br /&gt; —A minha fé —disse o moço então—, este  rei não fez jamais nenhum cavaleiro. Como poderia fazer cavaleiros se não lhe pode tirar nenhuma palavra?&lt;br /&gt; Então se dispõe a partir e fez dar a volta a cabeça de seu corcel; mas, como  homem de pouco julgamento, tão perto do rei o tinha conduzido, que diante dele, e isso não é fábula, atirou-lhe sobre a mesa um chapéu de feltro que levava. O rei volta para o moço a cabeça, que tinha inclinada, e abandonando toda sua preocupação, diz-lhe:&lt;br /&gt;—Bom irmão, seja bem vindo. Rogo que não leve a mal que não tenha respondido a sua saudação; não lhe pude responder por desgosto; pois o pior inimigo que tenho, quem mais me odeia e mais me consterna, veio disputar minha terra; e é tão néscio que diz que, queira ou não, a possuirá toda, livremente. Chama-se o cavaleiro Vermelho da Floresta de Quinqueroi. A rainha veio sentar-se aqui, diante de mim, para consolar e ver os cavaleiros feridos. Não estivesse indignado com o muito que o cavaleiro disse, ainda diante de mim agarrou minha taça e a levantou tão néscio que derramou sobre a rainha todo o vinho que continha. Foi isso um insulto tão feio e tão vil que a rainha, inflamada de cólera e de indignação, encerrou-se em sua câmara, onde morre; e não acredito, Deus me perdoe, que saia viva disso.&lt;br /&gt;(VS. 952-1038)&lt;br /&gt; Ao moço não importa nada o que o  rei diz e conta, nem sua dor, nem sua afronta, e tanto faz sua mulher. Diz:&lt;br /&gt; —Faça-me cavaleiro, senhor rei, que quero  partir.&lt;br /&gt; Claros estavam os olhos na face do moço selvagem de arma. Ao contemplá-lo ninguém o teria por sensato, mas todos os que o viam o consideravam formoso e galhardo.&lt;br /&gt; —Amigo —disse o rei—, desmonte e dê seu  corcel a um pajem, que o guardará e fará seu gosto. Dentro de pouco será cavaleiro, para minha honra e seu proveito.&lt;br /&gt; E o moço responde:&lt;br /&gt; —Não foram desmontados aqueles que encontrei por estas bandas, e vocês querem que eu desmonte. Não desmontarei, por minha cabeça. Mas, apresse-se, tenho que ir.&lt;br /&gt; —Ah! —disse o rei—, bom amigo amável, farei com muito gosto para seu proveito e para minha honra.&lt;br /&gt; —Pela fé que devo ao Criador —disse o moço—, bom senhor rei, em meus dias serei cavaleiro se não for cavaleiro vermelho. Dê-me as armas iguais as daquele que leva sua taça de ouro, o qual encontrei diante da porta.&lt;br /&gt; O mordomo, que estava ferido, e que se zangou pelo que tinha ouvido, disse:&lt;br /&gt;—Amigo, é justo. Vai agora mesmo pegar as armas porque são suas. Não procedeu como parvo quando veio aqui em busca disto.&lt;br /&gt;O rei ao ouvi-lo, indignou-se e disse ao Keu:&lt;br /&gt;—Muito injustamente zomba deste moço; isso é uma grande mácula em um mestre. Porque se o moço é simples, isso deve-se: se for nobre, à sua educação, a qual teve um mau professor, e ainda pode chegar a ser um digno vassalo. É vilania burlar-se de outro e prometer sem dar. O mestre não deve prometer a outro nada que não possa, ou não queira lhe dar, pois ganharia a má vontade de quem, sem lhe prometer nada, é seu amigo; e desde que o prometeu, aspira ter a promessa. Saibam, portanto, que é preferível negar uma coisa que fazê-la esperar em vão. Para falar a verdade, de si mesmo se burla; a si mesmo engana, quem faz uma promessa e não cumpre, e aliena o coração de seu amigo.&lt;br /&gt;(VS. 1039-1123)&lt;br /&gt; Assim falava o rei ao Keu; e ao moço que partia vinha uma donzela, formosa e gentil avisando-o e sorrindo diz o seguinte:&lt;br /&gt; —Moço, se viver longo tempo, penso e acredito  no interior de meu coração que em todo mundo não existirá, nem haverá, nem se conhecerá melhor cavaleiro que você; assim o penso, estimo e acredito.&lt;br /&gt; A donzela não sorria desde há mais de seis anos e disse tão alto que todos ouviram. Keu, a quem tais palavras zangaram muito, saltou e com a palma lhe deu um bofetão tão rude na tenra cara, que a fez cair no chão. Depois de esbofetear a donzela encontrou, junto a uma chaminé, um bufão, e com indignação e cólera, deu um chute no fogo ardente, já que este bufão estava acostumado a dizer: "Esta donzela não sorrirá até que veja aquele que alcançará todo o senhorio da cavalaria."&lt;br /&gt; E assim, enquanto ele grita e ela chora, o moço não se entretém e parte, sem conselho de ninguém, atrás do Cavaleiro Vermelho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;   LUTA  COM   O  CAVALEIRO VERMELHO&lt;br /&gt; Yonet, conhecia os melhores atalhos e com muito prazer levava novas à corte. Ia sozinho por um jardim que havia ao lado da sala e saia por uma porta até que chegou diretamente ao caminho no qual o cavaleiro esperava cavalaria e aventura.&lt;br /&gt; O moço chegou para ele com grande pressa para lhe tirar suas armas; e o cavaleiro, pela espera, tinha deixado a taça de ouro em um degrau de rocha granítica. Quando estava próximo o suficiente para que pudesse ouvir, o moço gritou:&lt;br /&gt; —Deixe suas armas. Já não as levará mais,  porque o rei Artur lhe manda isso.&lt;br /&gt; E o cavaleiro lhe pergunta:&lt;br /&gt; —Moço, vem alguém aqui para manter o direito do rei? Se vem alguém, não me esconda isso.&lt;br /&gt; —Como, diabo! Está zombando de mim, senhor  cavaleiro, que ainda não tirei as armas? Tire-as! É isso o que mando.&lt;br /&gt; —Moço —responde ele—, eu pergunto se vem alguém da parte do rei que queira combater comigo.&lt;br /&gt; —Senhor cavaleiro, tire as armas. Que não tenha que ser eu quem as estorve, pois não tolero que as tenha mais. Saiba que lhe atacarei se me fizer falar mais.&lt;br /&gt; Então o cavaleiro se irritou; levantou com as duas mãos a lança e, pela ponta que não tinha  ferro, deu-lhe tal golpe ao longo das costas, que o fez agachar-se até o pescoço do cavalo. O moço se encolerizou ao sentir-se ferido pelo golpe que tinha recebido; aponta o melhor que sabe no olho do cavaleiro e atira-lhe o dardo, sem adverti-lo, nem ouvi-lo, do meio do olho lhe atravessou até o cérebro, de modo que pela nuca escorria sangue e os miolos. Pela dor o coração parou. Inclina-se e cai estirado ao chão.&lt;br /&gt;(VS. 1124-1217)&lt;br /&gt; O moço desmonta, deixa a lança de lado e tira-lhe o escudo do pescoço. Todavia, não sabe como arrumar-lhe com o elmo que leva na cabeça, pois ignora como separá-lo. Tem vontade de descer-lhe a espada; porém, não sabe como fazê-lo, nem consegue tirar da bainha que leva a arma. Agarra, sacode e estira.&lt;br /&gt; Yonet, ao vê-lo em tais apuros, fica rindo e lhe diz:&lt;br /&gt;—O que é isto, amigo? O que faz?&lt;br /&gt;—Não sei. Pensei que seu rei me tinha dado estas armas. Todavia, antes conseguirei esquartejar ao morto para fazer chuletas, do que levar uma de suas armas; pois, estão tão pregadas ao corpo, o de dentro está tão unido ao de fora, parecendo-me que são tudo um só.&lt;br /&gt;—Não se preocupe com nada, pois eu as separarei muito bem, se quiser —disse Yonet.&lt;br /&gt;—Faça logo, pois —respondeu o moço—, e me dê isso imediatamente.&lt;br /&gt; Yonet põe mãos à obra e o descalça  até a junta; não deixou no corpo nenhum armamento ou proteção, nem elmo na cabeça, nem nenhuma outra armadura.&lt;br /&gt; Entretanto, o moço não quer tirar a vestimenta, por mais que Yonet o diga, prefere deixar uma cômoda capa de tecido de seda felpuda, a qual o cavaleiro vestia debaixo da armadura, quando estava vivo. Nem autoriza que tire as botas que calça. Replica:&lt;br /&gt; —Diabo! Que brincadeira é esta? Trocaria minhas boas roupas, que minha mãe me fez outro dia, pelas deste cavaleiro? Minha grossa camisa de cânhamo pela sua, que é sutil e delicada? Queria que trocasse meu couro, que não penetra água, por este, que não suportaria nenhuma gota? Maldito seja o cangote de quem, agora e sempre, troque suas boas vestimentas por outras tão más.&lt;br /&gt; Dura tarefa é instruir a um néscio. Por mais rogos que lhe façam, só quer ficar com as armas. Yonet ata os armamentos e sobre as botas calça as esporas. Depois observou a armadura: era tal qual nunca houve outra melhor; sobre a touca coloca o elmo, que lhe assentou muito bem. Ensina-lhe rodear a espada folgada e pendente, logo após põe o pé no estribo e monta no corcel. Jamais tinha visto estribos, quanto às esporas, só conhecia o látego e a vara. Yonet lhe traz o escudo e a lança dando-os e, antes que se vá, o moço lhe diz:&lt;br /&gt; —Amigo, tome meu corcel e leve-o, é muito bom e lhe dou porque já não o necessito mais.  Leve ao rei sua taça e saúdem-no de minha parte. Diga à donzela que Keu pegou na bochecha, que se puder, antes de morrer, penso surrar àquele banana, de tal modo, que ela se considerará vingada.&lt;br /&gt; Ele responde que devolverá ao rei sua taça e transmitirá a mensagem entendida. E assim separam-se e segue cada um para um lado.&lt;br /&gt; Yonet entra pela porta da sala onde estão os barões, entrega ao rei sua taça e lhe diz:&lt;br /&gt;—Senhor, alegre-se, pois, o seu cavaleiro que esteve aqui, devolve-lhe sua taça.&lt;br /&gt;—De que cavaleiro me fala?&lt;br /&gt;(VS. 1218-1304)&lt;br /&gt;Responde Yonet:&lt;br /&gt;—Daquele que a pouco saiu daqui.&lt;br /&gt;—Refere-se ao moço gaulês —diz o rei— que me pediu as armas na reunião em nosso acampamento, daquele  cavaleiro que você fez tantos insultos quanto pôde?&lt;br /&gt;—Refiro-me a ele, senhor, verdadeiramente.&lt;br /&gt;—E como conseguiu minha taça? Ama-o e aprecia-o tanto, que amavelmente a deu?&lt;br /&gt;—Ao contrário, o moço pagou tão caro, que morreu.&lt;br /&gt;—E como foi isto, bom amigo?&lt;br /&gt;—Senhor, não sei. Mas, vi que o cavaleiro o golpeou com a lança, zangando-o muito. O moço por sua vez deu com um dardo na viseira, de modo que lhe fez sair o sangue por detrás, derramando o cérebro e deu com ele em terra.&lt;br /&gt;Então disse o rei ao mordomo:&lt;br /&gt;—Ah, Keu, que mal obrastes hoje! Por culpa de sua injuriosa língua, proferiu tantas inconveniências, arrebatando o moço que hoje tanto me ajudou.&lt;br /&gt; —Senhor —disse Yonet ao rei—, por minha cabeça: ele manda dizer por mim à donzela da rainha que Keu golpeou por despeito, por aversão e ódio a ele, que a vingará, se encontrar ocasião para isso.&lt;br /&gt; Quando o bufão, que estava sentado ao lado do  fogo, ouviu estas palavras, ficou em pé e muito contente foi ante o rei, com tanta alegria que saltava e saltava, e disse:&lt;br /&gt; —Senhor rei, assim Deus me salve, agora se aproximam nossas aventuras. Com freqüência as verão dolorosas e duras. E eu lhes prognostico que Keu pode estar seguro de que em má hora viu seus pés, suas mãos, sua língua néscia e vilã; pois, antes de que transcorra uma quinzena, o cavaleiro terá vingado o chute que me deu, será bem devolvida, comprada e paga cara, a bofetada que deu à donzela, porque lhe quebrará o braço direito entre o cotovelo e o sovaco. Meio ano o terá pendurado do pescoço, muito justo e é tão certo que obrará assim quanto tem que morrer.&lt;br /&gt; Tanto arderam estas palavras ao Keu que por pouco arrebenta de indignação e de cólera, por pouco esteve de maltratá-lo diante de todos até matá-lo. Mas não o atacou porque desagradaria ao rei, o qual disse:&lt;br /&gt; —Ai, ai, Keu, quanto me zangou hoje!  Se alguém tivesse dirigido e adestrado nas armas ao moço, de modo que tivesse aprendido um pouco a servir do escudo e da lança, tínhamos, sem dúvida alguma, um bom cavaleiro; mas não sabe de armas, nem de nenhuma outra coisa, nem pouco, nem muito; nem sequer saberá desembainhar a espada se o precisar. Agora vai armado em seu cavalo, se encontrar algum vassalo que, para ficar com suas arreios, não duvidará em aleijá-lo. Logo o matará, ou o aleijará, pois, não saberá defender-se, de tão simples e bruto como é, e facilmente perderá a partida.&lt;br /&gt; Assim o rei lamenta e deplora ao moço tendo o rosto entristecido. Todavia, como não pudia reparar nada, deixa de continuar falando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;   COM O GORNEMANT DE GOORT&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(VS. 1305-1389)&lt;br /&gt; O moço sem demora vai cavalgando pela  floresta, até que chega numa terra plana; pela qual discorre um rio que, em suas partes mais largas, tem um campo suspenso; e na extensão do leito se acumulou toda a água. Atravessa toda uma pradaria para o grande rio que ressona. Todavia, não entrou na água porque a viu muito veloz e negra; mais profunda que a de Loira. Segue ao longo da borda, perto de uma grande rocha viva, sobre a qual, um declive descia por volta do mar e havia um castelo muito rico e resistente. Quando o rio chegava à desembocadura, o moço se voltou para a esquerda e viu nascer as torres do castelo, pois lhe pareceu que nasciam e que surgiam da rocha. No meio do castelo se erguia uma torre sólida e grande. Em frente à baía, um poderoso muro que combatia com o mar e o mar batia a seu pé. Nas quatro paredes do muro, cujos blocos de pedras eram duros, havia quatro baixas torres que eram muito compactas e belas. O castelo estava muito bem situado e bem disposto em seu interior. Frente ao redor do muro havia uma ponte de pedra, areia e cal suspensa sobre a água. Era alto, firme, sólido e cercado por pilastras. No meio da ponte havia uma torre, adiante uma ponte elevada, que parecia estabelecida para o que justamente lhe compete: de dia era ponte e de noite porta.&lt;br /&gt; O moço caminha para a ponte, pelo que se entretém num mestre vestido com roupas de cor púrpura. Eis aqui aquele que vem fazer a ponte. Para mostrar autoridade, o mestre leva um bastão na mão, e detrás dele seguem dois pajens guardiães. O moço recorda bem o que sua mãe lhe ensinou, pois, cumprimenta e diz:&lt;br /&gt;      —Senhor, isto me ensinou minha mãe.&lt;br /&gt;  —Deus te abençoe, bom irmão —respondeu o  mestre, que ao falar conheceu que era simples e tolo —. Bom irmão, de onde vem?&lt;br /&gt;- De onde? Da corte do rei Artur.&lt;br /&gt;- E o que fazia?&lt;br /&gt;—O rei, que boa ventura haja, fez-me cavaleiro.&lt;br /&gt;— Cavaleiro! Deus me proteja! Não suspeitava que  agora, precisamente, lembrasse disto; imaginava que lhe preocupavam coisas muito distintas para fazer cavaleiros. Diga-me, amável irmão, quem te deu estas armas?&lt;br /&gt;—O rei me deu —responde isso.&lt;br /&gt;—Deu-lhe isso? Como?&lt;br /&gt; E lhe conta o que já ouvistes no conto.  Se o contasse eu outra vez seria irritante e aborrecido, e com isso nenhum conto ganha nada.&lt;br /&gt; E o mestre lhe pergunta o que sabe fazer com o  cavalo.&lt;br /&gt;— Faço-o correr acima e abaixo, como fazia com  o corcel que tinha antes, que trouxe da casa de minha mãe.&lt;br /&gt;(VS. 1390-1468)&lt;br /&gt;—Diga-me também, bom amigo, o que sabe fazer com suas armas?&lt;br /&gt;— Sei prepara-las e arrebatar, do modo como me armou com elas o pajem que diante de mim desarmou o cavaleiro que matei; e as levo com tanta agilidade que não me pesam nada.&lt;br /&gt;—Por minha fé —disse o mestre—, aprovo-o e me agrada. Todavia, diga-me senão o molesta, o que lhe traz por aqui?&lt;br /&gt;— Senhor, minha mãe ensinou aproximar-me dos mestres em qualquer lugar que os encontrasse, e que acreditasse o que me dissessem, pois muito proveitos ganham os que os escutam.&lt;br /&gt;E o mestre responde:&lt;br /&gt;— Bom irmão, bendita seja sua mãe, que tão bem lhe aconselhou. Porém, quer me dizer algo mais?&lt;br /&gt;      —Sim.&lt;br /&gt;—O que?&lt;br /&gt;- Uma  coisa somente: que me  albergue hoje.&lt;br /&gt;-  Com muito gosto  —diz o mestre — , mas, com a condição de que me outorgue um dom do qual verão seguir-se grande benefício.&lt;br /&gt;- Qual? —diz ele.&lt;br /&gt;-  Que  seguirá os  conselhos de  sua mãe  e os meus.&lt;br /&gt;—Por minha fé, outorgo-o —disse ele.&lt;br /&gt;—Pois, desmonte.&lt;br /&gt; E ele desmonta. Um dos dois pajens que o acudiu toma seu cavalo, e o outro o desarma. Assim ficou em seu rústico traje, com as botas e a capa de cervo, mal feita e mal cortada, que lhe tinha dado sua mãe. O mestre fez calçar as esporas cortantes de aço que o pajem havia trazido, monta em seu cavalo, pendura no pescoço o escudo, toma a lança e diz:&lt;br /&gt;— Amigo, aprenda agora a dirigir as armas. Fixa bem como se deve levar a lança, espetar e reter o cavalo.&lt;br /&gt; Logo desdobra a insígnia, mostra e ensina como se deve pegar o escudo. Joga-o um pouco para frente, para que alcance o pescoço do cavalo, afirma a lança e espeta o cavalo, o qual valia cem marcos; que corria mais elegante, mais rápido e com mais vigor que nenhum.&lt;br /&gt; O mestre conhecia muito de símbolos, de cavalos e de lanças, pois, aprendeu na sua infância. Concedia muito ao moço, o qual se fixou em tudo o que fez. Quando demonstrou tudo, bem e garboso, ante o moço, que tinha estado muito atento, volta com a lança erguida e lhe pergunta:&lt;br /&gt;— Amigo, saberiam dirigir assim a lança, o escudo, espetar e conduzir o cavalo?&lt;br /&gt; E ele responde decidido que não quer viver, nem um só dia mais, nem possuir fazenda, até  sabê-lo fazer assim.&lt;br /&gt;  — O que não se sabe pode aprender, se a gente  puser nisso afã  e entendimento, amável amigo —diz o mestre—. Em todo ofício convém, ter coração, trabalho e costume. Com estes três meios se chega a conhecê-lo, como você jamais o fizera, nem o vira fazer a ninguém, não merece desprezo, nem censura por não saber fazê-lo.&lt;br /&gt;  Logo o mestre o fez montar, ele começou a levar tão distraído a lança e o escudo como se sempre tivesse vivido entre torneios e guerras; tivesse percorrido todas as terras em demanda de batalhas e aventuras; pois lhe vinha da natureza; quando a natureza o ensina fica em todo o coração, nada pode ser árduo para o esforço da natureza e do coração. &lt;br /&gt;  Tudo desempenhava tão bem, que o mestre estava muito satisfeito; dizendo em seu interior que se toda sua vida se aplicasse e ocupasse em armas, não o teria aprendido tão bem. Quando o moço acabou sua trajetória, retornou ao mestre com a lança erguida, como lhe tinha visto fazer, e lhe diz:&lt;br /&gt;   _Senhor, tenho-o feito bem? Crê que convém mais esforço, se quero fazê-lo? Jamais viram meus olhos nada que tanto desejasse; mas queria saber tanto como sabe você.&lt;br /&gt;-  Amigo —responde o mestre—, se puser  seu coração nisso, conseguirá; não deve se inquietar de modo algum.&lt;br /&gt; Três vezes o mestre montou, e três vezes lhe ensinou tudo quanto pôde lhe ensinar em matéria de armas, e três vezes o fez montar. A última lhe disse:&lt;br /&gt;— Amigo, se encontrasse um cavaleiro que lhe atacasse, o que faria?&lt;br /&gt;—Atacaria-o por minha vez.&lt;br /&gt;—E se sua lança rompesse?&lt;br /&gt;—Depois disto não teria mais receio de lhe atacar a murros.&lt;br /&gt;—Amigo, não faça isto.&lt;br /&gt;- O que farei, pois?&lt;br /&gt;-  Deve lhe obrigar a esgrimir a espada.  &lt;br /&gt;  Então, o mestre que tanto deseja lhe ensinar armas e lhe instruir de modo que saiba bem defender-se com a espada; obrigando-se a isso a atacar quando se apresente a ocasião, finca no chão a lança muito direita, logo lança mão à espada e diz:&lt;br /&gt; —Amigo, deste modo se defenderá se o atacarem.&lt;br /&gt; —Nisto, Deus me valha —responde—, ninguém sabe tanto como eu, pois me exercitei com os almofadinhas e as faíscas da casa de minha mãe, ao ponto de fatigar-me em algumas ocasiões.&lt;br /&gt;  —Assim, pois, vamos pra casa, porque já não sei  que mais ensinar —diz o mestre—, e esta noite, em que pese a quem pesar, São Julião nos dará bom albergue.&lt;br /&gt; E assim se vão, um ao lado do outro, e o moço  diz a seu anfitrião:&lt;br /&gt;-  Senhor, minha mãe me recomendou que soubesse o  nome de todo aquele com quem fora ou com quem fizesse longa companhia. E se o que me recomendou é sensato, quero saber seu nome.&lt;br /&gt;-  Amável amigo —diz o mestre—, eu me chamo Gornemant do Goort.&lt;br /&gt;(VS. 1549-1638)&lt;br /&gt; Assim, um ao lado do outro, chegaram ao castelo. Ao início da escada aproximou-se um agradável pajem levando um manto curto, com o qual correu a abrigar ao moço para que, depois do calor, o frio não lhe fizesse mal. O mestre tinha ricas estadias, formosas, grandes e bons servidores. A comida boa, agradável e bem preparada, estava disposta. Os cavaleiros lavaram-se e sentaram-se à mesa. O mestre sentou ao lado do moço e comeu com ele na mesma tigela. Não é preciso que faça relação de quantos manjares houve nem de sua qualidade, pois comeram e beberam o suficiente, e já não falo mais da comida.&lt;br /&gt; Quando levantaram da mesa, o mestre, que era muito cortês, rogou ao moço que esteve sentado a seu lado, que ficasse um mês; de bom grado o acolheria se quisesse um ano inteiro, e enquanto isso lhe ensinaria, se lhe parecia bem, coisas que lhe seriam úteis em uma necessidade. E o moço lhe respondeu:&lt;br /&gt; —Senhor, não sei se estamos perto da morada onde  minha mãe vive, mas peço a Deus que conduza a ela para que ainda a possa ver, pois a vi cair deprimida ao pé da ponte, diante da porta, e não sei se estava viva, ou morta. Sei bem que caiu deprimida pela dor que lhe produzi quando a deixei; e por esta razão não é possível que me ausente muito até saber seu estado. Irei amanhã ao amanhecer.&lt;br /&gt; O mestre vê que de nada serve insistir. Não diz nada mais, sem outra conversa vão se deitar, pois, as camas já estavam feitas. O mestre se levantou de manhã e foi à cama do moço o qual encontrou deitado, e lhe fez levar, doando-lhe camisa e calças muito finas como véu; calças importadas do Brasil e capa de tecido de seda indiana, uma malha que se faz na Índia. Orientou-o para que se vestisse com aquelas vestimentas e disse:&lt;br /&gt;—Amigo, se me crê, vestirá estas roupas que vê aqui.&lt;br /&gt;E o moço respondeu:&lt;br /&gt;  - Bom senhor, por muito que me diga, acaso as roupas que fez minha mãe não valem mais que estas? E quer que ponha isso?&lt;br /&gt;  -Moço, por minha cabeça e pela fé que devo a meus olhos, estas valem muito mais.&lt;br /&gt;Replicou o moço:&lt;br /&gt;—Valem menos.&lt;br /&gt;  - Você disse, bom amigo, quando o trouxe aqui dentro, que obedeceria todos os meus mandatos.&lt;br /&gt;  - E assim  o farei  —disse o  moço—,  e não o decepcionarei em nada.&lt;br /&gt; Apressa-se a colocar as roupas e deixa as de sua mãe. O mestre agacha-se e calça a espora direita, pois era costume ao presentear um cavaleiro calçar a espora neste. Havia muitos outros moços, e todos os que podem aproximar querem intervir em armá-lo. O mestre pegou a espada rodeou-a e beijou-a; dizendo que com a espada, tinha-lhe dado a mais alta ordem que Deus tenha feito e instaurado: é a ordem da cavalaria, que deve ser sem vilania. E acrescenta:&lt;br /&gt;(VS. 1639-1721)&lt;br /&gt;—Bom irmão, se por acaso precisar combater com algum cavaleiro, lembre-se do que agora quero dizer e rogar: se você vencer, de modo que ele já não possa defender-se de você, nem se opor  à você, ou seja obrigado a ficar à sua mercê, tenha compaixão e apesar de tudo não o mate. Não me agrada falar muito: se a gente for muito falador, às vezes, diz coisas consideradas desnecessárias, pois, o sábio diz e repete: "Quem fala muito, machuca-se a si mesmo." Por isso, o aconselho, bom amigo, que não fale demais. Também rogo que se encontrar homem, ou mulher; seja órfão, ou seja dama, desorientados, aconselhe-os; fará grande bem se souber aconselhá-los e se tiver autoridade para tal. Recomendo-lhe outra coisa que não deve desdenhar, porque não deve ser desdenhada: vá de bom grado ao monastério para pedir Àquele que tudo tem feito, que tenha piedade de sua alma e que neste século terreno, guarde-o como cristão dele.&lt;br /&gt;O moço disse ao mestre:&lt;br /&gt;—Por todos os apóstolos de Roma seja abençoado, bom senhor, pois, o mesmo ouvi dizer minha mãe.&lt;br /&gt;—Não diga nunca, bom irmão —acrescenta o mestre—, que sua mãe o ensinou, diga apenas que fui eu. Saiba que não o reprovo por havê-lo dito até agora, todavia, daqui em diante, por favor, rogo que se emende; pois, continuar dizendo é desnecessário. Rogo-lhe, pois, que guarde este conselho.&lt;br /&gt;—Como direi, pois, doce senhor?&lt;br /&gt;—Poderá dizer que quem lecionou e ensinou isso, foi quem o presenteou e calçou sua espora.&lt;br /&gt; O moço dá sua palavra, promete ao mestre que pode ficar seguro, enquanto viva, só falará dele, pois parece muito certa tal instrução.&lt;br /&gt; Então o mestre o benze, com sua mão levantada para o alto e diz:&lt;br /&gt;—Posto que quer partir, vai com Deus e  que Ele o guie, já que o intranqüiliza ficar aqui.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;     NO BELREPEIRE&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; O novo cavaleiro separa-se de sua hospedagem, pois,  tem muita pressa em chegar para ver sua mãe e encontrá-la viva e sã. Adentra por florestas solitárias, pois nelas se encontra melhor que na terra plana, porque estava acostumado aos bosques. Cavalga até que vê um castelo forte e bem situado; fora dos muros não havia nada, salvo mar, água e terra erma. Apressa-se em caminhar para o castelo até que chega à porta, porém, antes de alcançá-la, teve que passar por uma ponte tão fraca que duvida que possa sustentá-lo. O moço sobe a pontezinha e cruza sem que lhe ocorra dano, vergonha, nem inconveniente algum. Quando chegou ante a porta a encontrou fechada com chave;   golpeia-a não brandamente e grita não muito baixo. Tanto chamou que se aproximou da janela da sala uma donzela fraca e pálida, que disse:&lt;br /&gt;—Quem chama?&lt;br /&gt;(VS. 1722-1805)&lt;br /&gt;Ele olhou para a donzela, viu-a e disse:&lt;br /&gt;-  Boa amiga, sou um cavaleiro rogando-lhe que me faça entrar aqui e albergue-me esta noite.&lt;br /&gt;-  Senhor  —contesta ela—, posso consenti-lo, mas, me agradecerá muito pouco por isto; não obstante lhe albergaremos o melhor que pudermos.&lt;br /&gt; A donzela retira-se. Ele, que espera diante da porta, receia fazer muito tempo que está ali e chama de novo. Em seguida chegaram quatro servidores com tochas, cada um dos quais rodeava uma boa espada. Abriram a porta e lhe disseram:&lt;br /&gt;—Entre!&lt;br /&gt; Se os servidores desfrutassem de prosperidade, talvez tivessem sido muito mais gentis; entretanto,  padeceram de tanta miséria entre jejuns e vigílias, que um não ficaria assombrado caso um caísse. Além disso, o moço observou, que por fora, a terra estava nua e deserta; muito pouco encontrou dentro. Por qualquer lugar que ia, achava desfeitas as ruas e via as casas arruinadas, sem que as habitasse homem nem mulher. Havia na vila dois monastérios, que foram duas abadias: uma de monjas aterrorizadas e a outra de monges desamparados. De modo algum encontrou bem adornados, nem paramentados aqueles monastérios; antes, bem viu arrebentados e fendidos seus muros e as torres destruídas. As casas estavam abertas tanto de dia como de noite. Em nenhum lugar de todo o castelo havia moinho para molar, nem forno para cozer; ali não havia nem vinho, nem pão, nem nada à venda que se pudesse adquirir com dinheiro. Tão desprovido encontrou o castelo, que não havia nem pão, nem massa, nem vinho, nem cidra e nem cerveja.&lt;br /&gt;Os quatro servidores levam-no a um palácio coberto de tábua, onde o fazem desmontar e o desarmam. Em seguida, desce um pajem por uma das escadas da sala com um manto pardo que põe nas costas do cavaleiro. Outro leva seu cavalo ao estábulo no qual havia muito pouco trigo, feno e aveia, pois, na casa não ficava mais. Outros pajens fazem-no subir por uma escada de uma sala muito formosa. Saem ao seu encontro dois mestres e uma donzela. Eles tinham os cabelos grisalhos, embora não completamente branco; teriam todo o sangue da juventude e todas as suas forças, se não padecessem dor e desgosto. A donzela aproximou-se mais graciosa, mais elegante e mais atrativa que gavião, ou papagaio. Seu manto e sua estola eram de púrpura escura, adornada de ouro, e as peles de arminho não estavam puídas. O colarinho do manto estava bordado com enfeites negros e chapeados. Se alguma vez me agradou descrever a beleza que Deus pôs em corpo ou em face de mulher, agora agrada-me em fazê-lo de novo sem mentir nem em uma só palavra. Ia descoberta, e eram tais seus cabelos que aquele que os visse imaginaria que eram de ouro puro, pois eram loiros e com muito brilho. A frente era alta, branca e lisa como se tivesse sido obrada por mão de homem acostumado a esculpir pedras preciosas, marfim ou madeira. Sobrancelhas perfeitas e amplo sobrecenho; na face os olhos brilhantes, claros e rasgados; tinha o nariz reto e aquilino; e em seu rosto melhor se advinham o branco sobre o vermelho do que o sinople (verde) sobre a prata. Na verdade, para roubar os corações da gente, fez Deus dela um prodígio, depois não criou outra semelhante, nem antes a tinha criado. Assim que o cavaleiro a viu, saudou-a e seus dois acompanhantes saudaram-no. A donzela amavelmente o pega pela mão e diz:&lt;br /&gt;(VS. 1806-1900)&lt;br /&gt;—Bom senhor, em verdade, seu albergue esta noite aqui, não será como conviria a um mestre. Se agora lhe dissesse qual é nossa situação e nosso estado, poderia parecer que o fazia com má intenção para partir daqui; mas, se lhe agradar, venha e aceite o albergue tal qual é, e Deus lhe dê um melhor manhã.&lt;br /&gt; Conduzindo-o pela mão até uma câmara retirada, que era muito formosa, larga e ampla. Sentam-se os dois sobre uma colcha de seda estendida em cima de uma cama. Também chegaram outros cavaleiros, que se sentaram em grupos de quatro, cinco e seis, permanecendo calados, olhando àquele que estava ao lado de sua senhora e não dizia uma palavra. Abstinha-se de falar porque recordava o conselho dado pelo mestre, enquanto isso, todos os cavaleiros debatiam em voz baixa, e diziam:&lt;br /&gt;— Deus! Muito me surpreende que este cavaleiro seja mudo. Seria grande lástima, pois, jamais nasceu de mulher cavaleiro tão gentil. Agrada-nos muito estar ao lado de minha senhora, e a minha senhora também estar ao lado dele, se não fossem ambos mudos. Tão formoso é ele e tão formosa é ela, que nunca houve cavaleiro e donzela tão adequados para estar juntos, e parece que Deus fez um para o outro, para que juntos estivessem.&lt;br /&gt;  Assim comentavam entre eles todos os que estavam ali. A donzela esperava que lhe falasse algo, até que se deu conta de que ele não pronunciaria uma palavra enquanto ela não se dirigisse primeiro; deste modo disse-lhe muito amavelmente:&lt;br /&gt;  -Senhor, de onde vêm hoje?&lt;br /&gt;  -Senhora —respondeu—, dormi em casa de um mestre, num castelo onde fui bem e gentilmente albergado. Há cinco torres fortes e excelentes, uma grande e quatro pequenas; poderia descrever todo o edifício, porém, não sei o nome do castelo; sei, entretanto, que o mestre se chama Gornemant do Goort.&lt;br /&gt; - Ah,  bom  amigo! —disse a donzela—, muito  agradáveis são suas palavras e fala de modo muito cortês. Que o soberano Deus lhe premie por havê-lo chamado mestre, pois, jamais disseram uma palavra mais certa. Posso lhe assegurar, por São Riquier, que ele é mestre. Saibam que sou sobrinha dele, todavia, faz muito tempo que não o vejo. É bem certo que, desde que saíra de sua casa, não conheceu, assim acredito, ninguém mais mestre que ele. Muito brilhante e alegre albergue lhe deve ter dado, pois, sabe fazê-lo bem, como mestre, amável, poderoso, acomodado e rico. Mas aqui dentro só há cinco miseráveis pães que um tio meu, prior, homem muito santo e religioso, enviou-me para jantar esta noite junto com uma tina de vinho fermentado. O único alimento que temos é um corço, morto nesta manhã, com uma flecha de um dos meus servidores.&lt;br /&gt;(VS.  1901-1992)&lt;br /&gt; Então ordena que ponham as mesas e, depois disso, sentam-se para jantar. Pouco tempo ficaram sentados comendo, todavia, com grande apetite. Após cearem separaram-se em dois grupos: os que a noite passada velaram foram dormir e prepararam-se os que deviam aquela noite velar o castelo. Eram cinqüenta servidores e cavaleiros. Os demais trabalharam em excesso acomodando seu hóspede; ocupando-se da cama, põem brancos lençóis, colchas muito rica e um travesseiro na cabeceira. O cavaleiro desfrutou naquela noite, toda a comodidade e todo o deleite que se pode imaginar em uma cama, exceto o prazer da donzela, se a agradasse, ou o da dama, se lhe fosse permitido; entretanto, ele não sabia nada sobre o amor, nem de coisa alguma. Assim, dormiu pouco depois, pois, não havia nada que lhe preocupasse.&lt;br /&gt; Porém, a que o albergara não repousa, encerrada em sua câmara. Ele dorme tranqüilamente e ela considera uma batalha que se dá em si mesmo e contra a qual não tem defesa. Agita-se muito, muito se sobressalta, volta-se muitas vezes, muito se intranqüiliza. Coloca sobre a camisola um manto de seda de cor de grão, lançando-se à aventura como audaz e atrevida. Não é precisamente uma vã empreitada, porque tem o propósito de ir ao seu hóspede e lhe dizer parte de seu pensamento. Afasta-se de sua cama. Ao sair da câmara tem tal medo que todos os seus membros tremem e o corpo sua. Saiu chorando. Vai para a cama onde ele dorme lamentando-se e suspirando muito. Inclina-se, ajoelha-se e chora até molhar toda a cara com suas lágrimas; não tem ousadia para fazer mais.&lt;br /&gt; Chorou tanto, que ele acordou. Surpreso e admirado ao sentir sua cara molhada; ajoelhada ante sua cama e estreitamente abraçada nele pelo pescoço. Faz-lhe a cortesia de tomá-la imediatamente entre seus braços e atrai-la para si; dizendo:&lt;br /&gt; —Formosa, o que lhe acontece? Por que veio aqui?&lt;br /&gt; (VS. 1993-2093)&lt;br /&gt;  —Ah, gentil cavaleiro, piedade! Rogo-lhe por Deus e por seu Filho que não me considere vil porque vim aqui. E embora esteja quase nua, de modo algum imaginei loucura, maldade, nem vilania; porque no mundo não existe criatura tão desgraçada, nem tão desventurada que eu não o seja mais. Nada do que tenho me satisfaz, nem passei um só dia sem dano. Sou tão desventurada que nunca mais virei outra noite depois da de hoje, nem mais dia que o de amanhã, porque me matarei com minhas próprias mãos. Dos trezentos e dez cavaleiros com os quais estava guarnecido este castelo, só ficaram aqui cinqüenta; porque duzentos e sessenta foram levados, mortos e  aprisionados por um cavaleiro muito mau, Anguinguerón, mordomo de Clamadeu das ilhas. Tanto me pesa os quais estão na prisão, quanto os mortos, porque sei bem que morrerão e nunca poderão sair. Tantos mestres morreram por mim que justo é que esteja desconsolada. Anguinguerón passou todo um inverno e um verão em assédio, daqui pra frente, sem mover-se, sempre aumenta sua força. A nossa está minguada, as provisões esgotadas, a ponto de não ficar nem para alimentar uma abelha. Agora estamos tão perdidos porque amanhã, se Deus não o remediar, este castelo lhe entregará, pois, já não pode defender-se, me levará com ele como cativa. Porém, antes que me leve viva, matar-me-ei. Morta, pouco me importará que me leve. Clamadeu, que quer me ter, não me terá de modo algum, a não ser  sem vida e sem alma. Guardo em meu porta-jóia uma faca de fino aço, que afundarei em meu coração. Isto é o que tinha para dizer; e agora retomarei meu caminho e lhe deixarei repousar.&lt;br /&gt; Logo, se se atrever, poderá o cavaleiro fazer-se digno de elogio, porque ela unicamente foi chorar sobre sua cama, embora lhe desse a entender outra coisa, para lhe colocar no ânimo de empreender à batalha, se o fizer por ela, a fim de defender sua terra. Ele responde:&lt;br /&gt;— Amiga querida, coloque nesta noite um semblante mais belo. Console-se, não chore mais,  aproxime-se mais de mim e enxugue as lágrimas de seus olhos. Deus, se o quiser, fará amanhã mais bem do que o que me disse. Deite-se comigo nesta cama, que é bastante larga para os dois. Hoje não me deixará.&lt;br /&gt;E ela diz:&lt;br /&gt;—Faria-o se pudesse.&lt;br /&gt; Ele a beijava e a tinha estreitada entre seus braço. Muito brandamente e com cuidado a põe debaixo da colcha. Ela permite ser beijada e não acredito, que isto lhe zangue. Assim estiveram toda a noite deitados, um ao lado do outro, boca com boca, até a manhã que traz o dia. A noite foi tão agradável, porque boca com boca, braço com braço, dormiram até que amanheceu.&lt;br /&gt; Ao amanhecer a donzela retornou a sua câmara, sem criada, nem garçonete, vestiu-se e se compôs, pois, a ninguém despertou. Os que de noite velaram, assim que puderam ver o dia, despertaram os que dormiram e os fizeram levantar da cama, o que efetuaram sem tardança. Naquele mesmo momento a donzela foi a seu cavaleiro e lhe disse amavelmente:&lt;br /&gt;— Senhor, Deus lhe dê bom dia. Acredito que não fará longa estadia aqui, pois seria em vão. Irá e não me pesa, porque não seria cortês que isso me pesasse, já que aqui não lhe honramos, nem o tratamos bem. Peço a Deus que lhe proporcione melhor albergue, onde haja mais pão, mais vinho e mais boas coisas do que neste.&lt;br /&gt;(VS. 2094-2179)&lt;br /&gt; Ele contestou:&lt;br /&gt;—Formosa, não será hoje o dia que procure outro albergue, pois, antes de partir daqui, deixarei toda sua terra em paz, se me for possível. Caso encontre seu inimigo lá fora, pesar-me-á que fique ali mais tempo, embora nenhum dano lhe faça. Todavia, se o matar e vencer, peço-lhe, como galardão, que seu amor seja meu. Não aceitarei nenhuma outra recompensa.&lt;br /&gt;Responde-lhe com muito puritanismo:&lt;br /&gt;—Senhor, pede-me coisa muito pobre e muito pequena, porém se lhe recusasse tomaria como orgulho, por isso, não lhe quero negar isso. Não obstante, não diga que eu sou sua amiga com a condição e o trato de que você tenha que morrer por mim, seria um grande dano; porque saiba, de certo seu corpo e sua idade não são tais que lhe permitam opor-se, nem sustentar combate, nem batalha com cavaleiro tão duro, tão forte e tão robusto, como o que lá fora espera.&lt;br /&gt;—Isto já veremos hoje — diz — porque irei combater com ele, sem que nenhum conselho me impeça.&lt;br /&gt; Ela fica em tal transe, que por um lado o reprova e por outro o instiga; porque ocorre, às vezes, de alguém resistir renunciar ao que deseja, quando a outro é desejoso fazer toda sua vontade, a fim de que o deseje mais ainda. Ela obrou sabiamente, pois lhe colocou no ânimo o que tanto o está reprovando. Ele diz que lhe tragam as armas que pediu; trazem-nas, armam-no e o fazem montar em um cavalo que lhe prepararam no meio da praça. Não há quem não lastime dizendo:&lt;br /&gt;— Senhor, Deus o ajude neste dia, e dê grande mal ao servidor, Anguinguerón, que destruiu todo este país.&lt;br /&gt; Assim oram todas e todos. Acompanham-no até a  porta, e quando o vêem fora do castelo, gritam todos a uma só voz:&lt;br /&gt;— Gentil senhor, que a verdadeira cruz na qual Deus permitiu que padecesse seu Filho, guarde-lhe hoje de perigo de morte, de desgraça e da prisão. Devolva-o sem machucado, ao lugar onde seja feliz, deleitando-se e satisfeito.&lt;br /&gt;      Assim todos oravam por ele.&lt;br /&gt; Quando os da hoste o viram chegar, mostraram-no, em seguida, à Anguinguerón, que estava sentado diante de sua tenda. Parecia que lhe entregariam o castelo antes de anoitecer, ou que alguém sairia do castelo para lutar com ele corpo a corpo. Já tinha empacotado os armamentos. Sua gente estava muito contente porque acreditava ter conquistado o castelo e todo o país. Anguinguerón, assim que o viu, armou-se rapidamente. Foi até ele mais compassado em um corcel forte e robusto, e lhe disse:&lt;br /&gt;—Moço, quem o envia? Diga-me o motivo de sua vinda. Deve buscar paz ou batalha?&lt;br /&gt;(VS. 2180-2287)&lt;br /&gt;— E você o que faz nesta terra? —responde ele—.  Você me dirá primeiro por que matou aos cavaleiros e devastou todo o país.&lt;br /&gt; Ele responde todo orgulhoso e arrogante:&lt;br /&gt;—Quero que hoje me esvaziem este castelo. Rendam a torre, que muito me resistiu e meu senhor terá a donzela.&lt;br /&gt;— Malditas sejam tais novas e quem te disse isto! —responde o moço—. Será necessário renunciar a quanto disputa.&lt;br /&gt;—Por São Pedro —diz Anguinguerón—, que me está dizendo boas necessidades. Às vezes ocorre pagar os danos, quem não tem culpa.&lt;br /&gt; Então o moço se zangou e afirmou a lança na bainha da cinta; e ambos deixaram que os cavalos corressem quanto podiam um contra outro. Pela indignação e a sanha que tinham e pela força de seus braços fazem voar por aqui e por lá as peças e as lascas das lanças. Só caiu Anguinguerón, ferido através do escudo, que sentiu dolorosamente o braço e o flanco. O moço, que não sabia atacá-lo a cavalo, fica de pé na terra, toma a espada e o ameaça. Não saberia lhes descrever mais detalhadamente o que se passou, nem todos os golpes um por um, mas a batalha durou muito e muito rudes foram os encontros até que Anguinguerón caiu.&lt;br /&gt; O moço avançou ferozmente sobre ele,  até pedir misericórdia. O moço diz que não concederia nem pouca, nem muita. Todavia, lembrou-se de que o mestre lhe tinha aconselhado que vencendo não matasse o cavaleiro vencido e submetido. E aquele lhe dizia:&lt;br /&gt;—Doce amigo, não seja tão desumano, a ponto de não me outorgar misericórdia. Confesso-te e te concedo que você é o melhor. Na verdade é um bom cavaleiro, mas não até onde acreditava. Quem não tenha visto nosso combate e conheça ambos, não acreditará que você, só com suas armas, matou-me em batalha. Porém, se eu der testemunho, ante minha gente e em minha tenda mesmo, que me derrotou com suas armas, minha palavra será o suficiente. Sua honra crescerá tanto que jamais cavaleiro a deixou maior. Pensa: se houver algum senhor o qual tenha feito benefício, ou algum serviço, do qual não lhe tenha recompensado; envie-me a ele, eu irei de sua parte. Contarei como me venceu com suas armas e entregar-me-ei à ele na qualidade de prisioneiro para que faça comigo quanto lhe pareça.&lt;br /&gt;—Maldito seja quem procura algo melhor! —disse  ele—. Sabe aonde irá você? A este castelo, e dirá à formosa, que é minha amiga, que em toda sua vida não lhe fará mal algum e ficará total e completamente a sua mercê.&lt;br /&gt;E ele responde:&lt;br /&gt;—Mate-me! Porque também ela me mataria, já que nada deseja tanto como minha desonra e minha dor. Tomei parte na morte de seu pai, lhe fui tão danoso, que neste ano matei e prendi seus cavaleiros. Caso me enviasse à ela, má prisão me daria e não poderia me fazer nada pior. Mas se tiver algum outro amigo, ou alguma outra amiga, que não tenha desejos de me fazer malefício, envie-me à algum deles, pois esta, se me tivesse em seu poder, sem dúvida alguma me tiraria a vida.&lt;br /&gt;(VS. 2288-2373)&lt;br /&gt; Então lhe diz que vá à um castelo, a morada de um mestre; entretanto, do mestre não lhe diz o nome. Não há no mundo pedreiro que melhor descrevesse a construção do castelo como ele o fez. Falou detalhadamente do rio, da ponte, das torres menores, da torre maior e dos muros exteriores que o circundam, até que o outro se deu conta, inteirou-se bem, de que lhe queria enviar prisioneiro ao lugar onde mais odiava; e disse:&lt;br /&gt;—Não há salvação para mim onde você me envia. Valha-me Deus! Quer colocar-me em maus caminhos, em mãos más; pois, nesta guerra matei um de seus irmãos. Doce amigo, mate-me você antes de me obrigar a ir até ele. Se ali me empurrar, ali será minha morte.&lt;br /&gt;Ele contestou dizendo:&lt;br /&gt;—Irá, pois, à prisão do rei Artur, saudará ao rei e lhe dirá de minha parte que te ofereça àquela golpeada pelo mordomo Keu, porque me sorriu; à ela entregará como prisioneiro e lhe dirá, se te agradar, que oxalá Deus não permita que eu mora até que a tenha vingado.&lt;br /&gt; Ele responde que fará bem e com muito prazer este  serviço. Então, o cavaleiro vencedor volta ao castelo. O outro encaminha-se à prisão e faz que levem seu estandarte. A hoste levanta o acampamento, de modo que ali não ficou nem moreno, nem loiro.&lt;br /&gt; Todos do castelo saem para receber ao que volta, mas têm um grande desgosto porque não cortou a cabeça do cavaleiro vencido e não a traz. Desmontam-no com grande alegria, desarmam-no em um degrau e todos lhe dizem:&lt;br /&gt;—Por que não trouxe Anguinguerón e por que  não lhe cortou a cabeça?&lt;br /&gt;Ele responde:&lt;br /&gt;—A minha fé, senhores, porque acredito que não tivesse procedido bem. Morreu-lhe para seus parentes. Eu não poderia dar segurança porque o teriam matado para meu pesar. Muito pouco bem haveria em mim, senão tivesse misericórdia quando o submeti. E sabem qual foi esta clemência? Se mantiver sua palavra, constituir-se-á prisioneiro do rei Artur.&lt;br /&gt;  Chega então a donzela manifestando grande alegria. Leva-o à sua câmara para repousar e descansar. De modo algum lhe veda que a abrace e a beije. Em lugar de comer e de beber; brincam, beijam-se, abraçam-se e conversam amavelmente.&lt;br /&gt; Clamadeu tem néscias ilusões, porque imagina que imediatamente lhe ofereceram o castelo sem defesa; na metade do caminho encontrou um pajem, chorando amargamente, que lhe contou as novas do mordomo Anguinguerón.&lt;br /&gt;—Em nome de Deus, senhor, as coisas vão mal agora —disse o pajem, que tirava as duas mãos dos cabelos.&lt;br /&gt; Clamadeu pergunta:&lt;br /&gt;—Por que?&lt;br /&gt;(vs. 2374-2461)&lt;br /&gt;—Senhor, a minha fé —disse o pajem—, seu mordomo foi vencido por armas e agora vai constituir-se prisioneiro do rei Artur.&lt;br /&gt;—Quem fez isto, pajem? Diga-me, como pôde acontecer? De onde pode vir um cavaleiro capaz de arredar com as armas um mestre tão valente?&lt;br /&gt; E ele responde:&lt;br /&gt; —Amável senhor, não sei quem foi o cavaleiro; o único que me consta é o que vi sair do Belrepeire armado com umas armas vermelhas.&lt;br /&gt; —E você, pajem, o que me aconselha? —Diz àquele, que está a ponto de perder o juízo.&lt;br /&gt; —O que, senhor? Que volte, porque se continuar não conseguirá nada.&lt;br /&gt; Quando estavam nestas palavras, chegou um cavaleiro meio grisalho, que tinha sido professor de Clamadeu, e disse:&lt;br /&gt; —Pajem, não é acertado o que diz. Aqui convém um conselho mais sensato e melhor do que o teu; se te acreditasse, obraria nesciamente, pois em minha opinião deve seguir adiante.&lt;br /&gt; E dirigindo-se a Clamadeu, acrescenta:&lt;br /&gt; —Senhor, quer saber como poderá fazer com o cavaleiro e com o castelo? Dir-lhe-ei muito bem e claro. Será muito fácil fazer. Dentro dos muros de Belrepeire não há o que beber, nem o que comer e os cavaleiros estão debilitados. Nós estamos fortes e sãos, não temos nem sede, nem fome e poderemos suportar um grande combate se os de dentro ousarem vir misturarem-se conosco lá fora. Enviaremos vinte cavaleiros diante da porta como chamariz. O cavaleiro que em Belrepeire se deleita com sua formosa amiga, quererá fazer cavalaria; e como não poderá resisti-lo, será preso ou morrerá, pois, pouca ajuda lhe prestarão os outros, que estão tão débeis. Os vinte vão enganá-los até darmos em cima deles improvisadamente por este vale e os rodeemos pelos flancos.&lt;br /&gt; —Aprovo com minha fé o que diz.—responde Clamadeu— Temos aqui quatrocentos cavaleiros armados escolhidos e mil peões bem preparados: agarraremos todos como se fosse gente morta.&lt;br /&gt; Clamadeu enviou diante da porta vinte cavaleiros que desdobravam ao vento os emblemas e as bandeiras, que eram de muitas categorias. Assim que os do castelo os viram, abriram as portas de par em par, porque o quis assim o moço, quem, a vista de todos, saiu para mesclar-se com os cavaleiros. Como audaz, forte e saudável, ataca todos conjuntamente que são alcançados por ele, não lhe parece que seja acanhado nas armas. Muito próspero foi aquele dia: com a lança tira várias tripas, de um atravessa o tórax; outro, o peito; um rompe o braço; outro, a clavícula; mata um e aquele aleija; a este derruba e aquele prende. Entrega os prisioneiros e os cavalos aos que os necessitam.&lt;br /&gt; Presenciam a grande batalha os o que haviam atravessado o vale, eram quatrocentos homens armados, além dos peões que os acompanhavam. Os outros mantinham-se muito perto da porta, que estava aberta. Os de fora, ao ver à míngua sua gente, aleijada e morta, vão em desordem e desconcerto para a porta. Os defensores estavam bem formados, apertados em sua porta receberam com bravura. Todavia, eram poucos, estavam débeis, não puderam resistir aos outros reforçados com os peões, que os tinham seguido, e tiveram que retirar-se de seu castelo.&lt;br /&gt;(VS. 2462-2550)&lt;br /&gt; Em cima da porta havia arqueiros que disparavam sobre a grande multidão. A massa estava muito enaltecida e ávida de entrar impetuosamente no castelo, até que um grupo consegue introduzir-se com vigor e com força caindo no chão. Os de dentro derrubam a porta sobre eles, matando e aniquilando todos os que alcançaram na queda. Nada podia ter visto Clamadeu que mais lhe doesse. Embaixo da porta morreu muita gente sua, deixando-o pra fora, não há outro remédio senão ficar inativo. Um assalto em tão duras condições seria trabalho em vão. O professor dele, que o aconselha, diz-lhe:&lt;br /&gt; —Senhor, não é coisa surpreendente que para um só sobrevenha desgraças. A todos vai o mal ou o bem, segundo ao Nosso Senhor agrada e convém. Em resolução perde, porém, não há santo que não tenha sua oitava. A tempestade caiu sobre você, os seus estão desfeitos e os de dentro ganharam. Todavia, esteja bem certo de que perderão. Arranque-me os dois olhos, caso permaneça aqui dentro três dias, seu será o castelo e a torre, porque se entregarão a sua mercê. Se puder ficar aqui hoje e amanhã, o castelo ficará em suas mãos, inclusive aquela que tanto lhe rechaçou, pedirá por Deus que digne tomá-la.&lt;br /&gt; Então os que haviam trazido tendas e bandeiras montam, os outros se acomodam e acampam como podem. Os do castelo desarmaram os cavaleiros que tinham feito prisioneiros, mas não os meteram em torres, nem os ataram aos ferros, só porque lhes juraram lealdade como cavaleiros; considerar-se-iam detentos com lealdade; não lhes fariam nenhum dano, e assim ficaram dentro do recinto.&lt;br /&gt; Naquele mesmo dia um vendaval impeliu pelo mar um navio que levava um grande carregamento de trigo e estava cheio de outras provisões. Deus quis que, inteiro e incólume, atracasse diante do castelo. Seus defensores, assim que o viram, enviaram para averiguar quem eram os do navio e o que buscavam. Quando os do castelo baixaram, foram ao navio e perguntaram quem eram, de onde vinham e aonde foram, responderam-lhes:&lt;br /&gt; —Somos mercadores e levamos provisões para  vender. Temos pão, vinho, carne-seca e muitos bois e porcos que, se for necessário, podem matá-los.&lt;br /&gt;E os do castelo respondem:&lt;br /&gt;—Bendito seja Deus, que deu força ao vento para que aqui lhes trouxessem! Sejam bem vindos e desembarquem, que tudo lhes compraremos tão caro quanto ousam vendê-lo. Venham em seguida pegar seu dinheiro, não deixarão de receber, de contar os lingotes de ouro e de prata que lhes daremos em troca do trigo; pelo vinho, pela carne, receberão um carro carregado de riquezas, e ainda mais, se for necessário.&lt;br /&gt;(VS.  2551-2644)&lt;br /&gt; Agora sim fizeram um bom negócio os que  compram e vendem; descarregam o navio e levam tudo para confortar aos sitiados. Quando os do castelo viram aos que levavam as provisões, já podem imaginar a grande alegria que tiveram; e com grande celeridade prepararam a comida. Agora já pode ficar Clamadeu, tanto tempo quanto queira, esperando fora, porque os de dentro têm bois, porcos, toucinho em grande quantidade, e trigo para toda a estação. Os cozinheiros não estão ociosos e acendem o fogo na cozinha para cozer a comida. Agora já pode deleitar o moço ao lado de seu amiga com toda tranqüilidade; ela o abraça e ele a beija, um se regozija com o outro. A sala já não está silenciosa, antes bem há nela alegria e grande rumor. Todos estão contentes pela comida, que tão desejada; os cozinheiros tinham tanta pressa, que fazem sentar às mesas aos que tanto o necessitavam. Depois de comer, levantam-se satisfeitos.&lt;br /&gt; Muito se indignou Clamadeu e sua gente quando  souberam a nova do bem-estar que tinham os de dentro, dizem que não tinha outra solução senão levantar acampamento, porque prolonga-lo seria em vão, já que o castelo não pode ser reduzido por fome. Clamadeu, raivoso, envia ao castelo uma mensagem sem aprovação, nem conselho de ninguém. Comunica o cavaleiro vermelho que até o meio-dia do dia seguinte o poderá encontrar sozinho na planície para combater com ele. Quando a donzela ouviu o anúncio a seu amigo, ficou dolorida e triste. Ele por sua vez responde que, aconteça o que acontecer, já que o desafiou, irá à batalha; aumentando e acrescentando muito a dor da donzela, embora, por muito que ela se lamente, eu acredito que ele não renunciará. Todos e todas lhe rogam muito que não vá combater com aquele que nunca nenhum cavaleiro superou em batalha.  Mas o moço replica:&lt;br /&gt; —Senhores, farão muito melhor se se calarem, porque por nada do mundo abandonaria este combate.&lt;br /&gt; Assim responde com suas palavras. Já não se atrevem a falar mais; vão deitar se e dormem até a manhã seguinte, ao sair o sol; todavia estão muito preocupados com seu senhor, a quem não sabem como implorar para fazê-lo desistir.&lt;br /&gt; De noite sua amiga rogou muito para que não fosse à batalha e que ficasse em paz, pois, já não tinham que se preocupar com Clamadeu, nem com sua gente. De nada adianta tudo isto. Entretanto, era estranha a maravilha que ele encontrava, uma grande doçura nas carícias dela, pois, a cada palavra o beijava tão doce e brandamente que lhe colocava a chave do amor na fechadura do coração. Mas, apesar disso, não obteve em modo algum que desistisse de ir à batalha, antes bem reclamou suas armas, que as guardava e as trouxe o mais rápido que pôde. Enquanto se armava houve grande duelo, pois a todas e a todos pesava; e ele, recomendando a todos e a todas ao Rei dos reis, montou em seu cavalo norueguês, que haviam lhe trazido, e não se entreteve muito com todos eles. Assim que partiu, deixou-os com grande dor.&lt;br /&gt;(VS.  2645-2742)&lt;br /&gt; Quando Clamadeu viu chegar o que devia combater com ele, teve o néscio convencimento de que muito rapidamente esvaziaria a sela da montaria. No campo plano e formoso, só estavam eles dois, pois Clamadeu tinha licenciado e feito partir toda sua gente. Ambos tinham a lança apoiada diante da sela, na bainha, e puseram-se a correr um para o outro sem desafiar-se e sem grandes raciocínios. Ambos levavam lança de freio, robusta e manejável, com ferro aguçado; os cavalos velozes e os cavaleiros fortes odiavam-se de morte. Trombaram-se tão bruscos que as lâminas dos escudos rangeram, as lanças quebraram-se, um derrubou o outro. Todavia, imediatamente, ficaram em pé, imediatamente atacaram-se com as espadas com igual brio e durante muito tempo. Explicaria como tudo ocorreu se quisesse me entreter nisso, mas não vale a pena, igual está dito em uma palavra como em vinte palavras: Ao final, Clamadeu teve que pedir mercê, com muito pesar. Amoldou-se a todos os seus desejos, como tinha feito seu mordomo, tampouco não quis constituir-se prisioneiro no Belrepeire, cujo mordomo se negou. Nem por todo o império de Roma ia ao mestre que possuía o castelo bem construído; porém, prometeu que aceitaria a prisão do rei Artur e que diria de sua parte à donzela que ultrajou Keu ao pegá-la, que desejava vinga-la, pesasse a quem quer que fosse, se Deus lhe desse forças para isso. Depois o fez prometer que, antes  que do amanhecer retornariam, sãos e salvos, todos os detentos em suas torres; que enquanto ele estivesse com vida, afugentaria, se pudesse, qualquer hoste que sitiasse o castelo; que a donzela jamais seria incomodada, nem por seus vassalos, nem por ele.&lt;br /&gt; E assim Clamadeu se foi à sua terra. Ao chegar ordenou que todos os prisioneiros fossem tirados da prisão e fossem embora em completa liberdade. Assim que disse tais palavras, suas ordens foram cumpridas. Eis aqui os prisioneiros soltos, que se vão imediatamente com todas as suas guarnições, não lhes reteve nada. Por sua parte, Clamadeu empreende o caminho completamente sozinho. Naquela época era costume, como encontramos escrito em livros, que os cavaleiros se constituiriam prisioneiros com a mesma equipe que levava na batalha na qual tinham sido vencidos, sem tirar, nem ficar nada mais. Deste modo, Clamadeu empreende a marcha atrás de Anguinguerón, indo para Dinasdarón, onde o rei devia ser cortês.&lt;br /&gt; Por outro lado, havia grande alegria no castelo, aonde retornaram os cavaleiros que tanto tempo estiveram em dura prisão. Toda a sala e as moradas dos cavaleiros ressonam de alegria; nas capelas e nos monastérios tocavam todos os sinos de júbilo. Não havia monge, nem monja, que não desse graças a Nosso Senhor. Pelas ruas e pelos lugares iam todas e todos dançando. Muito gozo existe agora no castelo, pois ninguém os assalta, nem guerreia.&lt;br /&gt;(VS.  2743-2820)&lt;br /&gt; Enquanto isso, Anguinguerón vai seguindo seu caminho e atrás dele, Clamadeu, que dormiu três noites nos mesmos albergues nos quais aquele tinha parado. Foi-o seguindo pelos albergues até chegar ao Dinasdarón, no Gales, onde o rei Artur reunia-se em suas salas uma corte muito luzidia. Vêem o Clamadeu, que chega completamente armado, como era sua obrigação; e o reconheceu Anguinguerón, o qual havia já completo, contado e referido sua mensagem a noite anterior. Quando chegou, tinha sido retido na corte para formar parte da mesma e do conselho. Viu seu senhor coberto de sangue vermelho, apesar disso, o reconheceu e disse imediatamente:&lt;br /&gt; —Senhores, senhores, vejam que maravilha! O moço das armas vermelhas envia aqui, me acreditem, aquele cavaleiro que vêem. Estou completamente seguro de que o venceu, porque está talhado de sangue. Daqui distingo bem o sangue e a ele mesmo também, que é meu senhor e eu sou seu vassalo. Chama-se Clamadeu das ilhas, eu imaginava que seria tal, que não haveria melhor cavaleiro no império de Roma, mas também cai a desgraça sobre os mestres.&lt;br /&gt; Enquanto Anguinguerón falava assim. Clamadeu  chegou e um correu para o outro ao se encontrarem na corte.&lt;br /&gt; Era um dia de Pentecostes. A Rainha estava sentada ao lado do Rei Artur, à cabeceira da mesa. Havia muitos condes, reis e duques; rainhas e condessas; damas e cavaleiros acabavam de chegar do monastério depois de ouvirem todas as missas. Keu entrou por meio da sala, não levava manto; na mão direita empunhava um bastão; na cabeça um chapéu de feltro e cabelo loiro. Não havia no mundo cavaleiro mais formoso, levava o cabelo amarrado; todavia, sua beleza e sua galhardia ficavam empanadas por suas ruins jactâncias. Sua capa era de um rico tecido, tinta de grão e bem colorida, rodeada com um cinturão trabalhado, cuja fivela e todos seus adornos eram de ouro: lembro-me bem, porque a história assim o testemunha. Todo mundo se retira para deixa-lo passar quando entra por em meio da sala; todos temiam suas ruins jactâncias e sua má língua, por isso, deixam livre o caminho. Não é sensato o que não teme as ruindades muito descobertas, sejam em brincadeira, ou sejam verdadeiras. Todos os que ali estavam, temiam suas ruins jactâncias, e ninguém disse nada. Acima de tudo o mundo se dirigiu aonde estava o rei e lhe disse:&lt;br /&gt;—Senhor; agora poderiam comer, se quiser.&lt;br /&gt;—Keu —disse o rei—, deixe-me tranqüilo, que, pelos olhos de minha cara, em festa tão solene, embora esteja reunida toda minha corte, não comerei até que chegue aqui uma grande nova.&lt;br /&gt; Isto estava dizendo, quando entrou na corte Clamadeu, que, armado como era seu dever, vinha a constituir-se prisioneiro, e disse:&lt;br /&gt;(VS.  2821-2924)&lt;br /&gt;—Deus salve e abençoe ao melhor rei que há com vida. Ao mais generoso e ao mais galhardo, como o testemunham todos quantos estão inteirados das boas obras que tem feito. Escute-me agora, bom senhor, pois devo dizer minha mensagem. Embora me pese, devo reconhecer que me envia aqui um cavaleiro que me venceu. Por ordem dele, preciso entregar-me prisioneiro a você; não posso evitá-lo. E se alguém me perguntasse como se chama, responderia que não, entretanto, posso notificar que suas armas são vermelhas e diz que você as deu.&lt;br /&gt; —Amigo, que Nosso Senhor te valha —disse o  rei—; diga-me em verdade: conserva seu vigor, está livre, contente e são.&lt;br /&gt; —Amável senhor, esteja completamente seguro  —responde Clamadeu—, como o mais valente cavaleiro que jamais conheci. E me disse que falasse com a donzela que lhe sorriu, a qual Keu fez tal ultraje que lhe deu uma bofetada; mas, diz que a vingará, se Deus lhe dá poder para isso.&lt;br /&gt; O bufão, para ouvir estas palavras, saltou de alegria  e gritou:&lt;br /&gt; —Senhor rei, Deus me benza; a bofetada será  bem vingada, agora não o levo na brincadeira; não poderá evitar que rompa o braço direito e lhe desloque a clavícula.&lt;br /&gt; Keu, que ouve estas palavras, julga-as uma idiotice; saibam que não se absteve de lhe maltratar por covardia, mas sim, por respeito ao rei e por vergonha. O rei moveu a cabeça e disse ao Keu:&lt;br /&gt; —Muito me dói que não esteja aqui comigo. Por  sua néscia língua e por sua culpa se foi, o que me pesa muito.&lt;br /&gt; Depois destas palavras, a uma ordem do rei, se levantaram Girflet e seu senhor Yvain, que melhora a todos os que acompanha. O rei lhes disse que se fizessem cargo daquele cavaleiro e o conduzissem às câmaras onde se entretêm as donzelas da rainha, e o cavaleiro se inclina ante eles. Os que tinham recebido o encargo do rei, conduziram-no àquelas câmaras; mostraram a donzela, contando quão novas tanto desejava ouvir; pois, ainda se doía da afronta que fez em sua bochecha. Já estava curada da bofetada que tinha recebido, mas não estava esquecida, nem passada a afronta,  é muito ruim quem esquece a afronta e o ultraje que recebeu. No homem vigoroso e forte a dor passa e a afronta dura, mas no ruim morre e se esfria.&lt;br /&gt; Clamadeu cumpriu sua mensagem. Logo, durante  toda sua vida, o rei o reteve em sua corte e em seu exército.&lt;br /&gt; Aquele que disputara a terra e a donzela Blancheflor, sua amiga formosa—, ao lado dela joga e deleita-se. Toda a terra seria livremente dele, se pudesse evitar que seu coração estivesse em outro local. Agora mais se lembra de outra coisa, porque tem no coração a sua mãe, que viu cair desvanecida, e tem mais desejo de ir vê-la que de nada mais. Não se atreve a despedir-se de sua amiga, porque ela o veda, proibe e ordenou a toda sua gente que lhe peça muito que fique. Mas nada conseguem com o que dizem, salvo que ele faça a promessa que, se encontrar a sua mãe viva, trará consigo e após, podem estar seguros de que ficará possuindo a terra. Se estiver morta, fará o mesmo.&lt;br /&gt;(VS.  2925-3016)&lt;br /&gt; Assim segue caminho prometendo voltar. Deixa a sua gentil amiga muito triste e dolorida, e também a outros. Quando saía da vila segue-o brava procissão, como se fora o dia da Ascensão ou um domingo, pois foram todos os monges revestidos de capas de seda e todas as monjas veladas. E aqueles e estas diziam:&lt;br /&gt;—Senhor, que nos tirou do desterro, ajudando-nos a retornar para nossas casas, não é de admirar nossa dor, porque tão logo quer nos abandonar. Justo é que nossa dor seja a maior que possa existir.&lt;br /&gt;E ele lhes diz:&lt;br /&gt;—Não devem continuar chorando mais. Eu voltarei, se Deus me permitir, e entristecer-se não serve para nada. Não crêem que esteja bem, que vá ver minha mãe, a qual deixei sozinha no bosque  chamado Erma Floresta? Voltarei, tanto se ela estiver viva como se não, não deixarei de fazê-lo de modo algum. Se estiver viva, farei dela uma monja velada em sua igreja; e se estiver morta, celebrarão festejando por sua alma, a fim de que Deus e São Abraham a alojem entre as almas pias. Senhores monges e vocês, formosas damas, isso não lhes deve pesar, porque eu lhes farei muito bem em benefício de sua alma, se Deus me permitir que volte.&lt;br /&gt; Os monges, as monjas e todos outros voltaram; e ele partiu com a lança na bainha, completamente armado, como chegou.&lt;br /&gt;                                NO CASTELO DO GRAAL&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Durante todo o dia seguiu sua viagem sem encontrar criatura terrena, nem cristão, nem cristã que lhe pudesse indicar o caminho. Não cessava de pedir a Nosso Senhor, o supremo Pai, que lhe concedesse encontrar a sua mãe cheia de vida e de saúde, se esta fosse sua vontade. Ainda durava esta prece quando viu, ao pé de um outeiro, um rio de água rápida e profunda, e sem atrever-se entrar nele, disse:&lt;br /&gt; —Ah, Senhor todo-poderoso! Se pudesse atravessar este rio, estou convencido de que do outro lado encontraria a minha mãe, se estiver viva.&lt;br /&gt;        Vai seguindo a margem até chegar numa rocha que tocava o rio, impedindo-o de ir mais adiante. Então viu que descia pelo rio um barco que vinha de cima, no qual iam dois homens. Para e espera, pois acredita que seguiriam navegando até chegar onde estava. Mas, detiveram-se no meio do rio e ficaram quietos, porque tinham ancorado. Quem estava adiante pescava com vara, levantando seu anzol com uma pequena pesca. Como não sabia o que fazer, nem para onde caminhar, saúda-os e lhes pergunta:&lt;br /&gt;—Digam-me, senhores, há neste rio passagem ou  ponte?&lt;br /&gt;E o que pesca lhe responde:&lt;br /&gt;(VS. 3017-3106)&lt;br /&gt;—Não, irmão, a minha fé. E acredito não há outro barco maior que este no qual estamos, que não poderia levar nem a cinco homens. Em vinte léguas para cima e para baixo não se pode atravessar a cavalo, pois, não há balsa, ponte, nem passagem.&lt;br /&gt;— Indique-me, pois —diz ele—, por Deus,  onde  poderia achar albergue.&lt;br /&gt;E lhe responde:&lt;br /&gt;— Imagino que terá necessidade disto e de outras coisas. Eu lhe albergarei esta noite. Suba  por esta quebrada que há na rocha, e quando chegar acima verá num vale, a mansão em que moro, perto do rio e perto do bosque.&lt;br /&gt; Ele vai imediatamente acima, até que chegou à cúpula da colina, olhou tudo ao redor dele; não viu a não ser céu e terra; e disse:&lt;br /&gt;— O que vim buscar aqui? Bobeiras e necessidades. Que  Deus  envergonhe  hoje,  a quem aqui me  enviou! Encaminhou-me tão bem, dizendo que encontraria uma mansão assim que chegasse aqui em cima. Pescador que tal me disse: se disse isso com má intenção, cometeu uma grande deslealdade.&lt;br /&gt; Então viu a frente, num vale, que aparecia no topo uma torre. Embora fosse até Beirut não encontraria outra tão formosa, nem tão bem fundada. Era quadrada, de rocha granítica, tinha dos lados duas torres pequenas. A sala estava diante da torre e as galerias diante da sala.&lt;br /&gt; O moço desce para aquela parte; confessa que lhe encaminhou bem o que lhe enviou ali; reconciliando-se com o pescador; já não lhe chama traidor, desleal, nem mentiroso, porque encontrou onde albergar. Assim chega à porta, frente à qual encontrou uma ponte elevada que estava jogada. Passa pela ponte e quatro pajens vão até ele; dois deles o desarmam, o terceiro leva seu cavalo para dar feno e aveia; o quarto o cobre com um manto de escarlate, fresco e novo; logo introduziram-no nas galerias. Saiba que, por muito que buscasse, não encontraria, nem veria outras tão formosas até o Limoges. O moço ficou nas galerias até que chegou o momento de apresentar-se ao senhor, que enviou dois servidores para ele.&lt;br /&gt; Com eles foi à sala. Era quadrada e tinha tanto de comprimento como de largura. No meio da sala viu sentado em um leito, um agradável mestre de cabelo grisalho, com a cabeça coberta por um chapéu de pele de cebellinas negras como as amoras, com véus de púrpura por cima, e assim era toda sua roupa. Apoiava-se no cotovelo. Diante dele ardia claramente um grande fogo de lenha seca, colocado entre quatro colunas. Quatrocentos homens sentaram-se comodamente em torno do fogo e todos tinham lugar suficiente. As colunas eram muito fortes, pois sustentavam uma chaminé alta e larga de bronze maciço.&lt;br /&gt; Os que conduziam o hóspede, estavam um de cada lado. Apresentaram-se ante seu senhor, o qual, ao vê-lo chegar, saudou-o e lhe disse:&lt;br /&gt;(VS.  3107-3195)&lt;br /&gt; —Amigo, não se incomode de não me levantar para recebe-lo, pois, não posso levantar.&lt;br /&gt; —Por Deus, senhor, nem diga isto —disse ele—; não me incomoda de modo algum, pelo gozo e a saúde que Deus me dê.&lt;br /&gt; O mestre é tão solícito com ele que se desdobra tudo o que pode e lhe diz:&lt;br /&gt;—Amigo, aproxime-se. Não se consterne por mim e sente-se sem reparos aqui a meu lado, eu lhe ordeno.&lt;br /&gt;   O moço se senta a seu lado e o mestre  lhe diz:&lt;br /&gt;      —Amigo, de que parte veio hoje?&lt;br /&gt;      - Senhor —responde—, esta manhã saí de um lugar que se chama Belrepeire.&lt;br /&gt;-  Valha-me Deus! —disse o mestre — ,fez hoje muito longa jornada. Saíram antes de que o vigia tivesse anunciado a alvorada esta manhã?&lt;br /&gt; —Eu inicie a caminhada na primeira hora do dia —diz o moço—, asseguro-lhe.&lt;br /&gt; Enquanto assim falava, pela porta da mansão entra um pajem que leva no pescoço pendurada uma espada, entregando ao rico homem. Este a desembainhou até a metade e viu onde tinha sido feita, pois na espada estava escrito. Viu também que era de bom aço, que unicamente se poderia romper em um só transe que todo mundo ignorava, salvo aquele que a tinha forjado e contemplado. O pajem que a trouxe disse:&lt;br /&gt; — Senhor, a loira donzela, sua formosa sobrinha, envia este presente; jamais viram nada mais belo tão longa e larga é. Dêem a quem lhes agrade, mas minha senhora estaria muito contente se, ali onde fora parar, estivesse bem empregada. Quem forjou esta espada só fez três, e morrerá sem forjar nenhuma outra depois desta.&lt;br /&gt; Naquele momento, o senhor colocou a espada, pelo cinturão, que valia um grande tesouro, àquele que ali era forasteiro. O pomo da espada era do melhor ouro da Arábia ou da Grécia, e a bainha da arma de orifrés de Veneza. Tão ricamente adornada o senhor a deu ao moço dizendo:&lt;br /&gt;—Bom irmão, esta espada foi reservada e destinada, quero que a possua; mas sem cerimônia e desembainhada.&lt;br /&gt; Agradece-lhe e a rodeia, sem estreitá-la muito, logo a saca nua da bainha de arma; depois de olhá-la um pouco, volta a meter na bainha de arma. Saibam que estava muito bem no flanco e melhor na mão; parecia que, quando precisasse servir-se dela, ataria-o como um barão. Viu atrás do fogo, que ardia claramente, uns pajens, encomendou a espada ao que guardava suas armas, o qual fez cargo dela. Logo voltou a sentar ao lado do senhor, que em tudo o fazia grande honra.&lt;br /&gt;(VS. 3196-3292)&lt;br /&gt; Havia ali dentro uma iluminação tão grande como poderiam procurar as candeias num albergue. Enquanto falavam diversas coisas, de uma câmara chegou um pajem levando uma lança branca empunhada pela metade. Passou entre o fogo e os que estavam sentados no leito. Todos os que estavam ali viam a lança branca e o ferro branco, uma gota de sangue saía do extremo do ferro da lança, até a mão do pajem emanava aquela gota vermelha. O moço que aquela noite tinha chegado ali, vê este prodígio, mas se abstém de perguntar como ocorreu tal coisa, porque se lembrava do conselho daquele que o fez cavaleiro, disse e ensinou que se guardasse de falar muito. Teme que, se o perguntar, considerará rusticidade; por isso, não perguntou nada.&lt;br /&gt; Enquanto isso, chegaram outros dois pajens levando nas mãos candelabros de ouro fino trabalhado. Os pajens que levavam os candelabros eram muito formosos. Em cada candelabro ardiam pelo menos dez candeias. Uma donzela, formosa, gentil e bem embelezada, que vinha com os pajens, sustentava entre suas duas mãos um Graal. Quando ali entrou com o Graal que levava, derramou-se uma claridade tão grande, que as candeias perderam seu brilho, como ocorre às estrelas quando sai o sol, ou a lua. Depois desta, veio outra que levava um prato de prata. O Graal, que ia diante, era de fino ouro puro; no Graal havia pedras preciosas de diferentes classes, das mais ricas e das mais caras que haja em mar e terra; as do Graal, sem dúvida alguma, superavam a todas as demais pedras.&lt;br /&gt; Do mesmo modo que passou a lança, passaram diante do leito e de uma câmara entraram em outra. O moço os viu passar, não ousou em modo algum perguntar a quem servia o Graal, pois sempre conservava em seu coração as palavras do sensato mestre. Temo eu que isso lhe seja prejudicial, porque ouvi dizer que, às vezes, a gente tanto pode calar muito como falar muito. Tanto isso lhe traz bem, como conduz mal —eu não sei exatamente— , nada pergunta.&lt;br /&gt; O senhor ordena aos pajens dar a água e pôr as toalhas. Fazem-no os que deviam e costumavam fazê-lo. O senhor e o moço lavaram as mãos com água morna. Dois pajens trouxeram uma larga mesa de marfim, a história testemunha que era toda de uma peça. Mantiveram-na um momento diante de seu senhor e do moço, até que chegaram outros dois pajens que traziam dois cavaletes feitos de madeira, com duas virtudes muito notáveis: suas peças duram sempre, porque são de ébano, uma madeira que ninguém espera que apodreça, nem que queime, já que não há medo que ocorra nenhuma destas duas coisas. A mesa foi montada sobre estes cavaletes, e colocaram a toalha. Mas o que diria da toalha? Nem legado, nem cardeal, nem papa comeram nunca em cima de uma tão branca. O primeiro prato foi uma perna de cervo com azeite e pimenta picante. Não lhes faltou vinho claro, de gosto suave, bebido em taças de ouro. Um pajem, que tinha pego a perna de cervo em pimenta e a tinha posto no prato de prata, destrinchou-a diante deles e lhes ofereceu aos pedaços em cima de um bolo muito cabal.&lt;br /&gt;(VS. 3293-3386)&lt;br /&gt; Enquanto isso o Graal voltou a passar diante deles, e o moço não perguntou a quem se servia com o Graal. Abstinha-se disso pelo mestre, que docemente o repreendeu por falar muito, o tem sempre em seu coração e o recorda. Mas se cala mais do que lhe convém, pois a cada prato servido, vê passar uma vez mais diante dele o Graal completamente descoberto, e não sabe quem se serve com ele, embora desejasse sabê-lo. Terá ocasião de perguntar, diz para si mesmo, antes de partir, a um dos pajens da corte. Esperará a manhã seguinte, quando se despedir do senhor e de todos os demais do exército. Assim diferiu a coisa ocupando-se em beber e comer.&lt;br /&gt; Na mesa não se regulam os vinhos e os manjares, que são gostosos e agradáveis. A comida é boa e saborosa. Naquela noite, ao mestre e ao moço que estava com ele, serviram mantimentos próprios de reis, condes e imperadores. Depois de ter comido, os dois conversaram durante a sobremesa. Os pajens prepararam as camas e as frutas para a noite, das quais havia muitas e de grande preço: tâmaras, figos, nozes, espiga cozida e outras amadurecidas. Depois tomaram várias bebidas: pigmento sem mel nem pimenta, velho vinho de amoras e xarope claro. O moço se admira muito de tudo porque desconhecia. O mestre lhe disse:&lt;br /&gt; —Bom amigo, já é hora de deitar-se. Se não o desagradar, irei dormir na minha câmara; e você, quando tiver vontade, deite-se aqui fora. Não tenho nenhum poder sobre meu corpo e será preciso que me levem.&lt;br /&gt; Quatro decididos e fortes servidores naquele momento saíam da câmara, agarraram nas quatro pontas da colcha que estava estendida sobre o leito no qual se sentava o mestre e levaram-no onde deviam. Com o moço ficaram outros pajens que o serviram e lhe ajudaram assim que necessitou. Quando quis, descalçaram-no, despiram-no, deitaram-no em brancos e finos lençóis de linho.&lt;br /&gt;Dormiu até a manhã seguinte, quando iniciou a alvorada do dia e todo exército se levantou; mas quando ele olhou a seu redor não viu por ali ninguém, e, embora lhe desagradasse, teve que levantar sozinho. Quando vê que deve fazê-lo por si mesmo, levanta-se como melhor sabe, calça-se sem esperar ajuda; logo vai procurar suas armas e as encontra ao pé de uma escada, onde as tinham deixado. Quando estava bem armado seus membros, foi às portas das câmaras que de noite havia visto abertas, mas em vão. Vai de um local a outro, encontra-as muito bem fechadas; chama, golpeia e empurra muito; ninguém lhe abre, nem lhe responde palavra. Quando chamou o bastante, vai à porta da sala, encontra-a aberta e desce todos os degraus até chegar embaixo, onde encontra seu cavalo selado, vê sua lança e seu escudo apoiados em um muro. Então monta e vai por toda parte procurando, mas não encontra homem vivo, nem vê escudeiro, nem pajem. Vai diretamente para a porta e encontra a ponte caída, pois o tinham deixado assim para que nada o detivesse quando chegasse nela e pudesse passar sem obstáculo. Parece que todos os pajens devem ter ido, pela ponte que vê jogada, ao bosque a fim de reconhecer seus laços e suas armadilhas. Não quer ficar mais ali e propõe ir atrás deles para ver se algum lhe diz por que sangra a lança, se pode ser por alguma pena, e aonde se leva o Graal.&lt;br /&gt;(VS. 3387-3470)&lt;br /&gt; Sai então pelo da porta, e antes de que tivesse passado a ponte de tudo, sentiu que os pés de seu cavalo se elevavam muito alto, e que dava um salto tão grande que, se não tivesse saltado bem, maltratado tivesse ficado o cavalo e o que o montava. O moço voltou o rosto para ver o que tinha passado, e viu que tinham levantado a ponte. Chamou e ninguém lhe respondeu, aí disse:&lt;br /&gt;—Você ouça! Você que levantou a ponte! Fala-me! Onde está, que não o vejo? Aproxime-se, que o verei e perguntarei novas de outras coisas que queria saber.&lt;br /&gt; Assim perde o tempo falando em vão, porque  ninguém lhe quer responder.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;     COM A PRIMA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Interna-se na floresta e vai por um atalho no qual encontra rastros recentes de cavalos que tinham passado por ali, e diz:&lt;br /&gt;— Acredito que por aqui passaram quem procuro.&lt;br /&gt; Precipita-se bosque adentro seguindo aqueles rastros, até que improvisadamente vê uma donzela ao pé de um carvalho que chora, grita desesperada como uma infeliz desventurada. Vai dizendo:&lt;br /&gt;— Desgraçada de mim, desafortunada! Em que vil hora nasci! Maldita seja a hora na qual fui consumada e a que nasci. Até agora jamais me ocorrera nada que tanto me doesse. Não devia ter matado meu amigo, se Deus o tivesse querido, porque muito melhor tivesse obrado se ele estivesse vivo e eu morta. A morte, que tanto me desgosta, por que tomou antes sua alma que a minha? Quando vejo morto o ser que mais queria, do que me serve a vida? Sem ele de nada me serve a vida nem o corpo. Morte, tira fora minha alma! Que seja servidora e companheira da sua, digna-se aceitá-la.&lt;br /&gt; Deste modo fazia grande duelo sobre um cavaleiro que tinha em seus braços com a cabeça no atalho. O moço, assim que a viu, não se deteve até chegar a ela. Quando estava perto a saudou, e ela a ele com a cabeça baixa e sem deixar por isso seu duelo. O moço lhe perguntou:&lt;br /&gt;— Donzela, quem matou este cavaleiro que  jaz sobre você?&lt;br /&gt;—Gentil senhor, um cavaleiro o matou esta manhã —respondeu a donzela—. Mas me surpreende extraordinariamente uma coisa que observo: que se poderia, assim Deus me guarde, cavalgar quarenta léguas, assim o afirmam, diretamente no sentido em que você vêm, sem encontrar nem um só albergue que fora bom, digno e são. Seu cavalo não teria os flancos lustrosos, nem o cabelo alisado se alguém não o tivesse lavado. Se não tivesse alimentado e preparado um jazigo de aveia e de feno, não teria o ventre tão cheio, nem o cabelo tão liso. E quanto a você mesmo, parece-me que esta noite estive folgado descansando.&lt;br /&gt;(VS.   3471-3558)&lt;br /&gt;—A minha fé —diz ele—, formosa, ontem à noite desfrutei da maior folga possível, e se nota, é natural. Se alguém, aqui onde estamos, gritasse agora fortemente, poder-se-ia ouvir com toda claridade ali onde dormi ontem a noite. Você não conhece, nem percorreu bem este país, pois sem discussão alguma eu obtive o melhor albergue que jamais tive.&lt;br /&gt;—Ah, senhor! Vocês dormiram na casa do  rico Rei Pescador.&lt;br /&gt;—Donzela, por Salvador! Eu não sei se foi pescador ou rei, mas é muito discreto e cortês. Nada mais posso dizer dele, salvo que ontem, ao entardecer, encontrei dois homens que navegavam placidamente em um barco. Um governava e o outro pescava com anzol. Este, ontem tarde, mostrou-me sua casa e albergou-me nela.&lt;br /&gt;E a donzela disse:&lt;br /&gt;—Gentil senhor, é rei! Posso lhe assegurar isso. Entretanto, em uma batalha foi ferido e aleijado sem remédio, de sorte que já não se pode valer, pois foi alcançado por um dardo entre as duas coxas, e isso ainda lhe angustia tanto que não pode montar a cavalo. Quando quer distrair-se ou tomar alguma distração, mete-se em um barco e vai pescando com o anzol; por isso se chama o Rei Pescador. Por esta razão se distrai assim, não poderia suportar, nem tolerar, nenhuma outra distração. Não pode caçar, nem entregar-se ao animal de caça. Todavia, tem montadores, arqueiros e caçadores que vão por suas florestas flechando. Por isso também, gosta de estar nesta morada aqui perto. Em todo mundo não há nenhuma mais adequada para ele, e fez tal mansão como convém a um rico rei.&lt;br /&gt;  —Donzela, por minha fé que é certo o que lhe ouço dizer, porque ontem tarde me surpreendi extraordinariamente, assim que estive diante dele. Eu me mantinha um pouco afastado. Disse-me que sentasse a seu lado e que não considerasse altivez senão se levantava para me receber, porque não lhe era fácil, nem possível, e eu me sentei junto dele.&lt;br /&gt;  —Realmente, fez muita grande honra ao sentar a seu lado. Diga-me agora se, quando estava  sentado junto a ele, vira a lança cuja ponta sangra sem que haja nela carne nem veia.&lt;br /&gt;- Se a vi? É claro que sim, por minha fé.&lt;br /&gt;- E perguntara ao rei por que sangrava?&lt;br /&gt;- Não disse absolutamente nada, assim Deus me valha.&lt;br /&gt;-  Saiba, pois, que procedera  muito mal.  E vira o Graal?&lt;br /&gt;- Sim, muito bem.&lt;br /&gt;- E quem o levava?&lt;br /&gt;- Uma donzela.&lt;br /&gt;- De onde vinha?&lt;br /&gt;(VS. 3559-3634)&lt;br /&gt;—De uma câmara.&lt;br /&gt;- E aonde foi?&lt;br /&gt;- Entrou em outra câmara.&lt;br /&gt;- Ia alguém diante do Graal?&lt;br /&gt;- Sim.&lt;br /&gt;—Quem?&lt;br /&gt;- Só dois pajens.&lt;br /&gt;- E o que levavam nas mãos?&lt;br /&gt;- Candelabros cheios de candeias.&lt;br /&gt;- E quem vinha depois do Graal?&lt;br /&gt;- Outra donzela.&lt;br /&gt;- E o que levava?&lt;br /&gt;—Um pequeno prato de prata.&lt;br /&gt;— Perguntara às pessoas aonde foram deste  modo?&lt;br /&gt;—Tal pergunta jamais saiu de minha boca.&lt;br /&gt;—Pior muito pior, me valha Deus. Como se chama,  amigo?&lt;br /&gt; E ele, que não sabia seu nome, adivinha-o e diz  que se chamava Perceval, o gaulês, e não sabe dizer se era verdade ou não; mas dizia a verdade, embora não sabia. Quando a donzela o ouviu, ficou em pé ante ele e lhe disse encolerizada:&lt;br /&gt;- Seu nome mudou, bom amigo.&lt;br /&gt;-  Como ?&lt;br /&gt;—Perceval, o Desventurado. Ai, Perceval infortunado, quão mal aventurado é agora por causa de tudo o que não perguntou. Porque se tivesse reparado, o bom rei, que está aleijado, tinha recuperado o domínio de seus membros e a posse de sua terra, e lhe chegariam muitos bens. Tem que saber que muitas insipidezes virão a ti e a outros. Isso já ocorreu, sabe-o bem, pelo pecado com respeito a sua mãe, que morreu pela dor que você lhe produziu. Eu o conheço melhor que você a mim, pois você não sabe quem sou; contigo me criei na casa de sua mãe, durante muito tempo: sou sua prima irmã e você é meu primo irmão. Não me causa pena a desgraça que ocorreu não indagando o que se fazia com o Graal e aonde o levavam; a morte de sua mãe, mais do que a que me causa pena este cavaleiro, amava-o e o queria muito porque me chamava sua amiga amada e me queria como franco cavaleiro leal.&lt;br /&gt;  - Ah, prima! —diz Perceval—, se o que me disse é certo, diga-me como sabe.&lt;br /&gt;  - Sei tão certo  —responde a donzela—,  que eu mesma a vi enterrarem.&lt;br /&gt;               -Tenha Deus piedade de sua alma, por sua bondade  —disse Perceval—. Triste história me contou. Posto que está enterrada, por que tenho que seguir procurando-a? Só ia porque queria vê-la; agora devo empreender outro caminho. Eu gostaria muito se quisesse vir comigo, porque este que jaz aqui morto asseguro-lhe, já não servirá de nada. Os mortos com os mortos e os vivos com os vivos, vamos juntos você e eu. Parece-me desnecessário ficar aqui custodiando este morto. Sigamos ao que o matou, prometo e asseguro que, se consigo alcançá-lo, ou me vencerá ou eu o vencerei.&lt;br /&gt;(VS. 3635-3726)&lt;br /&gt; E ela, que não pode mitigar a grande dor que sente no coração, responde-lhe:&lt;br /&gt; —Bom amigo, de modo algum irei com você,  nem me separarei dele, até que o enterre. Se acredita-me, siga por aquele meio-fio, para lá, por aquele caminho foi o cavaleiro malvado e cruel que matou a meu doce amigo.Valha-me Deus, não disse tudo isto por querer que você vá atrás dele, mas sim porque desejo seu dano como se me tivesse morrido. Mas, de onde saiu esta espada pendurada no flanco esquerdo, que jamais derramou sangue de homem, nem foi desembainhada em nenhum transe? Eu sei bem onde foi feita e sei bem quem a forjou. Procure não confiar nela, que sem dúvida alguma lhe trairá quando estiver em grande batalha, pois voará aos pedaços.&lt;br /&gt; —Formosa prima, enviou-a ontem noite uma das sobrinhas de meu bom anfitrião. Deu-me isso e eu estou muito satisfeito. Entretanto, inquieta-me muito o que me disse, se for certo. Diga-me agora, se souber: no caso de que se rompesse, poderia reparar-se?&lt;br /&gt; —Sim, mas seria muito trabalhoso para que soubesse  seguir o caminho que leva ao lago que há ao pé do Cotoatre. Ali, se a ventura o levasse, poderia refazê-la, temperar de novo e restabelecer. Vá somente à casa do Trebuchet, um ferreiro que assim se chama, porque ele a fez e a refará, o que não obterá jamais, de nenhum homem que se empenhe nisso. Procure que nenhum outro ponha nela suas mãos, porque não saberia como consegui-lo.&lt;br /&gt; —Certo, —disse Perceval—, sofreria muito se rompesse.&lt;br /&gt; Ele então vai e ela fica, pois, não quer se separar do corpo daquele cuja morte tanto causa pena em seu coração.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;   O  ORGULHOSO   DO DESERTO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Ele vai seguindo uns rastros no atalho até que encontra um cavalo esquálido e cansado indo a frente dele. Imaginou que estava tão fraco e miserável porque tinha cavalgado em más mãos. Parecia muito fatigado e mau alimentado, como se faz com cavalo emprestado, cansando-o muito de dia e cuidando pouco a noite. Assim era aquele cavalo, de tão fraco tremia como se estivesse congelado. Suas crinas estavam cortadas e as orelhas caíam; o focinho e os dentes esperavam dele isca e pasto, pois só tinha o couro em cima dos ossos. Levava uma sela no lombo e um cabresto muito em consonância com tal animal. Montava-o uma donzela, a mais miserável que jamais foi vista. Não obstante, arrumada, seria muito formosa e gentil. Entretanto, ia tão desarrumada vestindo roupas rasgadas, e pelos trapos saíam os seios do peito. De quando em quando aparecia um remendo de grossa costura; sua carne parecia rasgada por um tridente, pois, estava aberta e tostada pelo calor, o vento e o gelo. Ia descoberta e sem manto; em seu rosto havia feios sulcos produzidos por suas lágrimas, que sem deter-se em seu caminho lhes desciam pelo seio, por debaixo da roupa chegavam até regar os joelhos. Muito sofrido devia ter o coração que tanta desdita padecia.&lt;br /&gt;(VS. 3727-3816)&lt;br /&gt; Perceval, assim que a viu, foi veloz para ela, a qual apertou seu vestido para cobrir suas carnes, mas isso fazia que se abrissem outros buracos. Quando cobria uma parte, tampava um buraco e abria cem. Alcança-a Perceval descolorida, pálida e tão miserável. Ao aproximar-se ouviu doer-se tristemente de sua pena e sua desdita.&lt;br /&gt;—Deus! —dizia—, não permita que siga vivendo assim. Não mereci em modo algum ser tanto tempo tão desventurada e sofrer tanta desventura. Deus, você que sabe bem que em nada faltei, me envie, se o agradar, quem me alivie esta pena; ou livra-me daquele que me faz viver em tal opróbrio. No qual não encontro piedade, nem posso escapar dele viva, nem ele quer me matar. Não sei por que deseja, com tanto empenho, minha companhia, a não ser porque deseja minha vergonha e minha desgraça. Embora ele soubesse, de certo, que eu o merecia, deveria ter piedade, se me conservasse algum afeto, porque paguei tão caro. Na verdade, nenhum afeto tem, no momento em que me leva atrás dele, tão dura vida, sem se importar com nada.&lt;br /&gt; Então Perceval, que estava já a seu lado, disse-lhe:&lt;br /&gt;—Formosa, Deus lhe guarde.&lt;br /&gt; Quando a donzela o ouviu, abaixou a cabeça e respondeu em voz baixa:&lt;br /&gt;— Senhor que me cumprimenta, tenha seu coração quanto deseje eu não tenho permissão para saudá-lo.&lt;br /&gt;Perceval, a quem a vergonha alterou a cor, respondeu:&lt;br /&gt;-  Por Deus, donzela! Por que? Penso e acredito, certamente, que nunca a vi, nem lhe fiz nada de mau.&lt;br /&gt;-  Sim. —disse ela— Porque sou  tão desventurada e tanta é minha pena, que ninguém me deve saudar;  suo de angústia quando alguém fala comigo, ou me olha. &lt;br /&gt;— Asseguro-lhe que eu não pretendia causar nenhum mal —diz Perceval—. Eu não vim aqui  para lhe fazer desonra, nem ultraje, mas sim meu caminho me trouxe até você. Posto que a vi tão maltratada, pobre e nua; não terei alegria em meu coração até saber a verdade. Que aventura lhe levou a tal dor e a tal pena?&lt;br /&gt;— Ah, senhor, por piedade! —diz ela—. Parte, fuja daqui e me deixe estar em paz. O pecado  o faz ficar aqui; fuja e obrará sabiamente.&lt;br /&gt;—Queria saber —diz ele— de que temor e de qual ameaça tenho de fugir, quando ninguém me persegue.&lt;br /&gt;(VS.  3817-3913)&lt;br /&gt;—Senhor —diz ela—, não se apiede. Fuja enquanto é possível; que não surpreenda esta conversação o Orgulhoso do Deserto, que só ambiciona batalhas e brigas. Caso o encontrasse aqui, esteja seguro, de que o mataria imediatamente. Incomoda-lhe tanto que alguém pare ou que me retenha conversando que, se chegar a tempo, deixa-o sem cabeça. Não faz muito que matou um; mas antes ele conta a todos por que cai em tanta baixeza e miséria.&lt;br /&gt; Enquanto falava assim, o Orgulhoso saiu do bosque e chegou como um raio, pela areia e pelo pó, gritando muito alto:&lt;br /&gt; —Caiu a desgraça sobre você que vai ao lado da donzela. Tem que saber que chegou seu fim, por havê-la retido e parado um só passo. Todavia, não o matarei até explicar por que motivo e por que má ação a faço viver com tanta desonra; agora escuta e ouvirá a história. Neste ano, tinha ido um dia ao bosque e deixei em meu pavilhão esta donzela, era quão único que amava; até que por acaso, passou por ali um moço Gales. Não sei quem era, nem onde ia, mas, conseguiu beijar à força, segundo ela me confessou. O que a impedia de me mentir? E se a beijou contra sua vontade, acaso não cumpriu ele depois todo seu desejo? Sim, pois ninguém acreditaria que a beijasse sem fazer nada mais, pois uma coisa traz a outra. Quem beija uma mulher, estando os dois sozinhos, e não faz nada mais, acredito que é ele o que não segue adiante. A mulher que entrega sua boca, muito ligeiramente dá todo o resto, se houver quem bem o entenda. Embora ela se defenda, já se sabe, sem dúvida alguma, que a mulher sempre quer vencer, exceto unicamente naquela briga em que pega o homem pela garganta, arranha, remói e luta. Então se queria vencer, defendia-se. É tão covarde em sua entrega, que está impaciente e quer que lhe faça a força, e logo não o agradece. Por isso acredito que ele a fez sua. Tirou-lhe um anel meu, que ela levava no dedo e o levou, o que me indigna; mas antes bebeu o forte vinho e comeu os bons bolos que eu guardava. Agora minha amiga recebe o cortês salário que lhe corresponde. Quem faz uma loucura, que a pague, para que se guarde de reincidir. Pôde ver-me muito encolerizado quando voltei e soube. Como tinha razão, jurei solenemente, que seu cavalo não comeria aveia, nem seria sangrado, nem ferrado de novo. Ela não levaria mais capa, nem manto, do que os que vestia então, até que eu derrotasse, matasse e cortasse a cabeça do que a tinha forçado.&lt;br /&gt; Quando Perceval o escutou, respondeu-lhe  palavra por palavra:&lt;br /&gt;—Amigo, saiba, sem dúvida alguma, que já cumpriu sua penitência, pois, eu sou o que a beijou, e sinto muita pena, pois lhe doeu muito. Tomei o anel de seu dedo; nada mais passou, nem nada mais fiz; se comi, confesso, um bolo e meio e bebi tanto vinho quanto quis, nisto não obrei como um néscio.&lt;br /&gt;—Por minha cabeça —replica o Orgulhoso—, disse agora coisas admiráveis ao reconhecer isto. &lt;br /&gt;(VS.  3914-3978)&lt;br /&gt;- Fez-se merecedor da morte ao confessar a verdade.&lt;br /&gt;—A morte não está ainda tão perto como parece — disse Perceval.&lt;br /&gt; Então, sem dizer mais, deixaram correr os cavalos um contra outro e se toparam com tal ímpeto que fizeram suas lanças lascar. Ambos esvaziaram as selas e derrubaram-se mutuamente. Em seguida ficaram de pé e despiram as espadas e atiraram-se grandes golpes. Perceval deu primeiro com a espada dada de presente, porque queria prová-la. Atirou-lhe um golpe tão forte na parte superior do elmo de aço, que se rompeu em dois pedaços, a boa espada do Rei Pescador. O Orgulhoso não se atemorizou, e o devolveu com muita força em cima do elmo lavrado derrubando flores e pedras. Perceval está muito triste coração porque lhe falhou sua espada. Desembainha a qual foi do cavaleiro Vermelho e ataca de novo; porém, antes recolhe todos os pedaços da outra e os guarda na bainha de arma. Então empreendem um combate tão robusto que jamais viram outro maior. A batalha foi forte e rude. Não quero descrevê-la mais porque me parece que seria trabalho em vão: combateram os dois até que o Orgulhoso da Landa se rendeu e pediu mercê. Ele, que não esquecia que o mestre rogou nunca matasse a cavaleiro que lhe pedisse mercê, disse-lhe:&lt;br /&gt;— Cavaleiro, por minha fé, você não terá minha misericórdia, até que sua amiga a tenha, pois, posso jurar, que de modo algum mereceu o dano que você lhe tem feito padecer.&lt;br /&gt; E aquele, que a amava mais do que a seus olhos, respondeu-lhe:&lt;br /&gt;— Gentil senhor, quero fazer a reparação que vocês disponham. Não me ordenarão nada que não esteja disposto a fazê-lo, tenho o coração triste e negro pelo mal que lhe tenho feito sofrer.&lt;br /&gt;—Vem, pois, à morada mais próxima que possua nestes arredores — disse—, faz banhar-se a seu prazer até que fique curada e sã. Prepare-a e leva-a, bem composta e bem vestida, ao rei Artur. Saúda-o de minha parte e coloque-se à sua disposição equipado tal como vai agora. Se perguntar de parte de quem vai, diga-lhe que de parte daquele que ele fez cavaleiro vermelho, com a aprovação e o conselho de meu senhor Keu, o mordomo. E terá que relatar na corte a penitência e o dano que tem feito sofrer a sua dama, de modo que o ouçam todos os que ali se encontrem e todas, com a rainha e as donzelas, entre as quais há muitas formosas. Acima de todas elas aprecio uma, que, porque me sorriu, Keu lhe deu tal bofetada que a deixou completamente aturdida. Mando que a busque e que lhe diga de minha parte que, sob nenhum pretexto entrarei na corte que o rei Artur reuna, até que a haja, tão bem, vingado que esteja alegre e contente.&lt;br /&gt;(VS. 3979-4071)&lt;br /&gt;Ele responde que irá muito agradecido e que dirá tudo que lhe ordenou, sem mais demora que a que seja precisa para que sua dama se reponha e se embeleze como lhe será mister. E que muito a gosto a levaria ele mesmo, para que descansasse, curasse, atendesse suas feridas e suas chagas.&lt;br /&gt; —Vai agora, e que boa ventura tenha —diz Perceval—, preocupa-se de outras coisas, que eu procurarei albergue em outro sítio.&lt;br /&gt; Acaba assim a conversação, nem um, nem o outro esperam mais, pois, se separam sem mais raciocínio.&lt;br /&gt; Naquela noite, fez banhar sua amiga e vestir-se ricamente. Tão bem cuidou dela que recuperou sua formosura. Depois, os dois empreenderam diretamente o caminho ao Carlión, onde o rei Artur tinha sua corte muito privadamente, pois, só havia três mil cavaleiros de mérito. Que vinha com sua dama se constituiu em prisioneiro do rei Artur acima de todo o mundo. Quando esteve diante dele disse:&lt;br /&gt; —Gentil senhor rei, sou prisioneiro, para fazer de  mim quanto queira. É bem razoável e justo, pois assim me ordenou o moço que lhe pediu armas vermelhas e as obteve.&lt;br /&gt; Assim que o rei o ouviu, compreendeu muito bem o que queria dizer.&lt;br /&gt; —Desarme-se — disse—, gentil senhor. Que tenha  gozo e boa ventura quem me deu de presente você. Seja bem vindo. Por ele será apreciado e honrado em minha casa.&lt;br /&gt; —Senhor, ainda tenho que lhe dizer algo antes de  me desarmar. Penso que a rainha e suas donzelas devessem ouvir as novas que lhes trouxe. Não contarei até que esteja presente aquela que foi golpeada na bochecha só por ter sorrido; jamais fez outro mal.&lt;br /&gt;Assim dá fim a suas palavras. Quando o rei ouve que é preciso que a reina se ache presente, manda procurá-la. Ela chegou com todas as suas donzelas, que ficaram em pé em duas filas.&lt;br /&gt; Quando a rainha se sentou ao lado de seu  senhor, o rei Artur, o Orgulhoso da Landa lhe disse:&lt;br /&gt;      —Senhora, saúde o envia um cavaleiro ao qual aprecio muito e que me venceu com suas armas. Nada mais posso dizer dele, mas sim envia minha amiga, que é esta donzela que está aqui.&lt;br /&gt;—Amigo, muito o agradeço —disse a rainha.&lt;br /&gt; Conta-lhe toda a baixeza e o ultraje que largamente lhe impusera, as penas que tinha passado e a razão porque o fez; disse tudo sem esconder nada. Depois enfurecera aquela que o mordomo Keu pegou, e lhe disse:&lt;br /&gt; —Donzela, quem me enviou aqui me rogou  que a saudasse de sua parte, que não descalçasse meus pés até que dissesse: se Deus lhe ajudar, não entrará, por nada que ocorra, em nenhuma corte que reúna o rei Artur até que lhes tenha vingado da bofetada, do soco, que lhes deram por ele.&lt;br /&gt;(VS. 4072-4162)&lt;br /&gt; Quando o bufão ouviu, ficou em pé de um  salto, gritando:&lt;br /&gt; —Keu, Keu, assim Deus me abençoe, que o pagarão  muito seriamente, e isso ocorrerá próximo.&lt;br /&gt;E depois do bufão acrescentou o rei:&lt;br /&gt;—Ah, Keu, muito cortesmente obrou quando zombou do moço! Suas brincadeiras deram nisso, de modo que já não espero vê-lo nunca mais.&lt;br /&gt; Logo o rei fez sentar ante si seu cavaleiro  prisioneiro, perdoou-lhe sua prisão e lhe ordenou que se desarmasse. E meu senhor Gauvain, que estava sentado ao lado direito do rei, pergunta:&lt;br /&gt;—Por Deus, senhor, quem pode ser este, que só com suas armas, venceu a tão bom cavaleiro como é esse? Pois, em todas as ilhas do mar não ouvi nomear, nem vi, nem conheci, cavaleiro que possa comparar-se a esse, nem em armas, nem em cavalaria.&lt;br /&gt;—Gentil sobrinho, eu não o conheço —diz o rei—,  embora o vi; mas quando o vi não me pareceu oportuno lhe perguntar nada. Disse-me que o fizesse cavaleiro imediatamente. Eu ao vê-lo gentil e agradável, disse-lhe: "Irmão, com muito prazer; mas desmonte, que enquanto isso lhes irá procurar umas armas douradas." E ele respondeu que nem tomaria, nem jogaria pé a terra até que tivesse armas vermelhas. Disse também outras coisas surpreendentes: que não queria ter outras armas a não ser as do cavaleiro, que levava minha taça de ouro. Keu, que era irritante, o é ainda, e o será sempre, jamais quer dizer nada bom, disse-lhe: "Irmão, o rei dá as armas e lhe entrega isso, assim agora mesmo pode ir tomá-las." E ele, que não soube entender a brincadeira, acreditou-se que dizia seriamente. Foi atrás daquele e o matou com um dardo que lhe lançou. Não sei como começaram a briga e a refrega, mas sim que o cavaleiro Vermelho da Floresta do Quinquerroi o golpeou com altivez com sua lança, não sei por que motivo. O moço lhe atravessou um olho com seu dardo, matou-o e ficou com suas armas. Depois me serviu tão a meu prazer que, por meu senhor São David, ao que se ora e reza em Gales, não dormirei duas noites seguidas em câmara, nem em sala, até que saiba se viver em mar ou em terra, e partirei para ir em sua busca.&lt;br /&gt; Assim que o rei fez este juramento, todos convenceram-se de que não havia mais remédio que partir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;   AS GOTAS DE SANGUE NA NEVE&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Então, viram colocar lençóis, cobertas e travesseiros em malas; encher cofres, carregar a cem milhas, carretas e carros. Não regulavam pavilhões, tendas ou barracas. Um clérigo sábio e muito letrado, não poderia escrever em um só dia, toda a tropa e vestimentas que prepararam imediatamente. Assim com seu exército parte o rei de Carlión. Seguem-no todos os barões, e não fica donzela que a rainha não leve para pompa e senhorio.&lt;br /&gt; De noite acamparam em um prado próximo a  uma floresta. À manhã seguinte nevou muito, e toda a comarca estava muito fria. Perceval se levantou de madrugada, como estava acostumado, porque queria procurar e encontrar aventura e cavalaria. Encaminhou-se ao prado, gelado e nevado, onde tinha acampado a hoste do rei.&lt;br /&gt;(VS. 4163-4248)&lt;br /&gt; Todavia, antes que chegasse às tendas, voava um bando de gansos que a neve tinha deslumbrado. Viu-as e ouviu como chiavam por causa de um falcão, que vinha as acossando com grande ímpeto, até que encontrou uma separada do bando, a qual atacou. Atacou de tal modo que a derrubou em terra; entretanto, era tão cedo, que se foi sem querer enfurecer-se na pressa. Perceval segue para onde viu o vôo. O ganso estava ferido no pescoço. Derramou três gotas de sangue que se pulverizaram sobre o branco, e parecia cor natural. O ganso não sentia mal, nem dor que a detivesse em terra. Antes dele chegar, já havia empreendido o vôo.&lt;br /&gt; Quando Perceval viu pisada a neve sobre a qual  tinha descansado o ganso e o sangue que aparecia ao redor, apoiou-se na lança para contemplar aquela aparência. O sangue e a neve juntas lhe rememoram a fresca cor da face de sua amiga, envolve-se tanto que se esquece; porque em seu rosto o vermelho estava colocado sobre o branco igual aquelas três gotas de sangue que apareciam sobre a neve. A contemplação na qual estava embevecido agradava-lhe tanto, que lhe parecia que estava vendo a jovem cor da face de sua formosa amiga.&lt;br /&gt; Perceval absorvido na contemplação das  três gotas, empregou as primeiras horas da manhã. Quando das tendas saíram escudeiros, viram-no tão absorto que pensaram que dormia. Os escudeiros, antes do rei despertar, ainda dormindo em sua tenda, encontraram ante o pavilhão real ao Sagremor, que por seu excesso era chamado o Desmesurado. Interpela-os:&lt;br /&gt;—Digam-me e não me ocultem nada, por que vêm  aqui tão cedo?&lt;br /&gt;—Senhor —respondem eles—, fora da tropa vimos um cavaleiro dormindo sobre seu cavalo.&lt;br /&gt;—Está armado?&lt;br /&gt;—Sim, na verdade.&lt;br /&gt;—Eu irei falar com ele —lhes diz—, e o trarei  para a corte.&lt;br /&gt; Imediatamente Sagremor corre à tenda do  rei e o acorda dizendo:&lt;br /&gt;—Senhor. Ali, fora da brigada, há um cavaleiro dormindo.&lt;br /&gt; O rei lhe ordena que vá. Também lhe diz e roga que o traga sem demora. Em seguida mandou Sagremor que lhe tirassem as armas e pediu seu cavalo. Cumpriu-se assim que o disse, e se fez armar bem e logo. Completamente armado saiu da hoste e se aproximou do cavaleiro e lhe disse:&lt;br /&gt;—Senhor, têm que ir ao rei.&lt;br /&gt; O outro não se move e dá a impressão de não ouvi-lo. Repete-o. O outro se cala, ele indignado diz:&lt;br /&gt;(VS. 4249-4340)&lt;br /&gt; —Pelo apóstolo São Pedro, com seu pesar!  Arrependo-me de gastar tantas palavras em vão ao lhes rogar isso —Gentil senhor, vê como volta Sagremor. Traz o cavaleiro entorpecido, conduzindo-o com seu abatimento.&lt;br /&gt; Então desdobra sua insígnia, que levava enrolada na lança. Ficando um pouco atrás para tomar ímpeto, faz correr o cavalo até ele e lhe avisa que fique em guarda, porque lhe atacará se não se acautelar. Perceval olha para ele e o vê galopando; abandona sua contemplação e sai ao encontro arreando. Assim que encontra um com o outro,  quebra a lança do Sagremor; mas a do Perceval nem se rompe, nem se dobra. Empurra-na com tal vigor que o derruba no meio do campo. O cavalo, sem demora, fuge para o acampamento com a cabeça erguida. Os que no acampamento estavam levantando o vêem, a mais de um foi desagradável.&lt;br /&gt; Mas Keu, que nunca podia abster-se de dizer sarcasmos, zomba e diz ao rei:&lt;br /&gt; —Gentil senhor, vejam como volta Sagremor. Traz o cavaleiro pelo freio e o conduz com seu arrependimento.&lt;br /&gt; —Keu —diz o rei—, não está bem que deste modo burle dos mestres. Vá você e veremos se faz melhor que ele.&lt;br /&gt; —Muito contente estou —responde Keu— de que o agrade que eu vá. Asseguro-lhe que  o trarei pela força, tanto se quiser como se não, e lhe farei dizer seu nome.&lt;br /&gt; Armar-se demoradamente. Sobe e  vai para aquele que tão absorto estava na contemplação das três gotas, que não se dava conta de nada mais. Desde muito longe lhe grita:&lt;br /&gt; —Vassalo, vassalo, venha ao rei. Virá em seguida, por minha fé, ou o pagará muito caro.&lt;br /&gt; Perceval, ao ouvir a ameaça, volta a cabeça de seu cavalo e lança-o com as esporas de aço para aquele que não vem lentamente. Ambos desejam fazê-lo bem e se atacam sem dissimulação. Keu dá tão forte que rompe e quebra sua lança como uma cortesã, colocou nisso todo seu vigor. Perceval não se atrasa e lança-se em cima. Derruba-o sobre uma rocha, deslocando sua clavícula; partindo o osso do braço direito, entre o cotovelo e o sovaco. Ficando como fragmentos secos, tal como disse o bufão, que muito freqüentemente prognosticava: certo foi o prognóstico do bufão. Keu se desvanece pela dor, e seu cavalo foge para as tendas a grande trote.&lt;br /&gt; Quando os bretões vêem que volta o cavalo sem o mordomo, os pajens montam, damas e cavaleiros acodem, encontram-no desvanecido e percebem que está morto. Então todos e todas começaram a fazer um grande duelo sobre ele.&lt;br /&gt; Perceval volta a se apoiar na lança sobre as três gotas. O rei sentia grande desgosto porque o mordomo estava ferido: está tão triste e causa tanta pena que lhe diz que não se deprima, que se curará, sempre que houver médico que saiba colocar de volta a clavícula em seu lugar e ajustar o osso quebrado. O rei, sentia grande ternura por ele, em seu coração amava-o muito. Envia-lhe um médico muito sábio e duas donzelas de sua escola, que lhe encaixaram a clavícula, soldaram-lhe o osso quebrado e enfaixaram o braço. Levaram-no logo à tenda do rei e reanimaram-no muito dizendo que curaria completamente e que não se desesperasse por nada. Meu senhor Gauvain disse ao rei:&lt;br /&gt;(VS. 4341-4434)&lt;br /&gt; —Senhor, senhor! Valha-me Deus! Não é sem razão, como bem sabe e como você mesmo sempre diz e julga acertadamente, que um cavaleiro parte a outro em sua contemplação, qualquer que seja, como esses dois fazem. Eu não sei se eles tiverem razão, o certo é que saíram mal. O cavaleiro estaria pensativo porque teria perdido alguma coisa, ou sua amiga lhe tinha sido roubada, e se entristecia e condoía-se por isso. Se observassem, iriam ver sua moderação. Caso o encontrasse já fora de seu êxtase, diriam e rogariam que viesse até aqui.&lt;br /&gt;Estas palavras indignaram Keu, que disse:&lt;br /&gt;—Ah, meu senhor Gauvain! Trará o cavaleiro preso pela atadura apesar dos pesares. Bem feito estará, se tolerar isso e lhe outorgar a batalha; deste modo fará muitos prisioneiros. Quando o cavaleiro está fatigado e brigou muito, então é o momento oportuno para aquele que é um mestre peça um dom e vá combater. Gauvain, cem vezes seja maldito meu pescoço se você não for tão néscio que não lhe possa ensinar algo; o que sabe é dar de presente com palavras muito belas e elegantes. Proferirá acaso palavras insultantes, rudes e altivas? Maldito seja quem acreditou, embora seja eu mesmo. Na verdade que este negócio poderá resolver em pele de seda. Não será preciso nem desembainhar espada, nem quebrar lança. Só poderá se orgulhar de quem não  faltar a língua para lhe dizer: "Senhor, Deus o guarde, dê gozo e saúde", na hora fará sua vontade. Nada tenho que ensinar, porque amansará isso, como se amansa a um gato acariciando-o, e todos dirão: "Agora combate ferozmente meu senhor Gauvain."&lt;br /&gt; —Ah, senhor Keu! —respondeu ele—, Ocorre-me dizer mais amavelmente. Quer vingar em mim sua cólera e seu mau humor? Se puder, doce amigo, asseguro-lhe que o trarei. E não voltarei com o braço quebrado, nem a clavícula deslocada, porque eu não gosto nada deste salário.&lt;br /&gt; —Vá em seguida, sobrinho —disse o rei—, que fala muito cortesmente. Se for possível, traga-o; mas leve todas suas armas, porque desarmado não irá em modo algum.&lt;br /&gt; Arma-se de acordo aquele que tinha fama e o mérito de todas as bondades. Sobe em um cavalo forte e destro. Vai direto ao cavaleiro, que estava apoiado na lança e ainda não se cansou de seu êxtase, que muito lhe agradava. Como o sol tinha derretido duas das gotas de sangue que estavam na neve e a terceira ia apagando-se, o cavaleiro já não estava tão absorto como antes. Meu senhor Gauvain aproxima-se cavalgando devagar, sem pôr o rosto feroz lhe diz:&lt;br /&gt;(VS. 4435-4520)&lt;br /&gt; —Senhor, o saudaria se conhecesse seu coração, tão bem como conheço o meu. O que eu posso lhe dizer é que sou um mensageiro do rei, que por mediação minha, manda e roga-lhe que vá falar com ele.&lt;br /&gt; —Já estiveram outros dois aqui —responde Perceval—, tirando meu prazer e queriam levar-me como se fosse um prisioneiro. Todavia, estava tão absorvido em meu êxtase, agradava-me tanto, que os que me queriam apartar disso não procuravam meu proveito. Porque neste lugar havia três gotas de sangue fresco iluminando o branco. Ao contemplá-las parecia que estava vendo a fresca cor do rosto de minha formosa amiga e não queria me apartar daqui.&lt;br /&gt; —Na verdade —disse meu senhor Gauvain—, esta contemplação não era vil, mas, muito cortês e doce. Seria perverso e rude afastar seu coração disso. Agora muito quero e desejo saber o que pensa fazer você; porque, se não lhe desgostasse, muito agradecido o conduziria até o rei.&lt;br /&gt;      —Diga-me primeiro, amável amigo —fala Perceval—, se está ali o mordomo Keu.&lt;br /&gt;—Sim, na verdade está! Saiba que foi ele quem recentemente lutou com você, mas, tão cara saiu a  luta que, se não souber, quebrou-lhe o braço direito e deslocou a clavícula.&lt;br /&gt;—Pois então me vinguei bem, ao que acredito,  à donzela que ele pegou.&lt;br /&gt; Quando meu senhor Gauvain o ouviu se surpreendeu,  e estremecendo, disse:&lt;br /&gt;—Senhor, valha-me Deus! O rei não procura outra coisa a não ser você. Como se chama, senhor?&lt;br /&gt;—Perceval, senhor, e você?&lt;br /&gt;—Senhor, saiba certamente que meu nome de batismo é Gauvain.&lt;br /&gt;—Gauvain?&lt;br /&gt;—Sim, gentil senhor.&lt;br /&gt;Perceval se alegrou muito e disse:&lt;br /&gt;—Senhor, ouvi falar de você muito bem em muitos lugares. Desejava que entre nós dois houvesse amizade, se o agradar e convier.&lt;br /&gt; —Na verdade —disse meu senhor Gauvain— não me agrada menos que a você, e sim mais, ao que acredito.&lt;br /&gt; Perceval respondeu:&lt;br /&gt;—Assim, pois, eu irei com muito prazer, aonde você queira, porque é justo. Considero-me muito mais digno a partir do momento que sou seu amigo.&lt;br /&gt; Então se abraçam um ao outro e ficam desatando elmos, as toucas e as viseiras. Tiram as malhas e vão prazerosamente.&lt;br /&gt; Os pajens, que os viram abraçar um ao outro onde estavam postos, correram à presença do rei e lhe disseram:&lt;br /&gt; —Senhor, senhor! Meu senhor Gauvain traz o cavaleiro. Um e outro vão muito contentes.&lt;br /&gt; Quantos ouvem a nova saem da lareira e correm a seu encontro. Keu diz ao rei, seu senhor:&lt;br /&gt; —Já alcançou o prêmio e a honra meu senhor  Gauvain, seu sobrinho. Muito perigosa e dura foi a batalha, se não me equivocar, pois volta tão alegremente como partiu: não recebeu nenhum golpe do outro, nem o outro sentiu nenhum golpe dele, nem lhe desmentiu as palavras. É justo que receba louvor e prêmio, que se diga que obteve o que nós não pudemos conseguir, embora pusemos nisso todo nosso poder e nosso esforço.&lt;br /&gt;(VS. 4521-4607)&lt;br /&gt; Assim, Keu está acostumado a dizer tudo o que deseja, seja justo ou não. Meu senhor Gauvain não quer levar à corte seu companheiro armado e sim desarmado. Em sua tenda o desarma e ao acaso pega de um cofre umas roupas, que lhe apresenta e lhe oferece para que as vista. Quando estava bem; elegantemente vestido com capa e manto muito bons, que lhe caíam muito bem, dirigiram-se, um ao lado do outro, ao rei, sentado diante de sua tenda. Meu senhor Gauvain lhe disse:&lt;br /&gt; —Senhor, trago aquele que, conforme acredito, conheceu com muito agrado faz exatamente quinze dias. Este é aquele de quem tanto falava; este é aquele que procurava; trago-o aqui está ele.&lt;br /&gt; —Graças a você, gentil sobrinho —disse o rei, apressando-se em ficar de pé para recebê-lo, lhe dizendo—: Gentil senhor, bem-vindo seja. Rogo que me diga como devo chamá-lo.&lt;br /&gt; —A minha fé! Não lhe ocultarei —disse Perceval—,  bom senhor rei: meu nome é Perceval, o Gaulês.&lt;br /&gt; —Ah, Perceval, gentil doce amigo! Desde o momento que entrou em minha corte, não partirá dela com minha vênia. Muito lamentei quando o vi pela primeira vez e não soube compreender a reparação que Deus lhe tinha destinado. Entretanto, averiguou em seguida e toda minha corte soube da donzela e do bufão que a golpeou, o mordomo Keu. Você faz completamente verdadeiros seus prognósticos. Agora ninguém põe em dúvida que tenha ouvido novas verdades de suas cavalarias.&lt;br /&gt; Enquanto dizia estas palavras chegou a rainha, que tinha ouvido as novas de que tinha chegado. Assim que Perceval a viu, disse quem era. Advertiu detrás à donzela que sorriu quando ele a olhou, foi em seguida para elas e disse:&lt;br /&gt; —Deus dê gozo e honra a mais formosa, a melhor, de quantas damas existem, como testemunham  todos os quais a vêem e todos os quais a viram.&lt;br /&gt; A Rainha lhe respondeu:&lt;br /&gt; —Você é o bem achado, como cavaleiro experimentado em altas e belas empreitadas.&lt;br /&gt; Logo Perceval saúda a donzela que lhe sorriu, abraça-a e lhe diz:&lt;br /&gt; —Formosa, se for necessário, eu serei o cavaleiro que jamais lhe negará sua ajuda.&lt;br /&gt; A donzela agradeceu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;   A FEIA DONZELA DA MULA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Grande foi a hospedagem que o rei, a rainha e os  barões deram a Perceval, o gaulês, com o qual naquele mesmo dia, retornaram ao Carlión. Grande festa fizeram toda aquela noite, o mesmo no dia seguinte, até o terceiro, quando viram chegar uma donzela montada em uma mula marrom e que levava na mão direita uma cinta.&lt;br /&gt;(VS. 4608-4706)&lt;br /&gt; Esta donzela levava duas tranças torcidas e negras. E se forem certas as palavras com as quais o livro descreve-na, nunca houve nada tão completamente feio, nem mesmo no inferno. Nunca viram ferro tão enegrecido como seu pescoço e suas mãos eram o de menos, comparadas com suas outras fealdades. Seus olhos eram dois buracos pequenos, como olhos de rato; seu nariz era de borracha ou de gato; seus lábios de asno ou de boi. Seus dentes eram de uma cor tão avermelhada que pareciam de gema de ovo, e tinha barbas como num focinho. Na metade do peito tinha uma concha e pelas costas parecia encurvada. Seus quadris e seus ombros eram muito adequados para dançar com a corcunda detrás e as pernas, retorcidas como duas tochas, parecia estar a ponto de abrir o baile.&lt;br /&gt; Avança com sua mula até situar-se frente a todos  os cavaleiros: jamais em corte de rei se viu donzela semelhante. Saúda em geral ao rei e a todos os seus barões, exceto Perceval. Da mula marrom disse o seguinte:&lt;br /&gt;—Ai, Perceval! Fortuna é calva por detrás e na frente tem uma mecha. Maldito seja quem te saúde e quem te deseje, ou procure algum bem, pois não acolheu a Fortuna quando a encontrou. Entrou em casa do Rei Pescador; viu a lança que sangra. Foi tão penoso abrir a boca e falar que não pôde perguntar por que brota aquela gota de sangue da ponta do ferro branco; tampouco perguntou nem indagou, que mestre se servia com o Graal que você viu. Muito desventurado é o que vê a ocasião que mais lhe convém e ainda espera que venha outra melhor. Você é o desventurado, porque teve ocasião e lugar de falar e te calou; foi sua grande oportunidade. Grande desgraça foi calar. Se tivesse perguntado, o rico rei, que agora adoece, já estaria completamente curado de sua ferida e possuiria sua terra em paz, o que já não conseguirá outra vez. Sabe o que ocorrerá devido o rei não possuir a terra e não ser curado de suas feridas? As damas perderão seus maridos; as terras serão devastadas; as donzelas, desamparadas, ficarão órfãs e morrerão muitos cavaleiros. Todos estes males virão por sua culpa.&lt;br /&gt;Logo disse a donzela ao rei:&lt;br /&gt;—Rei, já me vou! Não se aborreça, porque esta noite devo me albergar longe daqui. Não sei se ouviram falar do Castelo Orgulhoso, mas esta noite tenho que estar ali. Há neste castelo quinhentos e sessenta e seis cavaleiros de mérito. Saibam que todos têm por amigas consigo, gentis damas, corteses e formosas. Dou-lhes a nova de que ninguém vai ali que não encontre luta ou batalha. Que queira fazer cavalarias, se ali as buscar, não sairá defraudado. Quem queira alcançar o maior prêmio de todo o mundo, eu acredito saber o local e lugar da terra onde poderá conquistá-lo melhor, se for capaz de empreendê-lo. Na colina que há perto do Montescleire há uma donzela sitiada; grande honra conquistaria o que pudesse levantar o cerco e liberar à donzela; ganharia a melhor fama e, se Deus lhe desse tão boa ventura, poderia rodear com todo direito a Espada do Estranho Cinturão.&lt;br /&gt;(VS.  4707-4787)&lt;br /&gt; Então a donzela, que já havia dito tudo o que queria, calou-se e não nada mais. Meu senhor Gauvain ficou de pé em um salto. Disse que iria e faria tudo que pudesse para socorrer à donzela. Por sua parte, Girflet, o filho de Do, disse que, se Deus lhe ajudasse, iria ante o Castelo Orgulhoso.&lt;br /&gt;—E eu subirei ao Monte Doloroso —disse Kahedín—,  e não retrocederei até chegar ali.&lt;br /&gt; Perceval falou de modo distinto. Disse que em toda sua vida não dormiria duas noites seguidas no mesmo albergue. Quando tivesse novas de um caminho difícil, não deixaria de passar por ele. Quando soubesse de um cavaleiro que vale mais que outro, ou que outros dois, não se absteria de lutar com ele, até saber a quem serve o Graal. Até encontrar a lança que sangra e lhe diga a verdade comprovada do porquê sangra, por nenhum trabalho deixará de fazê-lo.&lt;br /&gt; Levantaram-se perto de cinqüenta cavaleiros, comprometendo-se e juramentado a dar toda sorte de maravilhas e aventuras de que tenham notícia, embora seja em uma daninha terra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;   PROVOCAÇÃO DE GUINGANBRESIL&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Enquanto preparavam-se e armavam-se, entra Guinganbresil pela porta da sala, com um escudo de ouro, no qual um pedaço azul ocupava a terceira parte perfeitamente medida. Guinganbresil reconheceu ao rei e o saudou como devia; mas não saudou Gauvain, ao qual acusou de traição dizendo:&lt;br /&gt;—Gauvain, você matou a meu senhor, e o fez sem havê-lo desafiado. Por isso é digno de vergonha, recriminação e censura, acuso-o de traição. Saibam bem todos estes barões que não menti nem em uma só palavra.&lt;br /&gt; Ao ouvir isto meu senhor Gauvain ficou em pé de um pulo muito deslocado e seu irmão, Agrevain o Orgulhoso, ergueu-se, reteve-o e lhe disse:&lt;br /&gt;—Por Deus, gentil senhor! Não desonre sua linhagem. Eu lhe defenderei desta recriminação, reprovação, censura, crítica, vergonha que este cavaleiro lhe acusa, prometo-lhe!&lt;br /&gt;Ele contestou:&lt;br /&gt;—Irmão, ninguém me defenderá a não ser eu mesmo, sou eu quem deve defender-se porque só a mim acusa. Todavia, se eu machucasse algum cavaleiro e soubesse; com muito prazer pediria paz e proporia tal reparação, que tanto seus amigos como meus encontrariam-no bem. Como o que disse é um ultraje, eu defendo-me dele; ofereço minha prenda, aqui ou onde o agrade.&lt;br /&gt;(VS. 4788-4866)&lt;br /&gt; E ele diz que lhe provará a vergonhosa e vilã traição ao cabo da quarentena, ante o rei do Escavalón, quem, a seu julgamento e parecer, é mais formoso que Absalón.&lt;br /&gt;—E eu te juro —diz Gauvain— que imediatamente te seguirei, e ali veremos quem imporá seu direito.&lt;br /&gt; Nesse instante, Guinganbresil volta e meu senhor Gauvain prepara-se para segui-lo sem demora. Quem tinha bom cavalo, boa lança, boa armadura, ou boa espada, apressou-se a oferecer-lhe, porém não lhe agradou levar nada alheio. Levou consigo sete escudeiros, sete cavalos e dois escudos. Antes de sair da corte se fez por ele grande duelo: houve peitos golpeados, cabelos arrancados e muitas caras arranhadas. Não houve dama, por mais judiciosa que fosse, que não manifestasse grande dor por ele. Grande pranto derramam muitas e muitos; e meu senhor Gauvain se vai.&lt;br /&gt; Ouvir-me-ão relatar muito longamente as aventuras  que encontrou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;        GAUVAIN E A DONZELA DAS MANGAS PEQUENAS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Primeiro viu passar de um lado uma comitiva de cavaleiros. Perguntou a um escudeiro, que ia sozinho atrás, levando guarnição, um cavalo espanhol e um escudo ao pescoço:&lt;br /&gt;—Escudeiro, diga-me quem são estes que passam por aqui.&lt;br /&gt;E lhe respondeu:&lt;br /&gt;—Senhor, é Meliant de Liz, um cavaleiro nobre e valente.&lt;br /&gt;—É você dele?&lt;br /&gt;—Não; meu senhor se chama Traé d'Anet, e não vale  menos que ele.&lt;br /&gt;—A minha fé —disse meu senhor Gauvain—, que conheço bem Traé d'Anet. Aonde vai? Não me oculte isso.&lt;br /&gt;—Senhor, vai a um torneio que Meliant de Liz fixou contra Tiebaut de Tintaguel, e meu desejo seria que fossem ao castelo para lutar contra os de fora.&lt;br /&gt;—Deus! —exclamou então meu senhor Gauvain—,  não foi Meliant de Liz criado na casa de Tiebaut?&lt;br /&gt;    —Sim, senhor; assim Deus me salve; seu pai amou  muito ao Tiebaut como amigo dele, e tanto confiou nele, que em seu leito de morte encomendou a seu filho, que era menino. Ele o criou e cuidou o mais carinhosamente possível, até que foi capaz de pedir e requerer o amor de uma filha dele; ela disse que não lhe concederia seu amor enquanto fosse escudeiro. E ele, que desejava grandes batalhas, fez-se armar cavaleiro em seguida e insistiu em sua petição. "Isso não será de modo algum —disse a donzela—, a minha fé, até que, diante de mim, faça tantas armas e lute tanto que meu amor lhe custe caro; porque as coisas que se adquirem de balde, não são tão doces e saborosas como as que compram. Se quer ter meu amor, faça um acordo para um torneio com meu Pai, porque quero me assegurar bem de que meu  amor estará seguro se o ponho em você." E, tal como ela propôs, o torneio foi fixado, porque amor tem tão grande senhorio sobre aqueles que estão sob seu domínio, que não ousaria negar nada que se dignasse lhes ordenar. Muito indolente seria você se não entrasse no recinto do castelo, pois, se o quer ajudar, terá grande necessidade de você.&lt;br /&gt;(VS. 4867-4955)&lt;br /&gt;E lhe respondeu:&lt;br /&gt;—Vá, irmão! Segue a seu senhor, é o melhor que pode fazer, e deixa estar tudo isto.&lt;br /&gt; Então ele partiu. Meu senhor Gauvain seguiu seu caminho, sem deixar de dirigir-se ao Tintaguel, pois não podia passar por outro local.&lt;br /&gt; Tiebaut reunia todos os seus parentes e primos. Chamou seus vizinhos, todos atenderam, poderosos e humildes, jovens e anciões. Tiebaut não encontrou em seu conselho privado aprovação para tornear com seu senhor; pois, tinham muito medo que os queria destruir completamente. Fizeram murar bem o castelo e revogar todas suas entradas. As portas foram muradas com pedras duras e morteiro, que já não necessitou outro porteiro. Só deixaram limpa uma pequena abertura, cuja porta não era precisamente de vidro. Para que durasse, era de cobre, fechavam-na com uma barra e havia nela o ferro que cabe em um carro.&lt;br /&gt; Para esta porta dirigia-se meu senhor Gauvain com  todo seu impedimento, por aqui tinha que passar ao voltar. Não havia outra via, nem caminho, até sete léguas largas. Quando viu que a abertura estava fechada, meteu-se por uma plantação cercada com estacas que havia ao pé da torre; desmontou-se ao lado de um carvalho em que pendurou seus escudos. Viam-no a gente do castelo, a maioria da qual tinha grande pena, porque se suspendeu o torneio. Havia no castelo um velho lavrador, muito temido e muito sábio. Poderoso por suas terras e por sua linhagem, acreditavam em tudo que dizia, qualquer que fosse o resultado. Quando os que chegavam lhe foram mostrados de longe, antes de que tivessem entrado no prado cercado, foi falar com Tiebaut e o aconselhou:&lt;br /&gt; —Senhor, assim Deus me salve, que vi cavalgando dois cavaleiros vindo aqui. A meu ver são companheiros do rei Artur. Dois mestres têm muita categoria, e até um só pode vencer em um torneio. De minha parte aconselharia que fôssemos decididamente ao torneio, pois têm bons cavaleiros, bons soldados e bons arqueiros que lhes matarão os cavalos. Estou seguro de que deverão tornear para esta porta. Se seu orgulho os trouxer até aqui, nosso será o ganho e deles a perda e a quebra.&lt;br /&gt;(VS. 4956-5047)&lt;br /&gt; Seguindo este conselho, Tiebaut permitiu a todos que se armassem e que saíssem armados os que ali fossem. Agora alegram-se os cavaleiros. Os escudeiros correm às armas, aos cavalos e selam-os. As damas e as donzelas sentam-se nos lugares mais altos para contemplar o torneio; e vêem, debaixo delas, na esplanada, o impedimento de meu senhor Gauvain. No início parecia que havia dois cavaleiros com dois escudos pendurados. Dizem que se colocaram acima para ver tudo, consideram-se nascidas em boa hora porque poderão ver estes dois cavaleiros que se armarão diante delas. Isto supunham umas, mas havia outras que diziam:&lt;br /&gt; —Deus, meu senhor! Este cavaleiro leva tanta guarnição e tantos corcéis que haveria suficiente para dois, e não vai com nenhum companheiro. O que fará com dois escudos? Nunca foi visto cavaleiro que levasse dois escudos juntos.&lt;br /&gt; Parece-lhes assombroso que se aquele cavaleiro for  sozinho, leve dois escudos. Enquanto falavam deste modo e os cavaleiros saíam, a filha maior de Tiebaut, a qual solicitou o torneio, subiu à parte alta da torre. Com a maior estava a pequena, que vestia seus braços tão graciosamente que era chamada a Donzela das Mangas Pequenas, pois as levava muito justas, apertadas, comprimidas. Junto com as duas filhas do Tiebaut subiram todas as damas e as donzelas. Naquele momento, diante do castelo reúnem-se ao torneio; não havia ninguém tão arrumado como Meliant de Liz, ao julgamento de sua amiga, que dizia às damas ao seu redor:&lt;br /&gt;—Senhoras, não saberia lhes mentir, mas lhes asseguro  que nunca vi nenhum cavaleiro que eu gostasse tanto como Meliant de Liz. Há maior distração e deleite que contemplar a tão formoso cavaleiro? Quem tão bem sabe conduzir-se, bem tem que montar a cavalo, dirigir lança e escudo.&lt;br /&gt; E sua irmã, que estava sentada a seu lado, disse-lhe que havia outro mais galhardo. E aquela se encolerizou tanto, que se levantou para pegá-la, mas as damas jogaram-na para trás, detiveram-na e impediram-na que lhe desse, o que lhe pesou muito.&lt;br /&gt; Começa o torneio, no qual se quebrou muita lança, deram-se muitos golpes com as espadas e houve muitos cavaleiros derrubados. Saibam que, quem luta com Meliant de Liz, muito caro lhe custa, pois ante sua lança não há quem resista sem cair pelo duro chão. Caso quebre a lança, atira grandes golpes com a espada, e o faz melhor que quantos há em uma ou em outra parte. Sua amiga sente tanto prazer que não pode calar-se, e diz:&lt;br /&gt;—Senhoras,  vejam que maravilha! Nunca viram, nem  ouviram falar de nada parecido. Vejam  aqui ao mais valente moço, que jamais viram seus olhos; é o mais formoso e o que melhor luta de todos os que há no torneio.&lt;br /&gt;E a pequena disse:&lt;br /&gt;—Eu vejo outro que talvez é mais galhardo e  melhor.&lt;br /&gt;Naquele momento aquela, como acesa e fogosa, interpela-a:&lt;br /&gt;—Você, menina, fostes tão atrevida que por sua má ventura ousastes censurar a criatura que eu tenha gabado? Tenha esta bofetada, e lhes guarde de voltá-lo para fazer.&lt;br /&gt;(VS. 5048-5126)&lt;br /&gt; E lhe pega de tal modo que lhe marca todos os dedos no rosto. As damas que estão a seu lado  a repreendem muito e tiram-na. Pouco depois voltam a falar entre elas de meu senhor Gauvain:&lt;br /&gt;—Por Deus! —diz uma das donzelas—. O  cavaleiro que está debaixo daquela árvore, que espera, por que não se arma?&lt;br /&gt;Outra mais inoportuna lhes diz:&lt;br /&gt;—Jurou a paz.&lt;br /&gt;Outra acrescenta depois:&lt;br /&gt;—É um mercador. Não parece que intervenha no torneio. Todos estes cavalos os traz para vendê-los.&lt;br /&gt; —Não, é um banqueiro —diz a quarta—. A única coisa que quer é distribuir dinheiro que leva  entre os pobres escudeiros que há por aqui. Não creiam que vos engano: nestes sacos e nestas malas há moeda e baixela.&lt;br /&gt; —Têm muito má língua, na verdade —diz a pequena—, e se equivocam. Imaginem um mercador com uma lança tão grande como a que leva? Têm-me morta com as diabruras que dizem. Pela fé que devo ao Espírito Santo, mais parece um torneiro que um mercador, ou um banqueiro. É cavaleiro, bem o parece.&lt;br /&gt;Todas as damas lhe atalham:&lt;br /&gt;—Têm razão, formosa amiga: se o parece é que não o é. Mas, finge sê-lo porque assim imagina defraudar os impostos e os pedágios. É tolo! Creio, desta não passa sem que seja detento como ladrão, preso, surpreendido em um  roubo vil e néscio; e pendurem uma corda ao pescoço.&lt;br /&gt; Meu senhor Gauvain ouve claramente os escárnios que as damas dizem dele. Sente grande vergonha e grande irritação; pensa, e tem razão, que lhe acusam de traição e que deve se defender. Caso não se apresentasse na batalha, como jurou, desonraria a ele primeiro e depois a toda sua linhagem. Temendo a possibilidade de ser ferido ou preso, não participara do torneio; embora tivesse muita vontade, pois, vê que a briga cada vez se faz mais forte e melhora.&lt;br /&gt; Meliant de Liz pede lanças grossas para atacar melhor. Todo o dia, até o entardecer, houve torneio diante da porta. Quem algo ganhou o leva onde melhor aprouver para ter mais a salvo. As damas vêem um escudeiro gordo e calvo que agarrava uma  parte de lança e levava uma renda ao pescoço. Uma das damas lhe chama néscio e tolo, dizendo:&lt;br /&gt; —Deus me valha, escudeiro, que é um louco desatado. Vai pela refrega roubando ferros de lança, rendas, lascas e pedaços. Assim se equipa de escudeiro? Quem tanto se rebaixa, pouco se aprecia a si mesmo. Vejo muito perto de você, neste campo debaixo de nós, uma fortuna sem custódia nem defesa. Néscio é quem não pensa em seu proveito enquanto pode consegui-lo. Vejam o cavaleiro mais bondoso que jamais existiu, que não se moveria embora lhe cortassem os bigodes. Não menospreze este troféu, proceda corretamente dando procuração de todos estes cavalos e do resto da fazenda, que ninguém lhe impedirá disso.&lt;br /&gt;(VS.  5127-5229)&lt;br /&gt; Imediatamente aquele entrou no campo, deu num dos cavalos com a ponta da lança e disse:&lt;br /&gt; —Vassalo, acaso não está bom e são que lhe aconteceu todo o dia aqui encostado, sem fazer absolutamente nada e sem simular escudo, nem quebrar lança?&lt;br /&gt; —Diga-me —contesta—, e a ti o que te importa?  Talvez chegarás a saber o motivo da abstenção; por minha cabeça, agora não é digno explicar. Sai daqui, segue teu caminho e te ocupe de ti mesmo.&lt;br /&gt; Afastou-se dele em seguida, não era capaz de atrever-se a insistir em coisa que o zangasse.&lt;br /&gt; Suspendeu-se o torneio. Houve muitos  cavaleiros prisioneiros e muitos cavalos mortos; se os de fora levaram o mérito, os de dentro ganharam ganância. Ao separar-se de noite, depois de haver-se comprometido a reunir-se no dia seguinte no campo para tornear, entraram no castelo os que dali tinham saído. Também meu senhor Gauvain, entrou atrás da comitiva e encontrou diante da porta o nobre lavrador que tinha aconselhado a seu senhor que começasse o torneio. Com graça e amabilidade lhe pediu que o albergasse.&lt;br /&gt; —Senhor —lhe respondeu—, neste castelo têm albergue preparado para descansar se o agradar. Se seguisse mais adiante, hoje não encontraria bom albergue, por isso, rogo: fique aqui.&lt;br /&gt; —Gentil senhor — disse Gauvain—, ficarei muito agradecido, pois, coisas piores ouvi dizer.&lt;br /&gt; O lavrador o leva a sua casa, falando disso e daquilo, perguntou a que se devia que durante todo o dia não tivesse intervindo com suas armas no torneio. E lhe deu cumprida razão: que lhe acusava de traição, e temia cair prisioneiro, ou ser ferido ou maltratado; o que o impediria de justificar-se da injúria. Parecia-lhe que com sua demora poderia desonrar a si mesmo e a todos seus amigos, senão fosse na hora em que a batalha fora acertada. O lavrador o elogiou. Disse que lhe parecia muito bem, pois se por isso se inibiu do torneio, era muito razoável. E o acompanha até sua casa, na qual os dois desmontam.&lt;br /&gt; A gente do castelo dedica-se a culpá-lo duramente e sustenta uma grande discussão para decidir como seu senhor poderia prendê-lo. A filha maior insiste nisso quanto pode, sabe o ódio da sua irmã, e diz:&lt;br /&gt; —Senhor, bem sei que hoje nada perdeu, mas sim, creio que ganhou muito mais do que imagina e lhe direi porque. Erraria se limitasse a ordenar que vá prendê-lo, pois não se atreverá  a  defendê-lo  quem o entrou  nesta vila, porque vive de malas super cheias. Leva consigo lanças, escudos, conduz cavalos para parecer cavaleiro; e assim, defraudar nos impostos, pois desta sorte se finge isento quando viaja com suas mercadorias. Dêem o prêmio que merece; está na casa de Garín, o filho da Berta, que o albergou. Por aqui passou recentemente e vi que ele o levava para lá.&lt;br /&gt;(VS. 5230-5317)&lt;br /&gt; Assim esforçava-se em que lhe fizesse humilhação. O senhor, na mesma hora sobe e caminha à casa de meu senhor Gauvain vivia, porque queria ir em pessoa. Quando a filha pequena viu que se ia em tal disposição, saiu por uma porta traseira, sem preocupar-se de que a visse. Foi diretamente ao albergue de meu senhor Gauvain, na casa de Garín, o filho da Berta, que tinha duas filhas muito formosas. Quando viram estas donzelas que sua pequena senhora se aproximava, sentiram-se obrigadas a manifestar alegria, o que fizeram sem dissimulação. Tomaram-na pelas mãos e  receberam-na com grande prazer beijando-lhe os olhos e a boca.&lt;br /&gt; Garín, que não era pobre nem carente, havia tornado a montar a cavalo e, junto com seu filho Hermán, dirigia-se a corte, como de costume, porque queriam falar com seu senhor,  entretanto, encontraram-no no meio da rua. O lavrador saudou-o e perguntou onde ia. Ele respondeu que ia recrear-se na sua casa.&lt;br /&gt; —Por minha fé —disse Garín—, que isto não me molesta, nem me desagrada: você poderá ver o mais galhardo cavaleiro da terra.&lt;br /&gt; —Por minha fé —atalha o senhor—, não é esta precisamente minha intenção, mas prendê-lo. É um mercador que deve vender cavalos e se faz passar por cavaleiro.&lt;br /&gt; —Vá! —disse Garín—. De muito vil assunto me falam. Eu sou seu vassalo e você meu senhor, mas aqui mesmo lhe devolvo sua comemoração. Agora mesmo o desafio, em meu nome e de toda minha linhagem, antes que tolerar que em minha casa faça a este alguma inconveniência.&lt;br /&gt; —Nunca pretendi fazê-la, assim Deus me valha  —diz o senhor—, e sua casa e seu hóspede só receberão de mim honra; não precisamente, a minha fé, porque me tenha aconselhado isso e tenha sido admoestado.&lt;br /&gt; —Muito obrigado —diz o lavrador—, e será para mim uma grande honra se vier a meu hóspede. &lt;br /&gt; Aproximam-se um ao outro e vão juntos em seguida, até chegar à casa onde estava meu senhor Gauvain. Quando este, que tinha muito boa criação, viu-o, levantou-se e disse:&lt;br /&gt; —Bem vindo seja.&lt;br /&gt; Os dois saudaram-no e sentaram-se ao seu lado. O senhor daquele país lhe perguntou por que durante todo o dia, já que tinha vindo ao torneio, absteve-se de tornear. Ele, sem negar, porque isso lhe produziu rubro e vergonha, conta-lhe em seguida que um cavaleiro o acusava de traição e que ia a uma corte real defender-se.&lt;br /&gt; —Justo motivo teve, sem dúvida alguma —disse  o senhor—. Mas onde será esta batalha?&lt;br /&gt; —Senhor —responde—, devo me apresentar ante o  rei de Escavalón, e vou pelo caminho mais reto, imagino.&lt;br /&gt;(VS. 5318-5400)&lt;br /&gt; —Eu lhe darei uma escolta que lhe conduzirá —disse  o senhor—. Como precisa passar por uma terra muito pobre, dar-lhe-ei mantimentos e cavalos para levar.&lt;br /&gt; Meu senhor Gauvain responde que não tem necessidade de aceitá-lo; pois, se os pode encontrar à venda, terá grande abundância de mantimentos. Também bom albergue e tudo o que necessite, vá onde vá, ele não aceita o oferecimento.&lt;br /&gt; Nisso o senhor levanta para ir-se, todavia ao fazê-lo vê que pela outra parte vem sua filha pequena, a qual imediatamente abraçou ao Gauvain pelas pernas e dizendo:&lt;br /&gt; —Gentil senhor, me escute, que venho quedar-me em seus pés, por minha irmã, que me pegou. Faça-me justiça, se o agradar.&lt;br /&gt; Meu senhor Gauvain ficou calado, porque não  sabia a quem se referia. Passou a mão pela cabeça da donzela ela sai dele e diz:&lt;br /&gt; —Com você falo, gentil senhor, queixo-me de minha irmã, a qual não quero, nem amo, porque por sua causa hoje, fez-me uma grande afronta.&lt;br /&gt; —E a mim, formosa, o que me diz respeito? —diz ele—.  Que justiça posso lhe fazer?&lt;br /&gt; O senhor, que já se despediu, para ouvir o que  sua filha pedia lhe disse:&lt;br /&gt; —Filha, quem vos manda vir reclamar ante os cavaleiros?&lt;br /&gt;E Gauvain perguntou:&lt;br /&gt; —Amável senhor, esta é, pois, sua filha?&lt;br /&gt; —Sim —responde o senhor—, mas não faça caso de suas palavras. É muito menina, uma boba criatura amalucada.&lt;br /&gt;—Sim, mas eu seria muito grosseiro —diz meu senhor Gauvain— se não escutasse o que quer. Diga-me —acrescenta—,minha doce e boa menina, que justiça poderia lhe fazer de sua irmã, e como?&lt;br /&gt;—Senhor, só é preciso que amanhã, por amor a  mim, agrade-me entrando armado no torneio.&lt;br /&gt;—Diga-me, amiga querida, se alguma outra sua vez viu necessidade de requerer a algum cavaleiro.&lt;br /&gt;—Nunca, senhor.&lt;br /&gt;—Não faça caso do que diz —interrompe o  senhor—, e não escute suas tolices.&lt;br /&gt;Meu senhor Gauvain lhe disse:&lt;br /&gt;—Senhor, assim Deus me ajude, há dito umas criancices tão graciosas, como qualquer donzela tão pequena, que não o negarei; já que o deseja, amanhã serei por um momento seu cavaleiro.&lt;br /&gt; —Agradeço-lhe muito, gentil senhor cavaleiro— disse ela, que estava tão contente que se inclinou  a seus pés.&lt;br /&gt; Então partiram sem dizer nada mais. O senhor coloca sua filha no pescoço do cavalo. Pergunta-lhe porque surgiu  tal questão. Conta-lhe a verdade de cabo a rabo, dizendo:&lt;br /&gt;—Senhor, era-me muito desagradável ouvir minha irmã que assegurava que Meliant de Liz era o melhor e o mais formoso de todos. Eu, que tinha visto abaixo no prado este cavaleiro, não pude evitar contradizê-la afirmando que via um mais formoso. Por isso minha irmã me chamou néscia menina e me surrou, e maldito seja o que lhe divertiu. Deixaria-me cortar as duas tranças até a nuca, o que me afetaria muito, em troca de que no dia de amanhã meu cavaleiro, em meio a briga, derrubasse Meliant de Liz. Cessariam então os gritos de minha senhora irmã, que hoje sustentou uma grande discussão zangando todas as damas; mas, à grande vento pouca chuva.&lt;br /&gt;(VS. 5401-5493)&lt;br /&gt; —Formosa filha — diz o senhor—, recomendo-lhe e permito-lhe, por ser de grande cortesia, que lhe envie algum objeto pela amizade, seja uma manga, seja uma touca.&lt;br /&gt;Ela, que era muito inocente, responde-lhe:&lt;br /&gt;—Muito grata o farei, se você disser; mas, minhas mangas são tão pequenas que não ousaria lhe enviar uma. Talvez não a apreciasse em nada.&lt;br /&gt; —Filha —disse o senhor — , já pensei nisso. Agora  cale-se, que estou muito satisfeito.&lt;br /&gt; Assim falando, leva-a entre seus braços. Grande prazer proporciona que a abrace e a agarre, até que chegam ante o palácio. Quando a outra o viu chegar levando diante à pequena, sentiu grande sanha em seu coração e lhe disse:&lt;br /&gt; —Senhor, de onde vem minha irmã, a Donzela das Mangas Pequenas? Já sabe muitas manhas e muitas argúcias, e se aviva muito breve. Mas onde a levastes?&lt;br /&gt; —E a você o que importa? —responde ele—. Deveria calar-se, que ela vale mais que você. Pegou e puxou suas tranças, o que muito me pesa. Não obrou com cortesia.&lt;br /&gt; Ficou muito turvada pela rixa e reprimenda de seu pai. &lt;br /&gt; Este tirou de um cofre, um tecido de seda vermelha, cortou, fez uma manga muito longa e folgada; chamou sua filha e lhe disse:&lt;br /&gt; —Filha, levante amanhã bem cedo e vá ao  cavaleiro antes de sair. Dê-lhe por amor esta manga nova, e que a leve quando for ao torneio.&lt;br /&gt; Ela responde a seu pai que, assim que veja amanhecer a alvorada clara, despertará com muito prazer e se lavará e se comporá.&lt;br /&gt; Depois destas palavras o pai se foi. Ela muito agraciada rogou à todos os seus acompanhantes que não a deixassem dormir muito pela manhã e que se apressassem a despertá-la assim que vissem amanhecer, se realmente queriam seu amor.&lt;br /&gt; Cumpriram-no fielmente, pois assim que viram pela madrugada quebrar a alvorada, fizeram-na vestir-se e levantar-se. A donzela se levantou cedo. Completamente só foi ao albergue de meu senhor Gauvain. Não chegou tão cedo, porque todos se levantaram antes para ir ao monastério ouvir uma missa cantada para eles. A donzela aguardou na casa do lavrador até que rezaram longamente e ouviram tudo o que deviam ouvir. Quando retornaram do monastério, correu para meu senhor Gauvain e lhe disse:&lt;br /&gt; —Deus o salve e lhe dê honra no dia de hoje. Mas, por meu amor leve esta manga que lhe trago.&lt;br /&gt;(VS. 5494-5583)&lt;br /&gt; —De bom grado a levarei e muito agradeço, amiga —respondeu meu senhor Gauvain.&lt;br /&gt; Não demorou muito para começar armarem-se os  cavaleiros. Reuniram-se fora da vila. Por outro lado as donzelas e todas as damas do castelo, subiram às muralhas e viram a chegada das comitivas de cavaleiros fortes e bravos. Adiantando-se a todos Meliant de Liz galopa para o campo de batalha, deixando seus companheiros atrasados duas trampadas e meia. Quando a amiga vai a seu amigo, não pode calar a língua, e diz:&lt;br /&gt; —Senhoras, devem ver o qual possui a fama e o senhorio da cavalaria.&lt;br /&gt; Meu senhor Gauvain precipita-se tanto quanto pode correr seu cavalo, para aquele que não teme e que faz pedaços de sua lança. Meu senhor Gauvain ataca-o. Causa-lhe tal quebra, que o deixa em terra de barriga para cima. Tende a mão para seu cavalo, agarra-o por freio, entrega-o a um pajem. Diz para entregar àquela pela qual torneia. Diz ainda que envia o primeiro troféu que ganhou naquele dia, porque quer que seja dela. O pajem leva o cavalo com sua sela à donzela, que de uma janela da torre tinha visto cair Meliant de Liz, e diz:&lt;br /&gt; —Irmã, agora pode ver pelo chão Meliant de Liz, ao qual tanto ponderou. Só o bom conhecedor sabe elogiar justamente. Agora  confirma-se o que disse ontem. Agora se vê bem claro, assim Deus me salve, quem vale mais.&lt;br /&gt; Assim, com toda a intenção, vai mortificando sua irmã. Ela cansada da gozação diz:&lt;br /&gt; —Cale-se, menina! Se voltar a ouvir dizer uma só palavra, darei tantas bofetadas que os pés não lhe agüentarão direita.&lt;br /&gt; —Não tente Deus, irmã —diz a donzela pequena—, porque não é justo que me pegue por haver dito a verdade. O certo é que eu o vi bem derrubado, e você tão bem como eu; e me parece que ainda não tem forças para levantar-se. Embora arrebentado, devo-lhe acrescentar que não há aqui dama que não o veja espernear jogado no chão.&lt;br /&gt; A outra, não podia suportá-lo. Tinha lhe dado um soco, mas as damas que estavam ao redor não deixaram que a pegasse. Então viram o escudeiro vindo, que levava o cavalo preso com a mão direita, o qual, quando encontrou à donzela sentada em uma janela, o ofereceu. Deu-lhe mais de sessenta obrigado, e fez guardar o cavalo. O pajem foi transmitir as graças a seu senhor, o qual bem parecia ser o amo e senhor do torneio, pois não há cavaleiro, por mais destro que seja, que se lhe aponta com a lança, não lhe solte os estribos. Nunca tinha tido tanta ânsia de ganhar corcéis. Quatro, que ganhou com seu esforço, ofereceu naquele dia: o primeiro o enviou à donzela pequena; com o segundo correspondeu aos cuidados da mulher do lavrador, a quem lhe agradou muito; e as duas filhas deste tiveram o terceiro e o quarto.&lt;br /&gt;(VS. 5584-5677)&lt;br /&gt; Finaliza o torneio. Meu senhor Gauvain  retorna pela porta levando a primazia de um campo e de outro. Ainda não era meio-dia quando saiu do campo de batalha. Em sua volta acompanhava meu senhor Gauvain, uma grande comitiva de cavaleiros, enchendo a vila. Todos quantos o seguiam perguntavam e queriam saber quem era e de que país. Frente à porta de seu albergue encontra à donzela, que assim que o viu lhe sujeitou o estribo, saudou-o e lhe disse:&lt;br /&gt; —Quinhentas mil vezes obrigada, gentil senhor.&lt;br /&gt; Ele, compreendendo bem o que queria dizer, respondeu-lhe muito afável: .&lt;br /&gt; —Donzela, minha cabeça estará branca antes de que me desentenda de lhe servir, em qualquer lugar que me ache. Por mais afastado que esteja de você, não haverá obstáculo que me impeça, se souber que necessita, acudir assim que receba a primeira mensagem.&lt;br /&gt; —Muito obrigada —disse a donzela.&lt;br /&gt; Conversavam quando chegou à praça o pai, que pôs todo seu empenho em que meu senhor Gauvain ficasse aquela noite e se albergasse em sua casa; mas antes lhe pede e lhe roga que, se o tiver a bem, diga-lhe seu nome. Meu senhor Gauvain declinou o convite e lhe disse:&lt;br /&gt; —Senhor, meu nome é Gauvain; jamais ocultei meu nome quando perguntado, mas nunca o disse se antes não me pedia.&lt;br /&gt; Quando o senhor ouviu que era meu senhor Gauvain,  seu coração se encheu de alegria e lhe disse:&lt;br /&gt; —Fique, senhor! Admita que esta noite lhe obsequie, que ontem não o fiz, e lhe posso jurar que jamais vi cavaleiro a quem queria honrar tanto.&lt;br /&gt; Todavia, meu senhor Gauvain não aceitou o que tanto lhe rogava. A donzela pequena, que não era néscia, nem má, ajoelhou aos seus pés para beijá-los recomendando-o a Deus. Meu senhor Gauvain lhe perguntou com que intenção o tinha feito, e lhe respondeu que lhe tinha beijado o pé com o propósito de que se lembrasse dela em qualquer lugar que estivesse. E lhe disse:&lt;br /&gt;—Não duvide! Valha-me Deus, formosa amiga, desde que parta daqui jamais lhe esquecerei.&lt;br /&gt; Então partiu, depois de despedir-se de sua hospedeira, de toda a gente, todos o recomendaram a Deus.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    GAUVAIN EM ESCAVALÓN&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Meu senhor Gauvain dormiu aquela noite em uma  abadia, onde não lhe faltou nada. Ao dia seguinte, muito de amanhã, ia cavalgando por seu caminho e deparou-se com uns veados que pastavam nos confins de uma floresta. Disse ao Yonet que se detivera, que se dedicasse ao melhor de seus cavalos, que levava com a mão direita. Pediu para preparar uma lança muito resistente e forte;  que se fizesse cargo de seu cavalo; para não se entreter e sem demora lhe entregar o cavalo e a lança. Gauvain fica perseguindo os veados. Deu tantas voltas e os enganou com tantos ardis, que apanhou um branco em um sarçal atingindo-lhe no pescoço com a lança. Mas, o veado salta como um cervo e lhe escapa. Ele o persegue e está a ponto de alcançá-lo, e o tivesse apressado se seu cavalo não tivesse perdido a ferradura de uma de suas patas dianteiras. Meu senhor Gauvain volta a empreender o caminho atrás de seu impedimento, pois nota que seu cavalo se debilita com seu peso, e isso lhe preocupa muito. Não sabe porque coxeia, a não ser que a pata tivesse torcida. Chamou em seguida Yonet e lhe ordenou que o desmontasse; que visse o que acontecia com seu cavalo, que coxeava excessivamente. Segue suas ordens, levanta-lhe uma pata, vê que lhe falta uma ferradura, e diz:&lt;br /&gt;(VS. 5678-5780)&lt;br /&gt;—Senhor, terá que ferrá-lo; não anda se não seguir muito devagar até que encontremos um ferrador que possa voltar a ferrá-lo.&lt;br /&gt; Foram seguindo seu caminho até que viram um grupo de gente que saía de um castelo e que avançava por um meio-fio. Adiante, iam a pé, uns moços arregaçados que levavam cães; logo vinham caçadores com arcos e flechas, e depois cavaleiros. Detrás destes cavaleiros iam dois em dois corcéis; um deles era jovem, o mais gentil e galhardo de todos. Este foi o único que saudou meu senhor Gauvain, dando-lhe a mão e lhe disse:&lt;br /&gt; —Senhor, detenho-lhes. Vão ali de onde eu venho e entrem em minha mansão. Já é hora e ocasião de albergarem-se, se não lhes incomodar. Tenho uma irmã muito cortês que lhes tratará com muita atenção. Senhor, este que vêem meu lado lhes conduzirá.&lt;br /&gt; Dirigindo-se ao aludido, ordenou-lhe: &lt;br /&gt; —Gentil companheiro, vá com estes senhores e os leve à minha irmã. Após apresentá-los, diga que lhe encarrego, em nome do amor e da grande fé que deve existir entre ela e eu, que ame e queira a este cavaleiro como a mim; trate-o como me trataria, que sou seu irmão. Dê-lhe distração; faça-lhe companhia; sejam todos agradáveis, até que retornemos. Depois dela recebê-lo, com toda a amabilidade, sigam-nos rapidamente, porque eu voltarei para lhe fazer companhia o mais rápido que possa.&lt;br /&gt; O cavaleiro empreende a marcha. Conduz a meu senhor Gauvain ali onde todos o odeiam de morte; todavia, não o conhecem porque nunca o viram, e ele, por sua vez, não crê ter de precaver-se. Contempla a situação do castelo, que estava edificado em um braço de mar; vê os muros e a torre, tão forte que nada pode temer. Olha a vila toda, povoada de gente muito agradável; os bancos de câmbio de ouro e de prata cobertos de moedas; as praças e as ruas cheias de bons menestréis entregues a diversos ofícios. São tão diversos os ofícios que um faz cascos, outro armaduras, um selas, outro escudos; armação da sela de montar, outro esporas; uns lustram espadas; outros batem tecidos, outros os tecem, outros os penteiam e outros os tingem. Outros fundem prata e ouro, para fazerem obras ricas e preciosas: taças, copos, tigelas, jóias incrustadas em esmaltes, anéis, cinturões e broches. Dir-se-ia e acreditar-se-ia que a vila estava sempre em feiras, de tanta riqueza estava cheia: cera, pimenta, grão, peles de arminho e cinzas; e toda classe de mercadorias.&lt;br /&gt;(VS. 5781-5874)&lt;br /&gt; Olhando tudo, detendo-se em cada posto, chegaram à torre, da qual saíram pajens que recolheram todos os cavalos e toda a bagagem. O cavaleiro entrou na torre, só com meu senhor Gauvain dando-lhe a mão. Conduziu-o à câmara da donzela, dizendo:&lt;br /&gt; —Formosa amiga, seu irmão envia saúde recomendando que este senhor seja honrado e servido; não o façam a contra gosto, mas, com todo o coração, como se você fosse sua irmã e ele seu irmão. Procure não se esquivar de fazer toda sua vontade; seja liberal, franca e amável. Cuide dele, que eu vou, porque devo seguir seu irmão no bosque.&lt;br /&gt; Ela, prazerosamente, diz:&lt;br /&gt; —Bendito seja quem me enviou tal companhia como esta; quem me proporciona tão gentil companheiro não me odeia, bem ao contrário. Gentil senhor —acrescenta a donzela—, venha sentar-se aqui ao meu lado. Porque o vejo valente e gentil. Por meu irmão que me pede isso, far-lhe-ei a melhor companhia.&lt;br /&gt; Em seguida o cavaleiro se volta, pois não permanece mais com eles. Meu senhor Gauvain fica. De modo algum se queixa de estar sozinho com a donzela, que era muito cortês e muito formosa. Era tão bem educada que não podia imaginar alguém vigiando ao ficar só com ele. Ambos falavam de amor, porque se falassem de outra coisa, só perderiam o tempo. Meu senhor Gauvain solicita amores, roga-lhe e lhe diz que toda sua vida será seu cavaleiro; e ela não o rejeita, ao contrário o aceita muito de bom grado.&lt;br /&gt; De repente entrou ali, o que muito lhes incomodou, um lavrador que reconheceu meu senhor Gauvain. Encontrou-os beijando-se e desfrutando muito. Assim que viu aquele prazer não pôde manter a boca calada e gritou com grande força:&lt;br /&gt; —Mulher, maldita seja! Deus a aniquile e a desoriente porque deixa ser acariciada pelo homem que mais deveria odiar em todo mundo; beija-o e abraça-o. Faz o que é bem próprio que faça, mulher desafortunada e néscia; porque com suas mãos e não com a boca, deveria lhe arrancar o coração das vísceras. Se seus beijos lhe chegarem ao coração, arranca o coração das vísceras; mas teria feito melhor se o tivesse destroçado com as mãos, era o que devia fazer. Nada tem de mulher a que odeia o mal e ama o bem. Equivoca-se quem continuar chamando-a mulher, porque perde o nome quando só ama o bem. Bem vejo que você é mulher, porque o que se senta a seu lado matou seu pai e você o beija. Quando a mulher consegue o que deseja, pouco lhe importa todo o resto.&lt;br /&gt; Ao acabar estas palavras sai, rapidamente, antes de que meu senhor Gauvain lhe pudesse dizer nada. Ela caiu no pavimento e esteve longo tempo desvanecida. Meu senhor Gauvain levanta-a muito amargurado e doído pelo temor que ela havia sentido. Quando retornou em si disse:&lt;br /&gt;(VS. 5875-5958)&lt;br /&gt; —Ah, mortos estamos! Muito injustamente morrerei hoje por você, e você, ao que acredito, por mim. Suponho que virá aqui a plebe desta vila, e logo haverá mais de dez mil aglomerados diante desta torre. Todavia, aqui dentro há muitas armas, com as quais lhe armarei muito em breve. Um mestre só poderia defender esta abóbada contra toda uma hoste.&lt;br /&gt; Muito intranqüila corre em busca das armas. Quando estava revestido com a armadura, tanto ela como meu senhor Gauvain sentiram-se mais seguros; mas como este, por desgraça, não pôde conseguir escudo, fez um com um tabuleiro de xadrez, e lhe disse:&lt;br /&gt; —Amiga, não necessito que me busque outro escudo.&lt;br /&gt; Atirou as peças pelo chão, que eram de marfim, dez vezes maiores e do mais duro osso que qualquer outro xadrez. Viesse quem fosse, a partir de agora estava disposto a defender a porta e a entrada da torre, porque estava protegido com Excalibur, a melhor espada que jamais existiu, que talha ao ferro como se fora madeira.&lt;br /&gt; O lavrador, que tinha saído dali, encontrou o prefeito, os regentes e grande multidão de burgueses sentados juntos com os vizinhos, os quais não estavam acostumados alimentarem-se de peixes, porque estavam gordos e roliços. &lt;br /&gt; Com grande celeridade chegou à reunião, dizendo:&lt;br /&gt; —Às armas, senhores! Vamos prender ao traidor, Gauvain, que matou meu senhor.&lt;br /&gt; —Onde está? Onde está? —dizem uns e outros.&lt;br /&gt; — Dou-lhes fé de que encontrei Gauvain, o traidor comprovado, entretendo-se naquela torre —lhes diz—; abraça e beija a nossa donzela, e ela não tão somente não o rechaça, mas sim gosta e o deseja. Venham em seguida, que iremos prendê-lo. Se o entregarem a meu senhor, far-lhe-ão um grande serviço. O traidor merece ser tratado afrontosamente; mas, não obstante, capturem-no vivo, porque meu senhor o preferirá vivo que morto, e não sem razão, que os mortos não têm nada que temer. Alvorocem toda a vila e cumpram com o dever.&lt;br /&gt; Na mesma hora levantaram-se o prefeito e todos os regentes. Puderam então ver vilões furiosos tomando tochas e lanças. Via-se quem agarrasse: escudo sem tiracolo, porta e passador de sela. A divulgação espalha-se ao bando reunindo todo o povo. Tocam os sinos da comunidade para que não falte ninguém; nenhum há tão carente que não vá com forca, malho, pico ou suplício. Para matar o lesma nunca houve tanto alvoroço na Lombardía, não há ninguém tão humilde que deixe de ir com alguma arma.&lt;br /&gt; Eis aqui meu senhor Gauvain morto, se Deus não o iluminar. A donzela prepara-se valiosamente a lhe ajudar, e grita aos da comunidade:&lt;br /&gt;(VS.  5959-6055)&lt;br /&gt; —Hu, hu, vilarejo, cães raivosos, indignos servos! Que diabo lhes traz aqui? O que procuram? O que querem? Que Deus os estorve todo prazer! Valha-me Deus, que não levarão o cavaleiro que está aqui, pois antes, se a Deus agrada, haverá não sei quantos mortos e aleijados. Não chegou aqui voando, nem por caminhos ocultos, mas o enviou meu irmão em qualidade de hóspede, recomendando muito que o tratasse como a sua própria pessoa. Consideram-me vilã se lhe fizer companhia, der alegria e distração rogada por meu irmão? Quem quer escutá-lo que o escute: não o fiz por nenhuma outra razão, nem jamais imaginei loucura. O que mais lhes censuro é que me façam tanta desonra desembainhando suas espadas à porta de minha câmara, sem saberem dizer por que razão. Mesmo sabendo, nada me disseram, o que é para mim uma grande afronta.&lt;br /&gt; Enquanto ela dizia o que tinha vontade, os  outros golpeavam a porta com suas tochas até parti-la em duas metades. O porteiro de dentro, com firmeza, interceptou-os com sua espada premiou tão bem o primeiro, que outros se acovardaram e nenhum atrevido seguiu adiante; todos cuidam de si mesmo e temem por sua cabeça. Nenhum deles é tão valente que não tenha medo do porteiro, nem há quem é capaz de tocá-lo com a mão, nem que queira avançar um só passo.&lt;br /&gt; A donzela atira-lhes com muita gana as peças de xadrez que havia pelo chão. Ata a roupa e arregaça-a, jurando encolerizada que, se puder, antes de morrer fará aniquilar a todos. Mas os vilões retiram-se e decidem afundar a torre por cima deles, senão o entregarem; todavia, aqueles se defendem mais e melhor com as grossas peças de xadrez que lhes atiram. A maioria põe-se a correr para trás porque não pode suportar o assalto. Com picos de aço escavam a torre a fim de derrubá-la, já que não ousam assaltá-la, nem combater a bem defendida porta. Têm que me acreditar, se lhes agradar, que a porta era tão estreita e baixa que só com muita dificuldade poderiam-na franquear dois homens ao mesmo tempo; por isso, um valente só podia defendê-la e guardá-la. Não era necessário melhor porteiro que o que ali havia, para defender até os dentes, homens desarmados e maltratá-los.&lt;br /&gt; De tudo isto, nada sabia o senhor que o albergara. Retornou o mais rápido que pôde do bosque onde fora caçar. Aqueles, enquanto isso, escavavam a torre com picos de aço. De repente, eis aqui  Guinganbresil, que nada sabia de toda esta aventura. Chegou ao castelo galopando e ficou muito atônito pelo ruído e o martelar que faziam os vilões. Não sabia se meu senhor Gauvain estava no castelo. Quando se inteirou disso, ordenou que ninguém, fosse quem fosse, apreciaria sua pessoa, atrevendo-se a remover uma só pedra que fosse. Responderam-lhe que por ele não deixariam o que tinham empreendido. Que hoje mesmo derrubariam-no, sepultando sua própria pessoa caso entrasse no castelo. Quando viu que sua proibição não servia de nada, propôs-se ir procurar ao rei e lhe trazer para o alvoroço que tinham iniciado os burgueses. Como o rei já estava retornando do bosque, saiu ao encontro e lhe explicou:&lt;br /&gt;(VS. 6056-6148)&lt;br /&gt; —Senhor, grande afronta fez seu prefeito e seus regentes, que desde esta manhã assaltam e derrubam a torre. Se não o pagarem muito caro, não lhes perdoarei isso. Como bem sabe, eu tinha acusado Gauvain de traição, é ele quem albergo em minha mansão. Seria muito justo e razoável que, a partir do momento em que o converti em hóspede, não recebesse aqui nem desonra, nem ultraje.&lt;br /&gt; E o rei respondeu a Guinganbresil:&lt;br /&gt; —Mestre, não receberá tal enquanto nós negarmos. Muito me zanga e me pesa o que ocorreu. Não tem que me surpreender que minha gente o odeie para a morte; mas, se puder, evitarei  a prisão e as feridas desta pessoa, porque é seu hóspede.&lt;br /&gt; Assim chegaram à torre. Encontraram-na rodeada de gente movendo-se em muito alvoroço. Disse ao prefeito para ir embora e para os da comunidade que se retirassem. Foram-se, não ficou nenhum, porque esta foi a vontade do prefeito.&lt;br /&gt; Na praça havia um lavrador, nascido naquela vila, o qual aconselhava todos do país por ter  muito bom julgamento.&lt;br /&gt; —Senhor —disse este lavrador—, agora devo lhe aconselhar bem e de boa fé. De modo algum é surpreendente que quem matou seu pai a traição tenha sido assaltado, pois aqui, como sabem, é justamente odiado a morte. Mas o fato de ter sido albergado por você deve garantir isso e proteger de ser preso e de morte. Se não quer mentir, deve protegê-lo e garanti-lo. Guinganbresil, pelo que vejo, foi a corte do rei o acusar de traição. Não deve ocultar que ele veio a sua corte defender-se; mas, eu o aconselho a postergar esta batalha por um ano. Que ele vá procurar a lança cujo ferro sangra sempre; e nunca está tão enxuto, que dele não caia uma gota de sangue. Ou que lhes entregue esta lança, ou que fique a sua mercê em tal prisão, como está aqui. Então encontrarão melhor pretexto do que o que teriam agora para retê-lo preso. Asseguro que não poderiam lhe impor trabalho mais difícil de levar a termo. Ao que se odeia terá que lhe impor o mais oneroso que se pode e que se sabe; e para torturar a seu inimigo não saberia lhes aconselhar nada melhor.&lt;br /&gt; O rei se atém a este conselho. Entrou na torre. Ao ver sua irmã, encontrou-a muito encolerizada. dirigiu-se para ele, junto com meu senhor Gauvain, que não muda a cor nem treme por medo que tenha. Guinganbresil aproximou-se dele trazendo abraçado a donzela, que estava muito mudada, disse-lhe inutilmente estas palavras:&lt;br /&gt; —Senhor Gauvain, senhor Gauvain, eu lhes havia tomado sob minha guarda, mas, impus a condição de que não fosse tão ousado de entrar no castelo, nem na cidade que fosse de meu senhor, e não o permito fazê-lo. Agora não é momento de debater o que aqui fez.&lt;br /&gt;(VS. 6149-6242)&lt;br /&gt; Um sábio lavrador disse:&lt;br /&gt; —Senhor, assim Deus me ajude, tudo se pode resolver. A quem se deve exigir contas se os vilões o assaltaram? O pleito não teria falhado no dia do julgamento. Todavia, se procederá segundo o parecer do rei, meu senhor, que está aqui. Encarrega-me e eu digo que, a condição de que isso não pese nem a você, nem a ele, ambos posterguem, até dentro de um ano, esta batalha. Meu senhor Gauvain se vai, depois de haver tomado meu senhor seu juramento: que antes de um ano, sem mais prorrogação, entregar-lhe-á a lança cuja ponta goteja o sangue claro que chora. Está escrito que chegará a hora na qual todo o reino de Logre, que antigamente foi a terra dos ogros, será destruído por esta lança. Este juramento e esta fiança quer ter meu senhor o rei.&lt;br /&gt; —Na verdade —disse meu senhor Gauvain— antes me deixe morrer ou adoecer sete anos aqui dentro, do que fazer este juramento e comprometer minha palavra. Não tenho tanto medo à morte que não prefira sofrê-la e suportá-la com honra a viver com vergonha e perjurar.&lt;br /&gt; —Gentil senhor —disse o lavrador—, no sentido que quero dizer, isso não lhe causará desonra, nem  passará a pior estado. A meu ver: você jurará que colocará todo seu empenho em procurar a lança; e se não voltar com ela, reintegrar-lhe-ão nesta torre e completará o juramento.&lt;br /&gt; —Tal como você diz —respondeu—, estou disposto a prestar o juramento.&lt;br /&gt; Imediatamente lhe trouxeram um precioso relicário, e ele jurou que poria todo seu empenho em procurar a lança que sangra.&lt;br /&gt; Assim suspendeu-se a batalha entre ele e Guinganbresil. Foi postergada um ano e escapou de grande perigo quando desta já estava salvo. Antes de sair da torre, despediu-se da donzela. Disse a todos os seus pajens que voltassem para sua terra, levando todos os cavalos, exceto Gringalet. Os pajens separam-se de seu senhor e vão. Não tenho vontade de falar mais deles, nem da dor que sentiram.&lt;br /&gt; Aqui precisamente o conto cala-se sobre meu senhor Gauvain e começa a tratar de Perceval.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    PERCEVAL  E  O ERMITÃO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; A história nos diz que Perceval perdeu a memória de tal sorte que não se lembrou mais de Deus. Cinco vezes passaram abril e maio, ou seja, cinco anos inteiros, sem que entrasse em monastério, nem adorasse a Deus, nem sua cruz. Passou cinco anos, mas, não por isso, deixou de procurar cavalarias. Ia em demanda de extraordinárias aventuras, cruéis e duras; quando as encontrou mostrou-se digno delas. Enviou detentos a corte do rei Artur e sessenta cavaleiros de mérito no transcurso de cinco anos. Assim, passou cinco anos sem lembrar-se jamais de Deus. Ao cabo destes cinco anos aconteceu que ia caminhando, como estava acostumado, por um deserto, armado de todas suas armas, quando encontrou três cavaleiros; com eles até dez damas, com as cabeças cobertas com capuzes, andando a pé, descalças e vestidas de tecido simples, ordinário. Estas damas, pela salvação de suas almas e pelos pecados cometidos, faziam penitência a pé, surpreenderam-se muito ao vê-lo armado sustentando lança e escudo. Um dos três cavaleiros o parou e disse:&lt;br /&gt;(VS. 6243-6330)&lt;br /&gt; —Amável amigo, acaso não crê em Jesus Cristo, que escreveu a nova lei e deu aos cristãos? Porque, na verdade, não é bom, nem razoável, salvo grande engano, levar armas no dia que Jesus Cristo foi morto.&lt;br /&gt; Ele, que tão torturado tinha o coração, não se preocupava com o dia, a hora, nem com o tempo, respondeu:&lt;br /&gt; —Que dia é, pois, hoje?&lt;br /&gt; —Que dia senhor? Não sabe? Hoje é sexta-feira santa, dia em que se deve adorar a cruz e chorar os pecados, pois, hoje foi cravado na cruz o que foi vendido por trinta dinheiros. Aquele, que livrou de toda culpa. Viu que a culpa atava e manchava todo mundo e se fez homem por nossos pecados. É verdade que foi Deus e homem, nascido de quão virgem concebida pelo Espírito Santo, com o qual Deus recebeu carne e sangue. Foi divindade coberta por carne humana, isto é coisa certa. Quem nisto não crê, não lhe verá a face. Nasceu de Nossa Senhora. Tomou forma e alma de homem com sua Santa divindade. Quem, verdadeiramente, em tal dia como hoje, pereceu na cruz e tirou do inferno todos os seus amigos. Muito santa foi aquela morte, que salvou aos vivos; e aos mortos os ressuscitou de morte a vida. Os falsos judeus, que deveriam ser mortos como cães, por ódio que lhe tinham, fizeram grande mal a si mesmos e grande bem a nós, quando o elevaram na cruz, pois eles se perderam e nos salvaram. Todos os que nele acreditam devem fazer hoje penitência; e, se acredita em Deus, hoje não deve levar armas nem em campo, nem pelo caminho.&lt;br /&gt; —E, de onde vêm agora, assim? —perguntou Perceval.&lt;br /&gt; —Senhor, aqui perto. Fomos a um mestre, um santo ermitão que habita nesta floresta, e que é um varão tão santo, que só vive da glória de Deus.&lt;br /&gt; —Por Deus, senhores, o que fizeram ali? Que pediram? O que buscavam?&lt;br /&gt; —O que, senhor? —disse uma das damas— Pedimos conselhos para nossos pecados e nos confessamos. Fizemos o mais importante, que pode fazer um cristão, que queira ser semelhante a Nosso Senhor.&lt;br /&gt; Ouvindo isso, Perceval chorou e propôs ir falar com o mestre.&lt;br /&gt; —Queria ir lá —disse Perceval—, se eu soubesse o atalho e o caminho.&lt;br /&gt; —Senhor, se quiser ir, deve seguir sempre reto neste atalho, pelo qual viemos. Através do bosque cerrado e denso. Deve observar os ramos que, com nossas próprias mãos, colocamos enquanto passamos. Fizemos estes sinais para que não se extraviasse quem quisesse ir ao santo ermitão.&lt;br /&gt;(VS. 6331-6423)&lt;br /&gt; Então, recomendaram-se, mutuamente, a Deus e não disseram nada mais. Interna-se no caminho. O coração lhe suspirava nas vísceras, porque se sentia culpado para com Deus, pelo que se arrependia muito; e chorando atravessou todo o bosque.&lt;br /&gt; Quando chegou ao templo, desmontou, desarmou-se, atou o cavalo a um carvalho e entrou na morada do ermitão. Encontrou-o em uma capela, com um presbítero e um coroinha. Na verdade, quando começavam o mais alto e mais doce serviço que possa fazer-se na Santa Igreja. Assim que entrou na capela, Perceval ficou de joelhos. O bom homem, ao vê-lo muito singelo, chorando de tal sorte, que as lágrimas chegavam emanando até o queixo, chamou-o. Perceval, que temia muito ter ofendido a Deus, ajoelhou-se aos pés do ermitão. Inclinou-se diante dele, juntou suas mãos rogando que lhe desse conselho, pois, tinha muita necessidade. O bom homem o induziu à confissão. Não alcança remissão, senão se confessar e se arrepender.&lt;br /&gt; —Senhor —disse ele—, faz cinco anos que eu não sei onde me encontro, nem amei a Deus, nem acreditei nele e não fiz a não ser mal.&lt;br /&gt; — Ah, bom amigo! —disse o mestre—Diga-me porque tem feito isto e pede a Deus que tenha piedade da alma de seu pecador.&lt;br /&gt; —Senhor, estive uma vez na casa do Rei Pescador  e vi a lança cujo ferro, sem dúvida alguma, sangra; e nada perguntei sobre aquela gota de sangue, que vi pender da ponta do ferro branco. Logo, na verdade, não a reparei. Não sei a quem serve o Graal que ali vi, e isso me doeu tanto depois, que desejei a morte. Esqueci Nosso Senhor e não lhe pedi perdão, nem fiz nada, que eu saiba, para que pudesse ser perdoado.&lt;br /&gt; —Ah, gentil amigo! —disse o mestre— Diga-me agora, como se chama.&lt;br /&gt; —Perceval, senhor.&lt;br /&gt; Ao ouvir esta palavra o mestre suspirou, por reconhecer o nome, e disse:&lt;br /&gt; — Irmão, muito se prejudicou com um pecado do qual você não sabe nada: trata-se da dor que sentiu sua mãe quando se separou dela, que caiu desvanecida no chão, com a cabeça na ponte, diante da porta, e por esta dor morreu. Devido o pecado que há em você, ocorreu não perguntar nada sobre a lança, nem sobre o Graal, por isso, vieram muitos males; e tem que saber, que não sobreviveria tanto, se ela não o tivesse encomendado a Nosso Senhor. Entretanto, suas palavras tiveram tal virtude, que Deus, em atenção à ela, preservou-o de morte e salvou-o da prisão. O pecado travou sua língua, quando viu diante de si o ferro, que jamais deixou de sangrar, e não perguntou a razão disso. Néscio critério foi o seu, quando não soube perguntar a quem serve o Graal. Aqueles que com ele se servem é meu irmão e minha irmã que foi sua mãe; e acredito que o rico Pescador é filho do rei que se serve naquele Graal. Não imaginava que nele há peixe, badejo, nem salmão. Com uma só hóstia, que leva neste Graal, o santo varão sua vida sustenta e vigoriza. Tão santa coisa é este Graal, e tão espiritual, que para sua vida não necessita nada mais, do que a hóstia que vai no Graal. Assim esteve doze anos sem sair da câmara onde viu entrar o Graal. Agora quero impor e dar penitência por seu pecado.&lt;br /&gt;(VS. 6424-6518 )&lt;br /&gt; —Assim o quero eu de todo coração, bom tio  —disse Perceval—. Já que minha mãe foi sua irmã, deve-me chamar sobrinho e eu a você, tio; e devo lhe amar mais.&lt;br /&gt; —Verdade é, gentil sobrinho, mas agora escuta. Se tiver piedade de sua alma, arrependa-se seriamente. Antes de ir a outro lugar, vem todas as manhãs fazer penitência ao monastério, porque  será proveitoso e não o deixe por nenhum motivo. Se encontrar onde haja monastério, capela ou paróquia, acode assim que soe o sino ou antes, se já está levantado, isso não o afligirá, porque prosperará muito sua alma. Ao começar a missa, se ficar fará muito bem; permanece até que o padre o haja dito e cantado tudo. Se fizer isto com vontade, poderá alcançar grande prêmio e conseguirá honra e paraíso. Ama a Deus, acredita em Deus, adora a Deus, honra aos barões e às damas veneráveis e ponha-se em pé na presença de clérigos; é um serviço que custa pouco e que Deus estima muito seriamente porque procede de humildade. Se uma donzela reclamar sua ajuda, ou uma dama viúva, ou uma órfã, presta-a, que será melhor para você. Esta esmola é muito cabal: ajude-as e obrará bem, procura não deixar de o fazer por nada. Isto é o que quero que faça por seus pecados, se quer recuperar a graça e tê-la sua. Diga-me agora se quer fazê-lo.&lt;br /&gt; —Sim, senhor; muito agradecido.&lt;br /&gt; —Rogo, que durante dois dias inteiros, permaneça aqui comigo, e que em penitência coma os mesmos mantimentos que eu.&lt;br /&gt; Perceval outorga tudo. O ermitão lhe confiou  ao ouvido uma oração, e insistiu tanto, até que soube. Nesta oração mencionavam-se vários dos nomes do Nosso Senhor, e entre eles os mais sublimes, que boca de homem não deve pronunciá-los, a não ser, em transe de morte. Quando aprendeu bem a oração, proibiu-lhe pronunciar sob nenhum pretexto, salvo em grande perigo. E lhe assegurou:&lt;br /&gt; —Farei como diz, senhor.&lt;br /&gt; Ficou, ouviu o serviço e experimentou grande gozo. Terminado o serviço, adorou a cruz e chorou seus pecados. Naquela noite comeu o mesmo alimento do santo ermitão. So alimentou-se de acelga, repolho, alface, agrião, milho; pão de cevada e de aveia; e água clara da fonte. Seu cavalo teve uma terrina cheia de palha e cevada.&lt;br /&gt; Perceval recordou que, na sexta-feira santa, Deus recebeu morte e foi crucificado. Na Páscoa recebeu Perceval a comunhão muito dignamente.&lt;br /&gt; O conto aqui não fala mais longamente de Perceval. Ouviram falar muito de meu senhor Gauvain, antes de me ouvirem contar algo dele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    GAUVAIN E A ORGULHOSA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(VS. 6519-6604)&lt;br /&gt; Meu senhor Gauvain tanto andou desde que escapou da torre onde a comunidade lhe tinha assaltado, que ao meio-dia chegou a um outeiro e viu um carvalho alto, grande e tão frondoso dando uma boa sombra. Viu um escudo pendurado
